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Filosofia analítica, enredados na linguagem
 
 
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 A DISSECAÇÃO DA LINGUAGEM
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Ludwig Wittgenstein, na imagem, é o filósofo mais importante da corrente analítica

A filosofia analítica é uma das correntes filosóficas mais importantes e produtivas do século XX. Nela, inscrevem-se pensadores muito distintos, que defenderam pontos de vista diferentes e até opostos. A fim de encontrar os elementos comuns a todos eles, o estudioso britânico Peter Strawson (1919-2006) classificou os filósofos analíticos a partir de duas metáforas, ou seja, em dois grupos diferentes que, unidos, sintetizam as características dessa corrente. Segundo essa classificação, o filósofo pode ser comparado ao terapeuta ou ao gramático.

No seu trabalho cotidiano, os terapeutas adquirem técnicas e ferramentas que permitem a eles curar doenças. Os filósofos só podem ser entendidos como terapeutas caso exista a pressuposição de que há uma doença a curar; e desde que ele conheça a cura para ela. Segundo explica Strawson, os filósofos entendidos como terapeutas, entre eles Ludwig Wittgenstein (1889-1951), consideram que os sistemas filosóficos e metafísicos que foram propostos ao longo da história estão fundamentados em um uso abusivo de conceitos como Deus, alma e mundo. Existe uma terapia para essa doença, que considera que os conceitos adquirem seu significado a partir do uso que se faz deles, e, portanto, qualquer sentido que lhes seja outorgado e esteja afastado de seu uso habitual é um abuso e, como tal, é preciso denunciá-lo. Assim, o que os filósofos terapeutas propõem não é um novo sistema filosófico, mas uma técnica que elimine os numerosos conflitos lógicos que não têm solução, por se tratarem de falsos problemas, nascidos de um uso inadequado da linguagem.

O filósofo de origem austríaca Ludwig Wittgenstein foi o principal expoente dessa corrente. Strawson cita várias de suas sentenças, que mostram sua proximidade à ideia do filósofo como terapeuta: “Não busque o significado, procure o uso” ou: “Nós reconduzimos as palavras de seu emprego metafísico a seu emprego cotidiano”. Desse modo, os graves problemas filosóficos e metafísicos vão se dissolvendo até desaparecer. Essa forma de enfocar a filosofia não é uma nova proposta. Seu objetivo é fazer desaparecer os conflitos sem solução existentes em parte dos conteúdos da filosofia tradicional.

A outra imagem que Strawson usa para caracterizar os filósofos analíticos é a do gramático. Trata-se de um estudioso capaz de descobrir as leis que operam a linguagem e que os falantes, apesar de aplicá-las, são incapazes de enunciar. Todo falante de uma língua é capaz de distinguir entre uma sentença bem formada e outra que não o esteja.

Saberá, por exemplo, que a expressão “a casa são silencioso” é incorreta e também poderá dar uma versão correta para a oração, como “a casa é silenciosa”. E, apesar de ser capaz de tudo isso, o mais provável é que não possa especificar quais são os erros da frase anterior. O falante médio não sabe reconhecer quais são as leis que permitem que uma frase seja correta. Esse saber opera as suas ações linguísticas e, no entanto, suas leis não são fáceis de determinar. A tarefa do gramático consiste, portanto, em definir as leis que determinam as emissões linguísticas.

O filósofo entendido como gramático efetua uma operação semelhante à descrita. No entanto, nesse caso, ele a aplica a palavras do âmbito da filosofia, como “conhecimento”, “existência” ou “ética”. Estas são expressões que todos os falantes aprenderam a empregar de forma cotidiana, mas cujo esclarecimento teórico exige um estudo pormenorizado para que sejam compreensíveis.

Existem elementos comuns entre o terapeuta e o gramático. O principal é a preocupação pela linguagem. Os filósofos analíticos consideravam a linguagem como um dos principais problemas filosóficos e, por sua vez, como o único remédio para resolver o resto dos conflitos. Outro aspecto que compartilhavam entre si era a preocupação pelo uso real dos conceitos. Diferentemente de outras correntes de pensamento, a filosofia analítica não foi frequentada por teólogos, mas por filósofos com uma sólida formação científica. De fato, o britânico Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos mais importantes matemáticos do século XX, e Ludwig Wittgenstein era engenheiro.

Com frequência, cita-se o matemático e lógico Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1848-1925) como um dos pais da filosofia analítica. No seu artigo Sobre o Sentido e a Referência, inaugurou uma nova forma de abordar as questões filosóficas, ao enfocá-las fundamentalmente a partir da análise da linguagem.


SENTIDO E REFERÊNCIA

A maior preocupação de Frege ao escrever o artigo Sentido e Referência era descrever as dificuldades que entranham a linguagem quando a usamos para expressar a verdade. Para realizar a análise e penetrar na selva da linguagem, empregou como ferramenta a distinção entre os termos “sentido” e “referência”.

Um nome próprio, como a palavra “Vênus”, tem um sentido e, além disso, uma referência. A referência, segundo Frege, é o próprio objeto que a palavra nomeia. Já o sentido equivale ao significado do termo. O sentido dessas expressões é o que compreendemos ao lê-las. Seu acesso é proporcionado pelo domínio do idioma em questão. Para Frege, o sentido de um conceito tem um valor quase objetivo, porque é compartilhado por todos os falantes de uma língua. Tal como afirma nesse artigo: “Não se poderá negar que a Humanidade tem um tesouro comum de pensamentos, transmitido de uma geração à outra”. Esse tesouro é o que proporciona sentido aos signos e, definitivamente, é o elemento comum que garante aos falantes de um idioma as possibilidades de se compreenderem mutuamente e de se comunicarem.

Com a finalidade de esclarecer a diferença entre sentido e referência, Frege dava como exemplo um telescópio que enfocasse Vênus. Nesse exemplo, o próprio planeta seria a referência, enquanto a imagem obtida pelas lentes do telescópio seria o sentido. Todos os observadores que olhassem pelo telescópio compartilhariam essa imagem; no entanto, posteriormente, sua representação mental do planeta diferiria, por ser uma imagem subjetiva. O sentido é, portanto, um elemento subjetivo igual à imagem obtida pelo telescópio.

Um mesmo sentido pode ser expresso em diferentes línguas e também em diferentes atitudes. Sentidos distintos podem ter uma mesma referência, como acontece com as expressões “estrela da manhã”, “estrela D’alva” e “estrela matutina”. Ao lê-las, o leitor evoca pensamentos diferentes, entretanto, a referência é o mesmo planeta Vênus, que se caracteriza por ser o último ponto iluminado ao desaparecer ao amanhecer e o primeiro a ser visto quando começa a anoitecer. Essas questões evidenciam que não existe uma correspondência biunívoca entre sentido e referência, e que a linguagem ultrapassa o mundo dos objetos concretos, pois, em alguns casos, as palavras não têm referência alguma.

Os nomes dos personagens fictícios não têm, por definição, referência e, no entanto, o enunciado dos romances faz sentido. Ou seja, existem expressões com sentido que não estão associadas a referências. Poderia pensar-se no sentido como uma bala que é disparada por uma espingarda. Em alguns casos, a bala acerta o alvo; ou seja, na referência, no objeto concreto. Em outros, perde-se no vazio. Esse é o caso, por exemplo, da afirmação “o objeto mais afastado da Terra”: a expressão tem um sentido, mas dificilmente poderemos saber sua referência.

Frege analisa seguidamente o caso dos enunciados assertivos (ou afirmações) que, segundo explica, contêm pensamentos. O filósofo percebe que é possível trocar alguns termos das frases, sem com isso mudar a referência. E, no entanto, o sentido depois da alteração é diferente. O mesmo ocorre com o pensamento que o enunciado produz. Por essa razão, o pensamento não pode ser a referência desses enunciados. Como alternativa, Frege afirma que a referência é na verdade o valor veritativo, ou seja, o elemento que define se a frase é verdadeira ou falsa. Se é verdadeira, significa que corresponde à realidade e que, portanto, está ancorada ao real. Se é falsa, tudo ocorre ao contrário: o enunciado tem um sentido, mas não reflete nenhum aspecto do mundo.

O artigo prossegue com uma análise das frases subordinadas e também do estilo indireto, sempre incidindo na questão do sentido e da referência da frase. Desse modo, aborda questões linguísticas de uma complexidade cada vez maior. Frege é considerado um dos pais da filosofia analítica pela precaução com a qual analisa a linguagem e a consciência de seus limites como meio de expressão da verdade. Tal como escreve, “é verdade que, em um conjunto perfeito de signos, a cada expressão deveria corresponder um sentido determinado. Mas as línguas naturais com frequência não satisfazem esse quesito. Portanto, é preciso dar-se por satisfeito se, em um mesmo contexto, a mesma palavra tem sempre o mesmo sentido”.


PROPOSIÇÕES

O Círculo de Viena é uma escola filosófica que, na década de 1920, propôs o empirismo como única via possível para fundar um conhecimento verdadeiro. O empirismo é uma doutrina que surgiu na Inglaterra durante os séculos XVII e XVIII e que considerava a experiência sensível como a única fonte de conhecimento. Por participarem dessa doutrina, os filósofos do Círculo de Viena, entre os quais destacam-se Moritz Schlick (1882-1936), Rudolf Carnap (1891-1970), Otto Neurath (1882-1945) ou Kurt Gödel (1906-1978), rejeitaram energicamente as correntes filosóficas idealistas, centradas em noções não demonstráveis pela experiência, como as ideias ou a consciência, e em matérias filosóficas como a teleologia, que estuda os fins das coisas.

Centraram-se, entretanto, na análise da linguagem, pois sua preocupação máxima era que qualquer afirmação fosse verdadeira e fizesse sentido. E o que garante esses quesitos é sua conexão com a realidade.

A preocupação pela linguagem conduziu os filósofos analíticos ao estudo dos enunciados. É preciso, no entanto, deter-nos na distinção entre enunciado e proposição. Um enunciado é a expressão linguística de uma proposição. Por sua vez, uma proposição é o significado desse enunciado. Um mesmo significado ou proposição pode ser expresso em enunciados de diferentes idiomas. As expressões “La nieve es blanca”, em castelhano, ou “The snow is white”, em inglês, são enunciados equivalentes e expressam uma mesma proposição, apesar de serem empregadas palavras diferentes em cada uma das orações. Por conseguinte, os enunciados são a expressão de proposições em uma língua concreta. E as proposições são o significado desses enunciados.

Os filósofos analíticos, influenciados pelo livro de Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, dividiram as proposições em dois grupos: analíticas e sintéticas. Na verdade, assumiam um enfoque que já era tradicional em filosofia e que remontava a David Hume (1711-1776), um dos primeiros filósofos a estabelecer distinções entre as proposições (embora ele não as denominasse assim).

As proposições analíticas são todas aquelas afirmações universais e necessárias que não ampliam nosso conhecimento do mundo. São afirmações regidas pelo princípio de não contradição – que estabelece que a negação de um enunciado verdadeiro dá como resultado outro falso – e pelo princípio de identidade, que postula que todo ente é idêntico a si mesmo (é como afirmar que “um elefante é um elefante”). Existem diferentes classes de proposições analíticas, como as chamadas verdades lógicas, afirmações que são sempre verdadeiras. Por exemplo, a proposição “chove ou não chove” sempre será verdadeira, porque qualquer situação na qual esteja presente a chuva se engloba em alguma das duas possibilidades que oferece a disjuntiva.

As proposições sintéticas são aquelas nas quais o predicado não está contido no sujeito e expressam afirmações sobre situações concretas do mundo. Por exemplo, “a Lua gira ao redor da Terra”. Para os membros do Círculo de Viena, as proposições sintéticas são fáticas e devem fazer referência a feitos. Um dos grandes projetos desses filósofos era construir o edifício do saber baseando-se em proposições sustentadas em fatos. Só aceitavam as proposições fáticas, porque os fatos garantiam seu sentido. Segundo esses pensadores, as afirmações não fáticas não podiam ser verdadeiras nem falsas, simplesmente careciam de sentido. Assim, somente se uma proposição estava ancorada na realidade, fazia sentido. Só a referência aos feitos garantia que as proposições tivessem um significado e, por essa razão, o vocabulário metafísico, para eles, não fazia sentido.


OS DOIS DOGMAS

O projeto inaugurado pelo Círculo de Viena foi incapaz de prosperar, devido às críticas feitas pelo filósofo Willard van Orman Quine (1908-2000) no seu artigo Os Dois Dogmas do Empirismo, publicado em 1951. Quine questionava os dois pilares sobre os quais o Círculo de Viena tinha edificado a filosofia. Primeiro, colocava sérias dúvidas sobre a distinção entre proposições analíticas e sintéticas. Depois, rejeitava a crença que todos os enunciados significativos se reduzissem, em última instância, à experiência imediata, pretensão que Quine qualificava como “reducionismo”.

Centrando-se na ideia de significado, Quine retomou a distinção de Frege entre significar e nomear, para afirmar que duas expressões podem ter significados diferentes, mesmo que nomeiem uma mesma realidade. Tentava evidenciar que o significado não se esgotava nos objetos, mas o significado e os objetos denotados eram, até certo ponto, independentes.

Ao aplicar a mesma distinção em termos gerais, recorreu aos conceitos de extensão e intensão. A extensão consiste em detalhar todos os objetos aos quais se refere o termo, enquanto a intensão consiste em descrever a característica comum que engloba esse conjunto de elementos. Por exemplo, “as cores do arco-íris” seriam a intensão de um conjunto, cuja extensão seriam as sete cores, entre as quais se encontram o vermelho, o amarelo e o azul. Pois bem, no caso dos termos gerais, significar e nomear voltam a ser novamente diferentes porque há casos em que se nomeia o mesmo conjunto de objetos (ou seja, aqueles nos quais coincide a extensão), apesar de o significado ou a intensão serem diferentes. Por exemplo, as expressões “criaturas com coração” e “criaturas com rins” têm a mesma extensão (se aplicam aos mesmos animais), mas seu significado é diferente. A linguagem não se adapta à realidade como uma mão a uma luva: em alguns casos tem mais buracos para os dedos do que o necessário, e, em outros, os buracos são muito estreitos. Um ajuste perfeito é praticamente impossível.

O problema reside também no fato de os enunciados não adquirirem significação por estarem quase tocando a realidade. Quine alega que “o dogma redutivista sobrevive na suposição de que todo enunciado, isolado de seus companheiros, pode ter confirmação ou invalidação. Frente a essa opinião, a minha [...] é que nossos enunciados sobre o mundo externo se submetem como corpo total ao tribunal da experiência sensível, e não individualmente”. Quine foi um defensor do holismo semântico, segundo o qual o significado das palavras depende das demais expressões. Além disso, segundo Quine, os enunciados não podem submeter-se de forma isolada ao tribunal da realidade, porque seu significado depende, por sua vez, de outro conjunto de enunciados.

Para desfazer a distinção entre analítico e sintético, Quine utiliza a noção de sinonímia. Para ele, os enunciados analíticos são as verdades lógicas. Por exemplo, “nenhum homem não casado é um homem casado”. Essa expressão é uma verdade lógica, isto é, será sempre verdadeira independentemente de qualquer circunstância. O problema surge quando substituímos a expressão “homem não casado” pela palavra “solteiro”. A substituição do termo por outro sinônimo dá lugar à sentença “nenhum solteiro é um homem casado”, que aparentemente é um enunciado equivalente ao primeiro e que, portanto, deveria considerar-se uma verdade lógica. No entanto, eles não são exatamente idênticos, porque utilizam a noção de sinonímia.

Esse conceito é muito problemático e, depois de analisá-lo, Quine se reconheceu incapaz de determinar critérios claros de sinonímia. Como não há razão para rejeitar o emprego de sinônimos e, além disso, Quine se viu incapaz de estabelecer os critérios pelos quais dois termos podem ser considerados sinônimos, viu-se obrigado a constatar que nas frias e racionais proposições analíticas se abrem brechas pelas quais penetra a fatal ambiguidade da linguagem e o imprescindível recurso a seu uso fático. Em conclusão, entre as proposições analíticas e as proposições sintéticas não existe um abismo, mas há uma gradação.


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