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Por que as vacinas são importantes?
 
 
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IMUNIZAR! SIM OU NÃO?

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Desde sua criação, no século XVIII, as vacinas foram responsáveis pelo combate a inúmeras doenças. Para muitos membros da comunidade científica, elas estão entre as maiores invenções da humanidade. Em sua curta existência, já ajudaram a salvar as vidas de milhares de pessoas em todo mundo. Foram as vacinas que erradicaram do Brasil, em 1989, a poliomielite, doença que provocava a paralisia infantil.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as vacinas foram as principais responsáveis por erradicar inúmeras doenças de dezenas de países. Antes do surgimento desse tipo de tratamento, doenças como a tuberculose e a varíola matavam milhares de pessoas. De acordo com a OMS, somente a varíola matou cerca de 300 milhões de pessoas entre 1896 e 1970, período no qual a aplicação da vacina se espalhava por todo o planeta. O mesmo ocorreu durante as epidemias de sarampo, gripe, hepatite e rubéola. Portanto, antes do surgimento das vacinas e de sua utilização global, milhares de pessoas morreram por não estarem imunizadas.

Em seu site, a OMS afirma claramente que as vacinas que fazem parte dos programas nacionais de imunizações adotados pelos serviços públicos de saúde são seguras. No máximo, segundo a instituição, elas podem causar alguma reação temporária, porém sempre leve. Para o especialista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo Cláudio Pannuti, desconhecer os feitos benéficos das vacinas “é uma estupidez sem limites”. A maioria dos especialistas considera que os efeitos adversos sérios são muito raros e por isso devem ser compreendidos dentro das inegáveis vantagens que a vacinação maciça produz.


História
A história das vacinas é longa. Na Grécia Antiga, o historiador Tucídides já havia notado que pessoas que contraiam varíola uma vez e sobreviviam não eram mais infectados pela doença. Depois, os chineses, entre os séculos XIV e XVII, passaram a imunizar pessoas com crostas pulverizadas das pústulas da varíola, em um processo que ficou conhecido como variolação. Com o tempo, esse método chegou ao Norte da África, através das caravanas, e finalmente à Europa.

Edward Jenner
Em 1796, o britânico descobriu a vacina moderna e provou para a comunidade científica de então sua eficiência. Em 1803, o método criado por Jenner recebeu apoio do governo britânico e ele fundou o Royal Jennerian Institute, primeira instituição voltada para a vacinação da população. Em poucos anos, o método havia sido adotado por diversos governos em inúmeros países. Porém, não foi sem oposição que as vacinas se impuseram. Em muitos lugares, a população temia as vacinas e inúmeras sociedades se rebelaram contra o método.

Foram inúmeras as revoltas e a descrença popular em relação às vacinas.


Revolta da Vacina
Aqui no Brasil, em 1904, a população do Rio Janeiro, então capital do país, se revoltou contra a obrigatoriedade da vacinação de combate à varíola imposta pelo governo. Foi em razão disso que a cidade acabou se tornando palco do movimento que ficou conhecido como Revolta da Vacina, o qual, em oito noites do mês de novembro de 1904, levou caos para as ruas do Rio. Lojas foram saqueadas. Propriedades públicas foram destruídas. O movimento chegou inclusive a criar a Liga Contra a Vacina Obrigatória.

Após a revolta ser contida, o então presidente Rodrigues Alves determinou que os responsáveis fossem presos e mandados para o Acre. Só depois de encerrada a revolução que o governo, através do trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz, foi capaz de vacinar toda a população. Muita vez, a vacinação era feita à força, com a polícia invadindo casas e obrigando os moradores a tomarem o medicamento. Em 1904, no ano da revolta, cerca de 3,5 mil pessoas morreram vítimas da varíola na capital carioca. Em 1906, a cidade teve nove mortes em razão da doença. Em 1910, somente uma vítima fatal. Portanto, em menos de uma década, a vacinação no Rio erradicou a doença da cidade.


A globalização das vacinas
Na década de 1880, Louis Pasteur descobriu a vacina de combate à raiva. Na década seguinte, o cientista japonês descobriu as antitoxinas para combater a difteria e o tétano. Alguns anos depois, por volta da década de 1920, os programas de vacinação foram adotados em praticamente todo o mundo.

Funcionamento
O pleno funcionamento das vacinas só ocorre se sua aplicação for massiva, isto é, o patógeno deve ser combatido através da imunização do maior número possível de pessoas. Quanto mais indivíduos forem vacinados, menor a capacidade do patógeno se espalhar.

As vacinas funcionam através da inoculação de agentes patógenos (vírus ou bactérias) atenuados ou mortos. Esses agentes levam o corpo a produzir anticorpos e assim livram pessoas de contraírem as doenças.

Conforme a OMS, toda vacina é um preparo biológico que melhora a imunidade do indivíduo que a recebe contra uma doença específica. Uma vacina geralmente contém um agente que se assemelha a um micro-organismo causador dessa doença. Ele é frequentemente feito a partir de formas atenuadas ou mortas dos micróbios, de suas toxinas ou uma das suas proteínas de superfície. O agente que a vacina leva ao nosso organismo estimula o sistema imune do nosso corpo a reconhecê-lo como algo externo e a destruí-lo. Depois desse processo, o sistema imunológico pode mais facilmente reconhecer e destruir qualquer um destes microrganismos quando encontrá-los novamente mais tarde.


Polêmica
Em toda sua história, as vacinas foram alvo de críticas de determinados grupos que não acreditam em sua eficácia. Atualmente conhecidos nos EUA como “anti-vaxxers” (antivacinas), essas pessoas defendem que as vacinas podem causar autismo e outras doenças. Alguns afirmam também que os tratamentos feitos com vacinas não são efetivos. Porém, a comunidade científica, baseada em inúmeros estudos, contradiz tais afirmações. Amplas pesquisas feitas por diversas organizações comprovam que as vacinas não causam autismo.

O problema com os “anti-vaxxers” é que eles podem colocar em risco todo um trabalho de vacinação. Quanto maior for o número de pessoas não vacinadas, maiores são as chances de alguns vírus voltarem a se espalhar. Isso ocorre porque até mesmo um pequeno grupo de pessoas não vacinadas pode ajudar a manter viva uma doença, a qual, com o tempo, pode voltar e fazer uma grande quantidade de vítimas.

Essa barreira produzida pela ampla imunização ajuda a proteger as parcelas da população que são mais vulneráveis às doenças: crianças com menos de 12 anos, mulheres grávidas, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido.

O grande problema com esses grupos de pessoas antivacinas e que eles podem, de certa forma, tornar mais difícil a batalha contra doenças como a poliomielite e o sarampo, as quais em muitos lugares haviam sido erradicadas.

Esse movimento antivacina ganhou força a partir de 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou na Lancet, a mais prestigiosa revista de saúde do planeta, um estudo no qual afirmava que a imunização feita pela vacina tríplice viral estava relacionada ao aumento nos casos de autismo em crianças.

Após uma imensa polêmica, ficou provado que a pesquisa de Wakefield utilizava dados falsos. O médico também recebia dinheiro de advogados envolvidos em processos de compensação por danos que teriam sido produzidos por vacinas. Wakefield teve sua licença médica cassada.

O prejuízo produzido pela pesquisa fraudulenta de Wakefield gerou, entre outras coisas, o ressurgimento desse movimento antivacina e o reaparecimento de doenças como o sarampo nos Estados Unidos, país onde essa patologia havia sido considerada erradicada em 1999.

Também há alguns outros grupos, como os amish nos EUA, que não vacinam seus filhos por motivos religiosos.

Segundo Gabriel Oselka, médico e professor de Pediatria na Universidade de São Paulo (USP), todas as vacinas “são extremamente seguras e é muito raro provocarem reações graves. Na verdade, hoje estamos vivendo um paradoxo. As vacinas são de certa forma vítimas de seu próprio sucesso, porque as pessoas acabam perdendo a memória do que as doenças representavam antes de serem controladas pela vacinação e saem por aí dizendo: ‘Por que vou tomar vacina contra sarampo, por exemplo, já que a doença nem mais existe?’. Se todos pensarem assim, o sarampo volta e repete o estrago que fazia. E não é só ele. Voltam a tosse comprida e o crupe que eram causa de morte em crianças, mortes que foram evitadas porque se controlou a incidência dessas enfermidades exclusivamente com a utilização das vacinas”.

Há um número cada vez maior de pessoas com medo dos efeitos das vacinas. Muitas vacinas podem gerar quadros de febre, inchaço e dor no local da injeção e náuseas, porém, é importante frisar que todos esses sintomas são passageiros.

Nos últimos anos inúmeras doenças consideradas erradicas voltaram a aparecer. Em 2015, a Espanha confirmou seu primeiro caso de difteria em 28 anos. A vítima era uma criança de 6 anos. Na Flórida, no mesmo ano, um surto de sarampo chegou inclusive a afetar a Disneylândia. Dois anos antes, em 2013, os Estados Unidos foram palco da maior epidemia de coqueluche das últimas cinco décadas. A volta da doença atingiu aproximadamente 50 mil pessoas.

Em cidades como Londres, o número de crianças vacinadas com a tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba), que superava os 90% na década de 1990, caiu para 61% e voltou a produzir vítimas fatais. A primeira delas foi um garoto de 13 anos, que morreu em 2006 após contrair sarampo. A morte interrompeu um período de 14 anos sem vítimas fatais dessa doença no Reino Unido.

Outro local onde essa febre antivacina ganhou força nos últimos anos é a Califórnia, nos EUA. Apoiadas por celebridades como a apresentadora de TV Oprah Winfrey, o ator Jim Carrey e a modelo Jenny McCarthy as ideias dos antivacina se espalharam e produziram uma redução considerável no número de pessoas vacinadas no país. Isso, por sua vez, fez com que a rica Califórnia apresentasse, em 2014, números de vacinação inferiores aos de nações africanas como o Chade. O risco é de algumas doenças já erradicadas retornarem com força para a Califórnia caso o número de vacinações continue diminuindo.


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