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Epidemia silenciosa: distúrbios do sono e os impactos na produtividade e na qualidade de vida
 
 
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Deitar e dormir durante horas seguidas, descansando o corpo e a mente. Já diziam os antigos que o melhor remédio para o cansaço e a tristeza é uma boa noite de sono. Para além das crenças e ditos populares, o sono é realmente um dos momentos mais importantes do dia. Para o organismo funciona como um alimento, repondo as energias, revigorando o corpo e a mente e preparando-o para o dia que segue.

O que pouco se comenta, entretanto, é que estamos vivendo um período em que as horas de sono estão sendo drasticamente reduzidas. E isso tem um impacto significativo não só para quem está dormindo menos, mas também para a sociedade e até para a economia.

Pessoas cansadas, esgotadas e estressadas rendem menos, faltam mais ao trabalho e geram impactos no sistema de saúde. A epidemia da falta de sono é grave e preocupa os estudiosos do assunto. A Associação Brasileira do Sono (ABS) está atenta ao assunto e tem mostrado que o sono do brasileiro merece cuidado e atenção.

Segundo o Ministério da Saúde, é durante o sono que o corpo fortalece o sistema imunológico, libera hormônios, consolida a memória, além de diversas outras funções muito importantes para o bom funcionamento do organismo. Quem dorme pouco também corre sérios riscos de desenvolver doenças cardíacas, hipertensão, obesidade e diabetes.

É indicado dormir de 6 a 8 horas por dia sem interrupções. Quando isso não acontece, é comum sentir cansaço, fadiga, irritabilidade e lapsos de memória. Segundo o Ministério da Saúde, “a principal manifestação dos problemas crônicos é a sonolência diurna exagerada, passando por alterações do humor, da memória e das capacidades mentais, como aprendizado, raciocínio e pensamento”.



DISTÚRBIOS
Os distúrbios do sono vêm aumentando muito na América Latina. O que assusta os pesquisadores é que muita gente nem sabe que apresenta esse tipo de distúrbio. Indo ainda mais adiante no problema, o fato é que quando não tratados corretamente, distúrbios do sono podem implicar em riscos para a saúde pública, já que afetam a incidência de doenças crônicas, além de impactar a qualidade de vida das pessoas e, consequentemente, a produtividade.

Um estudo realizado pela Philips em 2018 demonstrou que, em média, 75% dos entrevistados na América Latina – incluindo Argentina, Brasil, Colômbia e México – têm alguma dessas condições que afetam o sono: insônia, ronco, apneia do sono, síndrome das pernas inquietas. Desses, uma alta porcentagem pode não estar recebendo o tratamento adequado.

O estudo também demonstrou que embora atualmente já exista uma consciência de que a alimentação e o exercício físico são essenciais para uma melhor qualidade de vida, a importância do sono ainda é negligenciada. A evidência é que a maioria das pessoas não dorme as horas recomendadas. Abaixo de sete horas foi a média registrada nos países da América Latina no estudo realizado pela Philips.

O sono é considerado o fator que exerce o maior impacto sobre a saúde e o bem-estar geral no Brasil (68%) e na Argentina (54%), por exemplo. No entanto, em média, as pessoas sentem mais culpa se não praticarem exercícios físicos (52%) do que se não tiverem bons hábitos com relação ao sono (35%). Esse é um indicador interessante de que há uma grande necessidade de que as pessoas entendam a importância de manter uma rotina de sono adequado para manter um estilo de vida saudável.


O SONO DOS LATINO-AMERICANOS
A pesquisa da Philips descobriu que as preocupações financeiras são a principal causa da perda de sono dos latino-americanos, com uma média de 45%. Por outro lado, 39% foram atribuídos ao uso de tecnologias e aplicativos de redes sociais. Vários estudos têm demonstrado que a luz artificial elimina a produção de melatonina, o hormônio mais importante que controla os ciclos de sono-vigília. Ainda, 36% disseram que se deve a preocupações relacionadas ao trabalho.

Quando consultamos sobre os impactos negativos de uma noite mal dormida, os principais resultados, em média, foram: 56% fadiga; 45% falta de concentração; e 43%, dores no corpo (dor de cabeça e no pescoço e cãibra).


SONO REM E NREM
Para entender melhor esse assunto, é importante saber que o sono é divido em várias fases, formando um ciclo. Basicamente, é possível dividir o sono em REM (Rapid Eye Movement) que significa "movimento rápido dos olhos" e NREM que significa movimento não rápido dos olhos, que representa 75% do período do sono.

O sono REM é a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos e quando há intensa atividade cerebral. Durante esta fase, os olhos movem-se rapidamente e a atividade cerebral é similar àquela que se passa nas horas em que se está acordado, portanto é um momento de vigília. Embora seja uma fase em que não ocorre o descanso profundo, é muito importante para a recuperação emocional.

Já durante o sono NREM ocorre a secreção dos hormônios do crescimento, sendo também uma fase essencial para a recuperação da energia física. É quando ocorre o descanso profundo e a menor atividade neural.


RONCO
Dentre os já citados fatores que afetam o sono, o ronco aparece como algo muito comum hoje em dia. Não só em pessoas de mais idade.

É comum ouvir reclamações com relação ao ronco; quem gosta de dormir ao lado de alguém que ronca? Ninguém. Diferentemente do que se pensa, quem ronca não dorme bem, muito pelo contrário. Quem ronca está esforçando a musculatura respiratória para além de seus limites, além de estar sobrecarregando o coração. Dados do Ministério da Saúde apontam que, ao longo do tempo, o indivíduo que ronca pode ficar hipertenso e/ou apresentar infarto do miocárdio ou derrame cerebral.


INSÔNIA
A dificuldade de iniciar o sono e mantê-lo continuamente durante a noite é chamada de insônia. Também quando a pessoa desperta antes do horário desejado pode ocorrer insônia. O que leva uma pessoa ser insone pode variar conforme a situação. Em alguns casos são as expectativas que geram certa ansiedade; seja para um importante acontecimento ou para o início de um novo trabalho, seja uma viagem de férias ou a compra de um bem tão desejado, uma prova ou a espera pelo nascimento de um filho. Mas, há também casos clínicos, problemas emocionais (passageiros ou mais complexos) e situações crônicas nas quais a pessoa que sofre de insônia pode viver anos dormindo mal e, consequentemente, vivendo mal.

Algumas pessoas, quando expostas a condições de estresse, doenças ou mudança de hábitos desenvolvem episódios de insônia.


APNEIA
Informações do Ministério da Saúde explicam a Apneia Obstrutiva do Sono caracteriza-se pela obstrução da via aérea no nível da garganta durante o sono, levando a uma parada da respiração, que dura em média 20 segundos. Após esta parada, a pessoa acorda, emitindo um ronco muito barulhento. Pode ocorrer diversas vezes durante a noite, havendo pessoas que apresentam uma a cada um ou dois minutos.

Em longo prazo, pacientes com Apneia Obstrutiva do Sono podem desenvolver doenças nas artérias, provocadas pelo acúmulo de colesterol nas suas paredes, além de provocar a ocorrência de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (derrame). Também pode se desenvolver a síndrome metabólica, que é a ocorrência de distúrbios da gordura e do açúcar do sangue, hipertensão arterial e aumento da circunferência abdominal. Quem apresenta esta síndrome tem maior tendência a ter infarto do miocárdio e derrame cerebral.

Segundo o professor Peretz Lavie, presidente da Technion (Israel Institute of Technology) e considerado um dos fundadores da Medicina do Sono, existe uma ligação entre a apneia do sono e as doenças cardiovasculares. Em entrevista à Associação Brasileira do Sono (ABS), o professor afirma que “a apneia é um fator de risco para a hipertensão e isso gerou muito interesse no nosso trabalho porque se a apneia fosse tratada poderia reduzir o risco de doenças cardiovasculares”. Segundo ele, a apneia do sono causa inflamação nos vasos sanguíneos.

“Descobrimos que há uma mudança na função e na morfologia das células sanguíneas durante a noite em pacientes com apneia do sono. As células inflamatórias ficam mais ativas, se ligam umas às outras, às paredes dos vasos sanguíneos e este é um processo que os médicos chamam de aterosclerose, levando, em última análise, ao bloqueio dos vasos sanguíneos. Se isso ocorrer noite após noite, por centenas de noites, pode contribuir de forma significativa para ataque cardíaco (infarto agudo do miocárdio) e acidente cardiovascular (AVC)”, afirma Peretz Lavie.


O SONO E O ÁLCOOL
Muita gente diz que tomar uma taça de vinho ou uma cerveja ajuda a ter uma boa noite de sono. Mas, atenção! Não é bem assim que acontece. Segundo a Associação Brasileira do Sono (ABS), o álcool tem, sim, um efeito sedativo natural, uma vez que atua no receptor GABA (o mesmo receptor que age em alguns medicamentos utilizados como sedativo-hipnóticos). Entretanto, embora possa ajudar quem bebe a adormecer mais rapidamente, à medida que o álcool é metabolizado durante a noite, o sono pode se tornar mais superficial e a probabilidade de o indivíduo despertar é maior.

Quem já bebeu e foi dormir sabe que o álcool afeta o sono de várias maneiras. Esses efeitos, segundo a ABS, podem ser diferentes entre bebedores eventuais e bebedores crônicos, que podem ter tolerância ao seu efeito.

A relação entre álcool e sono é complexa. Para a ABS, os efeitos podem variar de estimulante até depressor do sistema nervoso, dose-dependente. Depois de um tempo, o efeito mais estimulante desparece, dando lugar ao efeito depressor e estado de embriaguez e sonolência até perda da consciência. O álcool, apesar de poder induzir o sono em algumas pessoas, prejudica a segunda parte do sono noturno, podendo reduzir o sono REM e induzir o despertar precoce com sensação de sono não reparador na manhã seguinte. Esse efeito na primeira metade da noite pode explicar, em parte, a razão pela qual algumas pessoas com insônia buscam o álcool como auxílio para dormir. A Associação Brasileira do Sono deixa claro que não se deve ingerir álcool à noite para tratar sintomas de insônia. O consumo de álcool também pode induzir roncos e apneia do sono contribuindo para um sono não reparador.

Outro efeito do álcool, segundo a ABS, se refere à possível indução de comportamentos anormais à noite, entre eles o sonambulismo. O aumento da diurese noturna ocorre com o uso de álcool e, de acordo com estudo divulgado pela ABS, para cada grama de álcool ingerido, a excreção de urina aumenta em cerca de 10 ml. O sono pode, portanto, ser interrompido também pela necessidade de micção. Por fim, o álcool pode aumentar a sudorese noturna, por meio do efeito de vasodilatação. O uso do álcool frequente pode induzir rápida tolerância no organismo ao seu efeito sedativo (redução do efeito no sono), associado ao risco de dependência. Em um determinado momento o usuário crônico poderá desenvolver sintomas de insônia.

O álcool é uma droga de ação rápida que entra na corrente sanguínea e atinge o cérebro em questão de minutos, mas seus efeitos são de curta duração. A ABS conclui que o efeito do álcool na melhora do sono é mito.


DICAS
O Ministério da Saúde orienta a:

- Ter um ambiente apropriado para o sono. Iluminação, temperatura, colchão e travesseiros adequados são alguns dos pontos de atenção.

- O ideal é chegar em casa pelo menos três horas antes do horário de dormir e deixar bem claro para você mesmo que seu dia de trabalho acabou pelo menos duas horas antes de dormir.

- Não se deve ir para a cama sem sono ou usar a cama para planejar o dia seguinte. Também não é indicado assistir TV ou usar o celular.

- Fazer refeições leves à noite. O indicado é que a última refeição seja duas horas antes de dormir.

- Horários regulares também colaboram para um bom sono, tente dormir e acordar nos mesmos horários.

- Mesmo que seja difícil, evite pensar nos problemas e tensões do dia a dia. Procure relaxar, pensar em coisas boas ou até meditar antes de dormir.

Os problemas na hora de descansar são uma epidemia que necessita de mais informações, cuidado profissional e inovação tecnológica para que possam ser solucionados.


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