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Gripe suína, a primeira pandemia do século XXI
 
 
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 A AMEAÇA VIRAL
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Os aeroportos foram palco da disseminação mundial da gripe que surgiu em 2009

Tudo começou no começo de 2009, no México, na pequena cidade de La Gloria. Nos primeiros meses do ano, praticamente todos os cerca de 3.000 mil moradores da cidade tinham sido contaminados ou apresentavam sintomas da gripe. O problema se tornou tão sério que no dia 23 de março daquele ano profissionais da saúde foram enviados pelo governo para atender as pessoas em La Gloria. Aproximadamente 1.300 pessoas procuraram atendimento naquele dia.

Foi nesse momento que o menino Edgar Hernandez, que também vivia na pequena cidade de La Gloria, começou a apresentar sintomas como febre, dor de cabeça e dores fortes nos olhos. Preocupada, a mãe do menino, Maria del Carmen Hernandez, levou-o ao médico. Após alguns dias sendo medicado com antibióticos o menino melhorou e sobreviveu.

Os exames feitos em Edgar, no entanto, apontaram que o menino havia sido a primeira pessoa que exames indicavam ter sido infectada pelo H1N1. No total, os profissionais de saúde coletaram amostras de mucosas de 35 pessoas que apresentavam quadro de gripe. Somente o teste de Edgar deu positivo para H1N1.

Dessa forma, ele tornou-se o “paciente zero”, isto é, se a primeira pessoa que oficialmente havia feito exames que confirmavam um quadro de gripe suína (ou influenza do tipo A) transmitida pelo vírus H1N1. Hoje, a cidade onde vive Edgar, que felizmente sobreviveu à gripe, tem até uma estátua do menino.

Pouco tempo depois da confirmação do caso de Edgar veio o primeiro alerta mundial do novo vírus. A atenção do planeta se voltou para o caso em 24 de abril de 2009, quando, com 800 casos suspeitos e ao menos 20 mortes confirmadas na região da Cidade do México, além de mais 40 suspeitas, o governo mexicano suspendeu aulas, fechou bibliotecas e museus e pediu que pessoas com sintomas de gripe não saíssem de casa. O contágio chegou também ao sul dos Estados Unidos, com imigrantes mexicanos. Dias depois, a OMS elevou o nível de alerta pandêmico de 3 para 4, utilizando pela primeira vez a escala criada durante a epidemia de gripe aviária, em 2005.

Nesse momento, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, imediatamente alertou sobre o potencial pandêmico da doença, e pediu aos governos de todo o mundo que aumentassem a vigilância sobre casos da gripe. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o novo vírus era uma nova versão, que combinava elementos de vírus humano, aviários e suínos, incluindo vírus europeus e asiáticos

Aproveitando o feriado do Dia do Trabalho, o presidente mexicano, Felipe Calderón, deu recesso a todos os serviços não essenciais na administração pública e pediu que a população não saísse de casa. Com o aumento do número de casos, decretou o fechamento de cinemas, teatros, clubes e casas noturnas e de sítios arqueológicos à visitação turística. Os restaurantes passaram apenas a entregar em domicílio. Alguns países suspenderam voos ao México e o turismo do país foi seriamente afetado. Até a Copa Libertadores foi prejudicada. Impedidas de jogar em casa pela Conmebol, as equipes Chivas e San Luís decidiram abandonar o campeonato. O prejuízo econômico foi calculado pelo governo entre 0,3% a 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Nos dias seguintes ao alerta da OMS, outros países começaram a registrar casos, enquanto no México e nos EUA crescia o registro de novos doentes. Em poucos dias, Canadá, Espanha, Reino Unido e Israel anunciaram casos da doença, além da distante Nova Zelândia. Em maio de 2009, mais países da Europa registraram mais ocorrências — Áustria, Alemanha, Holanda, Suíça —, e a doença avançou pelas Américas, atingindo Brasil, Peru, Costa Rica e Cuba, chegando ao Extremo Oriente, com casos na China, Taiwan, e Japão. Nos EUA, um bebê mexicano de quase dois anos, que viajou com a família visitar parentes no Texas, foi a primeira vítima. Ao fim de julho, a OMS já registrava casos até nos locais mais remotos do mundo, como as ilhas Salomão, no oceano Índico, e Tonga e Samoa Americana, no Pacífico.

No fim de abril de 2009, a OMS mudou o nome da gripe por pressão da indústria de carne suína, e passou se chamar a doença de gripe A (H1N1). A indústria e os criadores de porcos alegaram que o nome poderia causar prejuízos. Diferentemente da gripe aviária da década de 1990, o contágio se dava apenas entre humanos e não no contato com animais. Mesmo assim, alguns países tomaram medidas restritivas à importação de carne suína, e, no Egito, foi ordenado o abate de todos os porcos do país.

Pouco mais de um mês após o primeiro alerta mundial sobre a gripe A (H1N1), a qual, apesar da indústria de carnes já era mundialmente conhecida como gripe suína, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu, em 11 de junho, elevar o grau de alerta para o nível 6, o mais alto da escala, o que caracterizava oficialmente que o mundo enfrentava uma pandemia, a primeira do século XXI.

As pandemias — uma epidemia generalizada em várias regiões do mundo — são recorrentes ao longo da história e geralmente associadas a grandes mortandades. A pior da história foi a gripe espanhola, em 1918, que atingiu 20% a 40% da humanidade e deixou pelo menos 20 milhões de mortos, embora algumas fontes falem em cem milhões. No século XX, mais duas pandemias ocorreram: a gripe asiática, que surgiu na China em 1957 e se espalhou por quase todo o mundo, deixando cerca de 2 milhões de mortos, e a gripe de Hong Kong, que matou 1 milhão de pessoas em 1968.

Apesar do alerta máximo, a pandemia da gripe A (H1N1) é considerada moderada. Segundo a OMS, o critério técnico para a declaração de uma pandemia é a sua propagação, e não a periculosidade. Em julho, a OMS declarou que 70% dos infectados apresentavam apenas sintomas leves e tinham recuperação rápida, muitas vezes sem precisar recorrer aos cuidados médicos. Ainda segundo a entidade, a maior parte dos doentes era composta por crianças e adolescentes. Entretanto, a média de idade aumentava quando eram contabilizados apenas os casos mais graves.

Os sintomas dessa doença podem ser parecidos aos da gripe comum. Porém, em muitos casos são ocorrem também febre súbita acima de 39 ºC, dor de cabeça intensa, calafrios, irritação nos olhos e dores musculares. A dor de garganta é leve e há pouca secreção.

Alguns casos, porém, são mais graves e podem provocar a morte, e, em outros, a gripe pode evoluir para a pneumonia. Estudo publicado pela revista Nature em julho de 2009 mostrou que o vírus da gripe suína é capaz de infectar células profundas nos pulmões, o que pode agravar a doença. O estudo fez comparações com o vírus da gripe espanhola, que também causava maiores danos ao sistema respiratório. Assim como em epidemias anteriores, muitas vítimas eram jovens e pessoas de meia idade, ao contrário do que acontece com a gripe comum.


A evolução no Brasil
Em abril de 2009, o Ministério da Saúde do Brasil acionou o Gabinete Permanente de Emergência para acompanhar as notícias sobre a doença assim que foi dado o primeiro alerta da epidemia. No início de maio, foram confirmados os primeiros casos no Brasil, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Em todos eles, as pessoas haviam passado pelo México ou pelos EUA.

O problema só se agravou, porém, em junho, com o alastramento da epidemia na Argentina, que em pouco tempo se tornou o segundo país com mais casos. Entre os dias 10 e 25 de junho, o número de casos da gripe suína cresceu cinco vezes em terras argentinas e 21 pessoas morreram.

A primeira vítima brasileira foi um caminhoneiro de 29 anos, morto em 28 de junho de 2009, em Passo Fundo (RS). Ele havia retornado da Argentina uma semana antes. O Rio Grande do Sul começou a registrar cada vez mais casos. A segunda morte confirmada foi a de um garoto de nove anos de Sapucaia do Sul, em 5 de julho. Depois, seguiram-se outras em várias cidades do interior.

Uruguaiana, cidade na fronteira com a Argentina que registrou cinco mortes, decretou situação de emergência em 19 de julho, e foi seguida do município de Barra do Quaraí. O objetivo dessas medidas era contratar médicos mais rapidamente, sem a necessidade de licitação, e comprar remédios. O Exército foi chamado para dar apoio à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em cidades que não tinham fiscais.

O estado com mais casos foi São Paulo. A primeira morte foi de uma menina de 11 anos em 30 de junho de 2009, em Osasco. Nesse momento, o então ministro da Saúde, José Gomes Temporão, admitiu que o vírus já circulava pelo país sem necessitar de contágio externo. No final de julho, São Paulo contabilizava 27 mortes causadas pela gripe.

A morte de uma mulher em uma comunidade carente, em 13 de julho de 2009, provocou a lotação de hospitais e postos de saúde no Rio de Janeiro. O governo estadual criou o Disque Gripe Suína para evitar que pessoas com suspeita de gripe lotassem unidades médicas. Também foram criados um site para atender as pessoas e 15 polos de referência para a gripe A também foram instalados.

O Paraná registrou sua primeira morte na região de Jacarezinho, em 14 de julho de 2009. Em 28 de julho, um estudante de 31 anos morreu em João Pessoa, na Paraíba, no primeiro caso no Nordeste. Ao fechar o mês de julho, o Brasil tinha 56 mortes e 1.566 casos confirmados.


Tratamentos
Logo no início da epidemia, dois antivirais, Tamiflu e Relenza, foram identificados como eficazes contra a gripe. Estudos posteriores indicaram que o Tamiflu retardava a reprodução do vírus H1N1 e reduzia o tempo de infecção.

O medicamento, que era vendido em farmácias com receita médica, foi recolhido pelo governo federal e distribuído apenas para os hospitais de referência para a gripe suína. O objetivo, segundo o governo, era evitar a automedicação.

Segundo o Ministério da Saúde, seriam adquiridas mais 54 mil doses do remédio, já previstas na rotina de trabalho, que se somariam ao estoque de mais 9 milhões de doses em pó, prontas para serem encapsuladas.

Alguns casos de vírus resistentes aos antivirais foram relatados no Japão, Dinamarca e Hong Kong, mas a OMS os considerou apenas como casos isolados. O ministro da Saúde brasileiro aproveitou o caso para defender que a política brasileira de restrição do acesso aos remédios estava correta.

A pedido da OMS, a indústria farmacêutica começou a desenvolver uma vacina para a gripe. A empresa suíça Novartis foi a primeira a anunciar a produção de uma nova vacina, em 12 de junho de 2009. Segundo a empresa, a vacina passaria por testes e avaliação pré-clínica em julho, antes da produção ser iniciada.

O anúncio da vacina gerou preocupação na ONU (Organização das Nações Unidas) de que os países pobres tivessem dificuldades para conseguir o remédio. O então secretário-geral da entidade, o sul-coreano Ban Ki-moon, pediu “solidariedade”. A Novartis, porém, negou pedido da OMS para distribuir o remédio gratuitamente nos países pobres. O laboratório suíço admitiu, no máximo, estudar uma redução de preços. Já a britânica GlaxoSmithKline aceitou distribuir cerca de 50 milhões de doses da vacina. A Roche disse que iria estocar o Tamiflu e venderia a um preço significativamente reduzido por vários anos. Os Estados Unidos, país mais atingido, compraram vacinas da Novartis por US$ 289 milhões.

Com a declaração de pandemia mundial em 11 de junho de 2009, a OMS descartou que a dispersão do vírus pelo mundo pudesse ser contida. Sua diretora-geral, Margaret Chan, criticou as restrições e alertas contra viagens a países infectados, dizendo que as medidas não continham o surto, e pediu atenção especial no hemisfério sul, em razão da chegada do inverno.

Segundo a OMS, com cerca de cem países infectados, a única forma segura de combater a doença era encontrar a vacina. Entretanto, isso não se tratava de algo rápido. No Brasil, o Ministério da Saúde afirmou à época que a vacina só seria produzida para o inverno de 2010 e incumbiu o Instituto Butantan, de São Paulo, da produção.

A Roche, fabricante do Tamiflu, disse que as vendas triplicaram e alcançaram US$ 567 milhões apenas no segundo trimestre, 12 vezes mais que no mesmo período de 2008. A empresa disse que iria quadruplicar sua capacidade de produzir o remédio para 400 milhões de doses anuais em 2010. Antes do advento da gripe suína, foram comercializados 300 milhões de doses em cinco anos. A GlaxoSmithKline, que produz o Relenza, disse esperar quadruplicar as vendas até o fim do ano. No final do ano, começa o inverno no hemisfério norte, que inclui os países mais ricos do mundo, e a expectativa é que as vendas aumentem.