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Doenças autoimune: sintomas, tratamentos e causas
 
 
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Existem mais de 100 tipos de doenças autoimunes que podem ter manifestações das mais simples às mais complexas. Elas aparecem quando o sistema imunológico, que deveria estar defendendo e protegendo o corpo das infecções e de inimigos externos, passa a atacar as células do próprio organismo.

As doenças autoimunes podem afetar um órgão específico, como o diabetes tipo 1 que ataca o pâncreas, mas também podem afetar vários órgãos e tecidos, como é o caso do lúpus e da artrite reumatoide.

As causas exatas para que o sistema imunológico fique desregulado ainda não são totalmente conhecidas. Especialistas afirmam que seja por uma combinação de fatores genéticos e ambientais. O estilo de vida nem sempre é determinante, mas exerce um papel fundamental para o aparecimentos dessas enfermidades e é uma das razões para o aumento da incidência delas em todo mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a incidência das doenças autoimunes triplicou nos últimos 50 anos. Hoje afetam mais de 50 milhões de norte-americanos, de acordo com a Associação Americana das Doenças autoimunes.



COMPLICADORES
Estresse, alimentação inadequada e altos índices de poluição acabam afetando o organismo, tornando-o mais sensível a inflamações e desregulações. Além dos cuidados básicos com a saúde, a principal recomendação de médicos e especialistas é detectar a doença o mais cedo possível, para evitar que os sintomas se intensifiquem. E, por menos complicados que sejam os sintomas ou o tratamento, o diagnóstico de uma doença autoimune é sempre acompanhado de uma lição básica: é preciso aprender a conviver com ela ao longo de toda a vida.

Há pacientes que contam que tiveram uma doença autoimune deflagrada depois de sofrer algum evento traumático. Essa relação com o emocional, segundo especialistas, é observada em alguns indivíduos, mas ainda é difícil medir esse tipo de impacto de forma consistente.

O fato é que o estresse pode sim influenciar o estado da doença. Por isso, a indicação mais sensata é que o paciente diagnosticado busque uma vida mais equilibrada, com atividade física, nutrição adequada e sono suficiente.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde (NIH), dos EUA, mais de uma centena de doenças crônicas têm origem em uma resposta autoimune. Mas, apesar do processo em comum, cada doença autoimune tem suas próprias características, ritmo evolutivo e sintomas específicos.

É por isso que não existe um médico especialista em “autoimunidade”. Estudiosos apontam que exista até infertilidade causada por doença autoimune, ou seja, é algo que permeia toda a medicina. Exatamente por isso a busca por tratamento com equipe multidisciplinar é uma indicação importante.


TRATAMENTO
O tratamento pode ser do mais simples, por exemplo com restrição alimentar e anti-inflamatórios, passando por tratamentos com corticoides, imunossupressores e quimioterápicos, até os mais complexos, com o uso de drogas mais elaboradas como imunobiológicos, que ajudam de maneira localizada na célula afetada.

Em alguns casos, os medicamentos disponíveis servem tanto para um tratamento a longo prazo quanto para amenizar os sintomas. Mas, muitas dessas drogas causam complicações e sequelas ainda piores do que os sintomas das doenças.

Dentre as grandes revoluções do tratamento das doenças autoimunes está a chamada terapia alvo, que combate o elemento do sistema imunológico que está envolvido na enfermidade de maneira localizada. Com os imunobiológicos é possível produzir um anticorpo especifico para neutralizar essa substância que causa problemas no organismo. Anualmente, de dez a cinquenta biológicos novos são colocados no mercado ou em ensaios clínicos. Segundo especialistas, essas ainda são drogas caras e com pouco acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento da psoríase com os biológicos, por exemplo, pode custar até R$ 100 mil por ano. Ainda segundo especialistas, é preciso mais investimento em estudos e pesquisas para o desenvolvimento dessas drogas.

O fato é que, independentemente do tratamento utilizado, a pessoa que convive com a doença autoimune precisa saber que a enfermidade tem ciclo. É necessário manter o foco para enfrentar a volta dos sintomas.


DIABETES TIPO 1 E DOENÇA CELÍACA
Nesses dois casos de doenças autoimunes, não é preciso remédio e tratamentos complexos. Basta mudar o cardápio das refeições e/ou fazer reposição hormonal.

De 20 a 40 milhões de pessoas em todo o mundo convivem com o diabetes tipo 1, principalmente em crianças e adolescentes. Com ela, o sistema imunológico do paciente destrói as células do pâncreas que produzem a insulina. Sem a insulina, o corpo não é mais capaz de digerir a glicose, presente em doces, massas, pães. Assim, o paciente precisa muito do apoio da família e de amigos para se adaptar à nova realidade. E tem mais. Além da mudança na alimentação, muitos pacientes precisam de apoio para enfrentar o preconceito e a própria vergonha, afinal, medir a glicose e tomar as doses de insulina várias vezes por dia é tarefa que exige, no mínimo, disciplina e autocuidado.

Quando não tratada corretamente, a diabetes tipo 1 gera sequelas a longo prazo, como problemas na visão, nos rins e má circulação nos pés, podendo causar até amputações. No entanto, essas complicações são cada vez mais raras, com a evolução das formas de tratamento.

Também tem evoluído o cardápio de alimentos para apoiar pessoas com a doença celíaca. As inflamações no intestino delgado são desencadeadas pelo consumo de glúten, uma proteína presente no trigo, na aveia, no malte e em outros alimentos. Quando descobrem a doença, muitos pacientes sofrem ao saber que nunca mais poderão comer certos alimentos. Mas a qualidade de vida percebida por eles após o início do tratamento é motivo até para comemoração. E muita gente passa a desenvolver receitas deliciosas, envolvendo familiares e amigos em uma alimentação mais equilibrada e saudável.  Apesar de não ser um fator único para a causa das doenças autoimunes, a ingestão de alimentos com maior capacidade de gerar inflamações pode afetar ainda mais o sistema imunológico.

O processo inflamatório, quando se tem a doença celíaca, que no caso ocorre na parede interna do intestino delgado, leva à atrofia das vilosidades intestinais, gerando diminuição da absorção dos nutrientes. No geral, os sintomas como diarreia, prisão de ventre, perda de peso, anemia, sensação de estufamento, cólica e desconforto abdominal começam na infância. Na fase adulta, muitas vezes os sintomas são mais indefinidos, como dores eventuais.

A maneira mais segura de fazer o diagnóstico é realizar a dosagem no sangue dos anticorpos contra o glúten. Outro exame importante é a biópsia do intestino, para verificar se há alterações de inflamação e atrofia das vilosidades.

A doença é mais comum em crianças, mas também ocorre em adultos, de ambos os sexos. Outros sintomas da doença celíaca estão relacionados à má absorção de nutrientes, como cansaço, falta de ar, lesões na pele, queda de cabelo, dificuldade de crescimento em crianças, osteoporose e carência de vitaminas. É importante lembrar que algumas pessoas podem ter pouco ou nenhum sintoma. A falta de tratamento da doença pode causar o surgimento de tumores no intestino ou linfoma.


LÚPUS
O lúpus é uma doença autoimune sistêmica que afeta desde as articulações até os rins. Especialistas afirmam que 90% dos casos de lúpus acontecem em mulheres e em 80% dos casos são mulheres em idade fértil, entre os 15 e os 45 anos. Ainda não se sabe ao certo o motivo dessa incidência, e há ainda outras dúvidas sobre essa doença: nos EUA, onde as pesquisas sobre o lúpus são as mais avançadas, a incidência é muito maior em populações com características étnicas específicas, como negros e descendentes de asiáticos.

Os cientistas acreditam que a doença tenha um componente genético em sua origem, já que é comum o registro de múltiplos casos dentro de uma mesma família. O problema é que não se sabe ao certo quais genes seriam responsáveis. Ao que tudo indica, o fator genético determina maior ou menor risco de uma pessoa desenvolver lúpus, mas a doença só se manifestaria pela influência de “gatilhos” como a ingestão de certos medicamentos (antidepressivos, antibióticos e diuréticos), estresse e exposição ao sol.

Felizmente, a taxa de mortalidade de lúpus caiu de 20% para 5% nos últimos 50 anos.

O principal componente utilizado nos remédios é a cortisona. A doença ataca vários órgãos e pode causar lesões no sistema nervoso, coração, pulmões, rins e articulações. Os sintomas podem aparecer aos poucos, ou todos de uma vez em períodos de crise. Por causa do uso contínuo de medicamentos à base de cortisona, há pacientes que chegam a precisar amputar por exemplo as penas. Há também quem perde todo o cabelo.

Especialistas admitem que é difícil tratar a doença em sua fase aguda sem o uso da cortisona, mas a qualidade vida dos pacientes está cada vez melhor com os novos tratamentos.


PSORÍASE
A psoríase ataca o tecido da pele, causando lesões e feridas. Apesar de se manifestar de forma mais branda, sem dores ou complicações em outros órgãos, ela pode causar muito constrangimento aos pacientes, principalmente pelo preconceito.

O tratamento da psoríase costuma ser simples, com cremes, loções e outros produtos para a pele. Mas, em alguns casos, a doença pode evoluir, apresentando lesões em maior número pelo corpo. A psoríase também pode estar associada a outros problemas de saúde, como dores na articulação ou problemas cardíacos. Nesses casos mais graves, o tratamento é feito com base em medicamentos por via oral, como imunossupressores quimioterápicos, que têm muitos efeitos colaterais desagradáveis como inchaço, náuseas e problemas no fígado. Há também os tratamentos feitos com os medicamentos biológicos, como já citado anteriormente. Com eles, os resultados observados são positivos, entretanto, não são oferecidos pelo SUS e custam bem caro.


ESCLEROSE MÚLTIPLA
A esclerose múltipla ataca o sistema nervoso central, causando tremores, dificuldades para andar, enxergar, falar e pode levar até à paralisia. E, apesar dos avanços dos tratamentos, 50% dos pacientes precisam de ajuda para ficar em pé depois de 15 anos do primeiro sintoma da esclerose múltipla. Uma bengala pode ser de muita ajuda para o paciente que sente fraqueza nas pernas, mas muitos acabam mesmo precisando de uma cadeira de roas.

A doença provoca principalmente tremores, dificuldades para andar, problemas de visão, na fala e até paralisia. A esclerose múltipla costuma aparecer entre os 20 e os 40 anos de idade. Com a evolução da doença, o sistema nervoso central vai acumulando “cicatrizes”, que acabam afetando a audição, a visão, a memória e a coordenação motora.

Hoje, no Brasil, 30 mil pessoas convivem com a doença. Sabe-se que histórico na família eleva em 10 vezes o risco de desenvolver a patologia. Isso sugere que o mal, pelo menos em parte, pode ter uma explicação genética. Cerca de 70% dos casos estão entre mulheres – fato que os cientistas ainda não compreenderam também. No início, os sintomas vão e voltam. Mas, 10 anos depois, eles passam a ser progressivos.

O sistema nervoso central de quem tem esclerose múltipla é repleto de cicatrizes. É como se os fios que transmitem os impulsos nervosos ficassem desencapados, com falhas na camada externa, chamada de mielina. Diferentemente de um AVC ou um derrame, na esclerose múltipla a agressão à mielina acontece aos poucos, durante os surtos. Por isso, a doença é progressiva.

A medicina ainda recorre a teorias para descrever as causas da doença. Um estudo feito nos EUA sugere uma ligação da doença com a carência de vitamina D. A pesquisa constatou que mulheres que tomaram esse suplemento vitamínico ininterruptamente, ao longo de 10 anos, apresentaram risco 40% menor de desenvolver esclerose. Um dado interessante ampara essa tese: a ocorrência do mal é maior em regiões mais afastadas da linha do Equador – onde a incidência de luz solar é menor, o que dificulta a síntese de vitamina D pelo organismo. Enquanto em boa parte dos países da África Central há 5 casos de esclerose múltipla para cada grupo de 100 mil habitantes, no Canadá esse índice é 26 vezes maior.

Como outras doenças autoimunes, a esclerose múltipla precisa de algo além de alguns medicamentos. Por atacar vários órgãos e partes do corpo, a presença de uma equipe multidisciplinar é mais do que uma simples recomendação. É necessária! Além da equipe, a família também precisa fazer parte do tratamento e apoiar o paciente a se autoconhecer e buscar informações. 


ARTRITE REUMATOIDE
Com causa ainda desconhecida, a artrite reumatoide afeta duas vezes mais mulheres do que homens entre 50 e 70 anos. Segundo o médico Drauzio Varella, a artrite reumatoide é uma doença inflamatória crônica, autoimune, que afeta as membranas sinoviais (fina camada de tecido conjuntivo) de múltiplas articulações (mãos, punhos, cotovelos, joelhos, tornozelos, pés, ombros, coluna cervical) e órgãos internos, como pulmões, coração e rins, dos indivíduos geneticamente predispostos. A progressão do quadro está associada a deformidades e alterações das articulações, que podem comprometer os movimentos.

Os sintomas da artrite reumatoide podem ser, no início, comuns a outras enfermidades ou ocorrer abrupta e simultaneamente. Os mais comuns são rigidez matinal que regride durante o dia, mal estar, diminuição do apetite, perda de peso, cansaço, febre baixa, inchaço nas juntas das mãos, punhos, joelhos e pés, que se deformam com a evolução da doença.

Especialistas alertam que quanto mais cedo for diagnosticada a artrite reumatoide e iniciado o tratamento, melhor será o prognóstico. Embora ainda não se conheçam os recursos para a cura definitiva, é possível obter a remissão dos sintomas, preservar a capacidade funcional e evitar a progressão das deformidades.

A pergunta de muitas pessoas é sobre o repouso. Ele só deve ser indicado em quadros muito dolorosos e por pouco tempo. Segundo Drauzio Varella, atividade física e fisioterapia são importantes para controlar o comprometimento das articulações e a perda da mobilidade.

O tratamento da doença inclui analgésicos, anti-inflamatórios não esteroides (AINE), cortiscoroides e drogas imunossupressoras, como o metrotrexato e a ciclosporina. Alguns medicamentos mais recentes, desenvolvidos através de tecnologias baseadas na biologia molecular, trazem novas possibilidades terapêuticas. A cirurgia e a colocação de próteses articulares podem representar uma opção de tratamento, nos estágios avançados da doença.

E tem mais. Varella alerta: não tenha medo, afinal, artrite reumatoide não é doença contagiosa nem hereditária. Mas, sem tratamento ela pode ter como consequência a total incapacidade de movimentar-se.

Como em outros casos, o indicado é que o paciente não se automedique nem atribua ao envelhecimento sinais que possam ser indicativos da artrite reumatoide. Procurar assistência médica é o melhor caminho.


VITILIGO
Vitiligo é uma das doenças autoimunes mais comuns no mundo todo. Apesar disso, é também uma das mais incompreendidas pela medicina. Estima-se que 1% da população mundial – ou 76 milhões de pessoas – sofra de vitiligo, que se caracteriza pela perda localizada de pigmentação da pele. São manchas na pele ainda sem muita explicação pela ciência.

O que os cientistas sabem é que esse fenômeno acontece assim: o sistema imunológico produz anticorpos que atacam e matam os melanócitos (células que fabricam melanina, a substância responsável pela cor da pele). Mas o que ainda não se sabe é o que desencadeia esse ataque.

Fatores genéticos combinados a questões ambientais parecem estar por trás da maior parte dos casos de vitiligo. Assim, grande parte dos pacientes apresenta predisposição para o desenvolvimento da doença quando exposta a algum tipo de “gatilho” – queimaduras de sol muito intensas, estresse violento ou traumas emocionais provocados por um acidente grave ou pela morte de um familiar, por exemplo.

Há ainda outras explicações. Pesquisas feitas no Ambulatório de Vitiligo da Escola Paulista de Medicina, apontam que o mal pode estar associado a uma incapacidade do organismo de eliminar radicais livres potencialmente nocivos aos melanócitos.

O paciente pode apresentar despigmentação de até 85% da superfície cutânea nos casos mais severos da doença. É impossível prever, no início da doença, qual será a área total afetada por ela. Aproximadamente metade das vítimas começa a apresentar os primeiros sinais da desordem depois dos 20 anos de idade, e cerca de um terço relata não ser o primeiro caso da doença na família.


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