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Händel, o Messias da música
 
 
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 O ENVIADO CELESTIAL
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Händel conseguiu conquistar, entre outros, os ouvidos de Jorge I, rei da Grã Bretanha

O mundo da música estava esperando sua chegada. Quando o compositor Georg Friedrich Händel começou a despontar, foi visto por muitos como um enviado celestial disposto a guiar as diversas tendências barrocas que chegavam à Europa por um mesmo caminho. Unificou a ópera sob um formato universal, extraindo o melhor das tendências francesas, alemãs e italianas. Impulsionou o canto coral por meio do gênero do oratório dramático, que transcendeu para além das igrejas e ganhou os palcos dos grandes teatros barrocos. E, sobretudo, colocou a música instrumental na mesma altura que a vocal, fato nunca visto até sua chegada. Eclético, obsessivo e virtuoso, Händel viveu a fama e a fortuna, e, ao mesmo tempo, despertava a inveja de outros músicos de seu tempo. Em seus últimos dias, compôs O Messias, sua obra mais reconhecida e a que resgata seu estilo mais íntimo e sua profunda espiritualidade. Naquela época, já não havia quem duvidasse que ele fosse o enviado prometido.

O DUENDE DO CELEIRO

Georg Friedrich Händel nasceu em Halle (Alemanha) em 24 de fevereiro de 1685, quatro semanas antes que o compositor Johann Sebastian Bach. Filho de uma camponesa e de um cirurgião e barbeiro que trabalhava para a nobreza, cresceu em uma família burguesa da Saxônia, uma região que florescia comercial e culturalmente no século XVII. Seu início como músico foi vocacional desde muito jovem e, como todo gênio, foi cercado por grandes doses de mistério. Na casa que era de sua família em Halle, todas as noites ouvia-se música vinda do celeiro, onde se conservava, a um canto, um velho clavecino. Assustados, seus pais pensavam se tratar de um fantasma ou de um duende travesso que tocava as teclas de forma desordenada, embora, às vezes, conseguisse arrancar algum som harmônico. Georg, pai de Händel, uma noite, se encheu de coragem e decidiu descer até o celeiro, com o garrote nas mãos, para descobrir o que estava acontecendo. Quando abriu bruscamente a porta, a música parou e o mistério foi esclarecido: era o pequeno Georg Friedrich, que vencia seus medos toda noite para, à luz de uma vela e de pijama, tocar o velho clavecino. Descoberta a vocação de seu filho, que não tinha, então, mais que seis anos, o pai lhe proibiu de se aproximar de qualquer instrumento musical, pois naquela época, a carreira artística não era bem vista e o ele preferia que o filho estudasse Direito para se tornar um advogado, uma profissão que garantia uma rápida ascensão social. Apesar dos desejos familiares, o pequeno Georg Friedrich estava predestinado a ocupar um lugar relevante na história da música.

Em 1692, Händel acompanhou seu pai durante uma visita a Johann Adolf I, duque de Weissenfels, um grande aficionado pela música que descobriu suas grandes aptidões após ouvi-lo tocar o órgão em seu palácio. Intermediado por este, Händel começou a ter aulas com Friedrich Wilhelm Zachow, organista e diretor do coro da igreja de Nossa Senhora de Halle, que confirmou que aquele menino de apenas oito anos tinha grande talento para tocar o órgão, o clavicórdio e inclusive o violino. Sua vocação ficou clara também no momento de aprender os fundamentos da escrita harmônica, da contrapontística e da notação musical. Foram as únicas aulas de música que teve em sua vida.


DUELO PELA MÚSICA

Aos 17 anos, Händel já tocava órgão na catedral calvinista de Halle, porém o trabalho não o satisfazia totalmente. Por isso, em 1703, mudou-se para Hamburgo, o centro da ópera alemã, para fazer parte da orquestra de Reinhard Keiser como segundo violinista. Tocava magistralmente, quase melhor que o solista, o que provocava certa inveja em seus companheiros durante os ensaios. Inclusive chegou a duelar com o músico Johann Matheson depois que ambos brigaram no meio de um concerto. Teve sorte: a ponta da espada deste quebrou ao golpear um botão metálico da casaca de Händel. Este acontecimento representou a reconciliação imediata dos dois amigos, ao ponto de Matheson se transformar em um dos grandes apoiadores do músico alemão para compor a ópera Almira, que estreou em 1704 com impressionante sucesso.

A obsessão de Händel por aprender levava-o a ficar até altas horas da noite estudando suas partituras à luz das velas. Ao contrário de seu compatriota Johann Sebastian Bach, que quase não saía da igreja onde trabalhava, o espírito aberto e cosmopolita do compositor de Halle estimulou seus desejos de conhecer o tipo de música que era feita em outros lugares do mundo. Em Hamburgo, ainda era difícil ver representadas as óperas que eram feitas na Itália e na França; por esse motivo, em 1706, Händel viajou para Florença e, meses depois, decidiu se estabelecer em Roma. Em sua excursão pela Itália, conheceu grandes músicos e compositores da época, como Alessandro e Domenico Scarlatti, Arcangelo Corelli e Benedetto Marcello, assim como os Médicis, com quem consolidou uma amizade. Em Roma, paramentado por uma aristocracia e por um clero seduzidos por seu talento, surgiram suas primeiras oportunidades como compositor de música vocal, cantatas e oratórios. Por causa da austeridade religiosa que imperava na capital italiana, as óperas estavam temporariamente proibidas, o que fez com que Händel se dedicasse a compor música sacra e instrumental enquanto esperava que o Vaticano autorizasse novamente sua representação. Em 1709, não aguentando mais, decidiu que suas óperas tinham que ser divulgadas onde quer que fosse e, assim, estreou sua Agrippina em Veneza. O sucesso foi completo.

Após estudar a fundo o estilo operístico italiano, que foi o que mais influenciou sua obra, voltou para a Alemanha e aceitou se tornar maestro da capela do príncipe eleito Jorge Luis de Hannover. Entretanto, Händel ainda precisava conhecer mais o mundo; então, alguns meses depois de seu retorno, mudou-se para a Inglaterra, o que aborreceu o príncipe. Com o apoio da rainha Ana Estuardo, que acabava de conseguir a unificação do Reino Unido após a integração da Escócia, em 1711, ele estreou Rinaldo em Londres, uma ópera que havia composto em apenas duas semanas. Depois de ser ovacionado, decidiu viver na cidade após uma breve viagem à Alemanha para resolver os problemas de visto e terminar algumas sonatas para flauta, lieder e uma série de cantatas que lhe haviam encomendado.

A rainha Ana, encantada por suas aptidões como compositor, pediu-lhe várias peças, como uma ode, um te-déum e um jubilate, que o transformaram em uma pessoa muito odiada entre os músicos britânicos, uma vez que as normas do recém-formado Reino Unido impediam que um estrangeiro compusesse peças pra atos oficiais.


A PARTITURA DA RECONCILIAÇÃO

Enquanto desfrutava do seu sucesso em Londres, o compositor alemão nem suspeitava que, ter deixado Hannover de um dia para o outro poderia lhe trazer problemas no futuro. A surpresa chegou em 1714, quando, após a morte da rainha Ana, Jorge Luis de Hannover se tornou Jorge I da Grã Bretanha. O reencontro entre eles foi desafortunado e vieram à tona antigos rancores. Mas Händel sabia que não havia coração tão duro que sua música não pudesse amolecer. Assim, presenteou o rei com suíte Música Aquática (1717), uma composição que estreou a bordo de uma viagem de barcaça pelo rio Tâmisa na qual o monarca foi cercado por 50 músicos. Jorge I, comovido com a beleza da obra, perdoou os excessos do compositor, nomeou-o tutor musical de seus filhos e lhe concedeu a nacionalidade britânica.

Nesse mesmo ano, o rei o encarregou da direção da Real Academia de Música de Londres, uma empresa teatral recém-criada para levar à capital britânica o tipo de óperas que faziam sucesso na Itália. Foi precisamente seu trabalho à frente desta companhia que proporcionou a Handel a fama como compositor de ópera em toda a Europa. Seu estilo se aproximava do tipo de ópera napolitana, embora ele lhe acrescentasse coros (pouco frequentes no belo canto italiano, que preferia o destaque dos solistas) e nelas havia uma preponderância especial dos personagens masculinos em tessitura de soprano ou contralto. Este costume, muito comum na época, fazia com que muitos papéis masculinos fossem representados por mulheres ou por castrati, homens que eram castrados na infância para que fosse conservado o seu timbre de voz agudo. Os castrati, apesar de possuírem tessitura feminina, tinham a capacidade torácica de um homem, o que lhes permitia sustentar as notas durante mais tempo. Este tipo de cantores desempenhou um papel fundamental na música, sobretudo nos países católicos, onde as mulheres haviam sido proibidas de atuar em obras teatrais. Castrados como o célebre Farinelli (Carlo Broschi) se tornaram famosos por representar papéis de soprano.

Como o Reino Unido era um país de religião anglicana (protestante) permitia, naquele momento, que as mulheres cantassem nos teatros. Assim, Händel pôde colocar a soprano Francesca Cuzzoni como partenaire de Senesino (Francesco Bernardi), um castrati que com seus dois metros de altura e sua voz de contralto se transformou no herói da ópera Julio César (1724). Por contar com dois papéis principais femininos, esta obra exigia um alto virtuosismo, motivo pelo qual a companhia de ópera de Händel alcançou grande notoriedade.
Além da obra teatral Acis e Galateia (1718), Händel criou 14 óperas para a Real Academia de Música de Londres, entre as quais se destacaram Ottone (1723), Tamerlano (1724), Rodelinda (1725), Alessandro (1726) e Admeto (1727). Ao mesmo tempo, continuou aceitando pedidos da aristocracia e, por encomenda de James Brydges, duque de Chandos, entre 1717 e 1720 compôs os Hinos de Chandos, uma série de salmos para coro, solistas e orquestra.


FUSÃO CLÁSSICA

Com exceção do oratório dramático, o compositor alemão não inventou nenhum gênero novo. No entanto, sua contribuição para a música foi decisiva, pois conseguiu fundir em suas partituras as distintas tendências que coabitavam a Europa. Fruto de uma visão cosmopolita, Händel reuniu as características nacionais de vários países e as aglutinou em um novo estilo, reflexo fiel da Europa barroca. Recolheu, assim, o melhor de seus contemporâneos, Johann Sebastian Bach e Georg Philipp Telemann, ao que acrescentou o estilo inglês de Henry Purcell e sua própria criatividade. O resultado foi uma música que unia o contraponto alemão com a melodia vocal do belo canto italiano e a elegância francesa com a simplicidade teatral dos compositores ingleses. Ao contrário de seu compatriota Bach, Händel evitou as rigorosas técnicas contrapontísticas e compôs uma música mais simples e mais lírica, que representava uma visão menos carregada e obscura do Barroco.

Durante os anos em que esteve à frente de sua companhia de música, teve tempo para desenvolver, além de óperas, os oratórios Esther (1732), Deborah (1733), Athalia (1733) e Saúl (1739). No princípio, os oratórios eram concebidos para serem colocados em cena, de forma similar às óperas, porém a igreja da Inglaterra havia proibido que fossem feitas representações teatrais de conteúdo bíblico. Isto obrigou o compositor a dar um papel predominante aos coros frente às árias e ao recitativo para adicionar dinamismo e solenidade à partitura. Além disso, para mostrar seu desacordo para com a decisão eclesiástica, negou-se a representar seus oratórios nas igrejas e se limitou a realizar os concertos em teatros sem nenhum tipo de atividade cênica. Assim, suas peças puderam prescindir do latim e utilizaram pela primeira vez o inglês para adaptar os textos da Bíblia.


CONCERTO INSTRUMENTAL

A censura anglicana permitiu ao autor perceber que a música era uma arte autônoma, que não necessitava de artifícios. A constatação de que a música podia ser apreciada sem a necessidade de recorrer a uma encenação teatral animou Händel a realizar concertos e a compor um grande número de obras instrumentais, entre as quais se destacam os Concertos Para Órgão Op. 4 (cinco composições para órgão e uma para órgão ou para harpa compostas entre 1735 e 1736), e os Concerti grossi Op. 6 (acabados em 1739).

Apesar de emocionarem as peças vocais, Händel se tornou um dos primeiros compositores a colocar a música instrumental à mesma altura que a vocal. Até sua chegada, considerava-se que os instrumentos deveriam servir para potencializar o esplendor da voz do cantor. Assim, os músicos ficaram reduzidos à figura de acompanhantes, condicionados ao tenor ou à soprano, ou, na melhor das hipóteses, a servir de ambiente para os balés que eram incluídos nas óperas. Händel demonstrou que a música instrumental tinha sentido por si mesma e despertou o interesse do público pelos concertos de orquestra que prescindiam das vozes para ressaltar o virtuosismo dos músicos que os interpretavam.

Em 1737, toda esta atividade contracorrente lhe cobrou caro. A Real Academia de Música de Londres havia fechado alguns anos antes e ele, ocupado com uma nova formação financiada por ele mesmo, sofria os ataques de The Opera of the Nobility, uma companhia rival que, seguindo o costume da época, parodiava em suas obras personagens famosos. O compositor, que não suportava as brincadeiras, viu como esta companhia lhe roubava parte de seu elenco de cantores, como seu apreciado Senesino, e inclusive se dava o luxo de contratar o popular castrato Farinelli para humilhá-lo publicamente. À beira da falência e como consequência do estresse, Händel sofreu uma paralisia muscular que o obrigou a deixar de compor e a se retirar em uma casa de saúde em Aquisgrano (Alemanha) durante um ano. Este período de reflexão acentuou sua religiosidade e seu ascetismo. Em 1741, ele voltou ao trabalho e compôs sua última ópera, Deidamia, pouco antes de se mudar para Dublin. No ano seguinte, quis demonstrar que continuava em pleno gozo de suas faculdades e estreou no New Music Hall desta cidade sua obra prima, O Messias.


EM BENEFÍCIO DOS POBRES

O Messias foi sua consagração e sua peça mais aclamada. Este oratório com letra de Charles Jennens (adaptada de passagens bíblicas) não foi somente uma forma de agradecer à Irlanda por sua hospitalidade, como também significou uma nova concepção social. Sua composição, muito simples em comparação com as obras de outros autores barrocos, servia para acentuar a solenidade e o dramatismo dos cânticos, que buscavam a redenção do ouvinte.

Com este peça inspirada nas cantatas alemãs e que de certo modo é um afastamento do autor de sua paixão pelo estilo italiano, Händel colocou a música a serviço da beneficência. Seu fervor religioso e sua espiritualidade se manifestaram em uma renúncia do autor em cobrar por ela. Assim, a arrecadação do primeiro concerto foi parar nas mãos de três associações de caridade e, atualmente, é comum que O Messias esteja no repertório clássico de qualquer concerto beneficente.

De volta a Londres, o compositor tentou reconquistar os favores da aristocracia, que havia começado a se esquecer dele para financiar novos compositores. Quando Händel representou O Messias diante de Jorge II da Grã Bretanha, tanto o rei quanto seus convidados se levantaram durante a Aleluia como se estivessem em uma igreja. Desde então, passou-se a ouvir em pé este momento do oratório.

Revalorizado por este triunfo no palácio, compôs a obra instrumental Música Para os Fogos de Artifício Reais (1749) e criou mais dois oratórios, Sansão (1743) e Salomão (1749), cujos últimos compassos anotou praticamente cego. A obsessão, desde a sua infância, por ficar estudando de noite à luz das velas lhe havia custado caro. Três operações de cataratas não conseguiram curar sua cegueira. Em 1751, abandonou a composição de sua peça Jefté e anotou nos parágrafos tortos de seu diário a frase: “Eclipse total, o mundo foi apagado”. Ainda assim, em 6 de abril de 1750, tocou o órgão durante uma representação de O Messias na qual desmaiou. Morreu em Londres em 14 de abril de 1759, festividade do Sábado Santo, e foi enterrado na Abadia de Westminster, muito próximo da tumba de William Shakespeare. Três dias antes, havia escrito às cegas: “Queria morrer na Sexta-Feira Santa, na esperança de me reunir a Deus, meu doce Senhor e Salvador, o dia da sua ressurreição”.


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