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Dados estatísticos, mídias e manipulação
 
 
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Crédito: Mudassar Iqbal/Pixabay.
A estatística é um ramo da matemática cujo objetivo é analisar dados. Podemos dizer que ela pode ser dividida em três fases. A primeira delas é a coleta de dados. É neste momento, por exemplo, que é decidida qual será a população pesquisada. Depois, passamos para a análise propriamente dita. Por fim, temos a representação e interpretação dos dados obtidos. Nesta fase são escolhidos os gráficos que melhor representam cada caso e, nesse sentido, é o momento mais subjetivo da ciência estatística.

Pesquisas estatísticas fazem parte de nosso cotidiano. Estão constantemente presentes em noticiários, reuniões de empresas, análises esportivas, etc. De maneira geral, tal ciência organiza a informação que temos sobre um determinado campo, auxiliando e potencializando nossa capacidade de tomada de decisão, seja no âmbito empresarial, governamental ou acadêmico.

Claramente, a pandemia gerada pela covid-19 reforçou nossa necessidade de compreensão do funcionamento e manuseio dessas técnicas estatísticas. Por exemplo, estados, municípios e o próprio ministério da saúde precisam (ou deveriam) se apoiar em dados relacionados à quantidade de casos da doença, bem como o número de vítimas, para decidirem sobre o fechamento do comércio ou não, uso de máscaras, etc.

Tendo em vista a complexidade com a qual uma pesquisa estatística pode lidar, tais informações não devem ser repassadas para o público de maneira desleixada. Existem regras específicas para a coleta de dados, para a análise e interpretação. O uso adequado dessas regras terá como consequência uma pesquisa mais confiável.


CONCEITOS BÁSICOS DE ESTATÍSTICA

Para entender melhor com funciona uma pesquisa estatística, é preciso olhar com mais detalhes alguns princípios e conceitos básicos dessa ciência, a saber: população, amostra, variável, tabela, frequência e gráfico. Vejamos cada um deles.

A população é o grupo em que a pesquisa será elaborada. Ela pode ser composta por qualquer tipo de elemento: pessoas, objetos, animais, cidades, etc. Por exemplo, se estivermos interessados em saber qual é a intenção de voto para uma eleição à prefeitura de São Paulo, precisamos restringir o conjunto de entrevistados em nossa pesquisa aos eleitores da cidade de São Paulo. Se estivermos interessados em saber quais os melhores ataques do campeonato brasileiro de futebol, então nossa população será times de futebol.

Já a amostra é um subconjunto da população. Ou seja, é uma parte representativa de toda a população. Na prática, é muito difícil poder analisar toda a população que se deseja pesquisar. Assim, normalmente, nos concentramos em uma parcela da população (a amostra) e tentamos tirar dados que provavelmente corresponderiam à população tomada como um todo.

Retomando o exemplo da eleição, em pesquisas sobre intenção de voto, não são entrevistados todos os eleitores da cidade, mas apenas uma amostra dela. Evidentemente, essa amostra tem que ser feita de maneira cuidadosa. Se forem entrevistados apenas pessoas de um determinado bairro, por exemplo, poderemos obter dados que não representem a cidade como um todo.

Outro conceito bastante importante dentro de uma pesquisa estatística é o de “variável”. A variável é o objeto de estudo, ou seja, é aquilo que queremos responder com a pesquisa. Tomemos os exemplos já citados. No caso da eleição, poderia ser, por exemplo, saber qual a porcentagem de intenção de votos para os candidatos A, B e C. Na investigação sobre os melhores ataques de um campeonato de futebol, a variável está ligada ao número de gols de cada time do campeonato.

As variáveis exemplificadas acima são de tipo quantitativo. Tais variáveis são divididas em: contínuas e discretas. A variável contínua está relacionada a algum tipo de medida, como, por exemplo: o salário dos trabalhadores da construção civil, a altura dos jogadores de basquete, etc. Já a variável discreta diz respeito a uma simples contagem, como, por exemplo: o número de ligações em um serviço de atendimento ao cliente (SAC) de uma determinada empresa.

Além das variáveis quantitativas, existem também as variáveis qualitativas. As variáveis qualitativas estão ligadas a alguma característica específica que desejamos investigar na pesquisa e podem ser divididas em: ordinais e nominais. Uma variável ordinal é uma variável qualitativa que possui alguma ordem ou classificação. São exemplos: escolaridade, graus de uma doença, etc. A variável nominal, por sua vez, não possui qualquer ordenamento. Por exemplo: a cor de vestido preferida.

Existem também algumas noções da ciência estatística que dizem respeito ao modo de apresentação dos dados, a saber: a tabela de frequência e gráficos. A tabela de frequência é uma maneira de organizar os dados obtidos na pesquisa. Se tomarmos apenas os números, temos uma tabela de frequência absoluta (por exemplo: se foram entrevistadas 1000 pessoas e metade afirmou ter a intenção de voto no candidato A, então aparecerá na tabela que 500 pessoas votariam no candidato A). Se tomarmos a porcentagem, então temos uma frequência relativa (diríamos que 50% dos entrevistados têm a intenção de voto no candidato A). Já os gráficos são formas de representar os dados obtidos na pesquisa estatística. Os mais comuns são o gráfico de linhas, o de barras, os histogramas, os pictogramas e o de setores.

A escolha do modo de representação é extremamente importante para que se tenha uma comunicação adequada das informações obtidas na pesquisa. Um erro na execução dos gráficos pode gerar uma interpretação equivocada dos dados. Por exemplo, se em uma tabela de barras for feita sem manter a proporção adequada entre essas barras, pode dar a falsa impressão de que a diferença entre certas respostas da pesquisa é maior ou menor do que a de fato obtida. Essa e outras formas de equívocos e manipulações são constantemente utilizadas em noticiários, empresas e mídias sociais. Vejamos com mais detalhes como isso ocorre.


ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO UTILIZADAS PELAS MÍDIAS

Como vimos até aqui, uma pesquisa estatística necessita seguir uma série de passos e cuidados para que ela atinja os seus objetivos. Mais do que isso, ela não termina com o mero levantamento de dados. Os dados obtidos precisam ser analisados e podem ser interpretados de maneira diferente de acordo com a metodologia de pesquisa adotada. Agora, o caráter mais subjetivo da fase de intepretação dos dados pode oferecer algumas lacunas para algum tipo de manipulação, algo que pode ser observado, especialmente, no momento da comunicação desses dados pelas mídias.

Noam Chomsky, um dos principais intelectuais do século XX, levantou as dez principais estratégias utilizadas pelas grandes mídias para manipular a sociedade. Claramente, pesquisas estatísticas são uma base para esse tipo de prática.

A primeira delas é a tática da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas realmente importantes. No fundo, é uma forma de seleção da informação (se divulga apenas aquilo que se tem o interesse de divulgar). Nesse sentido, é obrigatório, em um levantamento estatístico, que toda a informação obtida seja revelada (informação parcial é manipulação).

Outra estratégia é a de criar problemas e depois oferecer soluções. A ideia é criar uma “situação” que provoque a reação no público de maneira que o próprio público passe a exigir as mudanças que o manipulador desejava. Por exemplo, alguém pode incentivar de algum modo o aumento da violência urbana com o intuito de que a população exija leis de segurança que restringem a liberdade.

Uma terceira estratégia é a da gradualidade. É mais fácil convencer as pessoas de algo inaceitável se a informação for dada aos poucos.

Temos também a estratégia de diferir. O objetivo de tal estratégia é apresentar a informação como algo “doloroso e necessário”, fazendo com que a audiência fique do seu lado em uma ação futura. A verdade é que é mais fácil aceitar um sacrifício futuro que um imediato.

A quinta forma de manipulação que apresentamos aqui é a de dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade. Muitos veículos de comunicação se utilizam de discursos, personagens e mesmo o tom de voz infantis. Isso tem um motivo. Quando se usa essa estratégia, a audiência tem a tendência de ser menos crítica com relação à informação recebida.

Apelar para um aspecto emocional também é uma maneira clássica de manipulação. Por meio desse apelo emocional é possível implantar ideias, desejos, medos e sobretudo, induzir certos comportamentos.

Outras estratégias são: manter o público na ignorância e na mediocridade, estimular o público a ser complacente com a mediocridade, reforçar a auto-culpabilidade (que é fazer a pessoa acreditar que ele é o único culpado pelos seus problemas), conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

Todas essas estratégias nos mostram como não basta que a informação apontada pela pesquisa estatística seja feita de maneira correta. A forma com a qual ela é divulgada é primordial para que os dados fornecidos por ela sejam usados por nós de maneira eficiente. Na próxima seção, vamos apresentar algumas formas de manipulação da mídia impressa que se utilizam especificamente de dados estatísticos.


O USO DE DADOS ESTATÍSTICOS PARA MANIPULAÇÃO

As grandes mídias se utilizam constantemente de dados quantitativos para noticiarem os fatos. Tal uso parece ter pelo menos duas motivações. Por um lado, os números simplificam os fatos. Por outro lado, a linguagem numérica traz um caráter universal à notícia (ou seja, supostamente, se evita qualquer subjetividade). No entanto, a influência que pesquisas de opinião têm nos indivíduos dificilmente são provenientes desse caráter objetivo da matemática. Primeiramente, uma pessoa comum acaba não tendo acesso aos dados estatísticos originais (ele tem acesso apenas àquilo que foi apresentado pelo veículo de comunicação). Assim, a seleção feita pelo veículo e a conotação dada por ele são fundamentais para entendermos a influência que tal informação pode causar na audiência. Vejamos, agora, alguns exemplos de manipulação de dados estatísticos feitas por jornais impressos.

A ideia de que haveria uma linguagem neutra para apresentar uma notícia parece ser enganosa. Assim, uma primeira forma de manipular os dados estatísticos é por meio do próprio texto jornalístico. Tomemos a seguinte manchete de capa de um jornal: “Cresce a aprovação do presidente A, apesar das crises”. Nas páginas internas do jornal encontramos: “Avaliação positiva do presidente vai a 63,7%”, junto com o subtítulo, “Sensus mostra aprovação em alta, apesar do apagão aéreo e violência”. Neste caso, a forma com que se apresenta a notícia tem o intuito de fazer o leitor acreditar que haveria uma contradição entre os dados obtidos pela pesquisa. Por um lado temos uma aprovação ao presidente, enquanto que, por outro lado, teríamos um ambiente de crise. Agora, o jornal falsificou algum dado para gerar essa crença no leitor? Não. A manipulação está na interpretação dos dados. Digamos, por exemplo, que na pesquisa ligada ao setor aéreo, 45% dos entrevistados alegaram ter pouca informação sobre o assunto. Digamos, ainda, que daqueles que possuem conhecimento sobre o problema, apenas 26% deles responsabilizam o governo pela crise. Nesse caso, 26% é o maior número encontrado na pesquisa, mas não representa a maioria das pessoas. Ou seja, se o leitor tivesse acesso a toda essa informação, a aparente contradição entre tais resultados desaparece.

Outra forma, que já foi mencionada anteriormente de maneira breve, é uma manipulação por meio de gráficos. Observe os gráficos abaixo. Ambos representam uma mesma informação, mas de modo diferente. Como o primeiro gráfico se concentra em uma variação menor (entre 200 e 210), temos a impressão de que há uma grande oscilação da variável ao longo dos anos. Tal representação acaba passando uma sensação de incerteza. Já o segundo gráfico aumenta o espectro e considera possibilidades entre os valores de 0 a 250. Nesse caso, temos a sensação de estabilidade, uma vez que a variação entre os dados ao longo do ano é representada quase que por uma linha reta.



MANIPULAÇÃO E MÍDIAS SOCIAIS

Se em um ambiente controlado como as mídias de rádio, TV e jornais impressos (cuja produção da informação e feita por profissionais do jornalismo), equívocos e manipulações deliberadas são feitas, o contexto das mídias sociais tende a aumentar esse risco. Em geral, os manipuladores contam com o fato de que as pessoas raramente checam as mensagens recebidas e acabam espalhando notícias falsas ou deturpadas. Um estudo publicado pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, nos dá um panorama de como essas estratégias são usadas dentro das mídias sociais, como: Facebook, Twitter e Instagram.

Um primeiro dado apresentado pela pesquisa é de que, pelo menos, 48 países têm partidos ou organizações que utilizam as redes sociais para manipular a população. Ou seja, existem campanhas organizadas de manipulação que são potencializadas pelas mídias sociais.

Outro dado é o de que as campanhas de desinformação ocorrem especialmente em períodos de eleição ou crises dos governos. Como era de se esperar, líderes, partidos e candidatos utilizam anúncios digitais para influenciar no resultado das eleições. Como uma forma de tentar evitar tais manipulações, legisladores de todo o mundo se debruçam no tema, tentando estabelecer regras mais claras de divulgação na internet. Isso, no entanto, também pode ter um efeito danoso, quando algum líder autoritário se aproveita do contexto para tentar limitar a liberdade de informação dentro das redes sociais.

Dos 48 países que possuem programas de manipulação, 20% usam aplicativos de conversas (como whatsapp, Telegram, wechat, etc.) para espalhar informações falsas. Acredita-se que desde 2010, já foram gastos mais de meio bilhão de dólares por partidos e governos com manipulação por meio de mídias sociais. Pode-se dizer que as táticas de manipulação usadas em redes sociais são basicamente as mesmas usadas em mídias impressas e noticiários de televisão, mas com um agravante: Alguns indicadores que aparecem em certas plataformas (coisas como: número de curtidas, compartilhamento, comentários, etc.) ajudam a corroborar a informação. Ou seja, uma postagem com muitas curtidas tende a passar a mensagem de veracidade para aquela informação. Nesse contexto, surgem os bots que são como programas de computador criados para rodar pela Internet realizando tarefas repetitivas e automatizadas. Principalmente em momentos de eleições, organizações e políticos se aproveitam dessa ferramenta para aumentarem a avaliação da informação em redes sociais e com isso, “tornar” uma fake news verdadeira.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC
EF06MA33, EF07MA37, EF08MA23, EM13MAT102, EM13LGG102, EM13LP45, EM13MAT103, EF15LP01, EF05LP16, EF69LP02.