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Frank Lloyd Wright e a arquitetura orgânica
 
 
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Frank Lloyd Wright sempre procurava um modo de integrar suas obras arquitetônicas ao entorno

Formas que parecem surgir da natureza. Materiais orgânicos que imitam a realidade. Curvas inspiradas no movimento natural dos corpos. Paredes que fluem como água em interiores diáfanos. A obra do estadunidense Frank Lloyd Wright é a descoberta de uma arquitetura que se integra ao entorno com perfeição. O criador do organicismo rompeu com um estilo de arquitetura que concebia as casas como um conjunto de quartos fechados e deixou que a luz e a energia invadissem cada canto. Nas suas casas, os cômodos são abertos e se integram aos outros por meio de um jogo de alturas e de materiais que multiplicam o espaço em uma combinação única. Desse modo, ele criou edifícios translúcidos, amplos e cheios de luz e, com isso, marcou o caminho que deveria ser seguido na arquitetura do século XX.

A FUNCIONALIDADE ANTES DA FORMA

Frank Lincoln Wright nasceu em Richland Center (Wisconsin, Estados Unidos) em uma data indeterminada que nem mesmo ele sabia, entre os anos de 1867 e 1869. A sua vocação foi incentivada desde cedo por sua mãe, que sempre quis que o filho fosse arquiteto e, para conseguir isso, encheu seu quarto de fotografias e plantas de grandes catedrais. Quando seus pais se divorciaram, em 1881, Frank decidiu mudar o seu segundo nome, Lincoln, para Lloyd e assumiu o sustento de sua mãe e irmãs enquanto cursava a universidade.

Começou sua carreira profissional como assistente do arquiteto Joseph Silsbee (1848-1913), de quem herdou o interesse pela construção assimétrica. Em 1888, Wright começou a trabalhar como aprendiz e projetista no Adler & Sullivan, o mais importante escritório de arquitetura de Chicago. O seu proprietário, Louis Sullivan, era considerado o melhor arquiteto estadunidense da época, criador do lema dos três efes: “Form follows function”, que normalmente é traduzido como “A função precede a forma”. A influência de Sullivan foi decisiva para a obra de Wright. O mestre buscava as formas abstratas, sem ornamentação, e defendia a necessidade de encontrar um estilo estadunidense que não estivesse baseado nos ideais clássicos europeus, enquanto o aluno buscava uma arquitetura moderna que não respondesse a um estilo ou a uma moda, mas sim a uma ordem natural. A ideia de que os edifícios deveriam se adaptar ao entorno onde seriam construídos fez com que Wright desenvolvesse o seu conceito de organicismo: “Arquitetura orgânica significa, mais ou menos, sociedade orgânica. Uma arquitetura inspirada nesse ideal não pode reconhecer as leis impostas pelo esteticismo ou pela moda”, escreveu em um dos seus livros teóricos.

Essa concepção da arquitetura e certas desavenças a respeito da cobrança de comissões fizeram o jovem arquiteto deixar Sullivan em 1893 para abrir o seu próprio escritório em Chicago, alguns anos antes de se casar com Catherine Lee Kitty Tobin, filha de um importante homem de negócios.


PERFEIÇÃO JAPONESA

Nos seus primeiros anos como arquiteto, Wright se uniu à Escola de Chicago, uma sociedade arquitetônica constituída para reconstruir essa cidade, devastada após um incêndio em 1871. A Escola de Chicago promoveu soluções de grande transcendência, como o uso de estruturas de aço à prova de fogo e, sobretudo, a construção de arranha-céus, que eram ideais para amortizar o custo econômico dos terrenos. Durante aqueles anos, a construção de arranha-céus conferia um grande prestígio, pois representava uma conquista arquitetônica sem precedentes. Cada arquiteto queria construir torres mais altas que as dos seus concorrentes, motivo pelo qual teve início uma corrida para ver quem era capaz de tocar antes o céu. No entanto, as preferências de Wright iam por outro lado.

Após uma viagem ao Japão em 1905, ele se sentiu atraído pela arquitetura do país asiático, principalmente pela distribuição de espaços em planos retangulares, robustos e transparentes. A importância da luz, da fluidez e o uso de tramas modulares próprias dos arquitetos japoneses podem ser apreciados nas suas primeiras obras como arquiteto independente, as denominadas casas da pradaria ou prairie houses. Nessas casas, Frank Lloyd Wright criou um tipo de arquitetura que se integrava ao entorno de uma maneira natural. As casas da pradaria se caracterizavam pelo uso da planta livre, o que significou uma revolução no âmbito da arquitetura, e pelo amplo espaço destinado às janelas, que já não eram simples aberturas nas paredes, mas sim paredes de vidro de enormes proporções. Além disso, Wright abandonou a distribuição tradicional, baseada em quartos quadrados e fechados, e abriu a zona habitável para o exterior por meio de cômodos interligados cujos muros se sobrepunham uns aos outros em diversas alturas.

Assim, Wright construiu várias moradias unifamiliares nas quais fez experiências com espaços interiores que se expandiam com fluidez e coberturas horizontais retilíneas, como a Casa Willits (1902-1906), em Highland Park, a Coonley (1907-1910), em Riverside, e a Robie (1908-1910), em Chicago. Os proprietários dessas casas também lhe proporcionaram a sua iniciação como design de móveis, uma atividade que acompanharia o arquiteto durante sua vida, e no planejamento de jardins, o que o levou a desenvolver o seu conceito de Usonian houses, casas que respeitavam a paisagem estadunidense. Para consegui-lo, o criador circulava vários dias pelo terreno, tomava notas de tudo e apontava os elementos naturais que teria de respeitar a todo custo. A presença de uma árvore ou de um arroio era suficiente para que Wright modificasse os seus planos iniciais, pois acreditava que a arquitetura deveria se integrar à natureza que a cercava e não o contrário.


PENSANDO NOS DEMAIS

Wright gostava dos edifícios nos quais os seus clientes pudessem viver, por isso procurava formas que não estivessem separadas da comodidade. Para ele, o sucesso não estava em criar algo belo, mas em alcançar a harmonia entre a beleza estética e a funcionalidade das formas. A arquitetura deveria melhorar a vida, motivo pelo qual nada ficava disposto ao acaso. Wright estudava cada milímetro dos seus edifícios para adequá-los às necessidades das pessoas que os habitariam. Esse pensamento não foi plasmado apenas nos projetos das suas casas, mas também nos seus conjuntos de escritórios.

Em 1905, levantou o edifício Larkin, em Buffalo, um monumental bloco escalonado de concreto e tijolos. Embora tenha sido destruído em 1950, entrou para a história por ser o primeiro edifício de escritórios com ar-condicionado, janelas duplas para manutenção da temperatura e portas de vidro para favorecer a entrada de luz. Wright pensou em todos os detalhes para simplificar as tarefas dos trabalhadores. Incluiu arquivos metálicos transportáveis, menos pesados que os de madeira, desenvolveu móveis de aço e equipou os banheiros com mictórios pendurados nas paredes, o que permitia que fossem limpos com mais facilidade.

Em sua busca pela funcionalidade e pelo espírito de cada edifício, criou o Unity Temple (1905-1908), em Oak Park (Chicago). Essa igreja dos unitários, uma doutrina que aceita qualquer um que acredite em Deus independentemente da sua religião, se destaca pela sua imponente disposição em dois blocos, seus pórticos exteriores e seus vitrais que tingem o interior de uma luz verde que lembra a natureza. O templo, que conferiu uma grande popularidade ao arquiteto, é considerado um dos primeiros do mundo a ser feito em concreto armado.

Como todo bom criador, depois de erigir suas obras, Wright decidiu que devia descansar e se presenteou com uma viagem de um ano. A sua escandalosa vida sentimental estava lhe custando caro, sobretudo depois de trocar sua mulher, Kitty, pela amiga Martha Mamah Borthwick Cheney, casada com um cliente. A publicação da sua relação extraconjugal nas páginas da sociedade do jornal Spring Ween, de Wisconsin, foi um duro golpe para sua carreira, e fez com que a polícia o detivesse por imoralidade e abandono dos seis filhos. Embora, no final, não tivessem sido apresentadas provas contra ele, vários organismos públicos cancelaram seus projetos com o arquiteto, que decidiu se refugiar com sua amante na Europa até que a tempestade passasse.

Mamah desempenhou um papel decisivo na difusão da obra de Wright no Velho Continente, pois era uma mulher moderna, feminista e intelectual, que falava seis idiomas e lhe foi de grande ajuda para se promover, principalmente na Alemanha. Na liberal Berlim do início do século XX, pouco importavam as confusões amorosas; por isso, a visão peculiar da arquitetura do estadunidense foi bem recebida e foi objeto de uma exposição monográfica e de um livro, Studies and Executed Buildings of Frank Lloyd Wright (em tradução livre, Projetos e Construções Executadas de Frank Lloyd Wright). Depois do sucesso em Berlim, o arquiteto e sua amante se mudaram para Fiesole, um povoado da Toscana próximo de Florença (Itália).


ASSASSINATO NA CASA DE LUXO

Após o seu retorno aos Estados Unidos, Frank Lloyd Wright construiu uma casa para si mesmo em alguns terrenos da família, em Wisconsin. Chamou-a de Taliesin e, em 1911, abriu ali um estúdio voltado para a formação de discípulos. Nessa casa ocorreu um dos acontecimentos mais terríveis da biografia de Wright. Em 1914, o mordomo, que o arquiteto tinha contratado havia alguns meses, provocou um massacre ao assassinar com um machado Mamah Cheney e seus dois filhos, três empregados do serviço doméstico e o filho de um deles. Para tentar ocultar os sete cadáveres, ateou fogo na casa.

Wright não se encontrava em Taliesin no momento do crime, pois estava ocupado com as obras de Midway Gardens (1914), um centro de lazer em Chicago. Quando ficou sabendo da tragédia, tentou superá-la sem abandonar as suas obrigações, mas não conseguiu. Seu filho Lloyd, também arquiteto, teve de se encarregar das obras da costa oeste, enquanto Frank dava ordens para a reconstrução da casa de Taliesin e se recuperava em Midway Gardens. Esse complexo onde a música, a arte e a vida noturna eram combinadas proporcionou a Wright um enorme prestígio em Chicago, sobretudo pela introdução de esculturas de estilo europeu realizadas pelo artista italiano Alfonso Iannelli nas fachadas. A crítica elogiou, principalmente, a decoração realizada por aquele escultor italiano desconhecido nos Estados Unidos, porém Wright tomou o devido cuidado para que o nome de Iannelli não fizesse sombra ao seu. Quando anos mais tarde Wright solicitou a sua colaboração para decorar o Hotel Imperial em Tóquio (Japão), mas Iannelli recusou a proposta, pois alegou que se o arquiteto queria levar todo mérito por uma obra devia realizá-la sozinho.

Apesar da recusa do italiano, o Hotel Imperial (1919-1921) ganhou uma grande notoriedade por suas inovações estruturais, entre as quais se destacava um sistema antissísmico. Wright buscava uma estrutura flexível, o que o fez projetar um edifício com saliências que se apoiavam em alicerces hidráulicos basculantes. Em 1923, Tóquio sofreu um terremoto devastador que destruiu a cidade, mas o Hotel Imperial resistiu ao abalo sem que sua estrutura fosse afetada. Esse fato consagrou Wright como um gênio da arquitetura, enquanto sua vida familiar desmoronava novamente. Kitty, sua primeira esposa, concedeu-lhe finalmente o divórcio e ele logo se casou com Miriam Noel, uma jovem artista que padecia de esquizofrenia e acabou viciada em álcool e morfina. Um novo incêndio em Taliesin, provavelmente provocado pela queda de um raio, destruiu uma ala da casa, que precisou ser reconstruída mais uma vez. O casamento durou mais um ano e se separaram em 1925. Wright decidiu pedir o divórcio depois que Miriam o ameaçou com uma faca. Ele já havia a denunciado em várias ocasiões.

Novamente, o arquiteto decidiu se concentrar no seu trabalho, o que revelou a sua crise pessoal. Em Los Angeles, ele construiu Hollyhock House (1919-1921), residência da mecenas do teatro Louise Aline Barnsdall, filha de um magnata do petróleo, com quem teve várias brigas monumentais por discrepâncias artísticas. Wright havia projetado uma casa de inspiração maia situada em um jardim, no qual também tinham de ser construídos um teatro e um conjunto residencial, que se mimetizava com a natureza, como as pirâmides pré-colombianas. De certo modo, o seu projeto se distanciava um pouco do estilo ao qual estava acostumada sua clientela, pois não incluía as habituais vidraças. O arquiteto achava que não eram adequadas para o sol da Califórnia. Assim, distribuiu os cômodos ao redor de um pátio aberto e para conseguir a plena integração do edifício ao jardim, quis encher a fachada de trepadeiras e malvas-rosas (hollyhock em inglês, para fazer um jogo de palavras com Hollywood, a cidade do cinema cujo bulevar principal chegava até o jardim). Diante das contínuas discrepâncias entre o arquiteto e a sua cliente, a casa foi terminada por Rudolph Schindler e pelo filho de Wright, porém o teatro e o resto das edificações não chegaram a ser construídos. Finalmente, o resultado não foi do agrado de Barnsdall, que se queixou da custosa manutenção da moradia e acabou doando-a para a cidade de Los Angeles para que fosse transformada em um museu.


A CASA DA CASCATA

Apesar dos seus problemas com os clientes e dos seus escândalos familiares, Wright não deixou de construir e de inovar. Assim, em casas como a Millard (1923), em Pasadena, ou a Ennis (1924), em Los Angeles, utilizou, pela primeira vez, blocos de decoração geométrica (textile block), que filtravam a luz, e elementos pré-fabricados de concreto nas fachadas. Em 1925, após uma apresentação, conheceu a bailarina Olgivanna Lazovich Hinzenburg, com quem teve uma filha, Iovanna, no mesmo ano. Mudaram-se para Taliesin e Olgivanna iniciou os trâmites para levar a sua filha Svetlana, fruto do seu casamento anterior, que se encontrava em Montenegro, para os Estados Unidos. Porém, a desquitada Miriam Noel, que ainda continuava casada com Wright, não conseguiu suportar isso e acusou ambos de praticar tráfico de mulheres. O arquiteto e a bailarina foram presos em Minnesota até que pudessem provar que as suas viagens a Montenegro não tinham por objeto nenhuma atividade ilegal e que Wright estava disposto a adotar a menina. Superados os problemas, o arquiteto se divorciou de Miriam Noel, casou-se com Olgivanna em 1928 e deu seu sobrenome a Svetlana. A quarta mulher da sua vida o acompanhou até o final dos seus dias.

Apesar de todos os problemas judiciais, seu reconhecido talento impediu que a vida profissional fosse afetada. Então, em 1935, desenhou a Casa da Cascata, considerada uma das principais obras arquitetônicas do século XX. Essa moradia unifamiliar, construída para o empresário Edgar Kaufmann, está situada em Bear Run (Pensilvânia) e edificada sobre uma cascata. A sua estrutura de terraços dispostos em saliências combinou muros de pedra natural e blocos de concreto que se adequavam com perfeição ao entorno. Nessa casa, Wright plasmou todos os conceitos da arquitetura orgânica ao integrar em um mesmo edifício as condições ambientais, os materiais da região, o processo de construção e as necessidades do cliente. Quando o arquiteto explicou o projeto a Edgar Kaufmann, assegurou-lhe que aquela seria uma casa “criada para a música da cascata”. A casa é hoje um museu aberto ao público no qual o visitante pode conferir que o som da água é ouvido em cada canto da construção.

Depois do sucesso da Casa da Cascata, considerada pelo American Institute of Architects como o melhor trabalho realizado por um arquiteto estadunidense, Wright iniciou as obras dos laboratórios de Johnson Wax Company (1936), em Racine (Wisconsin), a Taliesin West (1938), no deserto do Arizona, a First Unitarian Church (1947), em Madison (Wisconsin), e uma das suas obras póstumas, o arranha-céu Price Tower de Bartlesville, em Oklahoma, que foi terminado em 1953.


UM LUGAR PARA A ARTE

Em 1940, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) dedicou uma retrospectiva à obra de Frank Lloyd Wright, a quem qualificou como ícone vivo da arte estadunidense. Três anos depois, ele recebeu um chamado de Salomon R. Guggenheim, um abastado empresário que desejava construir um museu de arte contemporânea na Big Apple. Salomon queria que o edifício destinado a receber as obras fosse uma obra de arte em si mesmo. O nome de Wright havia sido uma sugestão da baronesa Hilla von Rebay, que o considerava o arquiteto mais famoso dos Estados Unidos e o único digno de construir um edifício emblemático na Quinta Avenida nova-iorquina.

A apresentação da maquete foi um escândalo total, mas não impediu que as obras começassem em 1946. Wright não decepcionou o seu cliente e criou um controverso edifício branco inspirado em uma fita que se enrola como um caracol. No interior, as galerias formam uma espiral e o visitante passeia pelas salas em uma interminável rampa helicoidal que interliga todo museu. A sua inauguração, seis meses depois da morte de Wright, ocorrida em abril de 1959, dividiu os nova-iorquinos entre a admiração e a reprovação. Os mais críticos destacaram que, apesar do organicismo defendido por Wright, aquele edifício era totalmente o contrário da sua tese, pois rompia o horizonte de Nova Iorque. Hoje, no entanto, o Museu Guggenheim é o edifício mais conhecido de Frank Lloyd Wright e uma das joias arquitetônicas mais emblemáticas da Big Apple, que acabou se adaptando à sua figura até transformá-lo na Meca da arte contemporânea.


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