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Animação, o sarcasmo triunfa nos desenhos
 
 
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John Lasseter, vice-presidente criativo de Pixar e ganhador de dois Oscars de animação

Quando Walt Disney morreu em 1966, John Kricfalusi nem sequer havia nascido. Hoje, quinze anos depois de suas criações — os escatológicos Ren & Stimpy — que revolucionaram o conceito dos desenhos animados, canadense com aspecto de cantor de rock alternativo conseguiu forjar seu nome nos círculos especializados, ainda que sem alcançar a fama comercial de Disney.

Para atingir tal sucesso, Kricfalusi aproveitou o melhor das histórias dos comics e a isso adicionou uma mentalidade moderna, com influências da cultura popular gerada pela televisão, o rock e outras vertentes. Desde sua revisão do Super Mouse, realizada em parceria com seu mentor, Ralph Bashki, o canadense se define, sem nenhuma vergonha, como “o pai da animação atual”. Ele tem alguma razão, pois mesmo com a quase infinita quantidade de novos personagens e sucessos do mundo dos desenhos animados que povoam canais como Cartoon Network e Nickelodeon, sua obra já reverbera nos trabalhos de muitos outros desenhistas.


ARTE E COMÉRCIO

Mais próximo da mentalidade empresarial que da artística, Walter Elias Disney (1901-1966) construiu um império que revolucionou o mundo da animação. Sua metodologia de trabalho e de promoção levou os desenhos animados a se converterem no entretenimento favorito das mais diversas gerações de crianças e adultos. Seus estúdios foram os primeiros a utilizar o som na animação (Steamboat Willie) e o tecnicolor (Flowers & Trees). A Disney também transformou o gênero em um entretenimento para o grande público, convertendo alguns de seus personagens em ícones culturais. Seus detratores chegam a afirmar que seus personagens eram embaixadores do capitalismo norte-americano.

Seus desenhos de curta-metragem, com personagens como Mickey e o Pato Donald, ou suas adaptações em longa-metragem de contos tradicionais como Branca de Neve e Dumbo, deram à marca Disney enormes ganhos financeiros baseados em muito sucesso. Muito disso foi fruto da autoridade ditatorial de Disney, que manejava sua fábrica de sonhos sem deixar lugar à improvisação e às liberdades de seus empregados, autênticos desconhecidos que eram obrigados a se esconder atrás da assinatura de seu patrão. Contudo, o criticado método resultou em algumas das maiores obras de arte da animação.

Frente a todo o autoritarismo de Disney, é irônico descobrir que suas grandes concorrentes, a Metro Goldwyn Mayer e a Warner, pareciam governadas por um grupo de lunáticos anarquistas que não estavam dispostos a se deixar dominar pelas normas impostas pelo gênero. Dali surgiram nomes como Tex Avery, Chuck Jones, Fritz Freeleng, Walter Lantz e Bob Clampett e personagens como Pernalonga, Pica-pau ou Droopy, que se apresentavam com condutas bastante distantes de qualquer cerceamento criativo.
A influência desses iconoclastas foi determinante para o universo do desenho animado atual.

A outra grande influência é a da dupla composta por Joseph Hanna e William Barbera, que alegraram tardes de várias gerações com personagens como Os Flintstones, Zé Colméia, Tom e Jerry, Os Jetsons, Scooby-Doo, Manda Chuva e tantos outros. Eles ajudaram a produzir alguns dos materiais mais fascinantes da animação recente. Apesar da proliferação de personagens, as criações de Hanna e Barbera são exibidas diariamente nos canais dedicados ao gênero e competem mesmo com os atuais desenhos feitos por computador.


"O QUE QUE HÁ, VELHINHO?"

Contudo, o artista mais importante para a animação comercial moderna é sem dúvida Tex Avery, um desenhista que em vinte anos criou um estilo que deu ao gênero um novo alcance. Seus trabalhos para a Warner (entre 1935 e 1942) e para a Metro (1942-1955) são hoje considerados verdadeiros clássicos do desenho animado.

Ele foi o criador do famoso “What’s up, doc?” (“o que que há, velhinho?”), a frase que identificará para sempre sua principal criação, o Pernalonga. Avery atingiu o êxito em sua carreira antes de completar 30 anos.

Sua tentativa de escapar do sentimentalismo apresentado por Disney, Avery, junto a Chuck Jones e Bob Camplett, apostou por enredos mais adultos, carregados de sarcasmo e marcados por um ritmo vertiginoso. Os personagens de Avery, cuidadosamente desenhados, rompiam as convenções dirigindo-se diretamente ao público, aparecendo entre os créditos ou discutindo com o desenhista o roteiro que eles teriam de atuar. Eram intérpretes capazes de se rebelar contra o criador. Hoje, esse tipo de truque é habitual nas produções de animação.


FIM DE UMA ERA

Em meados de 1950, os desenhos animados, então projetados nas sessões dos cinemas, migraram para a televisão, onde não havia tanto espaço para a criação artística.

Foi nessa época que Hanna e Barbera conseguiram consagrar um estilo trasladando a fórmula da sitcom (clássica comedia televisiva norte-americana) à pré-história (Os Flintstones) ou ao futuro (Os Jetsons). Eles também apostaram em personagens para curta-metragem (Scooby-Doo, Yogui e Dom Pixote).

Contudo, a fabricação em série para a TV tornou os desenhos mais rudimentares. As paisagens de fundo que se repetiam durante uma perseguição são um clássico da economia de recursos da companhia. Mesmo assim, muitas de suas criações chegaram aos horários nobres da televisão norte-americana, um mérito que Os Simpson só lograriam muitos anos depois.

Após a massificação da televisão, a animação comercial voltou a contar com jovens desenhistas e suas inquietudes. Os artistas buscaram, como Avery havia feito 50 anos antes, a cumplicidade de um público adulto que, criado com os desenhos animados, seguia fiel aos ícones de lápis e papel. Além disso, o surgimento de canais dedicados exclusivamente à difusão do gênero originou estúdios centrados na produção de animação com a necessidade de preencher uma grade de programação completa. Nasceram então o Cartoon Network e o Nickelodeon, os dois canais de animação mais importantes do mundo. Eles deram um novo impulso ao mundo dos cartoons.


DESENHOS A CABO

Foi Fred Seibert quem primeiro viu o potencial que os desenhos animados tinham para a televisão por cabo. Como Disney, Seibert contava com uma visão comercial. Sua diferença era que ele tinha mais disposição para apreciar os talentos rebeldes que o cercavam. Seibert, que trabalhou no canal musical MTV, levou os produtos clássicos dos anos 1960 e 1970 para a Nickleodeon quando foi trabalhar nesse canal. Ele também deu espaço para os Rugrats, Doug e, principalmente, para Ren & Stimpy, uma série sobre Ren, um chiuahua nanico e mau-caráter que vive procurando maneiras de se dar bem em cima de seu “amigão” Stimpy, um gato gordo e bobo que sempre arrisca a própria pele para agradar o companheiro. A série, criada por John Kricfalusi, é feita por cenários psicodélicos e situações hiperbólicas e surreais. Sempre muito distantes das produções politicamente corretas, Ren & Stimpy desfilam escatologia o tempo todo.

Em oposição às produções daquela época (As Tartarugas Ninja, por exemplo), estas séries buscavam voltar às raízes dos primeiros trabalhos da Warner e da Metro, isto é, queriam uma cumplicidade com o público adulto.

A principal característica desses trabalhos é que eles eram totalmente produzidos por desenhistas que não mais tinham de seguir um roteiro feito por escritores. A partir daí, a produção não parou de crescer. Seibert criou What a Cartoon!, meia hora semanal na qual eram apresentados novos personagens. Dessa forma surgiram A Vaca e o Frango, Johnny Bravo, O Laboratório de Dexter e As Meninas Superpoderosas. Sua ideia era a de lançar um personagem cada semana e desenvolver aqueles que eram aceitos pelo público.

Os Simpsons, por sua vez, também foram um grande êxito entre crianças e adultos. Criados por Matt Groening, um artista que conseguiu, com as aventuras dessa amarela família de Springfield, converter a velha necessidade de um capítulo por semana em um exemplo de vitalidade e boas ideias.

A mudança para um público mais adulto tornou-se evidente quando o protagonismo dos episódios foi privilegiando Hommer em detrimento de Bart, o primeiro protagonista da série. O êxito dos Simpsons (cuja base è similar à dos Flintstones: uma família disfuncional) permitiu também o desenvolvimento do gênero e a necessidade de buscar um público educado e nada infantil.

Atualmente, um terço do público do Cartoon Network é formado por pessoas de 15 a 34 anos. Essa mudança fez com que os cartoons ganhassem mais e mais espaço na mídia, ocupando outros canais. Beavis & Butthead de Mike Judge foram os primeiros na MTV, King of the hill (traduzido como “O rei do pedaço”, no Brasil), também de Judge, também ganhou espaço em canais de programação adulta em televisão aberta. Isso obrigou as redes a se preocuparem e produzirem mais nessa área.

Nomes como Van Partible (Johnny Bravo), David Feiss (Vaca e Frango), Genndy Tartakovsky (O Laboratório de Dexter, Samurai Jack), Stephen Hillenburg (Bob Esponja) são responsáveis e herdeiros da necessidade gerada pela televisão a cabo: apresentar sempre produtos distintos e novos. Uma outra vitória do gênero foi que a maioria desses desenhos gerou filmes de sucesso nos cinemas.

A chegada das produções como Toy story, Monstros, S.A., Procurando Nemo (da Pixar) ou Formiginhaz e Shrek (da DreamWorks) para as grandes telas cinematográficas tornou necessária a criação de um Oscar para o melhor filme de animação, o que, por sua vez, deu ao gênero uma importância ainda maior.


O COMPUTADOR DEMOCRÁTICO

A massificação da informática resultou em uma nova revolução para a animação, tanto no que diz respeito à forma de produção como de distribuição. O simples acesso a um programa como Flash, que permite criar, em casa, animações em um computador, ampliou enormemente a possibilidade de surgimentos de novos gênios da animação. Além disso, a internet se apresenta como o campo mais fértil para a distribuição de filmes e curtos de animação. Há sites dedicados ao tema e é provável que no futuro a animação encontre um novo lugar para surpreender e divertir, mesmo que seja por alguns instantes, aos adultos.


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