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Biocombustíveis, uma alternativa ao petróleo?
 
 
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 UMA ENERGIA POLÊMICA
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A cana-de-açúcar é a matéria-prima que produz o biocombustível mais eficaz

A preocupação com uma possível crise energética, em um futuro próximo, despertou, a partir da década de 1970, o interesse por fórmulas alternativas ao petróleo. O consumo atual de combustíveis, sobretudo após aumento de sua demanda por causa do crescimento econômico recente de Índia e China, impulsionaram algumas teorias prevendo que o petróleo está com os dias contados.

A maior parte dos especialistas considera que os combustíveis fósseis, como o gás natural, o carvão e o petróleo, cuja formação necessita de milhões de anos, se esgotarão em cerca de 80 anos. Um dos motivos seria o constante crescimento da população mundial.

A Agência Internacional de Energia advertiu, no seu relatório de 2014, que a demanda por energia aumentará 37% até 2040 e alertou que, embora Brasil, Canadá e Estados Unidos contribuirão, nos próximos 10 anos, para o aumento das reservas mundiais de petróleo, se nenhuma medida for tomada para que os países do Oriente Médio aumentem sua produção, é possível que enfrentemos as primeiras crises de abastecimento de petróleo, já a partir de 2015. O problema trará consigo graves consequências para a economia e o meio ambiente. Frente à ameaça de uma crise energética global, a indústria automotiva, a principal afetada, começou a financiar estudos científicos para encontrar fontes alternativas e carburantes de fontes renováveis em curto prazo.

Nesse cenário, os biocombustíveis poderiam ser uma solução, mesmo que acarretem outros problemas.


ALTA DOS PREÇOS
Os biocombustíveis foram apresentados no final do século XX como o grande milagre ecológico, milagre que livraria o mundo dos combustíveis fósseis. Dois desses biocombustíveis, o bioetanol e o biodiesel, são gerados a partir de biomassa vegetal, isto é, matéria orgânica de origem animal ou vegetal, fonte aparentemente inesgotável que, segundo seus defensores, reduz o efeito estufa e o aquecimento global por reduzir a emissão de dióxido de carbono. Uma vez comprovado seu bom desempenho nos motores dos automóveis, os biocombustíveis foram anunciados como a energia do futuro. Além disso, apresentam-se como uma solução reciclável, uma vez que é fabricado com biomassas, ou seja, restos de organismos vivos ou resíduos procedentes de animais ou vegetais, diferentemente do petróleo e do carvão, ambos compostos por minerais fósseis. Até este ponto, os biocombustíveis apresentam somente vantagens.

Talvez seja por isso que muitos governos, empolgados em virtude dos benefícios positivos de uma nova fonte de energia alternativa, não analisaram as consequências negativas que a plantação de vegetais especificamente para a fabricação de biocarburantes causariam. Esse erro trouxe algumas consequências graves.

A prosperidade prometida pelos biocarburantes esbarrou na Lei de Gregory King, uma teoria econômica que explica que uma pequena elevação da demanda de um produto primário provoca uma grande alta no preço de seus derivados. Assim, o aumento da produção de vegetais específicos para a indústria dos biocombustíveis começou a ter consequências nefastas para os países mais pobres, onde os alimentos básicos encareceram consideravelmente. Segundo os especialistas em economia, os países desenvolvidos também sofrerão a alta do preço dos alimentos, mesmo que sua incidência seja menor do que nos países subdesenvolvidos.


COMBUSTÍVEL VERDE?
Ao contrário do que muitos pensam, os biocombustíveis não são inteiramente ecológicos, embora prejudiquem menos o meio ambiente do que os combustíveis fósseis, por gerarem menos quantidade de CO2. Para contaminar pouco o ambiente, no entanto, os biocombustíveis devem ser utilizados em estado puro, sem misturar-se a outros produtos, o que reduz enormemente suas aplicações. A utilização do prefixo “bio” gera confusão entre a maioria das pessoas, que pensam que o biocombustível é uma fonte de energia limpa. Nada mais equivocado. Com exceção do caso brasileiro, em que alguns carros com motor flexível funcionam à base de etanol puro, na maioria dos países os biocombustíveis são misturados a combustíveis fósseis antes de serem comercializados, pois isso permite sua utilização em automóveis convencionais sem que estes necessitem de adaptações no motor ou em seus outros componentes mecânicos. Dessa forma, os postos de gasolina podem oferecer carburantes ligeiramente mais baratos, e que reduzem a emissão de dióxido de carbono, embora não deixem de ser contaminantes e prejudiciais ao meio ambiente.

Diante da falsa imagem ecológica que o termo “bio” gera, muitos cientistas propõem a denominação agrocombustíveis, isto é, combustíveis de procedência agrícola para evitar o mal entendido.


O CUSTO-BENEFÍCIO DOS BIOCOMBUSTÍVEIS COMPENSA?
Hartmut Michel (1948), Prêmio Nobel de Química de 1988, provocou uma grande polêmica, em 2012, ao afirmar que os biocombustíveis têm mais inconvenientes que vantagens. Segundo seus estudos, o bioetanol puro contamina menos que o petróleo, mas, durante seu processo de extração, exige grandes quantidades de energia obtida por meio da utilização de combustíveis fósseis. O CO2 liberado na produção dessa energia é o dobro do produzido na queima da mesma quantidade de petróleo. Assim, o dióxido de carbono que se economiza no final do processo é gerado durante a extração do biocombustível e a rentabilidade ecológica muito pequena. Para muitos cientistas, entre os quais Michel, “praticamente nula”.

Além disso, Michel afirma que a plantação de novas espécies em locais tradicionalmente não cultiváveis não é vantajosa, pois destrói o meio ambiente e prejudica a economia. Assim, o químico alemão assegura que “o biocombustível é rentável somente quando produzido a partir da cana-de-açúcar em países onde este cultivo cresça como erva, sem necessidade de fertilizantes, como o Brasil”. Em lugares onde isso não ocorre, como na Europa, onde os biocombustíveis são produzidos a partir de trigo e beterraba, eles seriam inviáveis tanto em termos econômicos quanto ecológicos.

Para este ganhador do Prêmio Nobel, os combustíveis de origem vegetal não são uma alternativa eficaz para o combate à mudança climática, uma vez que a quantidade de energia que as plantas podem produzir é insignificante diante dos custos envolvidos com a sua plantação em larga escala e o consequente aumento dos preços dos produtos agrícolas que perdem espaço para a plantação das plantas destinadas à produção de biocombustíveis.

Para se ter uma ideia de quão baixa é essa quantidade energética gerada pelas plantas envolvidas na produção de biocombustíveis, segundo Michel, apenas 1% da luz solar que incide em uma planta é transformada em energia por meio da fotossíntese, o processo bioquímico que transforma luz em energia. Esse 1% é a quantidade máxima de energia extraída da luz solar que a planta armazena por meio da fotossíntese. O valor real de energia de uma plantação dependerá, no entanto, de inúmeros outros fatores: quanta energia é convertida da planta para o biocombustível final, os custos da plantação com fertilizantes e pesticidas e o gasto energético que o processo de conversão da energia necessário para extrair a energia armazenada na planta e transformá-la em biocombustível. No caso do etanol, o principal biocombustível produzido no Brasil, a partir da cana de açúcar, esse valor é de míseros 0,2%.

Por causa desses cálculos, Michel afirma que produzir biocombustíveis para extrair valores dessa ordem, além dos custos associados à produção, não faz nenhum sentido. Segundo o cientista alemão, nem mesmo o CO2 retirado da atmosfera pelas plantas durante o processo de fotossíntese compensaria esse tipo de produção de combustíveis, pois este representaria uma quantidade marginal de dióxido de carbono eliminado do meio ambiente.

Além da baixa produtividade energética, os biocombustíveis, de acordo com Michel, promovem o desmatamento da Amazônia e de zonas tropicais do sudeste asiático e da África. Os agricultores derrubam as árvores dessas regiões para conseguir terrenos de grande extensão a fim de fazer seus cultivos. Esse processo é muito agressivo para o meio ambiente, principalmente nas áreas que não estão acostumadas à agricultura intensiva.

O desmatamento das florestas, que purificam de forma natural o ar, provoca um grande desequilíbrio ecológico, agravado pelos tratores e colheitadeiras utilizados durante o processo de produção dos biocombustíveis, pois essas máquinas são movidas à gasolina, liberando CO2 na atmosfera. Se as florestas são destruídas e a produção de dióxido de carbono aumenta, então não há nenhum benefício ecológico em produzir biocombustíveis, apenas benefícios econômicos. “Não sou o único a afirmar isto, basta fazer os cálculos para vê-lo. Mas os políticos preferem não aceitar esta ideia”, assegura Michel.

Mesmo que muitos cientistas percebam as segundas intenções dos fabricantes de automóveis na produção dos biocombustíveis – promover a venda de veículos adaptados aos biocombustíveis – e, até mesmo, uma tentativa do governo norte-americano de obter maior independência em relação aos países produtores de petróleo, para os defensores dessa nova fonte de energia, algumas vantagens ainda superariam os problemas levantados pelo cientista alemão. A primeira delas, a dos biocombustíveis serem gerados a partir de cultivos agrícolas, ou seja, trata-se de uma fonte de energia renovável. Além disso, diferentemente do petróleo, os biocombustíveis podem ser produzidos localmente, fator que permite à população dispor desses combustíveis independentemente das oscilações do mercado e das manobras dos países produtores de petróleo. Outro possível benefício é poluir menos o meio ambiente quando não recebem a adição de combustíveis fósseis, mesmo que não sejam totalmente limpos como a energia eólica ou a energia solar.


MAIS DESMATAMENTO
Os biocombustíveis, embora não sejam uma operação inteiramente desprovida de danos ao meio ambiente, quando mal utilizados, podem acarretar danos irreversíveis. Como assinala Hartmut Michel, o maior problema da produção dos biocombustíveis é o desmatamento que estes provocam nas regiões onde a legislação ambiental é menos rígida. Apesar de no início de sua produção, só fossem utilizados resíduos de atividades agrícolas anteriores para fabricar esse tipo de combustível, depois da expansão dessa nova fonte de energia, alguns países do sudeste asiático, como a Indonésia e a Malásia, e algumas zonas da África e do Brasil, começaram a desmatar suas florestas para programar cultivos associados à produção de biocombustíveis.

O caso do Brasil é significativo. Vários hectares próximos à selva tropical foram queimados para o cultivo da soja. Ações desse tipo, infelizmente comuns na região, além de impactar o ecossistema, liberam grande quantidade de dióxido de carbono na atmosfera.

Os opositores dos biocombustíveis denunciam a prática das queimadas e lembram que as florestas reduzem mais CO2 de forma natural do que a substituição do petróleo pelos biocombustíveis. O então coordenador de Bioenergia e Segurança Alimentícia da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), Andreas von Brandt, garante que os biocombustíveis gerados a partir das matérias-primas mais eficazes, como a cana-de-açúcar, emitem entre 10% e 40% menos CO2 que os combustíveis fósseis. No entanto, reconhece que causam outro tipo de prejuízo ao meio ambiente devido “ao uso de fertilizantes, ao modo de produção e à quantidade de terra desflorestada” necessária para a produção dos cereais empregados para gerá-los. Andreas von Brandt afirma que o grande inconveniente não é a utilização de terras destinadas ao cultivo, mas a busca de novos terrenos, que pode causar um maior “desflorestamento, assim como aumentar o impacto ambiental produzido pelas grandes plantações de monoculturas”.

O desflorestamento nestas regiões é um processo irreversível, pois esses cultivos exigem o uso de fertilizantes e praguicidas químicos, e estes contêm alta quantidade de nitratos, sal derivado do ácido nítrico. Esses fatores modificam a qualidade do solo e trazem terríveis consequências para a diversidade biológica. O desmatamento das florestas provoca não só a perda de “pulmões verdes” que purificam o ar, mas também a eliminação de hábitats imprescindíveis para a fauna de cada região. Além disso, a maioria dos vegetais utilizados na agricultura destinada aos biocombustíveis necessita de grandes quantidades de água e, nas zonas mais secas, podem acelerar o processo de desertificação. Esse é o caso do milho, que consome 7,5 mil metros cúbicos de água por hectare ao ano, fato que pode acentuar os problemas de seca em países como a Espanha.


PLANOS INSUSTENTÁVEIS
Segundo as estimativas da ONU, a demanda energética mundial crescerá 45% até 2030, devido às necessidades de países como Índia e China, cujo consumo superará o dos Estados Unidos. Frente aos 11,4 milhões de toneladas de petróleo consumidos em 2005, calcula-se que, em 2030, serão necessárias 17,7 milhões de toneladas para satisfazer as necessidades energéticas da crescente população do planeta. Por não serem renováveis, as reservas petrolíferas têm os dias contados. Os especialistas mais otimistas asseguram que, no ritmo atual, estas se esgotarão em cerca de 80 anos.

Frente a este prognóstico, as cúpulas internacionais começaram a pensar em planos alternativos para a demanda energética do globo, não apenas para buscar novas fontes de energia, mas também para frear o aumento do dióxido de carbono gerado pelo aumento da demanda energética. Um dos maiores inconvenientes será o abastecimento do parque automobilístico. Por isso, a União Europeia propôs que, em 2010, o combustível utilizado nos automóveis contivesse 5,75% de biodiesel. Para isso, seria preciso que a Europa destinasse 70% de suas terras para o cultivo e a produção de vegetais necessários à fabricação desse biocarburante. Os Estados Unidos, por sua vez, propuseram que, para aquele mesmo ano, os postos de gasolina do país oferecessem combustíveis contendo 10% de biodiesel. No entanto, essa porcentagem implicaria na importação de matéria-prima: cálculos indicam que para se autoabastecer com fontes alternativas de combustível os Estados Unidos teriam que ocupar 121% de suas terras com cultivos desse tipo. Esse número é irreal e, além disso, resultaria em todos os campos existentes destinados à produção de biocombustíveis, o que causaria problemas de abastecimento alimentício em todo o país. Ante este cenário, os Estados Unidos e as potências com maior consumo energético devem resolver o problema comprando matéria-prima de países subdesenvolvidos.

Mesmo que isso possa parecer positivo para os países com economias menos favorecidas, os críticos dos biocombustíveis, entre os quais o Fundo Monetário Internacional e a FAO, asseguram que esse tipo de comércio não acarretaria em um maior desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo. Pelo contrário, a venda de matéria-prima destinada à produção de biocombustíveis eliminaria milhões de hectares destinados à alimentação e, diante da diminuição da oferta, o preço dos produtos alimentícios básicos encareceria e a fome aumentaria nos países subdesenvolvidos.


A CRISE DA TORTILHA
As primeiras consequências do cultivo de matéria-prima para a indústria dos biocombustíveis já podem ser notadas. Em 2006, as plantações de milho para a elaboração de etanol aumentaram nos Estados Unidos e na Austrália. Muitos agricultores, que até então destinavam seus cultivos ao consumo humano e animal, venderam suas colheitas às fábricas de combustível, pois estas pagavam mais que as empresas de alimentação. Como consequência, um ano depois, o preço do milho subiu consideravelmente. Com o encarecimento do cereal, utilizado principalmente nas rações que alimentam os animais de fazendas de criação de bovinos, suínos, caprinos e de aves, o preço da lista de compras dos consumidores comuns disparou. As carnes de porco, de novilho e de frango, e derivados como o leite, manteiga e ovos, por exemplo, ficaram até 30% mais caros.

A escassez do cereal norte-americano destinado à alimentação afetou também os países importadores. Assim, o aumento dos preços repercutiu no México, que compra milhões de toneladas de milho de seu país vizinho. Em 2007, a escassez do grão no país asteca desembocou na denominada crise da tortilha. O alto preço do milho, com o qual se elaboram as famosas tortilhas mexicanas, subiu mais de 25% em apenas quatro meses, um aumento de mais de 70% em relação aos cinco anos anteriores. A crise fez com que o governo permitisse a plantação de milho transgênico, uma opção altamente criticada pelos ecologistas, pois poderia colocar em perigo as variedades autóctones deste cereal, que no México é cultivado há milênios.


ECONOMIA DOMÉSTICA
O abandono dos cultivos tradicionais para o plantio de cereais destinados à produção de biocombustíveis é outro dos inconvenientes desse tipo de fonte de energia, não só pelo seu impacto ecológico, mas também pelo dano causado à economia doméstica. Um dos casos mais paradigmáticos aconteceu no Brasil, onde o sucesso do etanol fez com que muitos cultivos de soja, algodão e vegetais fossem substituídos por plantações de cana-de-açúcar, vegetal que rende uma maior geração de biocombustível. Apesar de o bioetanol puro representar um grande avanço ecológico e ser mais econômico que os combustíveis derivados do petróleo, seu uso repercutiu no bolso dos brasileiros. Assim, no primeiro semestre de 2007, os preços de muitos alimentos básicos triplicaram. O que muitos brasileiros – os proprietários de automóvel, em particular – economizavam em gasolina, gastavam em compras no supermercado.

Os estudos da FAO indicam que o aumento de preços decorrente da produção de biocombustíveis trará graves consequências para os países mais pobres. Já os países desenvolvidos, embora sofram também em decorrência das mudanças econômicas que a introdução dos biocombustíveis causa, suportarão melhor essa nova situação econômica devido ao maior poder aquisitivo de suas populações. Na Espanha, a alta de preços foi notada especialmente a partir do segundo semestre de 2007. Em relação ao ano anterior, o preço do milho apresentou um aumento de 60%, enquanto o trigo e a cevada encareceram 50% cada. As rações destinadas ao gado subiram 30% e o cidadão começou a notar as consequências de todos esses aumentos depois do verão de 2007, quando o leite, as verduras, o pão, os ovos e a carne, sobretudo a de frango, ficaram mais caros.

Devido à globalização da economia, nenhum país está isento do aumento dos preços. Assim, em setembro de 2007, a Itália viveu uma jornada denominada “Um dia sem massa”, na qual a compra desse tradicional produto foi boicotada em protesto contra a elevação de 20% do alimento básico da cozinha italiana.

Por outro lado, o alto preço do trigo causou revoltas sociais no Marrocos, no Iêmen, na Nigéria e na Costa do Marfim, e obrigou os governos do Egito e de Bangladesh a tentarem atenuar a crise aumentando os subsídios para alimentos básicos como o pão. A alta dos preços foi notada inclusive em países com uma economia mais estável como o Japão, onde alguns produtos básicos subiram pela primeira vez em duas décadas. No Leste Europeu, os governos da Rússia, Ucrânia e Cazaquistão impuseram restrições a suas exportações de trigo para garantir o abastecimento dos mercados locais e impedir que a economia doméstica fosse afetada pela ambição de muitos agricultores que preferiam exportar o grão a preços maiores.

Em setembro de 2007, a União Europeia, consciente da grave crise que se aproximava, mudou o rumo de sua política agrária comunitária. Assim, pela primeira vez em vinte anos, eliminou a proibição que exigia que os agricultores deixassem 10% de suas terras em alqueive, isto é, terra lavrada que não se semeia por um ou mais anos. Por meio dessa iniciativa, o organismo europeu buscava aumentar a produção de cereais como o trigo, a aveia e a cevada, em toda a Europa.

Após colocar em vigor essas práticas protecionistas, observou-se um leve aumento da agricultura destinada ao consumo humano no último trimestre de 2007. Ou seja, a Lei de King se inverteu e uma reação contrária no mercado abriu novas esperanças para os consumidores. Diante do excesso de produção de cereais destinados aos biocombustíveis e do aumento de preços dos alimentos, a venda dos cereais à indústria alimentícia voltou a ser um pouco mais rentável. Assim, ocorreu um leve retrocesso nos cultivos agrícolas para a produção de biocarburantes e uma volta aos cultivos direcionados ao consumo humano e animal.


NOVO ENFOQUE PARA OS CULTIVOS
Apesar da decepção em relação ao uso dessa nova fonte de energia parecer generalizada entre a comunidade científica, o certo é que, em alguns casos concretos, os biocarburantes podem promover um grande progresso. Vários membros do Clube de Roma, uma entidade que reúne políticos, diplomatas, cientistas, economistas e grandes empresários e propõe soluções para os problemas globais que seus membros identificam como sendo os mais importantes e prementes na atualidade, sugeriram um novo enfoque para os biocombustíveis. O catedrático de Estrutura Econômica, Ramón Tamames, afirma que, “é preciso reconsiderar os sonhos iniciáticos de um paraíso energético”. Tamames afirma que os biocombustíveis não são a solução para todos os problemas energéticos, mas, em alguns casos, são uma boa alternativa. A maioria dos membros do clube advoga em favor do uso dos biocombustíveis apenas quando as condições do país sejam propícias e citam como exemplo o sucesso dos cultivos de cana-de-açúcar em zonas não protegidas do Brasil. Do mesmo modo, propõem o uso do milho transgênico somente nos locais onde esta espécie já é cultivada e sempre que não afete as variedades destinadas ao consumo humano. No caso brasileiro, os especialistas identificaram um modelo a seguir. O sucesso do bioetanol no país deve-se ao respeito a um cultivo autóctone como o da cana-de-açúcar e que, no Brasil, tem uma alta rentabilidade, pois requer menos fertilizantes que o milho utilizado nos Estados Unidos. Além disso, a cana-de-açúcar tem maior poder calorífico que o milho; por isso, o bioetanol brasileiro contamina menos a atmosfera que o norte-americano. O Brasil é o exemplo perfeito de que, quando as condições necessárias existem, os biocombustíveis podem ser uma fonte de energia alternativa com grandes possibilidades.

O respeito pela agricultura característica de cada lugar parece ser uma regra imprescindível para a rentabilidade econômica e ecológica dos biocombustíveis. Isso porque a introdução de espécies estrangeiras em terrenos tradicionalmente não cultiváveis traz grandes despesas e pode levar a graves danos para o ambiente. Por isso, associações e organizações de defesa do meio ambiente, como a Greenpeace, recomendam não introduzir espécies invasoras nas plantações, espécies que eliminam outras para sua sobrevivência.

O debate sobre os biocombustíveis colocou pela primeira vez ecologistas e economistas em um mesmo lado. Assim, o Fundo Monetário Internacional manifestou sua oposição às políticas de biocombustível promovidas pelos Estados Unidos e Europa. E afirmou que, do ponto de vista econômico, “são padrões de produção insustentáveis”. Frente às graves consequências que a produção descontrolada dos biocombustíveis pode ter, uma opção seria fomentar o uso de outras energias como a eólica ou solar, energias inteiramente limpas, renováveis e não contaminantes.