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Edgar Allan Poe, a beleza da morte
 
 
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 QUANDO A MORTE ERA BELA
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Edgar Allan Poe sempre se definiu como poeta, mas foi mais lembrado por seus contos tétricos

Edgar Allan Poe demonstrou, em seus relatos, que o grotesco pode ser belo. Poeta maldito e escritor autodestrutivo, revolucionou o universo literário de sua época, quase ao mesmo tempo em que atravessava a linha tênue que separa a vida da morte. Embora tenha sido mais conhecido por sua obra em prosa, sempre se considerou o poeta da melancolia e da escuridão. De seus angustiantes versos, reivindicou o estranho e o extraordinário para transformar a morte em beleza. Seus personagens no limite da loucura e seus finais abruptos sem intenção moral romperam com a literatura anterior e criaram novos gêneros, como o relato policial e o conto gótico moderno. Suas histórias de terror psicológico provocaram no leitor uma terrível sensação de angústia ao revelar-lhe que a morte não estava isenta de encanto. Assim, abriu a caixa da morbidez ante a dor alheia e desvendou os problemas de consciência de que padecem os leitores quando descobrem a atração de ser testemunhas de uma tragédia. Poe soube conviver com essas sensações contraditórias ao mesmo tempo que sofria com o alcoolismo. O vício, do qual não podia escapar, destruia-lhe a vida e o levava à loucura, como se fosse o final de um de seus contos. “A morte, quando se alia intimamente com a beleza, é o tema mais poético do mundo”, escreveu. Uma sentença que levou até as últimas consequências.

VIDA BOÊMIA

Apesar de ao longo da sua vida ter trabalhado como jornalista, crítico literário, ensaísta e escritor de contos, Edgar Allan Poe (Estados Unidos, 1809-1849) sempre se definiu como poeta. Sua vida foi, por decisão própria, a de um autor maldito. Filho de dois atores de teatro, Elizabeth e David Poe, ficou órfão muito jovem e foi adotado por John Allan, um abastado empresário de Richmond (Virgínia, Estados Unidos) de quem tomou o primeiro sobrenome. Herdou de seus pais biológicos uma saúde frágil e o gosto pela vida noturna, que acabou por destruí-lo. Apesar do conforto que seus novos pais lhe proporcionaram, Poe renegou sua rica família adotiva, que havia deixado ele estudar no Reino Unido, e foi viver com rebeldia a vida universitária. Seus exageros com o álcool, somados à fome e à miséria, estiveram presentes em seu cotidiano. Embebedava-se com frequência, com apenas duas taças, e acordava na manhã seguinte perdido, desorientado e com a carteira vazia. Depois de ser deserdado, quis contar com um salário fixo, e então se alistou na academia militar de West Point. Não superou o período de instrução e foi expulso devido à indisciplina. Assim, sem herança e sem profissão que lhe trouxessem renda, só lhe restou o caminho da literatura. Seu erro foi tentar viver da poesia em uma época em que os Estados Unidos se encontravam no início da Guerra de Secessão. Seu acerto foi entrar no âmbito da literatura comercial e saber atrair a atenção dos leitores que ousavam desafiar a superstição e se interessavam pelas histórias extraordinárias que eram publicadas toda semana nos jornais.

A vida que levou foi atroz, mas ele tentou demonstrar que até a morte, se bem olhada, podia ser bonita. Nesse universo obscuro de pobreza e solidão, Poe construiu sua obra literária, composta de mais de 60 contos e uma série de poemas, nos quais predominam temas como a loucura e a morte. Criou, assim, um mundo imaginário para fugir da realidade que o cercava e da que se refugiava em uma taça de álcool.


POEMAS DE AMORES FALECIDOS

A obra de Poe é a busca da melancolia, o sentimento que, segundo o escritor, dava sentido à poesia. Poe acreditava que a morte é o mais triste e poético de todos os temas melancólicos, sobretudo quando afeta um ser belo. A morte de uma linda mulher era para ele o melhor tema que podia abordar a poesia, principalmente se fosse narrada a partir da melancolia do “amante privado do seu tesouro”. Essa ideia é o eixo de sua obra poética mais aclamada, O Corvo (1845), na qual um jovem que havia perdido sua amada recebe a visita de um pássaro que repete sem parar as palavras Never more (Nunca mais). O poema é um exemplo do domínio técnico de Poe e foi utilizado por ele mesmo para explicar como construía seus textos em seu artigo de Filosofia da Composição (1846). Nesse ensaio, Poe assassina de maneira vil as musas ao assegurar que na hora de escrever “nenhum ponto deve ser deixado nas mãos da intuição ou do acaso” e que cada palavra “deve responder à lógica rigorosa de um problema matemático”. Poe afirmava desse modo que a beleza é o único âmbito legítimo da poesia, uma ideia compartilhada com o escritor romântico Lord Byron (George Gordon Byron), a quem admirava profundamente. Para ambos, a morte e o medo guardavam os segredos de uma beleza a ser descoberta.


A ARTE DA LOUCURA

Segundo sugere Charles Baudelaire em seu estudo sobre Edgar Allan Poe, o poeta era muito mulherengo e possuía uma beleza chocante, que despontava por cima de suas roupas esfarrapadas, sempre fechadas até o último botão. Baudelaire o definiu como “um cavalheiro tão orgulhoso quanto faminto”. Esse cavalheirismo apareceu ao longo de sua obra, pois, apesar de recorrer com frequência ao amor, Poe sempre evitou fazer referências sexuais em suas obras, pois lhe parecia que o sadismo, a culpa e outros sentimentos mórbidos eram muito mais interessantes que os instintos amorosos.

Um dos aspectos mais cruéis da obra de Poe é que todas as histórias poderiam ocorrer na vida real. Poe não utilizava elementos fantásticos nem mágicos e suas apreciações eram documentadas por meio de um minucioso estudo quase matemático. Inclusive em suas passagens mais fantasiosas o leitor tem a dúvida de se o que descreve é real ou, ao contrário, é um sonho ou uma invenção da mente perturbada do protagonista da narração. Todos os grandes personagens de Poe têm uma personalidade neurótica e obsessiva. A loucura e as fobias estão presentes neles e os levam a cometer imprudências que mostram a realidade de seus atos, como no final de O Coração Delator. Os problemas mentais dos protagonistas de seus contos não são produtos de uma doença nem de um trauma, mas de um uso excessivo do cérebro. Do mesmo modo que Poe abusava do álcool, seus personagens abusam de seus pensamentos, têm dúvidas, medos e refletem sobre o que poderia ocorrer com eles. Essas reflexões os deixam transtornados. Analisam tudo. Pensar os faz ficar loucos, porque tentam deduzir o que o futuro trará muito antes que este chegue. A histeria rouba o lugar do livre-arbítrio. São personagens desesperados diante do que poderia acontecer. Gente desequilibrada, que não é responsável por seus atos.

A constatação de que a vida é trágica conduz os protagonistas inevitavelmente à loucura. A histeria, a neurose e outros transtornos mentais servem para Poe como justificativa para não resolver seus contos com uma lição de moral. Mediante a enfermidade mental, seus personagens se reconciliam com sua natureza, desvinculada das virtudes artificiais que marcam a sociedade. O efeito dramático que Poe alcança em sua obra afasta-se de qualquer intenção moralizante de sua época, pois ele próprio, alcoólico e libertino, assíduo nas tabernas e nas casas de má fama, estava muito distante da moral burguesa.


O DELÍRIO DA IMAGINAÇÃO

Desde seu primeiro livro, Tamerlão e Outros Poemas, publicado em Boston em 1827, o escritor estadunidense demonstrou que dominava a técnica da métrica e do ritmo. Apesar de sua maestria, essa obra teve pouca projeção. Também passaram despercebidos seus dois poemários seguintes, Al Aaraaf (1829) e Poemas (1831). Seu primeiro sucesso chegou com o conto em prosa Manuscrito Encontrado em uma Garrafa (1832), com o qual ganhou um concurso realizado pelo jornal Baltimore Saturday Visitor. Poe também ficou em primeiro na categoria de poesia do mesmo concurso, mas diante da impossibilidade de ganhar os dois prêmios, os editores do jornal decidiram reconhecer apenas seu trabalho em prosa. Apesar do duro golpe que foi para seu ego o fato de terem valorizado mais sua prosa que seus versos, Poe recebeu o prêmio das mãos de Thomas White, que lhe deu um emprego no diário.

O triunfo no concurso proporcionou a Poe uma renda fixa, ainda que escassa, e seu nome começou a se tornar popular. Embora tenha chegado a dirigir a revista Southern Literary Messenger, nunca saiu da pobreza, pois tanto o jornalismo quanto a literatura eram ofícios muito mal remunerados naquela época. As possibilidades de editar um livro de poemas eram muito poucas; por isso o escritor e sua mulher, sua prima-irmã Virginia Eliza Clemm, tiveram de sobreviver com o pouco que lhes proporcionava a publicação de seus contos no jornal. Poe sempre se considerou um poeta frustrado. Por causa disso, em seus anos de crítico literário foi cruel e impiedoso com outros literatos que tinham mais sucesso, mas menos técnica que ele. Seus contemporâneos temiam suas sangrentas resenhas ao ponto de que, para alguns poetas, suas críticas provocavam mais pavor que seus contos.

Poe era demolidor, sobretudo com os poetas, em grande parte pela inveja que sentia ao ver os poemas de outros serem publicados, enquanto os seus permaneciam fechados em uma gaveta sem que nenhum editor se interessasse por eles. Edgar Allan Poe dominava o ritmo poético, como demonstrou em seus poemas O Corvo (1845) e especialmente em Os Sinos (1849), onde foi capaz de reproduzir som por meio de aliterações (figuras literárias que remetem a um som natural por meio da repetição de fonemas). Em cada poema, Poe buscava um efeito no leitor. O que conseguia com uma elaborada estrutura, como em O Dormente, um poema com um ritmo muito lento, denso e pausado, que reproduz o estado de sonolência que vive o protagonista.


A MISÉRIA DAS LETRAS

Embora dominasse a técnica da poesia, Poe só conseguia vender seus contos aos mesmos jornais que às vezes se negavam a publicar seus poemas. A necessidade econômica o obrigou a especializar-se em contos curtos e em temáticas que vendiam naquela época – a maioria relacionada aos avanços científicos e médicos. Seu único romance, As Aventuras de Arthur Gordon Pym, foi publicado em 1836, com pouquíssimo sucesso. Seu trabalho nos jornais e suas colaborações em revistas da Filadélfia e de Nova Iorque quase não proporcionavam ganhos, mas permitiam que ele publicasse alguns relatos curtos enquanto sonhava em editar seus poemas. O escritor soube adaptar suas histórias ao pequeno espaço que lhe cediam os editores. Em 1838, ele as reuniu no livro Tales of the Grotesque and the Arabesque (em português, Contos do Grotesco e do Arabesco), que conseguiu bastante difusão devido à sua original temática. Nesses contos, o escritor evoca o mundo do estranho e do singular para demonstrar que aquilo que se separa da vulgaridade da norma também pode ser belo.

Poe demonstrava em cada relato sua ampla solidez argumentativa, fruto de um trabalho de pesquisa prévio. Entre seus contos de intriga mais aclamados, contaminados de detalhes científicos, encontram-se O Escaravelho de Ouro (1843) e seus relatos de detetives, como Os Crimes da Rua Morgue (1841), considerado o pioneiro desse gênero na história da literatura. Outros contos posteriores serviram para definir ainda mais o novo gênero, como O Mistério de Marie Rogêt (1843) e A Carta Roubada (1844), todos eles precursores do romance policial de hoje.

Além disso, Poe cultivou arrepiantes relatos de terror psicológico, como O Gato Preto, e outros centrados na crueldade da tortura, como O Poço e o Pêndulo (1842). A vingança, exposta em todo seu esplendor em O Barril de Amontillado (1846), e o sentimento de culpa do protagonista alcoólico de William Wilson (1839) mostram os fantasmas que atormentavam o escritor.


A MORTE CAI TÃO BEM

Somente depois de conseguir grande aceitação com seus contos, Poe pôde ver finalmente publicado seu poema O Corvo, que alcançou grande divulgação. No entanto, o sucesso chegava tarde. O alcoolismo fizera com que perdesse seu posto no Southern Literary Messenger e o obrigara a viajar pelos Estados Unidos para vender seus contos por um preço muito baixo a revistas como Graham's Magazine e Burton's Gentleman's Magazine, ambas na Filadélfia.

Depois da morte de sua esposa, Edgar Allan Poe começou a notar os primeiros sintomas do delirium tremens, a síndrome dos alcoólicos. Apesar de sua debilidade, iniciou uma nova viagem de navio para tratar de assuntos profissionais em Nova Iorque. Ao chegar a Baltimore, em 6 de outubro de 1849, decidiu desembarcar. Sentia-se doente e enjoado e decidiu tomar mais uma taça em uma taberna do porto. Ali, encontrou-se com alguns velhos conhecidos e a situação passou dos limites ao mesmo tempo que derramavam os copos. Na manhã seguinte, a polícia encontrou o corpo moribundo de Poe jogado na rua. Levaram-no ao hospital, mas nada pôde ser feito. O delirium tremens, esse terrível corvo negro que o havia levado à loucura, acabou com sua vida em 7 de outubro de 1849. Foi o fim de um escritor autodestrutivo. O último verso de um de seus poemas diabólicos nos quais a morte sempre vence. O sorriso triunfal de um cadáver pálido que alcançou, em sua mortalha, a beleza que o tempo fez eterna.