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Arte contemporânea, quando vale tudo
 
 
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Banksy, com seus grafites, revolucionou o panorama artístico londrino

Vacas conservadas em formol leiloadas a preços exorbitantes. Grafites que ultrapassam o vandalismo para se transformar em denúncia. Videoarte e tecnologias aplicadas à estética. Novos formatos de sobrevivência duvidosa, que convivem em arquiteturas impossíveis. E, diante disso, um espectador incrédulo que levanta as sobrancelhas quando alguém lhe assegura que nada na arte pode ser rejeitado.

A arte contemporânea parece divorciada do grande público, mas essa separação não é algo novo. Os grandes artistas foram incompreendidos enquanto viviam. O tempo os valorizou, quando a história possibilitou determinar o papel que tinham desempenhado na hora de representar as inquietudes de sua época. O problema é que as obras de alguns artistas atuais alcançam preços que superam os clássicos, fato que provoca irritação em muitos setores que voltam a se perguntar se as novas propostas não estão se distanciando da estética para se posicionar a favor do mercado.


DA PROVOCAÇÃO AO ATIVISMO

As manifestações artísticas atuais são múltiplas e mutáveis. Embora ainda seja cedo demais para determinar uma série de traços que credenciem um determinado referente da época atual, como ocorreu com o Renascimento ou com as vanguardas, podem ser estabelecidos alguns pontos comuns, dominados pela ânsia generalizada de deixar para trás as velhas questões. Os debates sobre o que é arte e para onde se dirige são considerados estéreis e pertencem ao século XX. Hoje, a criação artística expande-se em todas as direções e o tempo será o encarregado de enterrar algumas propostas e enaltecer outras.

Desde a década de 1960, época em que irrompem o novo realismo e a arte conceitual, as expressões artísticas que dominaram o cenário internacional têm um claro componente reivindicatório. Já não importa tanto a qualidade da obra, mas o que ela expressa em si. Essa ideia da mensagem está em quase todos os artistas atuais, que já não buscam apenas a beleza estética, e sim a transmissão de um discurso. A arte atual dá carta branca ao artista para que faça uso, com maior ou menor acerto, de qualquer fórmula para expressar sua opinião. O espectador, por sua vez, tem de refletir sobre a obra artística, desfrutá-la, descobrir aquilo que se quer transmitir ou, simplesmente, pensar sobre o novo discurso.

Essa arte, amparada por uma liberdade sem precedentes na história, converte-se assim em uma opinião livre e manifesta. Da provocação que se buscava nas duas últimas décadas do século XX, passamos a uma arte dominada pelo ativismo, que pretende oferecer uma visão reflexiva do mundo e que se afasta da realidade que tentam mostrar os políticos. Uma espécie de corrente artística antissistema, baseada no bombardeio de mensagens subversivas que ironizam a realidade, que questionam decisões políticas e que se atrevem a mostrar sem disfarces o que os meios de comunicação, apoiados na objetividade impossível e influenciados pelas redes que os sustentam, não são capazes de publicar.


O VANDALISMO TRANSFORMADO EM ARTE

Sob o pseudônimo de Banksy esconde-se um dos artistas mais controversos da atualidade. Ele utiliza uma linguagem pictórica, o grafite, que durante anos permaneceu isolada do mercado da arte devido a seu caráter marginal e, sobretudo, pouco afeito a galerias e museus. Sobre Banksy sabe-se pouco. Praticamente se conhece apenas sua procedência (Bristol, Reino Unido) e suas obras, que pinta ilegalmente sobre os muros de edifícios públicos e privados. Suas pinturas murais representam uma crítica feroz à ordem estabelecida, aos abusos do mundo moderno, à guerra: agentes de polícia que se beijam, crianças com uma bomba como urso de pelúcia, tigres que escapam das grades que formam as listras de sua pele convertidas em um código de barras...

O espírito crítico o levou a registrar sua opinião em lugares muito simbólicos, como o muro ilegal que Israel construiu na Cisjordânia para isolar os territórios de Gaza. Outras vezes, pintou nas fachadas de vários edifícios públicos e privados de Londres e Bristol, o que fez com que alguns o considerassem um vândalo. Os serviços de limpeza de Londres receberam ordens de eliminar, em várias ocasiões, suas obras, o que contribuiu para aumentar seu sucesso. Seus partidários justificam o fato, dizendo que os políticos não querem que a arte exponha friamente na rua o que eles não gostam de ouvir. As autoridades de Londres, porém, asseguram que a arte não pode estar contra a propriedade privada nem utilizar a seu bel-prazer o espaço público, porque isso se transforma em vandalismo. Em outros lugares, como Bristol, os prefeitos viram a atratividade turística que os trabalhos de Banksy podem trazer para as cidades e, por isso, decidiram dar um indulto a algumas de suas obras.

O discurso ativista de Banksy também chegou aos museus, com uma série de intervenções não autorizadas, pendurando suas telas entre as de outros artistas já reconhecidos. Na maioria das ocasiões, essas obras parodiavam pinturas clássicas e demoraram vários dias para serem descobertas pelos responsáveis dos museus. A Tate Gallery de Londres, o Museum of Modern Art (MOMA) de Nova Iorque, o Museu do Brooklyn e o British Museum foram suas vítimas favoritas.


QUANDO A ARTE É NEGÓCIO

Banksy provoca dor de cabeça nas autoridades, sobretudo nas londrinas, e aplausos por parte do público e dos marchands de arte que se deixaram seduzir por sua arte contrária ao institucional. Entretanto, ele mesmo vende suas obras, cada vez mais cotadas, por meio de Steve Lazarides, seu agente no bairro do Soho de Londres; por isso muitos duvidam da veracidade do seu compromisso antissistema. Além disso, Banksy fez desenhos para campanhas comerciais da emissora MTV e do Greenpeace, o que redobrou as críticas em relação à sua ideologia que, na maior parte de suas obras, se mostra contra o consumismo e o capitalismo. Seus compradores o defendem com ironia: de algum modo terá de pagar o advogado e as multas que virão quando for descoberto. Peguem-no ou não, vender suas pinturas a preços exorbitantes não limita o conteúdo de denúncia de sua obra.

O caso de Banksy deixa claro que a arte contemporânea se transformou em uma indústria multimilionária que atua em uma rede na qual a publicidade e o marketing desempenham um papel de destaque. A arte é cotada, valorizada, e, no caso das obras de artistas consagrados, nunca se desvaloriza. Essa segurança faz dela um atraente campo de investimento, principalmente quando outros setores econômicos, como o imobiliário ou o de ações, decaem. Colecionar arte proporciona também certo prestígio social, pois, ao mesmo tempo que transmite uma imagem positiva do comprador como mecenas e defensor da cultura, revela grande independência econômica.

O negócio da arte atraiu as grandes empresas; o setor da publicidade; os altos nomes da moda, que são hoje grandes colecionadores e proprietários de museus (Gucci, Purificación García...); e as entidades financeiras e os políticos, que viram nos museus de arte contemporânea uma forma de atrair um novo turismo. Inclusive o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) organizou seu primeiro leilão de obras de arte cedidas por artistas plásticos atuais para financiar suas atuações humanitárias. Na Espanha, por exemplo, após a bem-sucedida inauguração do Museu Guggenheim em Bilbao, em 1997, várias regiões quiseram contar com uma coleção de arte moderna própria. Em apenas uma década, foi inaugurada uma dúzia de centros de arte contemporânea por todo o país. O Artium em Vitória (País Basco) ou o Musac (Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão) em Leão são mostras de uma tendência que não cresce somente na Espanha, mas também em outros países europeus e latino-americanos. A ideia mais original foi, no entanto, o MURAC (Museo Riojano de Arte Contemporáneo), um inovador centro sem sede física que pendura suas obras, perfeitamente identificadas com uma etiqueta, por toda Logronho para transformar a cidade em um museu vivo e mutante no qual se mesclam a arte pública e a privada.

No Brasil, o fenômeno se repete com resultados desiguais mas, via de regra, positivos. Muitas empresas passam a patrocinar museus ou criam suas próprias fundações, encarregadas de formar seus acervos e geri-los no contato com o público. Vale notar, e prestigiar, entre outras, as ações do Grupo Itaú Unibanco, que mantém o Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles, ambas instituições sediadas em São Paulo. Na esfera pública, grandes bancos federais e estaduais mantêm institutos culturais, casos do Centro Cultural Banco do Brasil (Banco do Brasil) e da Caixa Cultural (Caixa Federal), para ficar nos mais representativos em plano federal.


A VACA NO FORMOL

O mercado de arte tampouco permaneceu alheio às modas. Em certas ocasiões, a polêmica e o marketing conseguem aumentar o cachê de alguns artistas que se transformam no centro das atenções e conseguem alcançar cifras milionárias. O colecionador e publicitário britânico Charles Saatchi é um especialista em dar destaque a artistas polêmicos como Tracey Emin, que foi finalista do Prêmio Turner após apresentar-se com a instalação My Bed, na qual se via sua cama cercada de roupa íntima usada, lençóis sujos e outras mostras de frenética atividade sexual. Apesar de as obras de Emin terem sido muito discutidas do ponto de vista técnico, uma vez que a artista não domina nenhuma das belas artes, sua especial sensibilidade para captar em suas instalações o sentimento de protesto e denúncia do século XXI a levou a fazer parte da Royal Academy of Arts de Londres.

Outra descoberta de Saatchi é o britânico Damien Hirst, que depois de pular todos os procedimentos habituais, começou em 2008 a vender suas obras por meio da casa de leilões Sotheby’s para garantir as comissões de até 70% que recebem as galerias e os marchands de arte. Hirst, um artista conceitual nascido em 1965, conquistou a fama no princípio dos anos 1990 depois que Saatchi o incluiu em uma exposição coletiva intitulada Young British Artists (em tradução livre, Artistas Britânicos Jovens), da qual saiu a geração dos chamados YBA. Conhecido por suas obras, nas quais conserva animais como vacas, tubarões e bezerros em formol, Hirst se tornou o produto de uma campanha publicitária perfeitamente estruturada que o transformou no artista plástico vivo mais caro da história. Em uma de suas muitas operações de marketing, expôs na galeria White Cube de Londres um crânio de platina com diamantes incrustados, cujo valor material era de 20 milhões de euros. Tentava alcançar um recorde e conseguiu. Em 2008, os jornais de todo o mundo ecoaram a venda da obra por 72 milhões de euros (cerca de 100 milhões de dólares), o que fez de Hirst o artista mais bem pago do planeta e uma das pessoas mais ricas do Reino Unido, segundo o The Sunday Times.

A pergunta que estava no ar levantava todo tipo de suspeitas: como o artista havia conseguido dinheiro para financiar a criação de sua obra multimilionária? A resposta revelou que tudo era um produto de marketing muito bem orquestrado por um grupo que pretendia fazer negócios, atraindo o interesse da mídia. O The Art Newspaper e o economista Don Thompson descobriram que na realidade a peça havia sido comprada por um grupo de empresários amigos de Hirst em cumplicidade com seu contador e as duas galerias de Londres e Nova Iorque nas quais expõe habitualmente. Com essa estratégia, pretendiam valorizar a obra de Hirst muito acima do preço que os colecionadores autênticos estavam dispostos a pagar por uma peça cuja qualidade artística era duvidosa.

O fato é que depois da descoberta da farsa, a cotação das obras de Hirst não caiu – pelo contrário: subiu com os leilões da Sotheby’s. Ele vendeu obras por um valor de 140 milhões de euros, o que desbancou o recorde estabelecido em 1993 em um leilão de quadros do pintor Pablo Ruiz Picasso, que chegou a 14 milhões de euros (embora para consegui-lo Hirst tenha precisado arrematar 223 obras frente às 88 do pintor malaguenho). Entre as peças conceituais vendidas por Hirst estava O Bezerro Dourado, uma instalação que mostrava uma vaca morta com chifres e cascos de ouro conservada em um grande tanque de formol. Seus opositores, que asseguram que essas ambições comerciais distanciam a arte de qualquer visão estética, ironizaram, afirmando que a vaca sem dúvida ocuparia um lugar de destaque na sala dos amigos de Hirst.


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