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Terraplanismo
 
 
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O terraplanismo é um movimento conspiratório cuja tese fundamental é a alegação de que a Terra é plana, em oposição à visão comprovada de que a Terra é esférica. Traços desta crença são encontrados em tempos remotos (por exemplo; os sumérios, os babilônios, os antigos egípcios, os hebreus primitivos e a maior parte dos gregos). Mesmo na Grécia antiga, esta tese já havia sido questionada por alguns cientistas e, depois, na Idade Média, foi questionada por alguns padres (como, por exemplo, Alberto Magno, Venerável Beda e Tomás de Aquino). No final da Idade Média e início da modernidade, esta tese foi contestada de maneira mais incisiva. A esse respeito, os principais nomes são: Copérnico, Galileu, Colombo e Fernão de Magalhães.

No entanto, curiosamente, esta crença reaparece no final do século XIX, e tem ganhado força atualmente com as mídias sociais. Neste texto, faremos um panorama do movimento moderno terraplanista. Na primeira seção, apresentaremos como se deu a formação das primeiras organizações terraplanistas. Na sequência, discutiremos quais seriam as motivações para alguém defender que a Terra é plana e quais são as suas falhas. Depois, mostraremos as evidências que a ciência nos dá a favor da tese de que a terra é esférica. Por fim, abordaremos um pouco dos aspectos psicológicos do movimento terraplanista e sua ligação com outras teorias conspiratórias.

Terra plana
O modelo defendido por vertentes terraplanistas. Fonte: Mark Garlick / Science Photo Libra / MGA / Science Photo Library / AFP.


AS SOCIEDADES TERRAPLANISTAS
O movimento moderno em torno da crença da Terra plana foi originado na Inglaterra por Samuel Birley Rowbotham (1816-1884), por volta dos anos 1850. Rowbotham, conhecido pelo seu pseudônimo Parallax, foi um inventor e escritor britânico. Seu trabalho, inicialmente publicado em um panfleto intitulado Astronomia Zetética (1849), no qual ele defendia a planitude do planeta Terra com base no chamado “o experimento do nível do rio Bedford”. Suas conclusões, que foram posteriormente reunidas no livro Earth Not a Globe (1865) é a de que a Terra seria um disco achatado centralizado no Polo Norte, delimitado ao sul por uma muralha de gelo, a Antártica. Ele defendia também que o Sol e a Lua estariam 4.800 quilômetros acima da Terra e que o “cosmos” (o conjunto de corpos celestes) estaria 5.000 quilômetros acima da Terra.

Rowbotham e seus seguidores (como, por exemplo, William Carpenter) ganharam notoriedade após uma série de debates com o cientista Alfred Russel Wallace. Neste período, Rowbotham criou a Sociedade Zetética na Inglaterra e em Nova Iorque, imprimindo cerca de mil cópias de seu panfleto para a divulgação de seu trabalho. Após a sua morte, em 1884, Lady Elizabeth Blount fundou a Sociedade Universal Zetética, que produziu, pelo menos, duas revistas especializadas em terraplanismo: The Earth Not a Globe Review (que se manteve ativa até o início do século XX) e Earth: a Monthly Magazine of Sense and Science (publicada entre os anos 1901 e 1904, e editada por Lady Blount).

Em 1956, Samuel Shenton criou a Sociedade da Terra Plana (International Flat Earth Research Society), sucedendo a Sociedade Universal Zetética. Sua sede estava localizada em sua própria casa, em Dover, na Inglaterra.

Uma diferença importante desta fase inicial da Sociedade da Terra Plana para a Sociedade Universal Zetética é a de que, devido ao interesse de Shenton por ciências alternativas e tecnologia, os aspectos religiosos estavam, agora, menos latentes. Este interesse pela ciência não foi suficiente, no entanto, para convencer Shenton da esfericidade da Terra, nem mesmo após as fotos tiradas por satélites e astronautas. Ele teria atribuído a curvatura presente nestas fotos ao uso de lente grande angular.

Em 1969, Ellis Hillman torna-se presidente da Sociedade da Terra Plana e, após a morte de Shenton, em 1971, Charles K. Johnson assume o cargo. Ligado à igreja na Califórnia, Johnson tem como característica principal trazer o retorno das crenças religiosas ao coração da Sociedade. Neste momento, se é travada uma batalha ideológica entre a religião e a ciência. Ele fez, durante as próximas três décadas, o número de membros da sociedade aumentar para cerca de 3.500, bem como, produziu uma série de publicações, sendo a mais famosa a Flat Earth News.

Aparentemente, a Sociedade da Terra Plana foi desfeita formalmente com a morte de Johnson, em 2001, ainda que o nome da sociedade continue sendo utilizado em diversos websites para se referir aos defensores do terraplanismo em geral.


MOTIVAÇÕES TERRAPLANISTAS: O EXPERIMENTO DO NÍVEL DO RIO BEDFORD
O que teria levado estas pessoas a se reunirem em torno desta crença? As primeiras motivações terraplanistas parecem ter, em parte, uma origem religiosa. Muitos alegam, por exemplo, que certas passagens da Bíblia são compatíveis com a tese de uma Terra plana. Além disso, nossas experiências do cotidiano corroborariam – um terreno parece plano, mesmo quando visto do alto; as pessoas na Austrália não estão penduradas pelos seus calcanhares; etc. Há também motivações de cunho conspiratório, que serão discutidas na última seção.

Como apontamos no início de nosso texto, o ressurgimento do movimento dos terraplanistas está ligado aos trabalhos de Rowbotham e seu experimento do nível do rio Bedford, efetuado no verão de 1938. O experimento pode ser descrito do seguinte modo: Rowbotham entrou no rio Bedford munido de um telescópio, e se posicionou em um ponto 20 centímetros acima da água. O objetivo dele era acompanhar a trajetória de um barco, com uma bandeira em seu mastro que estava 0,91 metros acima da água. Ele reportou que a embarcação permaneceu constantemente em seu campo de visão e de maneira completa por 9,7 quilômetros, até a ponte Welney, onde se deveria, supostamente, observar a curvatura da Terra por meio da superfície da água. O topo do mastro deveria estar 3,4 metros abaixo de sua linha de visão.

Rowbotham repetiu o experimento várias vezes ao longo dos anos, mas só obteve alguma atenção quando um apoiador, de nome Jonh Hampden, decidiu apresentar o experimento na forma de uma aposta. O naturalista Alfred Russel Wallace aceitou o desafio. Usando suas habilidades de hidrógrafo e seus conhecimentos de física, Wallace evitou os erros cometidos por Rowbotham e venceu a aposta. Os pontos cruciais são os seguintes: primeiramente, devemos definir uma linha de visão 4 metros acima da água e assim, reduzir os efeitos da refração atmosférica. Depois, precisamos adicionar um mastro no meio do trajeto que possa ser usado como referência para que seja possível ver o “bump” causado pela curvatura da Terra entre os dois pontos finais.

Um fato curioso é que o pagamento desta aposta teria gerado uma grande confusão. Hampden inicialmente se recusou a aceitar as demonstrações, publicando um panfleto alegando que Wallace havia trapaceado. Muitos processos judiciais se seguiram, e Hampden chegou a ser preso por tentativa de homicídio e difamação. O mesmo tribunal determinou que a aposta havia sido inválida e requisitou a devolução do dinheiro. Wallace foi severamente criticado por seus pares por tentar avaliar uma disputa científica por meio de uma mera aposta.

No entanto, os terraplanistas não se deram por derrotados. Em 11 de maio de 1904, Lady Elizabeth Anne Blount, que posteriormente teve um papel importante na criação da Sociedade Universal Zetética, efetuou um novo experimento. Ela posicionou um fotógrafo em Welney que, utilizando uma câmera com lentes de longo alcance, tirou uma foto de um grande lençol branco, cuja borda inferior estava exatamente localizada onde Rowbotham havia se posicionado no experimento inicial. O fotógrafo montou sua câmera 0,6 metros acima da superfície da água e ficou surpreso ao conseguir fotografar o lençol. Lady Blount publicou esta foto em toda parte.

Este embate foi travado na English Mechanic Magazine, que publicou as fotos de Blount e, em 1905, mais dois experimentos que tinham resultados opostos àqueles obtidos pelos terraplanistas. Um deles, executado por Clement Stratton, mostrava um mergulho no campo de visão apenas acima da superfície.


O EXPERIMENTO DO NÍVEL DO RIO BEDFORD E A REFRAÇÃO
Vale a pena olharmos com mais cuidado quais foram os erros cometidos pelos experimentos terraplanistas. Como Wallace já havia constatado em sua aposta com Hampden, os equívocos cometidos por Rowbotham e Blount podem ser explicados pelo conceito de refração. Podemos dizer que foi a refração atmosférica que produziu tais resultados. Devido ao fato de que a densidade do ar começa a diminuir conforme nos distanciamos da superfície terrestre, todos os raios de luz que viajam de maneira quase horizontal se dobram para baixo, fazendo com que a nossa linha de visão seja curva. Se esta medição for feita muito próxima à superfície, essa curva da luz poderá se equiparar à curvatura média da superfície da terra, fazendo com que a curvatura e a refração se anulem, e dando a impressão de que a Terra é plana.

Isto teria sido reforçado por uma inversão de temperatura na atmosfera. O aumento na temperatura do ar poderia criar uma ilusão de um canal achatado, e todas as medições ópticas feitas perto do nível do solo seriam consistentes com uma superfície completamente plana. Aliás, se a taxa de aumento de temperatura fosse bastante elevada (maior do que 11ºC), nossas observações ópticas seriam de uma Terra côncava. Em suma, o experimento do nível do rio Bedford só conduziu à tese da Terra plana porque desconsiderou conhecimentos básicos sobre refração.


EVIDÊNCIAS DA ESFERICIDADE DA TERRA
Para além das demonstrações científicas que nos mostram os equívocos do experimento do nível do rio Bedford, temos uma série de provas muito fortes da esfericidade da Terra. Nesta seção, vamos listar algumas delas.

Para começar, em uma Terra plana, os corpos no céu devem ser visíveis ao mesmo tempo em todas as partes da superfície. Mas isto não é o que acontece na prática. Por exemplo, as estrelas ao redor da Estrela Polar nunca são visíveis em baixas latitudes do hemisfério sul; o Cruzeiro do Sul só é visto no hemisfério sul ou em parte do hemisfério sul muito próximas ao equador terrestre, etc.

Outro aspecto diz respeito à posição do Sol. Se o Sol é observado ao meio-dia de diferentes pontos em um mesmo meridiano, ele é visto em diferentes ângulos. Isto não seria verdade em uma Terra plana. Aliás, foi precisamente essta informação que permitiu, no ano 240 a.C., Eratóstenes calcular a circunferência da Terra.

Eratóstenes foi diretor da Biblioteca de Alexandria e, em um dos manuscritos dessa instituição, tomou conhecimento de que no solstício de verão, na cidade de Siena (atual Assuã), o Sol ficava, ao meio-dia, quase exatamente no zênite (que é um termo técnico que designa o ponto interceptado por um eixo vertical traçado a partir da cabeça de um observador e que se prolonga até a esfera celeste). Isto permitia que a imagem do Sol fosse refletida no fundo de um poço. No entanto, em Alexandria, na mesma data e mesma hora, isso não era possível, pois o Sol não fica suficientemente perto do zênite. Ele percebeu que se pudesse determinar o ângulo e a distância entre as cidades, poderia determinar o tamanho da Terra.

Para determinar o ângulo, Eratóstenes fixou uma vareta perpendicular em Alexandria e mediu o comprimento da sombra em proporção ao comprimento da vareta. A constatação foi de que o ângulo era de 7,2 graus, ou seja, a distância entre as cidades representa 1/50 da circunferência total da Terra. A distância entre as duas cidades foi calculada do seguinte modo: pessoas (treinadas para isso) contaram os passos entre uma cidade e outra. Chegou-se à conclusão de que a distância era equivalente a 5.040 estádios. Agora, para calcular a circunferência, basta multiplicar o número de estádios (que representa a parcela da circunferência da Terra confinada aos limites das duas cidades) por 50 (que é o tamanho da circunferência da Terra por completo): 5.040 x 50 = 252.000 estádios. Resta-nos saber como podemos converter esta medida de “estádios” em quilômetros? Existiam muitas medidas na Grécia com o nome stadium, variando desde 156 metros a 210 metros. Em 1972, Lev Vasilevich Firsov analisou uma série de trabalhos realizados por Eratóstenes e Estrabão, e chegou a um valor 157,7 metros. Se multiplicarmos este valor pelo número de estádios temos o valor de 39.700 quilômetros, muito próximo do número atualmente aceito para a circunferência da Terra: 40.008 quilômetros.

Tomemos mais algumas razões:
    I. O nascer do Sol, o pôr do Sol, o nascer e o pôr das estrelas e os eclipses ocorrem em diferentes longitudes, o que não aconteceria se a Terra fosse plana;
    II. Se analisarmos os eclipses, também podemos constatar a esfericidade da Terra. Por exemplo, em um eclipse total da Lua, o Sol está sempre abaixo do horizonte. Isto acontece porque o eclipse é causado pela sombra da Terra, que por ser redonda, cobre completamente a Lua. Já em um eclipse parcial, o Sol fica parcialmente visível, sendo a sombra da Terra na Lua vista como tendo uma borda curva;
    III. As distâncias entre os meridianos diminuem à medida que avançamos para o norte no hemisfério norte e sul no hemisfério sul, o que não seria verdade em uma Terra plana;
    IV. Ainda que cálculos de distâncias curtas e de pequenas áreas (lotes urbanos, por exemplo) sejam feitas com precisão na suposição de que a Terra é um plano, se tomarmos grandes distâncias (como tentar definir a fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, ou determinar a posição de aviões utilizando radares), o cálculo torna-se impreciso;
    V. Nenhum mapa mostra corretamente as distâncias, dimensões, formas e tamanhos. Isto se deve ao fato de haver uma distorção quando nós tentamos projetar uma terra esférica na superfície plana de um mapa;
    VI. Nenhuma parede de gelo intransponível foi encontrada na Antártica, como defendem os terraplanistas.

Além disso, a curvatura da superfície terrestre é claramente evidenciada em fotografias tiradas do espaço.


TERRAPLANISMO E AS TEORIAS CONSPIRATÓRIAS
Agora, se há tantas evidências que comprovam a esfericidade da Terra, o que faz tantas pessoas duvidarem? E por que o movimento tem crescido a despeito dos fatos? Podemos dizer que o movimento terraplanista pode ser explicado como sendo um movimento baseado em teorias conspiratórias.

O movimento terraplanista tem muitos aspectos que podemos enquadrar como um comportamento padrão de seguidores de outras teorias conspiratórias. Normalmente, seus defensores tomam várias evidencias contrárias à tese da Terra plana (como, por exemplo, fotos da Terra que revelam a forma esférica) como sendo fabricadas por uma conspiração a favor da Terra redonda, orquestrada pela Nasa e outras agências governamentais.

Terraplanistas frequentemente alegam que fotos do globo são alteradas por programas de edição de imagem; dispositivos de GPS seriam fixos para fazerem os pilotos de avião pensarem que estão voando em linhas em torno de uma esfera, quando, na verdade, estariam voando em círculos acima de um disco, etc. O motivo que faria os governantes não revelarem a verdade da Terra plana não é muito claro, mesmo para os próprios terraplanistas. Alguns defendem que seria mais barato forjar um programa espacial falso, do que, de fato, fazer um.

A psicóloga Karen Douglas aponta que toda teoria da conspiração compartilha uma base comum. Ela apresenta uma teoria alternativa sobre um tema ou evento importante e constrói uma explicação vaga de como alguém está acobertando a suposta “verdade” dos eventos. Uma das características marcantes, diz ela, é explicar um grande evento, mas sem se ater aos detalhes. Muito do poder destes grupos conspiratórios está no fato de serem vagos.

Na verdade, podemos encontrar uma série de aspectos psicológicos que podem colaborar para que uma pessoa reproduza este tipo de comportamento conspiratório. Um deles, por exemplo, é o chamado “viés de confirmação”. De acordo com isto, nós temos uma tendência a procurar informações que confirmem nossas crenças pré-existentes, e ignorar informações que as contradizem (algo que pode ser facilmente constatado quando analisamos discussões sobre futebol ou sobre política nas redes sociais).

Outro aspecto pode ser evolutivo. Nossa espécie evoluiu fazendo uso de várias estratégias, como, por exemplo, se organizar em grupos. Isto provavelmente auxiliou a própria preservação da vida. Como resultado disto, as pessoas teriam um desejo natural de buscar a sensação de pertencer a um grupo. Ou seja, nós teríamos uma tendência a participarmos de grupos, pois no passado isto nos deu uma maior chance de sobrevivência.

Este aspecto de comunidade pode ser facilmente encontrado nos movimentos terraplanistas. Os terraplanistas estão sempre prontos para receber novos adeptos. Uma vez que alguém se filia a algum grupo terraplanista, este acaba encontrando um forte senso de aceitação e pertencimento, como se finalmente ela fizesse parte de um grupo que a entende. Se junta a isto um forte senso de lealdade e proteção do grupo. As individualidades acabem se diluindo em torno de uma verdade coletiva.

Mai um ponto psicológico deste movimento diz respeito à confiança. Confiança parece andar de mãos dadas com “ter razão”. Os terraplanistas podem sentir a mesma necessidade ao espalhar sua visão de mundo para o maior número de pessoas possível, aumentando assim a confiança não só no grupo, mas em si próprio. Em alguns contextos, participar de uma comunidade pode significar a sua própria identidade.

É importante lembrar, no entanto, que os terraplanistas não se enquadram completamente na imagem geral de teorias conspiratórias. Em sua grande maioria, os terraplanistas se concentram especialmente na forma da Terra e acabam não compactuando com outras crenças também duvidosas, como óvnis, fantasmas, forças paranormais, etc., o que dá a eles um caráter peculiar.


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