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Clonagem, fotocopiando a humanidade
 
 
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 O NASCIMENTO DA NOVA EVA
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Raël junto a duas futuras portadoras de um bebê clonado em uma conferência de imprensa da Clonaid

Aos casais estéreis e sem esperanças de ter os filhos com os quais sonhavam, para casais homossexuais com um profundo desejo de ter um filho a partir de seus próprios genes, para quem deseja ser clonado. Sejam quais forem suas razões, a Clonaid tem o programa perfeito para você como cliente e companheiro.”

E o caminho foi aberto. O produto do século chegou ao mercado. Ou pelo menos, era essa a mensagem do anúncio divulgado pela Clonaid, empresa norte-americana vinculada à seita dos raelianos que assegurava haver clonado o primeiro ser humano, em 26 de dezembro de 2002.

Verdade ou simples truque de marketing, a notícia colocou sobre a mesa todo um leque de questões arquivadas desde o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro animal a ser clonado a partir de células de um animal adulto por meio da transferência do núcleo celular do ser vivo que se deseja clonar. Seria possível clonar um ser humano por meio dessa técnica? Qual tipo de controle os governos mantém acerca da clonagem humana e de seus possíveis clientes? Qual legislação existe a esse respeito? Que riscos o processo produz? E, por fim, talvez a mais importante das questões: é ético clonar?


O que é clonagem?
Clonagem é um termo que se refere à produção de células vivas idênticas a partir de uma única célula, ou seja, produzir a cópia de uma célula. As células assim produzidas são geneticamente idênticas à célula da qual foram produzidas.

O ser humano não inventou a clonagem: ela ocorre de forma espontânea na natureza com bactérias ou com insetos e plantas que se reproduzem de forma assexuada, isto é, a partir de si mesmos sem contato com outro espécime da espécie em questão.

Com o desenvolvimento das ciências biológicas e das técnicas da biotecnologia, pesquisadores e cientistas passaram à produção experimental de cópias de fragmentos de DNA (ácido desoxirribonucleico), a molécula responsável por armazenar o código genético com as características dos organismos vivos, de células inteiras ou de um organismo completo.

A clonagem de seres unicelular, ou seja, organismos compostos como uma única célula, como as bactérias, é relativamente simples, bastando inocular um meio capaz de manter a célula transposta. A clonagem de múltiplas células, no entanto, é bem mais complexa. Em geral, ela se dá em pesquisas com células embrionárias, encontradas apenas em seres multicelulares, com fins terapêuticos – produzir células capazes de se converter em qualquer órgão ou tecido do corpo e substituir órgãos ou tecidos danificados por doenças ou acidentes – ou científicos, como a observação em detalhe do desenvolvimento de células e organismos.

É preciso diferenciar, ainda, os dois tipos de clonagem que se tem buscado: a clonagem terapêutica e a clonagem reprodutiva. A primeira busca criar células substitutas para células doentes de um organismo vivo que não rejeitaria a célula clonada por ela ter sido produzida a partir de uma célula daquele mesmo organismo. O segundo tipo de clonagem é inteiramente diferente: ele procurar produzir um ser humano completo e idêntico a um primeiro a partir do qual seria clonado.

A primeira clonagem significativa da história da ciência ocorreu em 1924 quando o cientista alemão Hans Spermanm e sua aluna Hilde Mangold, na Universidade de Freiburg, utilizando embriões de alguns anfíbios, conseguiram produzir e demonstrar a criação do sistema nervoso central e dos rins em diversos girinos, a partir de células embrionárias clonadas. Tratava-se, então, de um caso de clonagem terapêutica, embora tivesse sido realizada como teste científico e não por que os girinos envolvidos no experimento precisassem ter seu sistema nervoso central ou rins substituídos.

Em cinco de julho de 1996, ocorreu a primeira clonagem reprodutiva bem-sucedida de um mamífero. Batizada de Dolly, a simpática ovelhinha nascida da clonagem de células embrionárias adultas, reproduzia de forma idêntica outra ovelha. A célula que deu início ao processo foi retirada da mama desta ovelha e inserida no óvulo de uma segunda ovelha. O embrião assim formado foi, então, colocado em uma terceira ovelha e, após uma gravidez normal, resultou no nascimento de Dolly, cópia perfeita da primeira ovelha. Dolly viveu seis anos e morreu em 14 de fevereiro de 2003, em decorrência de uma doença pulmonar. Os responsáveis pelo experimento foram os cientistas Ian Wilmut e Keith Campbell, da Universidade de Edimburgo, na Escócia.


O “clone humano”
Desde o sucesso da clonagem de um mamífero, o ser humano tem imaginado algo previsto, anteriormente, apenas nos relatos de ficção científica: a vida eterna por meio da sucessiva clonagem de si mesmo. Por mais estapafúrdia que uma ambição desse tipo possa ser, ela frequenta a mente de muitas pessoas, entre as quais se incluem os raelianos, seita conhecida como “religião ufológica”, isto é, grupo religioso que acredita que a vida na Terra teve origem a partir de seres extraterrestres que visitaram o planeta com o intuito de criar uma nova espécie, quer por interesse na exploração das riquezas do planeta, quer por causas naturais: os extraterrestres seriam seres superiores a nós e controlariam nosso destino.

Entre as religiões ufológicas, a seita raeliana ganhou grande visibilidade ao anunciar que o primeiro bebê humano teria sido clonado em 27 de dezembro de 2002. A cientista e presidente da Clonaid, a francesa, doutora em química, Brigitte Boisselier, anunciou o nascimento de Eva, com 3,2 quilos. Seus pais seriam um casal norte-americano e o pai sofreria de infertilidade. Decidiram, então, ter um filho por meio da clonagem oferecida pela Clonaid. Suas identidades e paradeiros são desconhecidos, assim como as provas que demonstrariam à comunidade científica o funcionamento e sucesso do experimento.

Dias mais tarde, Boisselier anunciou outros dois nascimentos de bebês clonados e declarou que sua empresa havia posto em ação outras 20 clonagens, em janeiro de 2003. Enquanto os anúncios triunfantes dos experimentos de Clonaid eram divulgados, porém, Raël, o líder da seita raeliana que havia financiado os experimentos, começou a insinuar que tudo não passava de hábil estratégia para tornar sua religião mais conhecida: “Se não é verdade, se trata da brincadeira científica mais bonita, mas, em todo caso, permitiu comunicar a todo o planeta nossas mensagens”, assegurava o líder.

Raël, codinome de Claude Vorilhon, um antigo jornalista e piloto francês, teria dado início à religião raeliana após ter sido, segundo alega, abduzido, em 1973, por extraterrestres. Teria, então, mantido relações sexuais com dois robôs femininos dentro de um óvni (objeto voador não identificado), e os alienígenas teriam lhe revelado que os seres humanos haviam sido criados há 25 mil anos por viajantes espaciais, os Elohim (palavra hebraica que significa deus ou deuses), que decidiram clonar a si mesmos para dar início ao Homo sapiens. Para os raelianos, Jesus, Buda, Maomé, e todas as outras figuras religiosas do tipo são, na verdade, mensageiros de Elohim.

Tanto a natureza da seita, aceita como associação religiosa nos anos 1990, nos EUA, quanto o desenvolvimento das informações geradas pela Clonaid e os escassos dados demonstrados, geraram na comunidade científica e nos meios de comunicação um patente ceticismo a respeito da suposta clonagem humana que eles haveriam logrado obter. Não obstante, a pergunta segue com força: hoje em dia, é possível clonar um ser humano? A maioria dos cientistas crê que sim, mas as possibilidades de que o experimento chegue a seu fim corretamente são extremamente baixas. De cada cem intentos de clonar um mamífero, apenas um acaba com o nascimento de uma espécie mais ou menos sã. Os 99% restantes correspondem a fracassos, abortos ou seres que nascem enfermos. O físico brasileiro Marcelo Gleiser chega a afirmar que “a clonagem de um ser humano completo é muito mais complexa, clinicamente inútil, e não parece óbvio que possa ser atingida em curto prazo”.

O problema se encontra na chamada reprogramação genética, processo que permitiria ao código genético reiniciar-se, dando, assim, início a uma nova vida. Da reprogramação depende que, posteriormente, cada gene se ative e se apague no momento preciso. Na reprodução natural, a reprogramação genética dura meses nos espermatozoides e anos nos óvulos, mas na clonagem, o tempo é reduzido a alguns poucos minutos. O resultado é um autêntico caos: muitos genes entram em cena quando deveriam estar em repouso, enquanto outros, que deveriam estar ativos, não o estão no momento preciso. Essa desordem provoca uma baixíssima taxa de espécimes sãs.

Por esse motivo, estima-se que apenas uma equipe de cientistas extremamente competentes em clonagem poderia chegar a alcançar a pequena porcentagem de êxito da ordem de 1%. Circunstância que põe em dúvida as afirmações de Boisselier que, segundo seus colegas, não possui preparação suficiente para levar até o final o processo de clonagem.

Um dos cientistas que mais receio mostrou ante a notícia foi Severino Antinori. Esse polêmico médico italiano foi o primeiro cientista a declarar que estava disposto a clonar seres humanos. Antinori, especialista em reprodução assistida e famoso por ajudar mulheres na menopausa a terem filhos, assegura que, em 2002, se reuniu com a diretora científica dos raelianos e ela teria lhe pedido “que ele a explicasse o que é a clonagem”, fato que desacreditaria por completo a Boisselier, pois como seria alguém não saber o que é clonagem e pouco tempo depois alegar ter sido responsável pelo primeiro clone humano?

Antinori, por sua vez, afirmou, em maio de 2002, ter clonado três fetos e com eles engravidado três mulheres. Esse trabalho, contudo, também é visto pela comunidade científica com muito ceticismo por que o italiano nunca mostrou as evidências científicas dos três clones humanos pelos quais teria sido responsável. Antinori alega que não apresenta o relato científico da grande façanha para não “destruir” a vida das famílias envolvidas na clonagem de seus entes queridos.

Em 2006, ele afirmou ter colaborado com vários grupos no mundo em suas tentativas de clonar seres humanos. “Selecionamos muitas pessoas e cerca de cem mulheres que passaram por tratamentos engravidaram. Conseguimos três clones. Outras dez gravidezes acabaram em aborto. Depois disso, parei com essas experiências”.

Segundo Antinori, ele teria desistido da clonagem humana em função da forte oposição ética e dos baixos resultados obtidos. “Afinal, só tivemos 3% de sucesso. Percebi que esse não era um bom momento para insistir nisso. Agora tentamos investigar a clonagem em outras situações. Meu trabalho está reduzido agora à clonagem terapêutica. Isso está acontecendo em vários países e só confirma minha insistência de que a clonagem é uma realidade, no momento só para fins terapêuticos. Creio que, em cinco ou seis anos, também deverá ser considerada para fins reprodutivos”.

Declarações controversas à parte, Antinori e Boisselier têm algo em comum: o afã de ser o primeiro a clonar um ser humano e o desejo de conquistar a fama e a riqueza que tal feito produziria.


Controvérsia sem fim
Boa parte dessa corrida pela clonagem ocorre em razão da pouca legislação existente a respeito do tema e da falta de controle das autoridades, que facilitam esse tipo de experimento ao permitir que ele seja levado a cabo no mais absoluto anonimato. Hoje, em muitos países, basta apenas ter o material necessário — e consegui-lo não é difícil.

Quinze vezes ao mês se distribuem desde uma fábrica em Cornwall, no sudoeste da Inglaterra, milhares de equipamentos médicos capazes de levar a cabo experimentos de clonagem. Chamados de micromanipuladores, pois são utilizados na manipulação de amostras observadas por microscópios, esses equipamentos são utilizados em técnicas de reprodução assistida como a ICSI (sigla para injeção intracitoplasmática de espermatozoides), a qual consiste em injetar o esperma do pai em um óvulo da mãe. Cerca de 90% das clínicas que praticam a reprodução assistida, ao redor de três mil em todo o mundo, oferecem a técnica da ICSI a seus clientes. Desse modo, cerca de 2.700 clínicas poderiam levar a cabo clonagens caso utilizassem os micromanipuladores para experimentos desse tipo.

Desse modo, as leis que proíbem a prática, vigentes em vários países, acabam desnudas ante a falta de controle sobre a distribuição e utilização dos micromanipuladores. Curiosamente, a Clonaid fabrica um equipamento, o BTX ECM 2001, um manipulador de células por eletrofusão capaz de retirar o núcleo celular de um óvulo e transferir o núcleo de outra célula para ele.


Legislação vigente
Dentre os países com legislação relativa à clonagem, muitos proíbem terminantemente a tentativa de clonagem de seres humanos, embora permitam experimentos com fins terapêuticos.

A clonagem humana é explicitamente proibida na Austrália, Canadá, Colômbia, Índia, Reino Unido, Romênia e Sérvia. Nos Estados Unidos, 13 estados da união proíbem a clonagem de seres humanos, mas nunca se aprovou uma lei federal que valesse para o país todo, embora isso tenha sido tentado diversas vezes (1998, 2001, 2004 e 2007).

Diversos governos reunidos, entre os quais os da Costa Rica, Estados Unidos, Espanha, Filipinas e Itália, tentaram estabelecer uma convenção internacional pelo banimento da clonagem humana por meio da ONU, mas não chegaram a aprová-la. Mesmo em países onde a clonagem humana é proibida, a clonagem terapêutica é autorizada. No Brasil, houve grande polêmica, em 2008, quando um ex-procurador geral da República, Cláudio Fonteles, entrou com uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), alegando que pesquisas com células-tronco embrionárias, extraídas de fetos humanos, violavam o direito à vida e a dignidade humana. Por oito votos a três, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o ex-procurador não tinha razão e, desde então, o artigo 5º da Lei de Biossegurança, que trata desse tipo de pesquisa continua em vigor.

Com tão poucas travas, a clonagem humana poderá converter-se em um negócio possível, no futuro. Se empresas oferecerem serviços de clonagem – a Clonaid diz oferecer até mesmo a possibilidade de clonar animais de estimação –, a demanda não tardará a aparecer. De fato, ela já existe.

Entre seus possíveis clientes figuram casais estéreis que não podem ter filhos por nenhuma técnica de reprodução assistida; casais homossexuais que desejam ter filhos de seus próprios genes; pais que havendo perdido um filho, tentam revivê-lo por mais irracional que seja o meio de consegui-lo; aqueles que, movidos por seu ego ou pela equivocada promessa de eternidade, decidem clonar a si mesmos; ou o que é pior, clonar seus ídolos. Essa lista poderia continuar até alcançar as maiores loucuras e seguramente não faltaria gente disposta a gastar muito dinheiro para satisfazer os desejos mais descabidos. De fato, já foram propostas algumas clonagens mais que surpreendentes.

Brigitte Boisselier, por exemplo, se ofereceu para clonar o conde Drácula mediante um convite enviado a seu descendente mais próximo, Rodolphe Vlad Drácula Kretzulesco, que rechaçou amavelmente a proposta: “Ainda que meu sobrenome esteja ligado a histórias tremendas, sou boa pessoa e não me presto a coisas como essa”, declarou ao diário alemão sensacionalista Bild. Outro caso alarmante é o de uma seita estadunidense que, junto a outros grupos, como congregações e igrejas, estão decididos a clonar Jesus Cristo utilizando os genes do sangue existente no Santo Sudário, hoje guardado em Turim, na Itália. “Se existe a tecnologia necessária, não há razões morais, legais ou bíblicas para não adiantar seu regresso sem ter de esperar o fim dos tempos”, explicam os promotores do projeto.

O que não parecem ter levado em conta todos esses clientes potenciais são as advertências dos cientistas acerca dos perigos da clonagem. Segundo Richard Schultz, especialista em embriologia humana da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, atualmente não se dominam “os fundamentos científicos que permitiriam incrementar a eficiência da passagem crucial, que é a reprogramação dos genes para que abandonem seu modo de ativação adulta e adotem a do embrião. Deve ser levado em conta que muitas das vacas, ovelhas e ratos já clonados manifestaram uma alta incidência de anormalidades físicas, e inclusive se as mesmas forem evitadas, no caso humano não sabemos o que poderá ocorrer com as questões relacionadas com a cognição e o comportamento”.

Outra das questões que parece ser um entrave às vontades daqueles que querem clonar seus ídolos é: a técnica jamais se ajustará por completo a seus desejos, isto é, mesmo que seres humanos sejam clonados, elas nunca, de fato, serão as mesmas pessoas e, portanto, não será possível alcançar a imortalidade por meio da clonagem. E é fácil perceber por que. Por um lado, casos de clones na natureza já ocorrem: eles se chamam gêmeos idênticos, aqueles gêmeos cujos genes são inteiramente iguais. O fato de existirem dois seres humanos com genes idênticos nunca implicou que eles se comportassem da mesma maneira, nem que tivessem a mesma personalidade ou aspecto físico idêntico. Sempre existem traços diferenciais entre gêmeos desse tipo, o que, por sua vez, descarta a possibilidade de alguém alcançar a eternidade, já que o clone teria uma identidade própria não herdada do ser original. Não obstante, todos esses argumentos não parecem suficientes para lançar por terra as ilusões daqueles que aspiram a clonar e serem clonados.


Reações à suposta clonagem de Eva
As reações dos governos e dos cientistas quando do anúncio da Clonaid foram bastante semelhantes. Japão, França e Alemanha expressaram sua intenção de apoiar uma proibição internacional, enquanto os EUA e o Vaticano se alinharam em favor da proibição total da clonagem, tanto a de fins reprodutivos quanto a de fins terapêuticos. Dois deputados estadunidenses, o republicano Dave Weldon e o democrata Bart Stupack, apresentaram no Congresso dos Estados Unidos uma proposta de lei que proíbe qualquer experimento de clonagem humana, mas a lei não chegou a ser aprovada. O rechaço total à possibilidade de clonagem causou preocupação entre os cientistas, que veem na clonagem terapêutica um grande progresso para a medicina, já que a partir de células-mãe embrionárias é possível gerar toda classe de tecidos em laboratório, o que permitiria combater enfermidades como o diabetes, o Mal de Alzheimer e o Mal de Parkinson.

Quando a Clonaid anunciou que Eva era o primeiro bebê clonado, a comunidade científica logo se posicionou. O especialista em reprodução Jacques Montaigut, membro do Comitê Nacional Francês de Ética, disse sentir-se “indignado” com o “anúncio duvidoso” feito pela empresa de Raël e Boisselier. Segundo ele, uma “corrida fantástica em direção à imortalidade, aos bancos de órgãos e aos negócios” é algo inadmissível.

Montaigut disse ser necessário “proibir a clonagem reprodutiva em todo o mundo. É uma questão que envolve os direitos humanos” e oferece “riscos inadmissíveis para o bebê”.

Já o especialista francês em genética, Axel Kahn, disse: “Estamos presenciando uma situação absurda e escandalosa”. Para ele e outros cientistas, a clonagem humana tem uma inegável dificuldade técnica que não foi esclarecida pela Clonaid.

Já a porta-voz da DFG (Associação de Pesquisadores Científicos Alemães) Eva Maria Streier, foi peremptória: “Não acreditamos nisso”. Porém, ela também disse que se a afirmação da Clonaid fosse verdadeira seria “uma atitude completamente irresponsável”.

Em 2006, a Clonaid ofereceu emprego ao cientista coreano Woo-Suk Hwang. Ele dizia ter criado embriões humanos clonados, mas suas pesquisas, publicadas em respeitadas revistas científicas, foram declaradas como uma grande farsa depois de revelado que ele havia manipulado os dados apresentados.

A clonagem de mamíferos não criou clones humanos e não salvou, efetivamente, vidas. Mas serviu para aumentar o conhecimento sobre o desenvolvimento celular. Além disso, auxiliou em pesquisas básicas. Principalmente com as células-tronco totipotentes e embrionárias geradas a partir da clonagem de diferentes mamíferos.

Nesses mais de 20 anos pós-Dolly, houve progresso na eficiência. Todos esses avanços, somados à aplicação de técnicas para edição gênica (como a Crispr), podem expandir as possibilidades de uso potencial das técnicas de clonagem para a melhoria de características de animais importantes de criação; desenvolvimento de modelos celulares para o estudo de doenças genéticas; e desenvolvimento de fármacos.


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