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Depressão na Infância e adolescência
 
 
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 O QUE É DEPRESSÃO
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Depressão é um tipo de transtorno de humor que se caracteriza basicamente por tristeza e anedonia, que é a falta de prazer com atividades habituais. Muitas vezes esse transtorno pode estar associado ainda a outras características como alterações do sono, processos somáticos (como cefaleia, tonturas, taquicardia, diminuição da libido, sudorese, entre outas coisas). Pesquisadores indicam que a depressão será, nas próximas duas décadas, uma das doenças mais recorrentes do mundo. Acredita-se que ela ultrapassará o número de indivíduos com câncer ou que sofrem de problemas cardíacos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2014. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, atualmente 7% da população mundial sofre de algum sintoma relacionado a depressão.

A depressão começou a ser estudada mais a fundo na década de 1970, quando o interesse acadêmico e os processos de diagnóstico também foram intensificados. A partir deste momento, reconheceu-se também a presença significativa deste transtorno entre jovens e adolescentes. É importante ressaltar que mesmo após todo o desenvolvimento da psicologia e psiquiatria sobre o tema, os conceitos psicopatológicos, quando tratamos de depressão infantil não são tão precisos e uníssonos, como são os dos adultos. Outro fator importante a ser observado é que em crianças nem sempre a depressão esta relacionada à tristeza. É mais frequente nesta faixa etária a irritabilidade, o mau humor e a anedonia.

Outros sintomas podem estar também relacionados a depressão infantil (DI) e podem mascarar a presença da doença. Baixo desempenho escolar, mudanças no padrão de alimentação, fadiga excessiva, sentimentos de culpa, queixas físicas constantes, afeto deprimido, sentimentos de desvalia, entre vários outros podem estar relacionados a quadros depressivos.

Apesar de tentativas de se estudar a depressão infantil terem surgido no início do século XIX, até hoje não existe um consenso entre médicos, psicólogos e estudiosos se as formas de diagnóstico e de tratamento deveriam ser semelhantes ao que é realizado com adultos ou se seus processos deveriam ser completamente independentes e voltados para as condições de crianças e adolescentes.

Falta de vontade para brincar, fazer xixi na cama e irritabilidade exagerada, por mais de 2 semanas, podem ser sinais de depressão infantil.



Quais os fatores que desencadeiam a depressão infantil?
Os fatores que levam uma criança ou adolescente a depressão são vários e muitas vezes indeterminados. Uma das primeiras fontes científicas sobre o assunto são os estudos de Nissen em 1970. Nestes estudos o pesquisador, e outros posteriores a ele, afirmam que uma das principais causas da depressão infantil esta relacionada a problemas familiares.

Problemas de qualquer natureza que afetem de alguma maneira a convivência psico-social e o desenvolvimento acadêmico das crianças podem aumentar a possibilidade das crianças a desenvolverem algum tipo de transtorno, sendo a depressão infantil um deles. Problemas conjugais, financeiros, cobranças excessivas por parte dos pais e de parentes próximos, a falta de contato com os pais devido ao trabalho dos mesmos, são alguns dos fatores mais recorrentes no desencadeamento da depressão infantil. Outros fatores traumáticos também são frequentemente relacionados a DI, como a morte de um parente ou pessoa próxima, violência doméstica, alcoolismo de um dos pais, entre outros.

Além destes fatores comportamentais, outros modelos psicossociais e biológicos também são estudados como possíveis causas para depressão infantil. Alguns estudos, como o de Weissman (1987) e de Chabrol (1990), indicam que crianças, filhos de pais depressivos, têm maiores chances de desenvolver o transtorno. Outro modelo associado a DI é o cognitivo, O estudo de Beck (1997), que descreve a teoria cognitiva, afirma que um dos motivos mediadores do transtorno são distorções de pensamentos. O autor afirma que pessoas depressivas apresentam visões extremamente negativas sobre si mesmo.

Obviamente que a utilização de apenas um desses modelos, dificilmente é suficiente para explicar um transtorno complexo como a depressão, ainda mais quando estamos falando de crianças. A DI, sem dúvida, integra todos estes fatores (sócio familiares, biológicos e psicológicos) ao mesmo tempo, sendo difícil apontar uma causa única para a mesma. De qualquer maneira, o diagnóstico da depressão infantil tem sido cada vez mais frequente e precisa. Alguns estudos apontam que, atualmente, cerca de 2% das crianças sofrem de depressão grave, número que aumenta para um número próximo aos 10% quando nos referimos a adolescentes.


Reconhecendo a depressão em crianças
O diagnóstico da depressão em crianças, apesar de apresentar-se de forma distinta do que em adultos, é baseado nos critérios de diagnóstico para depressão maior no adulto, descrito no DSM IV (1994). Apesar disto, vários autores ressaltam que este tipo de abordagem, tendo em vista as diferenças na manifestação do transtorno entre jovens e adultos, pode contribuir para o que denominamos “depressão mascarada”, podendo ser diagnosticada, portanto, como outros problemas de comportamento como ansiedade, hiperatividade, agressividade, entre outros.

De uma maneira geral, qualquer indivíduo, jovem ou adulto, investigado ou diagnosticado com depressão apresentam sintomas comuns com sérios comprometimentos em suas relações emocionais, sociais e familiares, cognitivas e, no caso de crianças, escolares. Os primeiros sintomas da depressão passam, invariavelmente, por alterações no “funcionamento” do indivíduo relacionado a alguns destes aspectos. Estudos revelam que uma criança depressiva tende a alterar seu comportamento, encarando seus acontecimentos diários de forma negativa, pessimista, disfuncional e distorcida da realidade.

A partir dessa visão, é imprescindível para o diagnóstico clínico da depressão que a criança passa a apresentar mudanças repentinas de humor, o que em crianças de manifesta principalmente como irritabilidade e em adolescentes como sentimentos de tédio e sensação de vazio. Em adultos as variações de humor mais comuns são a tristeza e a melancolia. Além disso, outras modificações comportamentais em crianças também são frequentemente associadas ao diagnóstico de depressão. Crianças deprimidas podem apresentar, associados a irritabilidade, cansaço, fadiga, dificuldade para se concentrar e falta de interesse por atividades diárias. Ainda, problemas orgânicos ou somáticos também são bastante frequentes, é comum observar crianças com quadros de depressão apresentando dores de cabeça, dores abdominais, insônia, enurese, diminuição ou aumento de apetite, entre outros.

Como a diagnose da depressão infantil é muito complexa e envolve fatores absolutamente distintos, reconhecer estes sintomas é uma tarefa difícil para pais, familiares e professores. Muitas vezes inclusive, a falta de informação sobre o transtorno acaba acarretando em problemas de mascaramento da DI. É comum pais ou educadores indicarem crianças deprimidas para tratamentos de problemas específicos de aprendizagem, não percebendo na maioria das vezes alterações mais amplas do comportamento das crianças, o que pode contribuir por um agravamento do transtorno e podendo resultar, finalmente, em diferentes tipos de sequelas.

De qualquer forma é importante que pais e escola trabalhem em conjunto para evitar que a criança seja diagnosticada apenas quando os quadros depressivos já estejam instalados. As modificações de humor e de comportamento da criança devem ser observadas de forma mais criteriosa. Conhecer a rotina de atividades na escola antes da sintomatologia também é muito importante, muitas vezes os primeiros sinais de depressão infantil são o baixo rendimento escolar e a dificuldade de realização de tarefas, tendo em vista a diminuição da capacidade de concentração das crianças.


Tratamento e prevenção
Obviamente que uma criança nunca irá dizer espontaneamente que está deprimida, portanto, ao se notar sinais de depressão infantil o diagnóstico deverá ser feito por um médico ou psicólogo. Após o diagnóstico, a determinação do(s) tipo(s) de tratamento é fundamental para resultados efetivos. Normalmente são utilizadas técnicas medicamentosas e psicoterápicas em conjunto, apesar de muitos pais ficarem receosos com os tratamentos medicamentosos, o uso exclusivo de terapias não é recomendado para casos moderados a graves de depressão.

Os medicamentos antidepressivos mais comuns para o tratamento da depressão infantil são a Fluoxetina, Sertralina ou Imipramina. A escolha de medicação é feita de forma individual para cada criança e está relacionada os sintomas apresentados e o quadro clínico do processo de diagnose. Outros fatores importantes ainda na decisão do tipo de medicamento a ser administrado são a idade, as condições gerais de saúde da criança e o uso de outros tipos de medicamento. Muitos desses medicamentos podem apresentar efeitos colaterais e sempre que ocorrerem deve ser imediatamente relatados ao médico responsável para alteração de dose ou tipo de medicamento. Os sintomas mais comuns são dor de cabeça, enjoo, dor abdominal, visão turva, secura na boca e diarreia.

A psicoterapia é também muito importante para o tratamento da criança, auxiliando a criança a enfrentar os problemas de uma forma mais clara, permitindo ainda que a criança crie melhores hábitos relacionados ao transtorno que esta vivendo. O tratamento psicoterápico estimula todo o contexto social da criança e envolve a participação dos pais e professores, que por sua vez, atuam na manutenção das orientações no dia a dia, permitindo um melhor ambiente de convivência da mesma. Outras atividades como esportes, teatro, artes e música, podem auxiliar ainda em um processo de tratamento, tendo em vista o aumento da autoestima que estes podem acarretar na criança.

O tempo de tratamento é bastante variado, principalmente o psicoterápico, intervenção psicofarmacológica deverá permanecer entra quatro a seis meses. É comum que no início do tratamento com antidepressivos os sintomas desapareçam em um período de 10 a 20 dias aproximadamente. Entretanto o tratamento deve ser mantido pelo tempo mínimo descrito pelo médico. A interrupção do tratamento pode levar a recaídas, o que no futuro pode levar a um quadro clínico chamado de depressão crônica.

A prevenção da depressão infantil passa obrigatoriamente pela dinâmica familiar. Laços afetivos com familiares, professores e amigos estimulam o desenvolvimento psicossocial. Muitas vezes a falta destes vínculos faz com que a situação passe despercebida dentro de casa ou da escola. É comum que crianças quietas, tímidas e isoladas sejam tachadas como “bem comportadas”, entretanto, deve-se levar em conta que o comportamento das crianças, normalmente, é distinto disso e crianças que fiquem isoladas e que não possuam bom rendimento escolar devem ser monitoradas mais de perto. Outro problema ainda é que muitos pais não aceitam diagnósticos de DI em seus filhos. Acreditando que estas alterações de humor são passageiras e fazem parte do processo psicossocial de desenvolvimento da criança.

Finalmente, não restam dúvidas que os transtornos de humor atingem um número muito de crianças e adolescentes. As pesquisas mais atuais vêm apontando, um aumento no número relativo de crianças com sintomas de depressão. Vários fatores são indicados sobre este aumento. As rápidas mudanças sociais e familiares parecem ter relação com estes índices, porém seria ingênuo acreditar que somente este aspecto seria preponderante estatisticamente. Realmente a família tem uma função mais de cuidado e proteção dos processos que levam aos transtornos do que o contrário. Enfim, a depressão infantil deve ser um tema estudado e discutido por familiares, escolas e outros agentes envolvidos, prevenindo-se assim diagnoses tardias que podem acarretar em problemas mais sérios no futuro.

O que devemos ter em mente é que a prevenção é sempre o melhor caminho, e que os sintomas descritos, se aparecerem, não devem ser subestimados, esses transtornos podem afetar o desenvolvimento das crianças podendo deixar sequelas importantes. De qualquer maneira estar atento e ouvir as crianças é sempre importante, se colocar no lugar delas, entender sua ótica, ajuda-las sempre que achar necessário e auxiliá-las na resolução de problemas fazem com as crianças se sintam mais seguras e que corram menos riscos de desenvolver algum tipo de transtorno.


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