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Braille, a leitura ao alcance da mão
 
 
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 LER COM AS MÃOS
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Desde 1825, o sistema de leitura-escrita em Braille melhorou a comunicação e a independência das pessoas cegas.

Ler era uma ação vetada aos deficientes visuais até que, no início do século XIX, o francês Louis Braille idealizou um sistema de leitura-escrita tátil destinado a suprir as carências comunicativas que a cegueira provoca. O acesso à informação e à cultura por meio da escrita tradicional estava limitado às pessoas sem problemas visuais até que Braille, cego desde os três anos de idade, inventou um sistema alternativo de leitura e escrita especialmente para este público. Desde então, milhões de deficientes visuais aprenderam o método Braille, que permite transcrever as letras a uma série de símbolos que podem ser lidos por meio do tato.

Apesar de sua vigência durante quase dois séculos, atualmente, a missão a ser cumprida é conseguir que toda a informação básica seja encontrada neste sistema para permitir uma maior autonomia e independência às pessoas cegas.


QUESTÃO DE TATO
O Braille é o método de leitura-escrita tátil mais utilizado no mundo. O sistema Braille é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada. Pode-se fazer a representação tanto de letras, como algarismos e sinais de pontuação. Ao deslizar os dedos sobre estes símbolos em relevo, os cegos podem ler, usando o tato.

As primeiras tentativas para conseguir um sistema de leitura para cegos datam do século XVI, quando alguns editores espanhóis e franceses começaram a gravar as letras do alfabeto tradicional sobre pranchas de madeiras ou metal. Assim os deficientes visuais podiam ler, seguindo os sulcos e os relevos com os dedos. Estes métodos, no entanto, não foram efetivos, pois o traçado complicado das grafias fazia com que os cegos demorassem muito para reconhecer cada palavra. Tentar fazer com que eles se adaptassem ao alfabeto tradicional foi uma ideia que fracassou, provavelmente porque seus criadores não tinham a mesma deficiência.

Foi preciso esperar que um cego colocasse sua experiência pessoal a serviço da comunidade para conseguir um sistema eficaz. Esse deficiente visual foi o jovem francês Louis Braille (1809-1852), que idealizou o sistema de pontos em relevo que leva seu nome.


O SÍMBOLO GERADOR
Louis Braille ficou cego aos três anos, após sofrer um acidente enquanto brincava com ferramentas na oficina de seu pai. Sua família lhe mandou, em 1819, à Instituição para Crianças Cegas de Paris, fundada pelo filantropo Valentin Haüy, onde começou a estudar, usando livros com grandes letras em relevo. Aos 13 anos, o diretor da escola o escolheu para que testasse um sistema de leitura-escrita tátil que havia sido inventado por um soldado de Napoleão, Charles Barbier. Este código de comunicação militar era baseado em alguns símbolos em relevo que serviam para transmitir ordens na escuridão noturna, sem a necessidade de acender luzes que delatassem a posição ao inimigo. Em 1823, Braille aperfeiçoou este sistema com uma série de caracteres baseados em oito pontos que, após várias simplificações, resultou em um alfabeto com grafias de seis pontos. Assim, cada letra podia ser transcrita a um código em relevo que depois os cegos podiam ler por meio do tato, passando seus dedos da esquerda para a direita diretamente sobre o texto.

O sistema idealizado por Braille utiliza um símbolo base, o gerador, composto por seis pontos distribuídos como nas peças de dominó. Seu tamanho é fruto dos resultados de um estudo que revelava qual era a medida ideal para a leitura tátil. Esta pesquisa foi também decisiva para descartar os símbolos de oito pontos, que eram mais incômodos. De posse do símbolo gerador, é possível realizar 64 combinações de pontos diferentes, que dão lugar a uma série de letras minúsculas e maiúsculas, números, sinais de pontuação e símbolos aritméticos. Como este número ainda era insuficiente, Braille criou um sistema adicional de símbolos duplos.

Entretanto, quando, em 1826, Braille introduziu pela primeira vez seu sistema na escola de Paris, teve que enfrentar os demais professores não-deficientes, que consideravam um absurdo ensinar aos cegos um alfabeto próprio. Assim, Louis Braille morreu sem ver seu método reconhecido – até 1854, dois anos após seu falecimento, não havia sido aceito na Instituição para Crianças Cegas de Paris. Em 1878, ninguém discutia a utilidade do método Braille, que foi definido em um congresso internacional de cegos, celebrado naquele mesmo ano em Paris, como o método universal de leitura-escrita para pessoas com deficiência visual.


A UMA OU A DUAS MÃOS
O Braille é um sistema simples, que pode ser usado por pessoas cegas ou por aquelas cuja capacidade visual não lhes permite a leitura impressa. Além disso, as pessoas sem problemas de visão podem aprendê-lo sem grande esforço, lendo-o visualmente. A leitura tátil é feita letra a letra, por isso requer que o aprendizado seja mais lento e comece mais cedo que a leitura visual. Existem dois tipos de leitura, a unimanual e a bimanual, que dependem da perícia do leitor. Na bimanual, cada mão lê a metade de um parágrafo, enquanto que na unimanual a mão volta até a metade do parágrafo para descer daí para a linha seguinte.

A escrita à mão em Braille apresenta uma certa dificuldade, uma vez que para realizar a leitura com o tato, é necessário que ela seja feita com um buril de forma invertida: da direita para a esquerda e com os símbolos invertidos, para que, ao virar o papel, os relevos fiquem no sentido correto de leitura. Com a escrita mecânica, as dificuldades diminuem. Cada máquina de escrever em Braille possui seis teclas (uma por ponto), uma barra espaçadora, uma tecla de retrocesso e uma para a mudança de linha. As teclas são usadas separadamente ou simultaneamente para criar os diferentes símbolos. O avanço dos sistemas de impressão também somou às impressoras Braille a técnica da serigrafia, que substitui os tradicionais pontos fundos no papel por pequenas gotas de substância plástica que podem ser lidas com a mesma facilidade.

A chegada do computador também trouxe um grande avanço para as pessoas com deficiências visuais. Nos anos 1970, foram utilizados dispositivos como o Optacon (Optical-to-Tactile Converter), que permitia ler textos impressos em tinta ao identificar as letras e traduzi-las a símbolos táteis. No entanto, a proliferação de diferentes tipografias e qualidades de impressão nos anos 1980 logo tornou esse aparelho obsoleto, uma vez que, além de tudo, era muito lento. A partir dos anos 1990, o desenvolvimento da tiflotecnologia, termo empregado para falar das ferramentas tecnológicas adaptadas aos usuários cegos, possibilitou a criação de impressoras e sistemas de linha Braille, que permitem traduzir instantaneamente textos e inclusive páginas da web. O surgimento da informática também auxiliou na recuperação do sistema de oito pontos idealizado originalmente por Braille, pois a maior combinação de caracteres (256) permitia reproduzir melhor o aspecto das páginas da web, já que interpretava melhor alguns elementos como as mudanças de linha e as colunas do texto. Além disso, este método, apesar de não ler fotografias, possibilita a identificação das ligações, dos elementos piscantes e de algumas características da tela. A linha Braille representa os caracteres que aparecem na tela por meio de uma série de oitenta pequenas células ou caixas Braille, que a pessoa cega pode verificar tatilmente. O grande número de células permite ler as linhas completas que aparecem na tela.

Com a eclosão da Internet, cada país fez suas próprias correspondências entre o sistema de seis e o de oito pontos. Por isso, a fundação ONCE (Organização Nacional de Cegos Espanhóis) iniciou uma série de aproximações com as instituições de ensino de Braille latino-americanas por meio de sua filial FOAL (Fundação ONCE para a América Latina) e com os organismos que regulam seu ensino na Europa e nos Estados Unidos para fazer um acordo sobre algumas normas de escrita comuns. Este aspecto é especialmente importante na era da globalização, pois, com o passar dos anos, cada país foi substituindo alguns símbolos, sobretudo de pontuação, por outros que se adaptavam melhor a seu idioma. Assim, por exemplo, a inexistência de acentos em inglês permitiu que os símbolos que eram utilizados para marcar a acentuação no Braille francês passassem a ter outras funções. Isto aconteceu em todos os idiomas e, por exemplo, atualmente, o símbolo de ponto final e de maiúsculas não são os mesmos em espanhol e em inglês. Além disso, línguas como o coreano, o chinês ou o japonês eliminaram as grafias ocidentais e substituíram-nas pelas de seu alfabeto.


UM MUNDO AO ALCANCE
Seja qual for o idioma em que é empregada, a invenção da leitura-escrita em Braille abriu as portas da independência para os cegos de todo o mundo. Outros sistemas alternativos, como a audiodescrição de filmes e a leitura dramatizada de livros, não conseguiram tanta aceitação quanto o Braille, porque limitam a autonomia dos cegos, que tem que se orientar pela interpretação de uma série de vozes que os atores fazem das imagens e das palavras. Neste sentido, o Braille permite que cada leitor interprete de forma autônoma cada texto.

Além disso, existe um grupo para o qual a invenção do Braille foi fundamental: as pessoas surdo-cegas. Ao sofrer de duas deficiências e não poder acessar a informação e a cultura por meio da audição nem da visão, os surdo-cegos viviam praticamente isolados em um mundo de dependência até que o método inventado por Louis Braille abriu-lhes as portas do conhecimento autônomo.

Desde que o método de ensino em Braille se popularizou, milhões de pessoas cegas puderam beneficiar-se desta ferramenta que permite ler, escrever, compor músicas e ter acesso à informática. Na maioria dos países, existem normas de segurança que obrigam que os rótulos das embalagens dos medicamentos e os painéis de comando dos elevadores estejam em Braille, fruto do trabalho de reivindicação de associações de cegos espalhadas por todo o mundo. Ações tão simples como diferenciar os alimentos embalados ou os medicamentos com etiquetas são possíveis graças ao Braille. Mas, embora algumas empresas de alimentação, produtos de higiene e eletrodomésticos já incluam etiquetas em Braille, ainda há um longo caminho para se percorrer até que as pessoas com deficiências visuais melhorem sua autonomia.


UM MUNDO SEM BARREIRAS
Mesmo que a informação em Braille nas cidades, nos museus e nos edifícios públicos seja cada vez maior graças ao trabalho das associações de deficientes visuais, ainda há muitos desafios para eliminar as barreiras. A inserção do sistema Braille nas cédulas oficiais, por exemplo, é uma iniciativa aplicada apenas no Canadá até o momento. Embora as saliências feitas no papel moeda canadense não sigam exatamente o alfabeto Braille, mas sejam simplificações deste, elas permitem que os cegos identifiquem com clareza o valor de suas notas na hora de pagar e receber o troco.

A adoção do Braille em todos os papéis do governo facilitaria também que os cegos preenchessem formulários e tivessem acesso de forma autônoma, sem intérpretes, à informação escrita. Esta reivindicação é uma das grandes aspirações das organizações de cegos, que denunciam as barreiras de acessibilidade encontradas inclusive no exercício de alguns direitos garantidos pela Constituição. Assim, por exemplo, a adoção de panfletos em Braille nos comícios permitiria que os deficientes visuais exercessem seu direito ao voto secreto, algo impossível até agora em muitos países, onde eles precisam de alguém que lhes indique que cédula colocar no envelope, com o risco de serem enganados.

A Costa Rica, por exemplo, conseguiu que o voto fosse aceito em Braille, após a Fundação para o Progresso das Pessoas Cegas denunciar, em 2006, a discriminação ao Tribunal Constitucional. Seu exemplo foi seguido inclusive por outros países latino-americanos. Estados como Colômbia, Bolívia, Porto Rico, Equador, Nicarágua e El Salvador já contam com cédulas eleitorais e moldes específicos para cegos, algo que contrasta com o atraso de outros países, sobretudo os europeus, que demoraram anos para adotar estas medidas. Após o precedente da Suécia e dos Estados Unidos, em 2002, a França e a Alemanha permitiram o voto com cédulas e moldes em Braille a partir de 2005. Na Espanha, a comunidade autônoma de Andaluzia foi pioneira em facilitar que os cegos exercessem este direito ao voto secreto, usando cédulas em Braille nas eleições de março de 2008, o que foi considerado um importante avanço social. Em 2009, o governo espanhol também estendeu o direito a todas as comunidades, um passo a mais para que as pessoas com deficiência visual conquistassem a autonomia completa.


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