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Domótica, a casa inteligente
 
 
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 A CASA IDEAL DO SÉCULO XXI
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No livro Mona Lisa Overdrive, do escritor norte-americano de ficção científica William Gibson, lemos o seguinte diálogo:

“(...) – Ângela – disse a casa com voz serena, mas imperativa –, tenho uma chamada de Hilton Swift.

– Prioridade executiva? – Ângela estava comendo no mostrador da cozinha.

– Não – respondeu a casa, confidente.

– Mude de tom – pediu Ângela, mastigando. – Coloque algo de ansiedade.

– O senhor Swift está esperando – expressou a casa, nervosa.

– Assim está melhor – disse ela, levando o prato e a bandeja para a pia –, mas quero algo mais próximo à histeria verdadeira.

– Você não vai atender a chamada? – disse agora uma voz tensa.

– Não – respondeu Ângela –, mas mantenha essa voz, eu gosto. (...)”

Trata-se, obviamente, de um diálogo de ficção científica, mas, como tal, nos fala de uma das grandes aspirações do mundo moderno: a possibilidade de contar com uma casa capaz de satisfazer de forma automática as necessidades e os desejos de seus moradores, entre outros benefícios. No relato de Gibson, a casa cumpre a função de “contestador inteligente”, até o ponto de poder mudar o tom de sua voz quando sua dona ordena.

Da literatura à realidade, o lar é cada vez mais um espaço que, graças à aplicação de novas tecnologias, brinda seus habitantes com uma melhor qualidade de vida. Existe uma especialidade que se ocupa especificamente disso: a domótica.

A etimologia dessa palavra vem do latim domus, que significa “casa” (por isso também os vocábulos “doméstico” e “domicílio”) e o sufixo “-tica” é, por sua vez, tomado do termo “informática”. Assim, portanto, a domótica é uma técnica ou especialidade que integra uma série de tecnologias (aparatos, instalações, sistemas, programas etc.), antes independentes, para aplicá-los na automatização e no controle de uma casa, com a intenção de torná-la mais eficiente, racional e protegida. Para tal, é necessário alcançar quatro objetivos: economia de energia, conforto, segurança e comunicabilidade.

Basicamente, um sistema domótico é uma rede inteligente, ou seja, um conjunto de tecnologias interconectadas cuja função é resolver problemas. Assim, requer um “cérebro” que é geralmente um computador pessoal (PC) ao qual estão conectados, por meio ou não de fios, diversos aparatos, instalações e sistemas, cujo controle e funcionamento são possíveis graças a alguns softwares.

No monitor do PC é possível receber informação e ver o estado tanto de toda a casa (interiores e exteriores) e de cada um dos cômodos que a compõem como do sistema domótico e seus componentes. Para ativar, desativar, programar ou mudar as opções do sistema dentro da própria casa pode ser utilizado o teclado, o mouse ou uma tela sensível ao toque (touch screen). Quando essas operações se realizam de fora da casa, o computador necessita estar conectado a uma linha telefônica convencional, à internet – preferencialmente de alta velocidade – ou a um celular digital pessoal (PDA, na sigla em inglês). Além disso, é possível guardar a informação gerada pelo sistema no disco rígido do PC para sua posterior análise, consulta ou impressão.

A propósito da internet, é natural que os potenciais usuários da domótica expressem sua preocupação com os hackers que possam burlar a segurança de suas casas por meio do computador. Para evitar essa possível intromissão existem medidas de proteção, uma espécie de sistema que funciona como uma rede privada impenetrável.

Ainda que cada sistema domótico possa contar com seu próprio controle remoto, é possível dispor de um controle universal no qual seja possível programar, ativar, supervisionar e desativar a distância as distintas funções, como o som, o reprodutor de DVD, o ar-condicionado, a porta automática da garagem e outras instalações e aparatos domésticos. Tudo isso graças a um grande avanço: a tecnologia inalâmbrica.



E SE FEZ A LUZ... E O CONFORTO
As principais formas de energia utilizadas no lar são a corrente elétrica para a iluminação interior e exterior, para a climatização e o funcionamento de aparelhos, sistemas e instalações e o gás para o banho e o aquecimento de água. Aqui, a domótica nos oferece uma série de aplicações que permitem tanto economizar energia quanto pagar menos por seu consumo, além de obter maior conforto.

Uma das instalações domésticas que mais energia elétrica consome é a iluminação. Nesse sentido, a domótica permite contar com sistemas para realizar as seguintes funções:

1. Apagar ou acender circuitos de iluminação (interior, exterior) acionando apenas um botão colocado próximo à porta principal da casa, ou ativando um sistema de controle remoto por via telefônica ou pela internet. Isso é muito útil quando os moradores entram ou saem da casa ou esquecem de apagar alguma lâmpada.

2. Automatizar as luzes e a intensidade da iluminação (dimmer) de acordo com a presença e a ausência de pessoas em uma habitação ou em função da intensidade da luz natural. Dessa maneira, além de o usuário utilizar-se do menor esforço para apagar, acender e regular a luz artificial, o sistema evita o uso desnecessário de lâmpadas e o consumo inútil de energia elétrica.

3. Regular o acender e o apagar das luzes da casa com um timer e de acordo com as necessidades do usuário. Essa função pode ser combinada com o dimmer, muito útil, por exemplo, para os quartos das crianças.

Os sistemas domóticos também oferecem a possibilidade de acender, apagar ou regular a iluminação de uma maneira voluntária e manual.

Outra aplicação da domótica é o ligar e o desligar programados a distância. Isso pode ser feito com aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos. Assim, por exemplo, é possível programar a lavadora para ter a roupa lavada quando regressamos à casa; o vídeo-gravador, para gravar o capítulo de uma série de televisão exibido em nossa ausência; a cafeteira e a torradeira de pão, para ter pronto o café na manhã seguinte; ou a ducha e a jacuzzi, para tomar um reconfortante banho ao final do dia. O usuário esquecido que deixa o forno ligado poderá apagá-lo por meio do telefone ou da internet.

Como a economia de energia elétrica é um dos principais objetivos da domótica, os especialistas desenvolveram um sistema para os usuários no qual a potência é fixa, ou seja, em um momento determinado o sistema fica programado para interromper a alimentação das instalações e dos aparatos de consumo mais significativo. Em resumo, esse sistema racionaliza a utilização de energia e permite, também, reduzir o consumo e os gastos.

Os avanços na informática não permitem apenas a programação dos eletrodomésticos ou o apagar e o acender das luzes; eles também possibilitam automatizar e controlar o ligar e o desligar dos aparelhos valendo-se de critérios da inteligência domótica. Assim, por exemplo, a informática aplicada ao lar permite desativar o sistema de irrigação do jardim em caso de chuva, para evitar o consumo desnecessário de água. Essa aplicação é útil igualmente no caso das fontes e dos muros com cortinas d’água.


INTEGRAÇÃO
Uma das palavras-chave na domótica é “integração”. Esse conceito é aplicável na comunicação feita no interior da casa, isto é, entre um cômodo e outro, e também serve para atender chamadas de qualquer lugar, para identificar um visitante e para permitir o acesso ao interior da casa.

A domótica ainda tem outras funções aplicadas ao conforto. Já há computadores que, integrados à geladeira, podem listar o menu do dia e as correspondentes receitas, assim como a lista dos alimentos que faltam dentro do equipamento. Essa lista pode ser impressa ou enviada ao supermercado pela internet, para que a compra seja feita automaticamente.

Também existem cortinas ou persianas com sensores que se abrem e fecham automaticamente segundo a incidência de luz solar, ou mediante uso de controle remoto. Dessa maneira, é possível economizar energia elétrica utilizada para a iluminação e regular a temperatura. A domótica permite, ainda, contar com relógios despertadores que, como complemento a suas funções normais, avisam ao usuário a previsão meteorológica, tornando possível saber com que tipo de roupa ele deve sair de casa. Os mesmos relógios também oferecem informações sobre o trânsito.


TECNOLOGIA CONTRA INTRUSOS E FUGAS
Tão importante quanto o conforto e a economia é a segurança das pessoas e do patrimônio que guardam no interior do lar.

Uma das principais aplicações domóticas em matéria de segurança é a detecção de intrusos na casa. Para isso, utilizam sistemas que detectam qualquer tentativa de arrombamento das portas e janelas, assim como movimentos estranhos no interior da casa.

Outra aplicação importante da domótica é a simulação da presença dos moradores na casa. Quando eles não se encontram em seu lar são postos em funcionamento, de maneira aleatória ou programada, distintos sistemas que acendem a iluminação ou alguns acionam aparelhos de áudio ou de televisão.

Os avanços no campo da eletrônica possibilitam o controle de acesso à casa mediante um sistema de identificação biométrica (baseado em leitores de retina ou detectores de digitais) ou de cartões com chip. Também permitem a vídeo-vigilância e o controle remoto e em tempo real, por internet, da casa e a obtenção de informação acerca de seu estado.

A detecção de possíveis incêndios na casa é outra aplicação da domótica ligada à segurança. Para isso é necessário instalar aparatos capazes de detectar fumaça, as mudanças drásticas de temperatura e a presença de chamas nos cômodos. Quando se detecta o incêndio, o sistema ativa um alarme local ou um mecanismo de alerta remoto que, mediante uma chamada telefônica, solicita a intervenção dos bombeiros. Esse sistema pode cortar de forma imediata a passagem do gás, com a finalidade de evitar uma explosão como consequência das chamas.

Também existem sistemas para detectar vazamento de gás. Esses baseiam-se em um conjunto de sensores instalados na cozinha e nos lugares onde o gás é utilizado. Com ele evita-se tanto o desperdício do gás como também se reduz o risco de que se produza um incêndio ou de que os moradores da casa se intoxiquem. Há dispositivos semelhantes para prevenir fugas de água.

Há também um beneficio adicional dessas aplicações: as companhias de seguros reduzem os custos da proteção doméstica de uma casa com esses aparatos.


CLIMA NA MEDIDA CERTA
Importante para o conforto em uma casa moderna, a climatização é uma das aplicações mais destacadas da domótica, sobretudo em zonas geográficas onde se registram temperaturas extremas. Assim, a informática é utilizada para o controle tanto do ar-condicionado quanto dos sistemas de calefação.

Na medida em que cada área da casa requer condições térmicas diferentes, a instalação do sistema de climatização domótico deve atender às particularidades dos distintos espaços domésticos. Assim, torna-se necessário levar em conta que existem algumas áreas da casa que utilizam o sistema durante o dia e outras que, como os dormitórios, utilizam à noite. Igualmente, a domótica leva em conta que, em virtude da orientação da casa, existem quartos com maior incidência solar. Essa distinção permite que os sistemas de calefação domóticos economizem energia, sem diminuir o conforto, ao climatizar somente as áreas que, seja pelo tipo de uso ou localização, de fato o necessitem.

Para economizar energia, o sistema pode ser programado para oferecer uma temperatura confortável quando os usuários se encontrem em casa e reduzir a temperatura em maior o menor grau, dependendo do tempo que eles passem fora.

Atualmente, existem sistemas de climatização tão flexíveis que permitem ao usuário modificar o nível de temperatura em qualquer momento do dia ou da noite sem alterar a programação. Igualmente, o usuário pode alterar o modo de funcionamento do sistema, passando do automático ao manual, se, por alguma razão, deseja manter uma temperatura uniforme em toda a casa.


A CAMINHO DA CASA IDEAL
Ao redor da domótica surgiu uma crescente indústria formada por fabricantes de aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos, empresas de hardware e software e arquitetos e engenheiros especialistas na tecnologia do lar.

A empresa LG, por exemplo, colocou no mercado geladeiras com tela para assistir televisão ou navegar na internet, fornos de micro-ondas que baixam e arquivam receitas da rede e lavadoras e equipamentos de ar-condicionado operados por controle remoto usando o e-mail ou pelo celular.

A aquisição de alguns desses aparelhos pode ser um primeiro passo em direção a um lar domótico. Uma passagem mais decisiva seria a adaptação de um lar convencional ao sistema domótico e, um salto definitivo, a construção de uma casa desse tipo desde os alicerces. Para levar o projeto a cabo, é recomendável analisar, preferencialmente com a assessoria de um especialista, as necessidades de cada um dos moradores, a extensão e a distribuição da casa, assim como os recursos financeiros disponíveis para a construção, o equipamento e a manutenção.

Dados divulgados pela Associação Brasileira de Automação Residencial (Aureside) indicam que o mercado global da domótica tem projeção de crescimento anual de 11,36% entre 2014 e 2020. Estima-se que, no Brasil, 300 mil casas possuem automação. Porém, o potencial atual para fornecimento de equipamentos para 1,8 milhão de casas.

Para difundir a domótica, algumas empresas construíram protótipos de casas inteligentes com o nome de Microsoft Home, nos Estados Unidos; FutureLife, na Suíça; inHaus, na Alemanha; HomeLab, na Holanda.

Como toda nova tecnologia, a domótica não é acessível para todos em razão do seu alto custo. Porém, como ocorre com toda novidade tecnológica, conforme se propague seu uso, o preço cairá consideravelmente, permitindo a massificação das casas inteligentes.

Essa realidade – mais ou menos distante em cada parte do globo – permitirá que milhões de famílias em todo o mundo possam entrar no que se considera a casa ideal do século XXI.


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