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Arthur Conan Doyle, o escritor detetive
 
 
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 À SOMBRA DE SHERLOCK HOLMES
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Arthur Conan Doyle chegou a detestar Sherlock Holmes, o personagem que o tornou famoso

Sua obra o revela como um dos escritores britânicos de maior talento. Sir Arthur Conan Doyle popularizou o romance policial e, ao mesmo tempo, despertou a curiosidade dos leitores. Ocultou sob a capa de seus personagens as luzes e sombras da sociedade vitoriana e deixou uma marca indelével na literatura ao criar Sherlock Holmes, o mais famoso detetive da história, que o superou em popularidade. Tal foi a inveja que Conan Doyle sentiu de seu personagem que chegou a assassiná-lo em uma de suas últimas aventuras. No entanto, a pressão de sua mãe e as queixas de um grande número de seguidores do detetive o obrigaram a ressuscitá-lo. Declarado inocente pelos leitores de sua época, Conan Doyle continua sendo culpado pelo fato de que milhões de adolescentes de várias gerações tenham se interessado pela leitura.

PRIMEIROS INDÍCIOS

Arthur Conan Doyle nasceu em 22 de maio de 1859 em Edimburgo, capital da Escócia (Reino Unido). Seus progenitores, dois fervorosos católicos relacionados com o mundo da arte, enviaram-no para colégios religiosos para tentar despertar no escritor uma fé que ele sempre rejeitou. Seu pai, Charles, era um pintor alcoólatra e depressivo, e sua mãe, Mary, era uma abnegada esposa que despertou em seu filho o interesse pelos contos. Depois de estudar como interno em uma escola da ordem dos jesuítas, Conan Doyle não quis continuar a tradição familiar, então se recusou a estudar Belas Artes e ingressou na faculdade de medicina da Universidade de Edimburgo. Mesmo assim, sua vocação artística não demorou para se manifestar por meio dos desenhos que fazia nas margens de suas anotações de anatomia. Em seu tempo livre, escrevia contos de intriga que seguiam o rastro de escritores como Edgar Allan Poe e Bret Harte. Alguns desses primeiros contos, como O Mistério de Sasassa Valley, foram publicados em um jornal diário de Edimburgo.

Em 1880, quis conhecer o mundo e fez estágios como médico a bordo do baleeiro Hope, que realizava uma dura travessia pelo Oceano Ártico e às costas da Groenlândia. Como fruto dessa viagem escreveu O Capitão da Estrela Polar. Um ano depois, graduou-se com especialidade em cirurgia e assim, como menciona ironicamente em um desenho em sua autobiografia, tornou-se um “licenciado para matar”. Após obter esse título, alistou-se no Mayumba, um navio cuja rota ligava Liverpool com a África. Entretanto, o continente negro não o atraiu; por isso, retornou a Portsmouth, na Inglaterra, onde abriu um consultório médico. Como quase não tinha pacientes, passava o tempo jogando rúgbi em uma equipe local e escrevendo contos de detetives inspirados no método racional-dedutivo que lhe havia ensinado um de seus professores na faculdade, o doutor Joseph Bell. Foi exatamente esse médico quem lhe deu a dica para criar o personagem que impulsionaria sua carreira como escritor: o detetive Sherlock Holmes.


UM CRIME EM FASCÍCULOS

Em 1887, Arthur Conan Doyle publicou seu primeiro romance: Um Estudo em Vermelho, o primeiro dos 68 contos que trazem o detetive Sherlock Holmes como protagonista. Esse personagem, que se transformaria no investigador particular mais famoso da literatura, colocou-o no topo da lista como um dos melhores romancistas de sua época. Holmes era um detetive peculiar, capaz de resolver qualquer caso que lhe fosse apresentado graças ao seu infalível método de dedução. Porém, diferentemente dos heróis clássicos, ele tinha grandes imperfeições, como a falta de modéstia, a prepotência, os vícios e o desprezo pela ignorância dos demais. Nesse sentido, Conan Doyle rompeu com o protótipo épico e conseguiu humanizar seu personagem, fazendo com que sob a imagem de um detetive de grande talento se escondesse um homem com grandes defeitos. Holmes fumava cachimbo, consumia cocaína, era certamente extravagante para a sua época e, em suas aventuras, estava sempre acompanhado por seu bondoso e atrapalhado amigo, o doutor Watson, que era, além de tudo, o narrador de suas histórias. Juntos, os dois resolviam os mais difíceis casos e enfrentavam criminosos como o professor Moriarty.

A fama de Arthur Conan Doyle foi acentuada depois que a revista The Strand Magazine o convidou para publicar os contos policiais do detetive em fascículos, mantendo assim o suspense entre seus leitores. Essas histórias foram recompiladas mais tarde nos livros As Aventuras de Sherlock Holmes (1892) e Memórias de Sherlock Holmes (1893). Apesar do sucesso de seus contos, que contavam com milhares de assinantes em Londres, naquela época Conan Doyle começou a ficar mais conhecido como escritor nos Estados Unidos. A causa do sucesso é que muitos leitores do Reino Unido pensavam que as histórias que liam no jornal eram notícias dos casos resolvidos por Sherlock Holmes. Chegaram a acreditar que o investigador existia na realidade e tomaram Conan Doyle como o jornalista encarregado de seguir suas investigações.

Nos Estados Unidos, no entanto, seu romance Um Estudo em Vermelho havia chegado diretamente às livrarias, razão pela qual o autor não teve de competir com a fama de seu personagem. As boas vendas do livro fizeram com que um editor estadunidense viajasse até Londres para lhe oferecer a publicação de um novo romance. Durante um almoço em um restaurante da capital britânica, ao qual também compareceu o escritor Oscar Wilde, ficou acordada a publicação da próxima aventura de Sherlock Holmes em primeira mão para os Estados Unidos. Assim, O Signo dos Quatro, um romance, inédito no Reino Unido, chegou às livrarias da Filadélfia e de Nova Iorque em 1890.

Muito embora os editores dos Estados Unidos previssem um grande sucesso, o médico que sonhava em ser escritor ainda não acreditava que poderia viver da literatura, então se mudou para Viena (Áustria) para estudar as técnicas mais avançadas em oftalmologia. Contudo, não conseguiu se apropriar do idioma alemão; por isso, após uma breve visita a Paris, voltou para Londres em 1891. Ali abriu um consultório de oftalmologia em cuja porta, conforme afirmava o autor em sua autobiografia, ninguém jamais bateu. O fracasso como médico e uma gripe que quase o levou ao túmulo fizeram-no perceber que a vida podia ser muito breve e não valia a pena desperdiçá-la com algo que não o satisfazia. Assim, fechou o consultório e se dedicou plenamente a escrever as histórias em fascículos que ganharam grande fama na The Strand Magazine. Sua aposta foi favorável e o sucesso de vendas de seu romance O Signo dos Quatro do outro lado do Atlântico o fez viver uma temporada em Nova Iorque. Em cinco anos pôde abandonar a medicina definitivamente, porém, antes disso, participou como médico voluntário de acampamento militar na Campanha do Sudão (1898) e na Guerra dos Bôeres (1899-1902). Foi exatamente como recompensa por seu trabalho na África do Sul que recebeu o título de sir. Influenciado pela situação política do Reino Unido e pelos conflitos bélicos que vivenciou em primeira mão, publicou vários romances históricos como Micah Clarke (1888), A Companhia Branca (1890), A Curiosa História de Rodney Stone (1896), The Great Boer War (1900), A Guerra na África do Sul: Suas Causas e Conduta (1902) e inclusive uma obra de teatro, A História de Waterloo (1894). Essas obras, que justificavam a atuação da Coroa Britânica na África, contaram com o apoio institucional e alcançaram grande difusão e, ao mesmo tempo, transformaram-no em um autor patriota. Sua devoção pelo Reino Unido levou-o a se apresentar como candidato da União Trabalhadora, partido político por meio do qual fez campanha para abolir a escravidão na África. Após seu fracasso na política, publicou outra aventura de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskerville (cujo primeiro capítulo apareceu na The Strand Magazine em agosto de 1901), e o romance histórico Sir Nigel (1906).


ANÁLISE COM LUPA

Todos os romances policiais escritos por Conan Doyle tiveram Sherlock Holmes e Watson como protagonistas. O detetive representa a racionalidade absoluta, enquanto seu ajudante se inclina para o lado emocional. Essa forma de construção, na qual se desdobram os dois aspectos principais da personalidade, tem como modelos os personagens de Dom Quixote e Sancho Pança, criados por Miguel de Cervantes em Dom Quixote. Holmes dá instruções a Watson e este demonstra, sempre que pode, que a razão não é a única responsável pelas ações.

Para conceber Sherlock Holmes, Conan Doyle se inspirou em outro grande detetive fictício, Auguste Dupin, personagem criado pelo mestre do terror Edgar Allan Poe que conquistou a fama de investigador infalível. Em Um Estudo em Vermelho, a prepotência e a falta de modéstia habituais de Holmes não deixam dúvidas quanto ao fato de o detetive britânico se considerar muito superior ao francês quando diz: “Na minha opinião, Dupin era um homem muito inferior”.

Apesar dessa declaração, Conan Doyle venerou os contos de Edgar Allan Poe quase tanto quanto os escritores argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares adorariam os seus algumas décadas mais tarde. Ambos os literatos argentinos consideravam o escritor britânico o principal impulsor dos romances policiais, aos quais conferiu uma série de características e tópicos que hoje já não podem ser separados do gênero. A intriga, a expectativa e o suspense imerso nas aventuras de Sherlock Holmes impulsionaram a literatura policial até colocá-la entre os gêneros favoritos dos leitores durante quase meio século e serviu como ponto de partida para o romance negro estadunidense. A capacidade do escritor britânico para criar histórias verossímeis, dedutivas e bem argumentadas colocou em alta os escritores de mistério do século XX, que foram contagiados por sua obsessão por não deixar um único fio solto.


OBJETO DO CRIME: A FAMA

Quando Sherlock Holmes se tornou mais famoso que o escritor que o havia criado, deu-se o conflito entre o autor e seu personagem. Alguns leitores acreditavam que o detetive era real e nem mesmo sabiam que Arthur Conan Doyle era o único culpado por desfrutarem de agradáveis momentos de leitura. O escritor havia sido testemunha de como seu personagem havia adquirido vida própria e começou a sentir ciúme de sua fama, então, tramou uma maneira de se livrar dele para sempre. Preparou o crime cuidadosamente após uma viagem à Suíça e idealizou a melhor forma de sair impune: tentaria fazer com que parecesse um acidente e que sua morte não fosse em vão. Assim, decidiu assassiná-lo na ficção junto de seu pior inimigo, o professor Moriarty, em um duelo do qual nenhum dos dois sairia vencedor. Para o escritor, este deveria ser o crime perfeito que lhe permitiria acabar com um personagem que o dominava e que havia começado a detestar. Depois de unir todos os fios, cometeu o assassinato em O Problema Final, um conto publicado em dezembro de 1893 que causou grande comoção entre os leitores da The Strand Magazine. Ato seguinte: o escritor fingiu não saber nada sobre o crime e concentrou seus esforços criativos em um novo personagem inspirado na época napoleônica, o Brigadeiro Gerard, que se transformou em protagonista de várias aventuras.

A morte de Sherlock Holmes gerou grande polêmica no Reino Unido e colocou pela primeira vez o criador acima de seu personagem, porém com resultados muito negativos. Os leitores começaram a lhe enviar cartas, queixando-se do assassinato de seu ídolo. Alguns chegavam a ameaçar e insultar o autor, chamando-o de criminoso. Sua própria mãe recriminou sua ousadia e o convenceu de que devia procurar uma solução para ressuscitar o sagaz detetive. Mas a pressão maior foi exercida pelos editores da The Strand Magazine, depois de ver como a morte do personagem havia provocado o cancelamento de quase 20 mil assinaturas de leitores do jornal. Encurralado, e muito a contragosto, Conan Doyle devolveu a vida a seu personagem no conto A Casa Vazia, que foi novamente publicado nos jornais e que, posteriormente, foi incluído na recompilação O Retorno de Sherlock Holmes (1904).


EXPERIÊNCIA METAFÍSICA

Conan Doyle desistiu da luta contra seu personagem, mas pouco a pouco foi adentrando em outros gêneros literários alheios ao romance policial. Seu agnosticismo e a morte do filho durante a Primeira Guerra Mundial provocaram em Arthur Conan Doyle uma grande atração pela metafísica e pelo espiritismo. No conto A Grande Experiência de Keintplantz, expôs sua teoria sobre como a alma abandonava o cadáver por meio de uma divertida história na qual os espíritos trocavam de corpo. Em 1926, publicou História do Espiritismo, um livro no qual defendia sua opinião sobre o corpo, a alma e a religião natural.

Apesar de haver recebido uma educação católica, Conan Doyle não acreditava na religião nem no casamento. No entanto, pressionado pelos rígidos princípios da sociedade vitoriana, que foi objeto de suas críticas em muitas de suas obras, casou-se em 1885 com Louise Hawkins, mais conhecida como Touie, que morreu de tuberculose em 1906. Embora tivessem dois filhos, o casamento não foi bem-sucedido e, em 1887, o escritor se apaixonou pela jovem Jean Leckie.

Depois da morte de sua esposa, Conan Doyle não viu impedimentos para concretizar a relação com sua amante, com quem teve mais três filhos, depois de seu casamento em 1907. Esse modo de vida recebeu duras críticas nos círculos mais tradicionalistas de Londres. Longe de se deixar amedrontar pelo vazio social que lhe impuseram alguns velhos amigos, Conan Doyle atacou as rígidas normas da mentalidade vitoriana, usando Sherlock Holmes, que em várias de suas aventuras defende o divórcio e qualifica como criminosa a moral que obriga os casais de uniões fracassadas a permanecerem juntos. .

Em todos esses aspectos, Conan Doyle foi um homem à frente de seu tempo. Sua visão do que acreditava que deveria ser a sociedade do futuro apontava para um mundo dominado pela razão e pela ciência e não pela superstição, embora tudo o que estivesse relacionado ao mundo esotérico o atraísse profundamente. Interessou-se pelo budismo e pelas religiões orientais, pelo paranormal e pelo espiritismo, assim como pelos benefícios da ginástica e pelos novos avanços da ciência. Gostava de dirigir automóveis velozes, voar de balão e também testar os primeiros aeroplanos que foram construídos. Além disso, o escritor foi um dos pioneiros da literatura de ciência-ficção com títulos como O Mundo Perdido (1912), no qual narra a descoberta de uma reserva natural de dinossauros vivos na América do Sul. Naquela época, esse gênero que combinava a ciência com a imaginação ainda não havia sido desenvolvido; por isso, o romance ficou relegado ao âmbito da literatura juvenil.


MUITO ALÉM DE BAKER STREET

Em 7 de julho de 1930, seis anos depois de escrever sua autobiografia, Memórias e Aventuras, sir Arthur Conan Doyle morreu em sua casa de Crowborough, no condado de Sussex. Nem suspeitava que o personagem que havia chegado a odiar ainda teria muita vida pela frente, pois a The Strand Magazine encomendou a continuação das aventuras do detetive a outros escritores. O detetive voltou, assim, à vida, porém jamais conseguiu recuperar o olfato para resolver crimes de forma tão certeira como quando seu criador ainda era vivo.

Longe de desaparecer, Sherlock Holmes e o universo que o escritor havia criado ao seu redor alcançaram grande notoriedade. O endereço da casa do detetive, número 221B de Baker Street, não existia na época de Conan Doyle. A rua atravessava o West End, um bairro de classe alta de Londres perto do Regent’s Park, e terminava no número 85. Uma ampliação do bairro em 1932 fez com que a nova numeração da rua coincidisse com a sede do banco Abbey National, que teve de criar um departamento especial para coletar as cartas que chegavam aos cuidados do famoso detetive.

A influência das aventuras de Conan Doyle se manifestou ao longo de todo o século XX e muitas fórmulas de sucesso usaram seus personagens como referencia. O desenhista de quadrinhos Francisco Ibáñez se inspirou em Sherlock Holmes e no doutor Watson para criar dois detetives espanhóis, Mortadelo e Filemón. Embora com o tempo tenham se desvinculado de sua origem, ambos os personagens haviam nascido como uma paródia dos inquilinos do número 221B de Baker Street e inclusive, nas primeiras tiras que protagonizaram, Mortadelo pegou emprestada a roupa de Holmes e sua paixão pelos disfarces. Se nos anos 1970 e 1980 o detetive criado por Conan Doyle foi o reflexo no qual se espelhavam os investigadores particulares da telinha, em 2004 deu margem a um dos personagens de maior sucesso da televisão: o popular doutor protagonizado por Hugh Laurie na serie House. Como Sherlock Holmes, o doutor House é prepotente e pretensioso e tem uma assombrosa capacidade dedutiva para examinar as doenças de seus pacientes. Atentando-se para os indícios escondidos na série, qualquer espectador com algum talento para a observação pode deduzir que o fato de que o doutor Gregory House use bastão, seja viciado em pastilhas e viva no apartamento 221B não é uma mera coincidência, mas uma pista para descobrir de onde veio a inspiração dos roteiristas. Elementar, meu caro Watson. Nem mesmo Conan Doyle poderia ter suspeitado que seu personagem renderia tanto.


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