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Água, quando o planeta azul passa sede
 
 
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Dia 22 de Março, dia Mundial da Água.

A água é a essência da vida e, em torno dela, desenvolveram-se todas as civilizações da Terra. Por muito tempo, ela foi considerada um recurso inesgotável. O crescimento da população mundial, no entanto, fez com que, no século XXI, a água tenha se transformado em um bem escasso. Hoje, mais do que nunca, o planeta passa sede. Uma situação que, segundo a ONU, será a causa dos conflitos territoriais em todo o mundo nos próximos 50 anos.

Preocupada com esse futuro sombrio, já em 2003, a ONU proclamou aquele ano como o Ano da Água Doce. Pouco depois, a Unesco declarou o período que vai de 2005 a 2015 com o nome de Década Internacional para a Ação “A água, fonte de vida”. Desde então, a água se tornou uma das grandes preocupações da política mundial. A Exposição Internacional sobre Água e Desenvolvimento Sustentável, inaugurada em 2008, em Zaragoza (Espanha), tentou chegar a um compromisso internacional para a correta gestão dos recursos hídricos no século XXI.


O PERCURSO DA ÁGUA
A quantidade de água na Terra não variou em milhões de anos. Sempre foi a mesma e, segundo os cientistas, isso sempre será assim. O ciclo natural da água faz com que ela nunca aumente nem diminua. No entanto, o aumento do consumo em escala mundial e a contaminação dos principais rios e aquíferos fizeram com que esse líquido necessário para a vida começasse a ficar escasso, inclusive nas regiões mais desenvolvidas do planeta. Os prolongados períodos de seca que algumas regiões agrícolas sofrem acentuaram o problema de distribuição da água no mundo. A mudança climática radicalizou os fenômenos naturais e é cada vez mais frequente que, enquanto algumas áreas do planeta se desertifiquem, outras sofram com as maiores inundações de sua história.

Cerca de 97,5% da água da Terra é salgada. Apenas 2,5% da água é doce, mas isso não quer dizer que toda ela seja acessível ou potável. Dessa quantidade de água doce, 2,47% correspondem ao gelo das calotas polares e às águas subterrâneas dos aquíferos, o que deixa meros 0,03% disponíveis na superfície do planeta, distribuídos entre lagos, rios e a atmosfera do planeta. A água é, portanto, um dos recursos mais escassos com os quais o homem conta. E, ao mesmo tempo, é o mais necessário.


ÁGUA PARA TODOS
Ao longo do século XX, a demanda mundial de água se multiplicou por sete. De toda a água consumida na Terra, 69% se destina à agricultura, 23% à indústria e os 8% restantes se destinam ao uso doméstico. Os países desenvolvidos gastam mais água para uso doméstico (10%), enquanto os subdesenvolvidos destinam uma quantidade maior para a irrigação agrícola (50%).

A água potável, um elemento essencial para a vida, é um bem inacessível para milhões de pessoas em todo o mundo. Calcula-se que, a cada oito segundos, uma criança morra em virtude de alguma doença transmitida pela água insalubre, isto é, água imprópria para o consumo humano. Além disso, a carência desse recurso obriga milhões de cidadãos, normalmente mulheres e meninas, a se deslocar diariamente até lugares muito distantes para se abastecer de água. Depois precisam transportá-la até suas casas.

A escassez de água potável está, hoje, entre as prioridades da agenda política internacional. Estima-se que os 7 bilhões de habitantes da Terra consomem mais da metade da água doce disponível. Se a situação não mudar, essa quota aumentará para 70% no ano de 2025 por causa do crescimento demográfico. Além disso, dos 26 países da África e da Ásia que sofrem, atualmente, uma situação de escassez de água, calcula-se que, nos próximos 50 anos, várias nações como Argélia, Egito, Líbia, Marrocos e Tunísia terão grandes problemas de desabastecimento.

Como consequência dessas expectativas, a água começou a ter um valor comercial maior, nor últimos anos. Os recursos hídricos começam a ter donos, um fato que deve ser evitado a todo custo para que, no futuro, não seja gerada um crise mundial. Enquanto o Terceiro Mundo não conhece a água potável, os restaurantes de luxo das grandes cidades dos países mais desenvolvidos oferecem junto com sua carta de vinhos uma seleção de águas minerais das mais diversas origens. Na Europa, o consumo de água engarrafada cresce em um ritmo anual de 12%. Na maioria dos casos, trata-se de água mineral ou de manancial (ou seja, procedente somente de fontes naturais), porém, nos últimos anos já chegaram ao mercado as chamadas água potabilizadas, tratadas ou purificadas. Estas não são nada mais do que água obtida da rede de abastecimento público e filtrada para eliminar alguns resíduos inócuos (assim como fazem os filtros que podem ser colocados nas torneiras das casas). Em outros casos, essa água é obtida de aquíferos subterrâneos e, por isso, também tem de ser tratada microbiologicamente. Segundo o informativo elaborado em 2003 pela Unesco, esse tipo de água “só se diferencia da água de torneira tratada ou filtrada, como é comum na Europa e nos Estados Unidos, pela maneira como é distribuída (em garrafas em vez de ser por meio das tubulações) e por seu preço”, muito mais caro.

Tanto os grupos ecologistas como as associações de consumidores alertaram sobre a entrada dessas marcas no mercado. Os primeiros denunciam o dano ecológico que significa engarrafar em embalagens plásticas milhões de litros de água cuja qualidade não é superior à da torneira. As associações se queixam do abuso que esse produto representa para o bolso e o direito de escolha dos cidadãos, que até agora sempre tiveram a certeza de que a água engarrafada era mineral, e cobram uma rotulação diferente para que o consumidor não se sinta enganado. É paradoxal que, enquanto nos países mais avançados muitos cidadãos se neguem a beber água da torneira, em mais de 50 países subdesenvolvidos a população não possa dispor de água corrente em suas casas.


UM NOVO DIREITO HUMANO
Nos últimos anos, vários países iniciaram uma política de privatização da água por meio da concessão dos serviços de distribuição a empresas particulares. Esse fato pode se transformar em um problema grave para os cidadãos, pois se a água é considerada um serviço e não um direito, as companhias privadas podem ter o controle absoluto sobre as tarifas cobradas por seu fornecimento. Em lugares muito distantes um do outro, como Cochabamba (Bolívia), Soweto (África do Sul) e Jacarta (Indonésia), ocorreram grandes manifestações contra a privatização das redes de abastecimento de água. Em algumas cidades, o aumento do preço da água em virtude da privatização já resulta no comprometimento de 10% do salário de um trabalhador para sua aquisição. Regiões agrícolas como Cochabamba, considerada o celeiro da Bolívia, são as mais suscetíveis a sofrer com problemas econômicos decorrentes da privatização dos recursos hídricos.

A privatização dos recursos hídricos preocupa, além da cidades citadas, os países e na Expo de Zaragoza surgiram vozes contrárias exigindo que a água fosse considerada um direito e não um produto comercial. A guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz, afirmou na ocasião que “a água é o coração dos problemas da Terra” e pediu mudanças legislativas tanto nacionais quanto internacionais, para que “a água fosse consagrada como um bem universal”. Do mesmo modo, cobrou que as leis evitassem “a privatização das fontes e das fozes de água, origem das desigualdades”. A maioria dos especialistas congregados na Tribuna da Água da Exposição de Zaragoza advogou pela necessidade de que a água fosse considerada um direito de todos os cidadãos da Terra.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 1,5 milhão de pessoas não têm acesso à água potável e mais de 5 milhões morrem por ano em função de doenças derivadas da desidratação e do consumo de água insalubre. Na cidade de Jacarta, a contaminação do Ciliwung, um rio coberto de lixo em toda sua extensão, cujas águas abastecem 8 milhões de cidadãos, provoca frequentemente graves problemas gastrintestinais na população. A falta de água potável não afeta apenas a saúde, mas impede o desenvolvimento agrícola e também limita a produção de alimentos básicos como o arroz e outros cereais. Sem água o planeta não somente passa sede, como também fome.


POBREZA LÍQUIDA
Já se fala de pobreza hidrológica para denominar a situação daqueles países que, embora possuam outros tipos de riquezas, logo carecerão de água para suprir as necessidades de suas populações. A ONU estabelece que uma população encontra-se em uma situação de “estresse hídrico” quando seu país não pode garantir um índice de 1.700 metros cúbicos de água por indivíduo ao ano. Nesse caso, os problemas de desabastecimento provocam tensões entre as regiões do próprio país e estes logo atravessam as fronteiras locais.

Segundo a ONU, mais de 50 países (30% da população mundial) não contam com os recursos e infraestruturas necessários para assegurar o abastecimento de água potável a todos os seus habitantes. Atualmente, em algumas regiões como a Palestina, os cidadãos não atingem os 300 metros cúbicos por pessoa ao ano e os acordos sobre o acesso à água são um dos pontos-chave para suas negociações de paz com Israel. O governo israelita utilizou o controle da água para pressionar a Palestina e proibiu as perfurações de novos poços nos territórios palestinos ocupados em 1967, enquanto não teve inconvenientes em autorizá-las nos novos assentamentos judeus. A água se tornou, assim, uma arma política e um sistema de pressão muito efetivo que também se encontra entre as causas do conflito africano de Darfur, no Sudão.


AS GUERRAS DO FUTURO
A situação de “estresse hídrico” aumentará conforme o século XXI avança. A ONU calcula que, em 2025, mais de 3 bilhões de pessoas viverão sob o limiar da pobreza hidrológica. Em 2050, a situação será ainda pior, pois a cifra aumentará até os 5,3 bilhões de pessoas. Os países pobres da África e da Ásia serão os mais afetados, embora também venham a sofrer com a escassez as nações árabes em vias de desenvolvimento. Se isso chegar a acontecer, poderão ocorrer grandes conflitos territoriais, sobretudo nas chamadas fozes compartilhadas.

São muito poucos os países que dispõem de recursos hídricos exclusivos. Na atualidade, 47% da população mundial vivem em alguma das 215 fozes hidrológicas compartilhadas por várias nações. Assim, 3,3 bilhões de pessoas dependem da cooperação entre seus países e os vizinhos para ter garantido o abastecimento de água. A construção de uma represa ou o desvio do curso de um rio em um país que compartilha sua foz com outros pode, assim, afetar gravemente a economia dos países contíguos.

A ONU se esforça para lembrar que a política hidrológica de cada país tem de respeitar o acesso à água das nações vizinhas e, por isso, insiste em que estas sigam seus planejamentos comuns. Nesse sentido, as retilíneas fronteiras africanas, traçadas de forma arbitrária durante o período colonial africano, podem provocar graves conflitos no futuro. Noventa por cento da água doce que corre pela África está em rios e lagos compartilhados por várias nações. O caso de Darfur deu início a grandes migrações em busca de água. O conflito dessa região situada no oeste do Sudão teve início em 2003, após uma dura seca que provocou graves incidentes entre os agricultores nativos e os pastores nômades que cruzavam a região. A água tornava-se escassa e a fome se acentuava em toda a área. Como resultado disso, ocorreu uma guerra étnica entre as populações negra e árabe da região que pôs fim a anos de convivência em perfeita harmonia. O conflito de Darfur foi a primeira guerra por água do século XXI e deixou mais de 400 mil mortos e mais de 2 milhões de refugiados.

Não existem tratados internacionais que regulem a divisão da água dos rios que cruzam várias nações. Por isso, se um governo decide fechar a torneira (construindo uma represa ou desviando os leitos fluviais, por exemplo), pode deixar desabastecidos milhões de cidadãos de outros países vizinhos. Isso fez do Oriente Próximo uma área muito conflituosa por causa da confluência das fozes do Tigre-Eufrates, do Jordão e do Nilo. No caso do Eufrates, a Turquia planeja construir uma grande represa que poderia colocar em perigo as zonas agrícolas da Síria e do Iraque, cujos campos dependem das águas desse rio, pois de toda água necessária para sua manutenção, 35% vem da foz do Eufrates. Na foz do Jordão, os conflitos afetam, por um lado, a Síria e a Jordânia, e por outro lado, confrontam Israel com a Síria e o Líbano. No entanto, o maior conflito da região acontece na foz do Nilo, pois a Etiópia pretende explorar sua cabeceira com represas e reservatórios que diminuirão o caudal do rio em sua passagem pelo Egito e pelo Sudão.

Na Ásia, a situação não é muito mais alentadora. A construção da represa de Farakka, na Índia, afetou o caudal do rio Ganges, fato que teve graves repercussões nos campos do Nepal e de Bangladesh, dois países regados por suas águas. Na China, a construção das represas das Três Gargantas no rio Yangzi Jiang modificou a distribuição da água em todo o país. Nos próximos anos, a construção de 50 represas chinesas sobre o rio Mekong afetará de forma negativa as relações da China com seus países vizinhos, sobretudo, com o Vietnã, pois as obras de engenharia autorizadas pelo governo chinês limitarão a chegada da água ao delta do rio, uma zona agrícola da qual dependem milhões de camponeses vietnamitas. No futuro, o conflito hídrico se estenderá por outras regiões da Ásia, onde vários países disputam as águas dos rios Amú Daryá (que serve de fronteira entre Afeganistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão) e Syr Daryá (que cruza o Cazaquistão, o Uzbequistão e o Tajiquistão).

Na América, o principal conflito acontece na fronteira entre o México e os Estados Unidos, devido, sobretudo, à superexploração do rio Bravo (ou rio Grande) por ambas as nações; na Amazônia brasileira, os indígenas se opõem à construção de uma represa no rio Xingu que colocaria suas terras em perigo.


INUNDAÇÕES E SECAS
Um dos fatores que mais influenciam na situação hídrica atual do planeta é a mudança climática. Enquanto metade do planeta sofre com a seca e a desertificação, a outra metade é afetada pelas grandes inundações e pelos desastres naturais provocados pela água, como os tsunamis ou os ciclones. A radicalização do clima representa uma ameaça para a agricultura e para a configuração do planeta. O aumento da temperatura da Terra está provocando o degelo das calotas polares e a desertificação do norte da África e do sul da Europa. O planeta azul vive, agora, ameaçado por um aquecimento que pode modificar o mapa da distribuição da água.

Além disso, nas áreas com mais riscos de desertificação, os aquíferos de água doce são superexplorados e correm o perigo de se esgotar por causa do aumento de sua salinidade, que faz com que o líquido deixe de ser próprio para o consumo humano e para o uso na agricultura. O esgotamento das reservas hídricas subterrâneas representa uma grave ameaça para a segurança alimentar, tanto dos países desenvolvidos quanto dos que se encontram em vias de desenvolvimento, pois grande parte da água utilizada para irrigar os campos procede, frequentemente, desses poços.

A tecnologia começou a olhar para os oceanos e, atualmente, há grandes esperanças nas plantas dessalinizadoras, capazes de transformar a água do mar em água própria para o consumo após um simples, embora custoso, processo industrial. Hoje em dia, são dessalinizados mais de 24 milhões de metros cúbicos diários de água. Na prática, essa quantidade permite o abastecimento de mais de 100 milhões de pessoas.


A EXPO DE ZARAGOZA
A escassez de água no planeta azul exige maior moderação no consumo e maior economia. Na Exposição Internacional sobre Água e Desenvolvimento Sustentável realizada em Zaragoza (Espanha), em 2008, o então presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero defendeu que todas as nações chegassem, no futuro, a assinar grandes acordos sobre a água. Zapatero afirmou que “a divisão de água precisa de uma solidariedade imperiosa e responsável com aqueles que não têm nem o mínimo”.

Por sua parte, o então presidente do México, Felipe Calderón, solicitou à comunidade internacional um maior esforço para desenvolver projetos internacionais que permitissem o uso correto da água, assim como seu reaproveitamento e reciclagem. Calderón mencionou sua própria gestão no México e se comprometeu a trabalhar para que a água potável fosse uma realidade para todos os mexicanos. O presidente fez uma autocrítica e assegurou que 10 dos 105 milhões de mexicanos ainda não tinham acesso à água potável em suas casas.

Por sua vez, Edmundo de Alba, então assessor do Instituto Mexicano de Meteorologia em matéria de sustentabilidade, afirmou que “no mundo, a água está tão mal distribuída quanto a riqueza” e defendeu o replanejamento de um novo mapa mundial para a sua distribuição.

Outros países, como o Brasil, mostraram por meio de seus políticos e representantes enviados a Zaragoza seu compromisso em fazer com que o acesso à água potável seja uma realidade para todos os cidadãos do planeta. O então presidente da Aliança Nacional de Águas do Brasil, José Machado, lembrou que em seu país viviam, à época, 186 milhões de pessoas, das quais 10% não tinham acesso à água e quase 50% não tinham conexão com um sistema de esgotos.

A Exposição de Zaragoza, por meio do fórum Água Compartilhada, que reúne especialistas de todo o mundo, propôs utilizar o termo bacia hidrográfica “para substituir as fronteiras traçadas com tira-linhas pela história e pela política”. Também mostrou técnicas inovadoras para obter água, como a desenvolvida por Roger Stone, responsável pelo National Task Group for Precipitation Enhancement Research [Força Tarefa Nacional para a Pesquisa do Aumento da Precipitação], na Austrália. Esse engenheiro desenvolveu um sistema baseado na chamada “semeadura de nuvens” que permitia provocar a chuva. Esta poderia representar uma grande iniciativa para fazer frente às secas provocadas pela mudança climática caso sua utilização se revele viável A Exposição Internacional sobre Água e Desenvolvimento Sustentável foi encerrada com a assinatura da Carta de Zaragoza, um código ético para a cooperação entre os países visando à correta gestão da água no século XXI.