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E-book, o livro com tela
 
 
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 UM FUTURO DE LIVROS SEM PAPEL?
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Os e-books permitem anotar, sublinhar e salvar a página do livro na qual se interrompeu a leitura

O e-book chegou e, com ele, a dúvida: Será que agora só resta virar a página na história da literatura? A definição tradicional de livro, que relaciona a leitura ao conceito de papel, deixou de ser exclusiva. O e-book, ou livro digital, obrigou a dividir o termo em dois conceitos: as obras impressas e as que utilizam um novo suporte.

Embora tenha sido inventado há mais de duas décadas, o livro digital não conquistou grande popularidade. A maioria dos leitores rejeita a ideia de ler na tela, pois sua experiência se reduz às telas dos computadores, que emitem uma luz que cansa a vista. No entanto, esse problema que provocava o cansaço do leitor foi solucionado com a tinta eletrônica, um tipo de superfície que não emite luz e que consegue uma qualidade de leitura semelhante a do papel. Depois dessa invenção, o livro digital reduziu seus obstáculos para encantar os leitores e a indústria editorial começa a se preparar para enfrentar um dos maiores desafios de sua história: O livro em papel morrerá ou coexistirá com a sua versão eletrônica? O papel, um suporte que permaneceu intacto desde a invenção da imprensa moderna no século XV, será aposentado?

Trata-se de uma discussão acalorada, à qual não existe uma clara resposta no momento. Porém, é uma situação de fato nova na história do livro, e cujo debate os amantes da leitura, os educadores, os governantes, os escritores, os editores e demais interessados não podem se furtar em acompanhar.


UM MESMO CONTO, DISTINTOS SUPORTES
O termo e-book refere-se tanto ao livro digital quanto a um dispositivo específico que é utilizado para lê-lo, embora para esse último se aconselhe o uso da palavra e-reader. Os primeiros aparelhos de leitura de e-book foram conhecidos nos anos 1990, quando a Sony lançou o Bookman, um leitor que encontrou grandes dificuldades para conquistar o mercado em virtude de sua tela luminosa e de seu reduzido catálogo de livros disponíveis. Entretanto, o fracasso não fez a ideia desaparecer e, desde 2002, o número de livros na internet aumentou. Alguns anos depois, já se encontrava com frequência romances e contos, normalmente em formato PDF, doc ou PDB (Mobipocket), que podiam ser lidos em múltiplos suportes como um computador, um PDA ou um telefone celular de última geração. Contudo, a leitura nessas superfícies luminosas ainda é incômoda para a maioria dos usuários que, embora não tenham problemas na hora de enfrentar a leitura de textos breves, jamais se atreveria a ler um romance em uma tela desse tipo.

Consciente de que esse era o principal inconveniente para a expansão do e-book, a indústria inventou a denominada tinta eletrônica. Este tipo de tecnologia — que com as tintas de impressão convencionais só tem em comum o nome — não emite nenhum tipo de luz e proporciona um efeito similar ao do papel, motivo pelo qual não cansa a vista. Além disso, destaca-se por seu baixo consumo, pois necessita de eletricidade somente cada vez que se carrega uma tela, ou seja, cada vez que o leitor decide virar uma página. Este fato faz com que os e-books possuam uma grande autonomia e mobilidade, pois, além de serem muito leves e com dimensões similares as de um livro tradicional, permitem muitas horas de leitura sem a necessidade de recargas. Os mais modernos dispõem de conexão wi-fi, que facilita o download de livros da internet em apenas 30 segundos. Outro valor agregado é que permitem armazenar até 1.500 exemplares em sua biblioteca, na qual também cabem músicas e fotografias. Como aconteceu com a música com os reprodutores de mp3, que conseguiram desbancar os velhos discman, a ampla memória dos e-books permite transportar centenas de livros em apenas 300 gramas.

Obviamente, uma tela não pode substituir sensações como o virar de páginas ou o cheiro do papel, porém, acrescenta novas opções impensáveis no formato tradicional como sublinhar palavras sem danificar o livro, fazer anotações com um lápis óptico, salvar a página na qual se interrompeu a leitura no dia anterior ou acessar um dicionário para consultar um termo do qual se desconhece o significado. Todas essas possibilidades exigem do leitor certa preparação tecnológica. Assim, para enfrentar um romance já não bastará saber ler: também será necessário ter os conhecimentos para manipular uma informação que é distribuída de outra forma e que permite, por meio do hipertexto, relacionar uns conteúdos com outros.



GERAÇÃO E-BOOK
O futuro do e-book está repleto de grandes possibilidades. Os leitores com dificuldades visuais podem, por exemplo, aumentar o tamanho das letras para facilitar a leitura ou escolher a tipografia segundo suas preferências. Além disso, a edição de livros de texto em formato eletrônico permite que os estudantes reduzam o peso de suas mochilas. Em apenas meio quilo podem levar dicionários, manuais e livros de todas as matérias com a vantagem de poder sublinhar, fazer anotações diretamente na tela ou vincular alguns textos a outros.

Com relação aos leitores tradicionais, a maioria dos editores considera que serão contrários a mudar seus hábitos de leitura, embora nos últimos anos muitos tenham se deixado seduzir pelas vantagens de possuir uma biblioteca com milhares de volumes em um aparelho quase do bolso. Dificilmente o e-book substituirá totalmente os romances em papel, porém, certamente, poderia desbancar outro tipo de produtos editoriais de consulta, como os dicionários ou os guias de viagem, pois eles poderiam estar sempre atualizados por meio do download de novas edições da internet. Os editores acreditam que no futuro ocorrerá uma especialização e que haverá alguns tipos de livros que melhor se adaptem ao e-book enquanto que outros continuarão sendo editados em papel.

O âmbito da criação literária também foi seduzido pelo e-book e suas possibilidades. Além dos audiolivros (livros para serem escutados) e dos e-comics (histórias em quadrinhos em suporte digital), a narrativa e a poesia de vanguarda experimentaram o e-book e criaram gêneros novos que começam a ganhar adeptos. Assim, no Japão, em 2008, eles arrasaram com os romances escritos especificamente para sua leitura em telefones celulares com uma linguagem abreviada como a que é utilizada nas mensagens SMS. Além disso, alguns escritores experimentais criaram poemas interativos para as telas das agendas eletrônicas que permitem mover os versos como em um caligrama de múltiplas leituras. Outros autores pesquisaram as possibilidades literárias do hipertexto, que faz o leitor navegar por meio de diferentes vínculos que vão determinando o sentido da história ou inclusive lhe permitem construir um romance com diferentes finais. Apesar das tentativas pioneiras para explorar esse novo formato de amplas possibilidades criativas, muitas dessas propostas literárias não obtiveram ainda o reconhecimento necessário do público nem da indústria.


IMPRESSÃO SOB DEMANDA
A digitalização também abriu as portas para novas fórmulas para a indústria editorial, que perdeu o controle absoluto do que é publicado. Desde o final do século XX, é possível editar um livro em papel sem a necessidade de fazer uma tiragem inicial vinculada a um número mínimo de exemplares. Os sistemas de reprodução digital permitem a impressão de acordo com a demanda (on demand) e a autoedição, o que torna rentável a publicação de livros que antes não chegavam ao mercado. Tradicionalmente, as editoras se negaram a comercializar obras cuja previsão de vendas era inferior aos 1.500 exemplares, cifra considerada o marco a partir do qual um livro começa a ser rentável. Isso impedia a publicação de livros cujo público era muito escasso. Todavia, a impressão digital facilitou que livros para minorias saíssem ao mercado. As editoras tradicionais não se atreviam a publicar estes livros pelo alto risco de perdas econômicas que representavam. A impressão sob demanda permite que as tiragens sejam reduzidas ao número exato de exemplares que serão vendidos, evitando, assim, as perdas por acúmulo de estoque. Além do mais, esse tipo de impressão reduz as devoluções e afeta de forma positiva os autores, pois a economia na distribuição repercute diretamente em seus benefícios: se antes recebiam, no melhor dos casos, entre 8% e 10% do preço de venda de seus livros, com os e-books podem chegar a uma porcentagem entre 20% e 30%.

A autoedição é a base de negócios de novas empresas on-line. Com essa prática qualquer escritor profissional ou aficionado pode ver sua obra publicada e obter benefícios de até 80% do preço de venda de seu livro. O autor escolhe a capa, o formato e o preço de sua obra e assume todas as funções do editor. Em um sentido estrito, essas novas companhias atuam como impressoras, mas não como editoras e aí está seu ponto fraco: ao não intervir nos conteúdos toda a responsabilidade recai sobre o autor. A falta de revisão dos textos por um profissional pode transformar o livro em um produto de baixa qualidade que contenha, por exemplo, erros de ortografia ou até mesmo que esteja repleto de mentiras e conteúdos difamatórios.

Apesar desses inconvenientes, graças à digitalização e à impressão sob demanda, hoje existem livrarias virtuais que disponibilizam seu catálogo na internet e que imprimem o número exato de exemplares que já têm comprador. Oferecem também várias opções, pois o usuário pode decidir se o que deseja é um livro tradicional em papel ou sua versão digitalizada (e-book) para ler em seu computador, em um e-reader com tela de tinta eletrônica ou em seu telefone celular de última geração (o iPhone oferece um aplicativo que permite a descarga de livros diretamente da Amazon).


O SONHO DE ALEXANDRIA
As novas tecnologias ressuscitaram o velho sonho da biblioteca de Alexandria, uma ideia milenar que pretendia reunir em um único espaço todo o saber da humanidade. A diferença em relação àquele projeto está em que esse espaço que aspira a recopilação de todas as publicações da história não é um lugar físico, mas virtual e acessível de qualquer lugar do planeta onde exista uma conexão à internet.

A primeira ideia surgiu em 1971, quando o humanista estadunidense Michael Hart divulgou sua intenção de criar uma biblioteca de livros digitalizados (escaneados) para que as pessoas pudessem acessá-los de forma gratuita de seu computador. Queria cortar as grades da ignorância e do analfabetismo, colocando à disposição de todos os cidadãos a herança literária da humanidade. Naquele momento, parecia uma loucura, porém, sua ideia foi crescendo até que, em 1996, o denominado Projeto Gutenberg superou os 1000 exemplares. Os textos reunidos eram principalmente obras livres de direitos, devido ao fato de que nunca os tiveram ou a que esses haviam expirado. O projeto se popularizou com a expansão da internet até o ponto que, uma década depois, seu fundo editorial superava os 28 mil exemplares, entre os quais se encontram desde obras clássicas de autores gregos como Platão e Homero até romances de Miguel de Cervantes e contos de Edgar Allan Poe.

Porém, além disso, o Projeto Gutenberg revelou um problema que havia estado latente durante séculos: a descatalogação de obras. Quando um livro já não é rentável, as editoras deixam de publicá-lo. Assim, as edições se esgotam e o acesso a esses livros “submersos” se reduz às bibliotecas, aos leitores que os compraram em sua época ou à sua localização em livrarias de segunda mão. O livro digital soluciona esse problema, pois torna livre o acesso ao texto embora a obra já não seja mais impressa.

Após o sucesso do projeto de Hart, o gigante informático Google viu um filão de negócio na criação de bibliotecas virtuais e se propôs a colocar em prática a maior digitalização de livros da história para disponibilizar para os leitores milhões de textos submersos. Santiago de la Mora, responsável pelo Google Book Search, afirma que “o fato de que um livro esteja descatalogado não significa que não tenha interesse”. Enquanto a indústria editorial tentava digerir esse ambicioso projeto, o Google pulou todas as normas e começou a escanear 7 milhões de livros das bibliotecas estadunidenses sem levar em consideração os direitos autorais, o que disparou os alarmes entre os editores.

Diante da pressão judicial, a companhia chegou, em 2009, a um acordo com as editoras e as associações de escritores estadunidenses Authors Guild e Association of American Publishers para digitalizar os livros que já não eram publicados. Com esse acordo, similar ao que se pretende firmar na Europa, as editoras e os autores dividiriam 63% das vendas e o Google ficaria com 37%. Os autores que vissem suas obras digitalizadas sem autorização receberiam uma compensação econômica em caso de reclamação. As obras clássicas seriam de livre acesso, mas as sujeitas a direitos autorais oferecerão apenas uma parte gratuita (um capítulo ou um trecho como mostra de seu conteúdo), de forma que o leitor terá que continuar pagando por elas se quiser lê-las em sua totalidade. O acordo impedia que o Google vendesse esses livros em outro suporte e por qualquer outro meio que não seja a internet.

O processo, contudo, foi suspenso em 2013, sob a alegação que o programa Google Books não infringia os requerimentos legais de fair use (uso justo). Enquanto o Google continua com seu plano para se tornar o maior livreiro do mundo, algumas editoras como a Harper Collins, a Penguin ou a Random House decidiram não seguir o gigante estadunidense e criaram suas próprias plataformas de digitalização e venda de suas coleções.

Do outro lado do negócio da Google estão as iniciativas de alguns organismos internacionais que também quiseram utilizar as novas tecnologias para disponibilizar toda a literatura livre de direitos e a daqueles autores vivos que queiram se unir à proposta. Desse modo, a Unesco criou a web da Biblioteca Digital Mundial, que reúne um banco excepcional de livros, manuscritos e de documentos sonoros em sete idiomas (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês, português e russo) procedentes de bibliotecas e arquivos de todo o mundo, que poderão ser consultados de maneira gratuita por qualquer um que esteja interessado.


AS EDITORAS ENFRENTAM O FUTURO
Embora num primeiro momento as editoras tradicionais tenham olhado com ceticismo para o livro eletrônico, depois da invenção da tinta eletrônica e do lançamento dos primeiros e-reader com preço acessível, começaram a se interessar pelo novo formato. Aprendida a lição das indústrias musical e cinematográfica, as editoras preferem ir lentamente para se assegurarem de que seus livros não terminem sendo terreno fértil para a pirataria. Por isso, para proteger os direitos autorais e conseguir que o conteúdo de suas obras não seja manipulável, a Adobe criou o sistema de segurança DRM (Digital Right Management), que já foi utilizado com sucesso por várias editoras. Esses avanços, unidos ao ambicioso projeto da Google, despertaram o interesse dos editores.

Em 2007, Carmen Balcells, a agente literária mais importante no âmbito latino-americano, criou a fundação Barcelona Latinitatis Patria, com a qual pretendia criar uma biblioteca digitalizada na qual as obras possam ser consultadas pela internet. Em janeiro de 2009, sua agência assinou um acordo com a empresa Leer-e para distribuir algumas das obras de seus escritores, entre os quais estão Gabriel García Márquez, Isabel Allende e Mario Vargas Llosa, em formato digital. O projeto, denominado Palabras Mayores, pretendia aumentar em 300 volumes anuais o catálogo de e-books em castelhano, muito reduzido em comparação com as obras digitais disponíveis em inglês. Em 2015, Carmen Balcells faleceu e quem assumiu a liderança do projeto foi seu filho, Lluís Miquel Palomares, com o intuito de dar continuidade ao legado de sua mãe. 

A profecia que amedrontou o mercado editorial de que o livro de papel estava com os dias contados, no entanto não se realizou. A verdade é que o livro tradicional continua perdurando nas mãos dos leitores e, além disso, os e-readers não fazem parte do cotidiano de muita gente. Segundo a consultoria Euromonitor, em 2017, 131 milhões de aparelhos foram vendidos no mundo desde 2007. Após um pico em 2011, as vendas só caíram.

No Brasil, a base desses aparelhos é muito pequena, desde 2010, quando começaram as pesquisas no país, apenas 76,2 mil e-readers foram comercializados. O ano em que se comprou mais desses aparelhos por aqui foi em 2015, com 16,2 mil unidades – em cinco anos, porém, menos de 10 mil dispositivos serão comprados por brasileiros.

Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os e-books – o conteúdo que motiva a compra desses aparelhos – representaram apenas 1,09% da receita das editoras no Brasil em 2016. Ao todo, 2,75 milhões de e-books foram vendidos em 2016, contra 39,4 milhões de livros de papel.


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