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Globalização
 
 
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 MANIFESTAÇÕES GLOBAIS
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Pizza, batata frita e sushi. Quem não conhece esses alimentos? Quem nunca se empanturrou de pedaços e mais pedaços de farinha, molho de tomate e queijo sob a forma de um disco redondo que vai ao forno, se lambuzou de batatas cortadas em finas tiras fritas em óleo abundante ou apreciou a fina iguaria japonesa feita com arroz e algas marinhas?

Todas essas comidas são exemplos de um fenômeno de natureza política, econômica, social e cultural de grande complexidade que recebeu, nas últimas décadas o nome de globalização.


O que é globalização?
A palavra globalização já nos dá uma pista do sentido desse fenômeno: uma manifestação de caráter global, isto é, de algo que acontece em todo o mundo. Isso que acontece em todos os lugares do planeta pode ser a existência de hamburguerias nos quatro cantos do mundo, você utilizar o seu cartão de crédito internacional em viagens ao exterior – o mesmo cartão que você usa no Brasil – ou ligar o rádio em um país distante e ouvir... as mesma músicas que ouve no rádio do seu carro indo para o trabalho ou para a escola na sua cidade.

Globalização é, assim, a difusão, em escala global, de produtos culturais e financeiros e a correspondente estruturação dos processos produtivos do capitalismo contemporâneo para que essa difusão ocorra. Para funcionar a contento, a globalização estabelece cadeias globais de fabricação e comércio de mercadorias de todo tipo. O celular que você carrega no bolso foi projetado nos Estados Unidos (Apple) ou na Coreia (Samsung), mas ambos foram, posteriormente, fabricados na China por conta dos baixos custos de produção ali oferecidos. E da mesma forma, inúmeros outros produtos, de têxteis a eletrônicos, de máquinas a ferramentas.

Além disso, a globalização também padroniza os mercados financeiros globais que passam a permitir a troca livre de capitais, num fluxo financeiro capaz de operar 24 horas por dia: a qualquer hora do dia, há alguma bolsa de valores em funcionamento em algum canto remoto do planeta.

Por último, mas não menos importante, a globalização inclui a padronização de produtos culturais e a prevalência de novas mídias decorrentes dos avanços tecnológicos, gerando transmissão simultânea para todo o mundo de eventos verdadeiramente globais, sejam eles a Copa do Mundo, as Olimpíadas, a final do Superbowl ou o grande show da última estrela do rock ou da música pop. A globalização é, portanto, o resultado da expansão sem precedentes de processos e empresas que de nacionais ou regionais passaram a ter atuação global.

Embora a globalização seja visível em tudo que nos cerca – é muito provável que você tenha algo “fabricado na China” em sua casa –, o termo globalização é um dos mais controversos das ciências sociais e econômicas. Alguns estudiosos chegam a afirmar que ela, de fato, não existe. O antropólogo estadunidense James Clifford, por exemplo, argumenta que milhões de pessoas, nas partes mais pobres do planeta, desconhecem a existência da globalização e não são, portanto, por ela afetadas.

O sociólogo alemão Ulrich Beck, ao contrário, afirma que fenômenos como a mudança climática, fruto da crescente globalização da produção e do consumo planetários, demonstra como, mesmo quando não estamos a par do que está por trás de alguns fenômenos globais, eles, mesmo assim, estão agindo e nos afetando. Além disso, instituições globais como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outras similares, seriam prova que, com efeito, há uma ordem internacional que subjaz o fenômeno conhecido como globalização.

Essas divergências surgem porque a globalização possui não apenas aspectos econômicos, que, em geral, costumam ser os mais destacados pelos analistas políticos, mas também históricos e culturais. Assim, um economista, um historiador e um filósofo darão respostas diversas ao que se entende por “globalização”. Outro fenômeno bastante comum é a dúvida que surge logo após uma definição qualquer de globalização: mas, afinal, trata-se de algo bom ou ruim? Novamente, a resposta dependerá de quem fala quando emite um juízo a respeito do fenômeno. Para alguns, ela é inevitável e conecta o mundo em uma troca de informações e mercadorias benéficas para todos. Para outros, ela reduz as diferenças nacionais e reduz a diversidade planetária, sendo, portanto, algo ruim.


Quando a globalização começou?
Outro fator de divergência em relação à globalização é sua datação. Seus estudiosos também não concordam quanto a outro aspecto básico do fenômeno: a data do seu nascimento.

Para alguns, a globalização nada mais é do que a continuidade do antigo sistema de comércio internacional, existente desde a antiguidade e portanto, tão antigo quanto as civilizações grega e romana, há mais de 2500 anos. A essa corrente filiam-se os adeptos da chamada teoria da dependência – entre um centro desenvolvido e uma periferia subdesenvolvida – ou da teoria conhecida como sistema-mundo – com sua ênfase no mundo como unidade de análise social e econômica em detrimento dos estados nacionais –, como André Gunder Frank e Immanuel Wallerstein. Entre nós, brasileiros, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um dos representantes da teoria da dependência e em seus governos (1994-2002) chegou a afirmar que o mundo vivia “um novo Renascimento”, referindo-se à expansão da globalização comercial então em curso.

Outras correntes argumentam, porém, que as mudanças provocadas pelos regramentos internacionais do comércio, pelas novas formas de fazer negócios, pelos avanços tecnológicos, pela padronização cultural e pelas configurações de blocos econômicos e de poder do século 20 foram tão intensos e significativos que é preciso datar a globalização como um fenômeno posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando essas mudanças têm início.

Como prova de seus argumentos, esses estudiosos apresentam dois fenômenos de fácil reconhecimento: as mudanças dos mercados financeiros nacionais e a nova conformação da mídia. Por que, perguntam eles, devemos saber se a Bolsa de Tóquio caiu ou subiu? E por que devemos ser informados instantaneamente desse acontecimento por agências de notícias internacionais presentes em quase todos os países, com seus correspondentes e âncoras de TV? A resposta é simples: quase tudo, agora, é relatado em termos de seu possível impacto global porque a globalização é um fenômeno recente, surgido a partir da nova configuração do capitalismo decorrente do rearranjo geopolítico do pós-guerra, na segunda metade do século passado.


A globalização e a cultura
Resta pouca dúvida que, embora o comércio dos antigos gregos possa ser visto como uma forma rudimentar e inicial de globalização, a globalização seja um fato social total recente. São exemplos desse fato social total em termos culturais, a difusão global de produtos originalmente locais como as pizzas italianas, as batatas fritas francesas e os sushis japoneses e o que os antropólogos chamam de gosto cosmopolita e global: encontramos pizzas, batatas fritas e sushis em todos os lugares do mundo porque o gosto mundial foi “globalizado”. O sociólogo estadunidense George Ritzer chega a falar em “macdonaldização” do mundo para referir-se a esse fenômeno, embora ele não seja, de fato, exclusivamente estadunidense (local de origem da empresa a qual ele se refere), mas produzido a partir dos mais diversos países.

Contribui para essa impressão de uma ascendência estadunidense no fenômeno da globalização sua poderosa indústria cultural. Com efeito, o cinema e a música produzidas pelos Estados Unidos são disseminados nos quatro cantos do planeta e, hoje, é mais fácil assistir a um blockbuster hollywoodiano nos shopping centers das grandes capitais e conhecer os últimos sucessos das paradas de sucesso estadunidenses do que ter acesso a filmes e músicas locais.

De toda forma, globalização não é um fenômeno exclusivo de um país, mas como o próprio termo indica, em essência, algo global e disseminado no espaço geográfico planetário.


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