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Literatura infantil, o feitiço das letras
 
 
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 O BOOM DOS LIVROS PARA CRIANÇAS
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Visconde de Sabugosa, personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato

Quem vive no mundo dos livros infantis? Como no pântano de Shrek, as páginas dos clássicos reúnem personagens diversos: Robinson Crusoé na sua ilha, Gulliver em Lilliput e Robin Hood nas florestas de Sherwood. O tempo passa e as crianças continuam sendo cativadas pelos livros. O grande feiticeiro das histórias infantis atuais é Harry Potter, o maior sucesso editorial da história do gênero. Mas também há clássicos que voltam a enfeitiçar as crianças como fizeram no passado: é o caso da trilogia do Senhor dos Anéis (1954-1955), de John Ronald Reuel Tolkien. No caso da obra de Tolkien (1892-1973), no entanto, a ressurreição aconteceu graças à união entre o livro e o cinema. Ambas as obras, apesar de pertencerem a períodos históricos bem diferentes, compartilham a capacidade de cativar também o público adulto.

A evolução da literatura para crianças e jovens começou já no início do Romantismo, ao longo dos séculos XIX e XX. Entre aqueles que a desenvolveram figuram Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822),

com seus Contos Fantásticos, e os irmãos Grimm (séc. XVIII-XIX), que, interessados nos antigos contos folclóricos alemães, publicaram, em 1857, os Contos de Grimm. Outros autores imprescindíveis na lista de clássicos são: Hans Christian Andersen (1805-1875), autor de famosas fábulas como O Patinho Feio, O Rouxinol, O Alfaiate Valente e A Pequena Sereia; Mark Twain (1835-1910) e As Aventuras de Tom Sawyer (1894); e o francês Julio Verne (1828-1905), que se destacou com suas obras de aventuras, como Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865), Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), A Ilha Misteriosa (1873-1875) e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1872).

Estes autores desenvolveram suas obras em períodos históricos bem diferentes. No caso dos irmãos Grimm, por exemplo, seu trabalho não foi realizado para crianças; teve um sentido mais amplo, de resgate das tradições folclóricas orais. Julio Verne teve uma outra motivação: divulgar a ciência; de fato, suas obras foram publicadas primeiramente em diários (meio de leitura adulto por excelência). No entanto, o posterior desenvolvimento da indústria editorial, principalmente na metade do século XX em diante, procurou satisfazer públicos mais específicos. As técnicas de marketing chegaram, inclusive, a subdividir o gênero infantil por idade, geralmente determinada pelo grau de dificuldade (léxica e de forma) que a criança enfrentaria.

No Brasil, o autor de maior destaque na literatura infantil é Monteiro Lobato (1882-1948), considerado o precursor do gênero no país. Seu livro A Menina do Narizinho Arrebitado (1920) criou o ambiente e os personagens que, mais tarde, fariam parte da famosa série de TV Sítio do Picapau Amarelo, cuja primeira adaptação foi feita ainda nos anos 1950.


As características e o preconceito
Em Fiction for Children and Adults: Some Essential Differences (1973, Ficção para Crianças e Adultos: Algumas Diferenças Essenciais), Myles Mcdowell destaca certas características da narrativa infantil: a relativa brevidade do texto; o predomínio da ação e do diálogo; a presença do protagonista infantil; o desenvolvimento do argumento segundo esquemas convencionais; uma certa tendência moralista; o tom otimista; o emprego de uma linguagem adequada às crianças; e o predomínio da simplicidade, magia, fantasia e aventura.

O que todos os autores do gênero compartilham, no entanto, é o estigma de que as criações infantis têm um valor artístico e formal inferior aos da literatura para adultos. Por isso, em poucas ocasiões a crítica recebeu bem os textos infantis. Para superar o preconceito, o Brasil contou com a ajuda da professora Nelly Novaes Coelho (1922-2017), que, em 1980, criou a matéria Literatura Infantil na graduação de Letras da Universidade de São Paulo (USP), conferindo valor acadêmico ao gênero. Pesquisadora da literatura feita para crianças, Novaes publicou, três anos depois, a obra de referência Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira (1983).


Crítica
O triunfo absoluto das sete edições de Harry Potter (1997-2007) reflete-se no aumento das vendas registradas desde sua aparição. . Até maio de 2015, já haviam sido vendidas 450 milhões de cópias em todo o mundo, tornando a série a best seller da história, sendo traduzida para 73 idiomas. Logo que o sucesso começou no Reino Unido, a “pottermania” expandiu-se rapidamente até iniciar uma indústria baseada no universo da saga. A entrega de um novo livro atraía a atenção do mundo inteiro e mobilizou milhões de dólares apenas em propaganda. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, Harry Potter e as Relíquias da Morte encabeçava a lista dos livros de ficção mais vendidos no Brasil em novembro de 2007. Em abril de 2008, segundo a revista Veja, o livro estava em oitavo lugar da mesma lista, permanecendo entre os best sellers por um bom tempo.

A crítica, no entanto, ainda não chegou a um consenso em relação à qualidade das obras infantis. Enquanto alguns descobrem em Harry Potter mensagens profundas e éticas, como o sacrifício pessoal, o bem, a justiça, o respeito à diversidade e a possibilidade de melhorar e redimir-se, outros observadores, como o crítico Harold Bloom (1930), rejeitam a “infraliteratura” da saga de Rowling. O certo é que, desde sua primeira publicação, Harry Potter é o maior sucesso comercial de todos os tempos e conquistou, inclusive, os adultos. O primeiro livro da série encabeçou as listas de best sellers poucas semanas após sua publicação nos Estados Unidos.


Cinema e literatura infantojuvenil?
Basta mencionar O Senhor dos Anéis e Harry Potter para ilustrar as características do panorama atual da literatura infantil. Por um lado, o circuito textos-cinema retroalimenta-se. A trilogia de Tolkien descobriu novamente o sucesso em livrarias de todo o mundo após o lançamento dos filmes que levam seu nome entre 2001 e 2003, sob a direção de Peter Jackson (1961). No caso de Harry Potter, o processo aconteceu ao inverso: o triunfo do livro motivou a produção das versões para o cinema, lançadas entre 2001 e 2007. Mesmo que a relação não seja nova — a Disney, entre outras empresas da indústria cinematográfica, já recuperou do esquecimento histórias de Hans Christian Andersen (1805-1872), James Matthew Barrie (1860-1937) e Lewis Carroll (1832-1898) —, o efeito do filme acompanha e reforça o texto sem privilegiar uma ou outra manifestação.

No Brasil, o cartunista e escritor Ziraldo (1932) é autor de um grande sucesso entre as crianças que também foi adaptado para o cinema. Seu livro O Menino Maluquinho, de 1980, já foi adaptado para o teatro, para os quadrinhos e ganhou duas versões cinematográficas: Menino Maluquinho: O Filme (1994), dirigido por Helvécio Ratton (1948); e Menino Maluquinho 2: A Aventura (1999), dirigido por Fernando Meirelles (1955) e Fabrizia Pinto (1961).

Por outro lado, a fama dos filmes extrapola o consumo exclusivo do público infantil e jovem. Crianças, adolescentes e adultos compartilham o gosto pela leitura dos textos de Rowling e de Tolkien, por exemplo. Enzo Petrini, no seu Estudio Critico de la Literatura Juvenil (1981, Estudo Crítico da Literatura Juvenil), recupera o conceito de “literatura juvenil” para se referir a um campo vasto de produções literárias que alcançam desde crianças até adultos. A literatura juvenil já não tem faixa etária, aumentou seu espaço vital, articulou-se em filões e setores, e compreende desde os cadernos para os mais garotos, passando pelos livros esplendidamente ilustrados para crianças, até as leituras em volume e em jornal para adolescentes; nutre e alimenta-se de contribuições oferecidas pelas modernas técnicas audiovisuais.

Os escritores brasileiros Graciliano Ramos (1892-1953) e Ignácio de Loyola Brandão (1936) também são exemplos de autores de obras de temática adulta que já se dedicaram à literatura infantil. O primeiro é autor de A Terra dos Meninos Pelados (1937), e o segundo, de obras como O Homem do Furo na Mão (1987) e O Homem que Espalhou o Deserto (1989). Um nome que se destaca por sua atuação tanto na literatura adulta quanto na infantil é o da poeta Cecília Meireles (1901-1964), que, muito dedicada às questões da educação, escreveu livros didáticos, pesquisou sobre o folclore brasileiro e foi autora de clássicos da literatura infantil, como Ou Isto ou Aquilo (1964).


Da TV ao livro
No século XIX e nas primeiras décadas do XX, a literatura infantil era entretenimento comum entre as crianças. Porém, os contos escritos (e ilustrados) passaram a ter um concorrente de peso quando o cinema começou a produzir animações especialmente dirigidas a este público, inspirando-se em histórias clássicas. Na segunda metade do século XX, a popularização da TV expôs as crianças às imagens. Atualmente, trata-se não apenas da televisão, mas também de videogames e outros sistemas de entretenimento eletrônicos interativos. Isto faz com que, hoje, a literatura concorra pelo tempo das crianças com cada vez mais meios de entretenimento.

Porém, os números atuais indicam um auge editorial da literatura juvenil. Esse crescimento reflete um nível maior de leitura entre os jovens, que, em muitos casos, ficam indecisos na hora de selecionar um livro pela quantidade de oferta existente.

No Brasil, o aumento na produção de literatura para crianças e adolescentes teve uma forte influência da implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional número 2.024 de 1961, reformulada dez anos depois através da Lei número 5.692. Estas leis determinam que o ensino da língua deve ser feito por meio de textos literários nacionais, o que aumentou a demanda de livros voltados para os mais jovens.

Esta superabundância exige uma cuidadosa revisão do material que “compensa” escolher, embora os livros ainda disputem o primeiro lugar como favoritos na hora do lazer com seu adversário mais temível: a televisão.

As cifras não ocultam o conflito “TV vs. livro”. A audiência dos meios eletrônicos cresce a uma velocidade superior à do consumo de livros. Uma pesquisa solicitada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e realizada pela universidade holandesa de Utrecht, em meados dos anos 1990, revelou que 90% das crianças que vão à escola e vivem em regiões com eletricidade assistem três horas diárias de televisão, e que, apesar de saberem ler, a TV ainda é seu meio preferido de entretenimento.

Entre 2004 e 2014 foi registrado um aumento de 52 minutos, segundo dados do Painel Nacional de Televisão, do Ibope Media, que registra a evolução do tempo dedicado à TV (canais abertos e fechados, não inclui os programas assistidos sob demanda) por crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos de todas as classes sociais. Em 2004 o tempo médio por dia de exposição à TV foi de 4h43, ao longo dos anos esse número aumentou e em 2014 chegou a 5h35, mais tempo que uma criança passa por dia na escola que é cerca de 3h15, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas de 2006.

O Brasil, no entanto, tem uma parceria de grande sucesso entre a TV e a literatura: o Sítio do Pica-Pau Amarelo. A primeira adaptação da obra de Monteiro Lobato para a TV foi feita em 1952 pelo grupo Teatro Escola de São Paulo (Tesp), dirigido por Júlio Gouveia (1914-1989) e Tatiana Belinky (1919), que realizavam tele peças ao vivo para a TV Tupi. Sucesso desde o princípio, a adaptação mais conhecida da série foi realizada entre 1977 e 1986 na TV Globo, que, a partir de 2001, passou a exibir mais uma nova versão da obra.


Novas tendências
No mundo do ensino, a ênfase na leitura sempre implicou a identificação dos textos infantis com os livros escolares. Apesar de não serem sinônimos, Leena Maissen, diretora da Associação Internacional dos Livros Infantis (Ibby – International Board on Books for Young People), entende que “não é possível negar o componente pedagógico dos livros para crianças, porque muitos aprendem a ler com eles. Atualmente, porém, existe uma tendência real em romper tabus, levar as crianças a sério, tratá-las como aliadas e dizer-lhes coisas sobre as quais não se falava antes”. O abandono por parte dos autores de contos infantis dos cânones impostos para seu trabalho permitiu-lhes conceber protagonistas que transcendem a coleção típica de personagens de contos de fadas. Se aceitamos a independência da literatura infantil como gênero e atividade, o desafio transmite-se também àqueles que, a cada noite, leem histórias a uma criança.

Literatura infantil no Brasil
O Brasil tem nomes de grande destaque na literatura infantil. Dois deles são Lygia Bojunga Nunes (1932) e Ana Maria Machado (1941), que chegaram a ganhar o Prêmio Hans Christian Andersen, da Ibby, o maior prêmio internacional da literatura feita para crianças: a primeira em 1982, e a segunda, em 2000. Lygia Bojunga Nunes é autora de livros como A Bolsa Amarela (1976) e Nós Três (1987). Ana Maria Machado, por sua vez, é autora de clássicos como Bisa Bia Bisa Bel (1982) e Menina Bonita do Laço de Fita (1986), que já foram traduzidos para diversos idiomas.

Outro nome de peso na literatura infantojuvenil brasileira é o de Ruth Rocha (1931), que é uma das principais representantes da geração de escritores que impulsionou o gênero nos anos 1970, sendo autora de obras como Marcelo, Martelo, Marmelo (1976) e O Reizinho Mandão(1978). O autor Pedro Bandeira também é um dos mais vendidos no Brasil. Seus livros mais famosos são aqueles que contam as aventuras do grupo de amigos conhecidos como “Karas”: A Droga da Obediência (1984), Pântano de Sangue (1987), Anjo da Morte (1988), A Droga do Amor (1993) e Droga de Americana (1999).


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