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Como a pandemia mudou o mundo
 
 
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Na última semana de setembro de 2020 foi atingida a marca de 1 milhão de mortos pelo coronavírus após dez meses da primeira morte registrada na China, em janeiro do mesmo ano. Até a primeira quinzena de outubro de 2020 se contabilizava mais de 32 milhões de casos, em 188 países, sem previsão de quando a disseminação do vírus seria contida, até o advento de uma vacina que possa combatê-lo.

Até outubro de 2020, a pandemia era responsável, além das inúmeras mortes, por milhões de desempregados mundo afora, fechamento de empresas, colapso no sistema de saúde, paralisação do ensino, entre outros problemas que serão mais conhecidos no decorrer do prolongamento da pandemia.

A rápida disseminação do vírus e as mortes por ele geradas criaram uma força-tarefa mundial em busca de uma solução para mitigar o contágio entre as pessoas e fez com o que cada país buscasse meios, com base nas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), para interromper a curva de crescimento dos casos e de mortes.

É de conhecimento de todos que a pandemia está impulsionando a ressignificação, de forma impositiva, do modo como nos comportamos e vivemos no dia a dia. Enquanto se espera pela vacina contra a doença, a humanidade se adapta ao dito “novo normal” e se remodela de forma que possa continuar mantendo o trabalho, as relações sociais e a forma como se lida consigo mesmo. A pandemia antecipa mudanças, acelera as tecnologias, a ciência e o planejamento dos governos, empresas e da própria sociedade civil.


TRABALHO ON-LINE

No mundo do trabalho, as mudanças desde o início da pandemia são bastante significativas. Milhões de pessoas se viram forçadas, em um curto espaço de tempo, a trabalhar em home office, participando de reuniões virtuais e fazendo todo o trabalho de forma on-line. No entanto, apesar da mudança ter sido antecipada, essas tendências já vêm ganhando força no mundo do trabalho nos últimos anos.

A implantação do home office pelas empresas foi uma medida imediata para conter a disseminação do vírus. Para os profissionais cujo emprego não requer a presença física em um determinado local, foi uma solução para a continuidade do trabalho e para a preservação da saúde e o bem-estar. Todavia, tal modelo já era uma realidade para muitas empresas, principalmente as de tecnologia, como é o caso da Google e da Microsoft. Segundo a Pesquisa de Gestão de Pessoas na Crise de Covid-19, com empresas brasileiras, realizada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), entre 14 e 29 de abril, 94% dos entrevistados afirmam que atingiram ou superaram suas expectativas de resultados com o home office. Algumas empresas inclusive já anunciaram o home office permanente, mesmo após o eventual fim da pandemia, como é o caso do Twitter.

No entanto, a mudança traz alguns desafios e pode impactar no resultado final do trabalho do profissional: como se manter produtivo dentro da carga horária estabelecida, mesmo sem a supervisão direta do superior; dificuldade de concentração devido ao conflito entre trabalho e deveres da casa; aumento de gastos com a estrutura física (água, internet, luz, mobiliário); problemas de comunicação assertiva no formato virtual, entre outros.

Para alguns especialistas, o escritório como conhecemos hoje não existirá mais em um curto espaço de tempo. O modelo home office permanente será cada vez mais realidade, assim como o modelo híbrido, que consiste em trabalhar alguns dias da semana à distância e os demais no escritório.

Outra mudança importante são as seleções e contratações de profissionais de forma on-line, em que todo o processo é feito virtualmente com a utilização de ferramentas on-lines. O formato, que será cada vez mais frequente, tem como vantagem não necessitar do deslocamento físico, porém exige um ambiente adequado e silencioso para uma boa entrevista.


FERRAMENTAS ON-LINE

O distanciamento social, medida necessária para conter os avanços da pandemia, resultou no afastamento físico das pessoas de seus amigos, colegas de trabalho e familiares no dia a dia. As plataformas de videoconferência tornaram-se indispensáveis para suprir essa falta e hoje são amplamente utilizadas no trabalho – em reuniões corporativas e apresentações para clientes – e também na vida pessoal – em comemorações e até mesmo para uma conversa de “bar”.

A demanda pelas videochamadas tem sido crescente e trouxe um aumento exponencial do número de usuários em poucos meses. Algumas empresas multiplicaram o faturamento e saíram da condição de startup para gigante de tecnologia por conta do aumento da demanda. Devido essa mudança, alguns casos de falha de segurança ocorreram e causaram transtornos, como a invasão de reuniões corporativas por hackers. Outro problema tem sido a instabilidade da transmissão em determinados aplicativos devido à exigência tecnológica resultante do número de usuários.

Segundo a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box – Uso de apps no Brasi”, realizada no mês de maio de 2020, o WhatsApp e o Zoom são os aplicativos mais usados para videochamadas pelos brasileiros atualmente. A pesquisa também mostra que 88% dos internautas brasileiros já participaram de uma videochamada pelo smartphone. O uso do aparelho é mais comum entre as faixas etárias de 16 a 49 anos (90%), seguida da faixa etária de 50 anos ou mais (81%).


MUDANÇA DE COMPORTAMENTO E VIDA SOCIAL

Em um curto espaço de tempo o mundo mudou devido à pandemia. Tais mudanças, que poderiam durar décadas para se efetivarem, foram aceleradas e hoje fazem parte da nossa realidade. Reuniões virtuais, ensino híbrido e trabalho remoto são algumas, como já citado anteriormente.

Para o futurologista Ray Hammond, no relatório “Life after Covid-19”, as principais mudanças serão na forma como lidamos com a nossa casa, na maneira como fazemos turismo, como nos locomovemos e como lidaremos com a nossa saúde. Em relação à casa, ele cita que o lar não será somente um lugar de lazer e descanso, mas se tornará um espaço de trabalho digital e multifuncional. No turismo, além das medidas de higiene e prevenção cada vez mais restritivas, as pessoas optarão por turismo em espaço mais próximos da natureza, abertos e farão deslocamentos menores, privilegiando o turismo regional.

A vida social também terá mudanças drásticas e será necessário pensar novos formatos para festas populares com grandes aglomerações, como o Carnaval, idas às maternidades e demais comemorações que envolvam grupos de riscos. Novos hábitos deverão surgir para atender as novas medidas de prevenção ao contágio.

No Reino Unido, no mês de agosto de 2020, o cantor britânico Sam Fender realizou um show no Virgin Money Unity Arena, na cidade de Newcastle, sem recorrer ao drive-in, onde as pessoas assistem ao show de dentro de seus carros. A medida adotada foi separar grupos espectadores com o uso de grades em pequenos espaços demarcados, respeitando o distanciamento social e evitando aglomeração. Ao término do show, os fãs foram liberados para sair após autorização concedida pelos funcionários do evento, para fins de evitar a aglomeração da saída. A medida também foi aplicada para quem necessitava ir ao banheiro.

É difícil prever se esse modelo, assim como outros testados, será definitivo, mas aponta-se para um futuro onde cada vez mais o cuidado com a saúde e o senso do coletivo prevalecerá.


Praça de São Pedro praticamente deserta devido às medidas de isolamento e Basílica de São Pedro ao fundo. Foto de maio de 2020, no Vaticano.
Crédito: ANDREAS SOLARO / AFP.


ECONOMIA E TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Da mesma forma que a pandemia acelerou a mudança comportamental da sociedade e transformou a rotina dos cidadãos no mundo, ela acelerou a transformação digital das empresas e tem sido responsável por uma rápida transição nos meios de trabalho.

Para sobreviverem aos impactos causados pelo vírus, as empresas buscaram se reinventar para continuarem vivas e para esse propósito a tecnologia tem sido uma aliada tanto na melhoria da produtividade quanto na redução de custos. Um dos resultados desse processo de digitalização é a redução de pessoal, parte por ter a sua atividade substituída pela automação e parte como política de contenção de custos. Segundo a pesquisa da consultoria Mckinsey, 14% dos trabalhadores globais, até 2030, teriam de trocar de função por causa da automação. Entretanto, esse prazo pode ter sido encurtado devido às necessidades de transformação trazidas pela pandemia.

Alguns setores já começaram esse processo de digitalização antes da pandemia e demonstram que esse cenário já é uma realidade. O setor bancário, no ano de 2019, fechou 10 mil postos de trabalhos e segundo Ivone Silva, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região, parte desses fechamentos se deve à inteligência artificial que consegue desempenhar atividades como contratar seguros e empréstimos sem a necessidade de um profissional. Outro setor que tem passado por grande transformação é o varejo. As compras on-line cresceram de forma exponencial desde a disseminação do coronavírus no país e a recomendação do distanciamento social. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), entre os meses de março e julho de 2020, mais de 150 mil lojas virtuais foram criadas na internet. A associação também estima que 9 milhões de brasileiros fizeram compras on-line pela primeira vez na vida neste período de cinco meses.

Apesar dos benefícios da tecnologia aliada à economia, que busca elevar a produtividade das empresas e trazer inovação aos processos, o Brasil carece de mão de obra qualificada para contribuir com a transformação digital. Segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), o sociólogo Glauco Arbix, “Teremos uma grande massa de pessoas ganhando pouco e uma pequena elite ganhando muito se não houver políticas públicas para qualificar esse contingente de pessoas, podendo aumentar a distância entre os profissionais com maior e menor qualificação”.


SAÚDE PÚBLICA

Os sistemas de saúde no mundo todo foram surpreendidos com a crise global causada pelo coronavirus. É possível afirmar que nenhum deles estava preparado para lidar com algo tão desafiador e desconhecido de maneira tão rápida. Mesmos os países desenvolvidos, com mais investimentos no setor de saúde, tiveram dificuldades e demonstraram fragilidade em alguma parte do sistema.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido essencial para o combate ao coronavirus. Por meio do acesso à unidade básica de saúde e demais equipamentos, o sistema tem garantido ao cidadão residente no país o atendimento na rede pública em qualquer parte do território nacional, mesmo em situações de emergência. No entanto, o sistema sofre pela falta de investimento adequado para manutenção e evolução da qualidade no atendimento. O Brasil gasta em torno de 3,8% do PIB com saúde. Para fins de comparação, a Alemanha investe em torno de 9,4% de seu PIB nesse setor.

Com a pandemia, as experiências tecnológicas e inovações, antes adotadas pontualmente por alguns hospitais e centro de excelência, serão aceleradas e transformarão a forma de se fazer medicina no mundo. A tecnologia de destaque é a telemedicina, que nesse contexto de distanciamento mostrou-se uma alternativa imprescindível para acompanhar os pacientes, de maneira segura respeitando os protocolos do OMS. Antes vista com uma certa desconfiança por parte dos médicos, devido ao atendimento (consulta ou exame) não ser presencial, a telemedicina passou a ser adotada em todo mundo após o coronavírus.

Na França, a teleconsulta passou de 10 mil atendimentos por semana para mais de 1 milhão de março para abril de 2020. No Reino Unido, em poucas semanas, a maior parte das consultas diárias para tratamentos básicos, em média 1 milhão, passou ser feita a distância.

No Brasil, antes da pandemia, o uso da telemedicina já era eficaz principalmente em cidades pequenas e nas regiões mais distantes do país, sobretudo em comunidades isoladas ou de difícil acesso. Para flexibilizar o formato do atendimento, o Ministério da Saúde liberou, no mês de março de 2020, em caráter de exceção a Portaria n. 467 “que dispõe, em caráter excepcional e temporário, regulamento e operacionalização de consultas clínicas remotas para enfrentamento da epidemia de covid-19”.

Assim como a educação digital, a telemedicina não substitui o fator presencial, principalmente em casos de atendimentos emergenciais, ou em situações na qual é indispensável que o paciente seja examinado. No entanto, a videochamada pode ser utilizada para consultas preliminares, monitoramento do paciente, avaliação de exames, assim como colaborar com o compartilhamento de opiniões entre o corpo clínico para análise de diagnósticos e recomendação de condutas terapêuticas.

A mobilidade é outro aliado no mundo pós-pandemia, as estruturas móveis, capazes de levar o equipamento até o paciente, podem ajudar na descentralização do atendimento dos hospitais, podendo beneficiar mais pacientes. Em São Paulo, a experiência do Corujão da Saúde, mutirão para zerar filas de atendimento, utilizou uma carreta equipada para atendimento, gerando bons resultados.

Outra boa prática resultante deste momento de pandemia é a cooperação entre diversos agentes do setor de saúde – hospitais, faculdades, operadores, médicos, healthtechs e indústria, que têm proporcionado uma melhor condução no enfrentamento aos problemas e acelerado o uso de tecnologias, buscando a melhoria do atendimento junto aos pacientes. Nesse modelo de parceria, a inovação dos processos tende a ser mais rápida e trazer benefício para toda cadeia do setor de saúde.


Mulher abraça sua mãe idosa através de uma cortina de plástico em enfermaria durante a pandemia de coronavírus. Foto de junho de 2020, tirada
em São Paulo. NELSON ALMEIDA / AFP.


EDUCAÇÃO

A pandemia do covid-19 não foi responsável somente pelas dores e angústia das famílias que perderam seus entes devido à doença, mas explicitou a existência de um cenário de desigualdade e de grande disparidade no acesso à informação e na qualidade de vida entre as classes abastadas e a classe de baixa renda. A evidência das dificuldades enfrentadas pelos mais pobres está cada vez mais comprovada nos depoimentos dos milhões de estudantes que não tem acesso, infraestrutura mínima ou familiaridade com as novas tecnologias.

O ensino remoto, solução apresentada como modelo ideal ao atendimento dos protocolos de distanciamento social, não tem sido unanimidade para os usuários. Muitos alunos do país passam por diversas dificuldades para continuar estudando, que mudam conforme o contexto, desde a questão do acesso básico à informação, por não ter internet, computador ou mesmo um celular, até aspectos psicológicos, de concentração, assimilação ao conteúdo em EAD, ambiente adequado – visto que muitos estudantes não contam com espaço para estudo e dividem a casa com pais, filhos e demais familiares. A autoestima também tem sido afetada devido à mudança na forma como os estudantes se relacionam no dia a dia escolar. A desmotivação e o desinteresse são sentimentos comuns apresentados pelos estudantes que tem resultado no aumento da evasão escolar e abandono dos estudos, principalmente por pelos do ensino público.

Esse cenário fica evidente na pesquisa Juventude e Pandemia do Coronavírus, divulgada em junho de 2020, realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), Fundação Roberto Marinho, Unesco, Rede Conhecimento Social, Em Movimento, Porvir, Mapa Educação e Visão Mundial. Ela aponta que 28% dos entrevistados pensaram em deixar a escola, enquanto 32% dizem que carecem de um ambiente adequado para estudar em casa. Entretanto, o uso de tecnologia na educação é um caminho sem volta no mundo pós-pandemia. Os Objetos Digitais de Aprendizagem (ODAs) e os ambientes virtuais de aprendizagem serão cada vez mais presentes e devem continuar, mesmo com a retomada das aulas presenciais. A tendência é que o aluno tenha mais autonomia na sua aprendizagem e que o currículo seja mais personalizado.

Os países que haviam retornado ao ensino presencial em outubro de 2020, como a China e a Nova Zelândia, já apresentaram mudanças significativas no dia a dia escolar. Os horários de entrada e saída são alternados, a escola mantém estações para higienização das mãos, medição de temperatura e é proibido o compartilhamento de materiais escolares.

No estado de São Paulo, a retomada do ensino presencial reiniciou com a liberação atividades extracurriculares, liberadas na primeira semana de outubro após quase oito meses de fechamento do ensino presencial. Para evitar a perda do ano letivo, estava prevista aulas de reforço e recuperação estendidas até 2021 e não se descartava a possibilidade da conclusão dos conteúdos no ano de 2022. Segundo os responsáveis pelas secretarias estaduais e municipais de educação, seria aplicada uma prova a todos os alunos das redes municipal e estadual de São Paulo após o retorno das aulas presenciais para avaliar o que eles aprenderam durante a quarentena para estimar quando os estudantes terminariam o ano letivo de 2020.

A discussão sobre a assimilação e o acesso aos conteúdos das disciplinas é imprescindível para entender se houve evolução por parte dos alunos no modelo de ensino remoto.

Outro assunto polêmico é a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), inicialmente anunciado por meio de campanha pelo Ministério da Educação (MEC). Ela convidava os estudantes a se inscreverem para o exame e incentivava que continuassem estudando por meios alternativos. A repercussão sobre a campanha foi negativa e a pressão por parte de educadores, pais e demais atores da educação fizeram com que ele fosse adiado para janeiro de 2021. Especialistas em educação reforçam a existência de grande disparidade de acesso entre estudantes do ensino público e privado, que pode afetar os de baixa renda no resultado dos exames.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC

EF07GE08, EF09GE05, EM13CNT207, EM13CHS202.