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Gripe aviária, a ameaça latente
 
 
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O H5N1, na imagem, é um vírus da gripe que poderia causar uma pandemia similar à de 1918

A gripe aviária é uma enfermidade infecciosa originária do vírus tipo A e conhecida há muito pela comunidade veterinária. Sua primeira identificação foi feita na Itália há cem anos.

Existem mais de quinze subtipos de vírus da gripe que podem afetar as aves — os mais danosos são o H5 e o H7. Esses vírus são altamente contagiosos e a sua transmissão entre frangos e outras espécies pode acontecer por outras vias, como alimentos consumidos pelos animais contaminados, além de gaiolas e veículos que transportam carga animal.

Acreditava-se que o vírus da gripe aviária infectava apenas aves e porcos, porém, em 1997, foi detectado em Hong Kong o primeiro caso de infecção humana, a qual foi possível por razão da capacidade danosa do H5N1.

O H5N1 se propaga de aves para seres humanos; porém, se aumentar o número de pessoas infectadas com o vírus, ele poderá produzir uma terrível mutação, a qual, segundo os sanitaristas, seria pior que o atual estágio da doença: alguém infectado simultaneamente por gripe humana e gripe aviária poderá servir de tubo de ensaio para a doença, que poderá produzir um novo subtipo de vírus gripal. Essa hipótese poderia gerar um novo vírus transmitido de pessoa para pessoa.

Os sanitaristas apontaram a necessidade de deter a propagação da enfermidade entre as aves de criação, medida que reduziria a oportunidade de exposição humana à doença. Por esse motivo, a União Europeia proibiu as importações de aves vivas, ovos, plumas ou carne de frango de todos os países afetados pelo vírus.

Outra medida a ser tomada consiste em levar a cabo uma exaustiva vacinação das aves e das pessoas que trabalham em áreas de alto risco. Para isso seria necessário o emprego das vacinas mais eficazes contra os tipos circulantes de gripe humana, já que, ao não existir o vírus como tal, não é possível contar com uma vacina específica. A enfermidade poderá afetar tanto adultos quanto crianças e os sintomas serão febre, dificuldade respiratória e tosse.


EVOLUÇÃO DA GRIPE AVIÁRIA
Em 1997, foram registradas as primeiras infecções humanas pelo vírus da gripe aviária. O tipo H5N1 causou enfermidades respiratórias graves em dezoito pessoas em Hong Kong, seis das quais acabaram não resistindo à doença e morreram. O alarme voltou a tocar em fevereiro de 2003 quando novos casos da gripe foram detectados em Hong Kong. A partir de então, a doença se estendeu por uma ampla zona do Leste Asiático e causou sessenta mortos no Vietnã, na Tailândia, no Camboja e na Indonésia. Para tentar controlar a doença foram sacrificados mais de 125 milhões de aves, mas mesmo assim não foi possível frear o contágio de animais em outros países, como China, Laos, Malásia, Coreia do Norte e Paquistão. Os sanitaristas comprovaram que o vírus se transformou em novas variedades cada vez mais nocivas e com mais chances de afetar seres humanos.

Em agosto de 2005, a gripe aviária foi detectada na Sibéria, Rússia, o que provocou o sacrifício de mais de 120 mil aves. Apesar das medidas de controle, o vírus conseguiu cruzar os Urais e chegar à Europa.


RISCO DE PANDEMIA
Em outubro de 2005 foram detectados na Turquia, na Romênia e na Grécia vários casos de infecção causados por um subtipo de vírus da gripe aviária, o H5N1. A presença desse novo vírus, capaz de afetar seres humanos, e sua capacidade de se estender facilmente pelo mundo por meio das aves migratórias – as quais levariam o vírus para várias partes do planeta –, levaram os sanitaristas a alertar sobre o perigo de uma possível pandemia.

Para prevenir a população mundial de um risco dessa magnitude, as autoridades políticas e sanitárias mundiais tornaram públicas duas recomendações básicas. A primeira: procurar cumprir estritamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a vacinação contra a gripe; e a segunda: produzir grandes quantidades de doses antivirais. O alerta europeu sobre a expansão do vírus se reafirmou quando, em 18 de outubro de 2005, autoridades gregas anunciaram ter descoberto um foco da gripe em uma criação de peru na ilha de Inusa, na Turquia.

Em 2006, a doença chegou a Israel e, segundo a OMS, após a confirmação de cinco pessoas mortas no Azerbaijão vítimas do vírus H5N1, variante da gripe aviária, a doença chegou a 103 mortes humanas desde 2003.


BRASIL
No Brasil, a gripe aviária chegou sob a forma de demissões. Para se ter uma ideia, em março de 2006, cerca de novecentos funcionários da indústria de aves entraram em férias coletivas em Santa Catarina, maior estado exportador de carne de frango em todo o Brasil, segundo dados da Faesc (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina). A crise enfrentada pela indústria de aves no Brasil causou demissões, férias coletivas e redução de quase 20% na produção.

Em 7 de abril de 2006, o governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Prevenção da Influenza Aviária e da Doença de Newcastle, na sede da Embrapa, em Brasília.


H5N1
Tal como afirmou o prêmio Nobel norte-americano Joshua Lederberg (n. 1925), “a maior ameaça concreta ao domínio permanente do homem no planeta é um vírus”, na medida em que a influenza, o vírus que provoca a gripe, tem sido o mais mortífero da história humana. É compreensível que instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertem a população quando julgam possível a existência de alguma cepa especialmente virulenta, capaz de causar uma pandemia mortal, tal como ocorreu em 1918, quando mais de cinquenta milhões de pessoas morreram vítimas de um tipo de vírus de origem aviária.

A gripe aviária, como seu nome indica, afeta apenas as aves. Galinhas, patos, perus e frangos são contaminados todo ano por alguma das cepas do vírus da gripe. A gripe aviária, como todas as classes de gripe, é de fácil contágio. A essa facilidade de transmissão devem-se somar fatores como a generalização dos intercâmbios comerciais e as grandes distâncias recorridas pelas aves migratórias, que fazem com que uma possível doença salte de um país para o outro com enorme rapidez.

Outros animais de curral, como os porcos e os cavalos, também podem ser afetados pelos vírus aviares, mesmo que não manifestem nenhum tipo de sintoma.

Até maio de 2009 ainda não havia sido constatada a transmissão do vírus à espécie humana, o que não tranquilizava as autoridades sanitárias e os governos, por dois motivos complementares:

1) Porque era algo que, embora raríssimo, podia ocorrer em ocasiões excepcionais.

2) Porque havia um descompasso entre o avanço das pesquisas e o risco de uma disseminação importante em um curto espaço de tempo.

Em agosto de 2013, a conceituada publicação British Medical Journal informou o primeiro caso de trasmissão humana de variante da gripe aviária. O caso em questão foi o de uma mulher chinesa de 32 anos que contraiu a variante conhecida como H7N9 após cuidar do pai que havia contraído o vírus após visitar um mercado de aves. Até então, não havia provas ou registros de que alguém pudesse contrair gripe aviária por meio de outro doente, já que os casos reportados até então correspondiam apenas a contato com aves. A chinesa não teve contato com as aves, mas acabou ficando doente dias após cuidar do pai doente. Os dois acabaram morrendo alguns dias depois.


GRIPE COMUM x GRIPE AVIÁRIA
As gripes que normalmente afetam os humanos costumam ser incômodas, mas relativamente inofensivas: o próprio organismo desenvolveu ao longo dos séculos uma resposta imunológica sumamente eficaz que acaba com a infecção em uma semana, aproximadamente.

Já os vírus aviares representam, ao contrário, um grave perigo para o ser humano. São inimigos totalmente novos e com formas de ação diferentes, motivo pelo qual, frente a eles, o corpo sucumbe por não saber como reagir. É aí que a gripe aviária deixa de ser um problema veterinário para se converter em um assunto de saúde pública.

Em 1997, os cientistas concentraram sua atenção em uma cepa muito violenta do vírus da influenza denominada H5N1, que havia provocado a morte de várias pessoas em Hong Kong. Desde então até 2005, esse vírus infectou mais de uma centena de pessoas na China, no Vietnã, na Malásia e na Indonésia causando a morte de mais de sessenta enfermos. A gripe não passou de uma pessoa para outra. O agente transmissor sempre foi alguma ave infectada. O fato de essa cepa não ser transmissível de pessoa para pessoa impediu o surgimento de uma pandemia. Sem embargo, os cientistas são conscientes do grande poder de mutação dos vírus, por isso nunca descartaram o surgimento de um que tivesse a capacidade de se transmitir entre pessoas por meio da gripe comum e da periculosidade do H5N1.


VÍRUS MORTÍFEROS
Ainda que os vírus e as bactérias possam causar graves enfermidades, uns e outros são dois tipos de agentes infecciosos muito diferentes. As bactérias são seres vivos, têm órgãos e levam a cabo todas as funções metabólicas, como a nutrição e a reprodução. Ao contrário, os vírus são bem menores e simples que as bactérias. Possuem apenas um tipo de ácido nucleico e são incapazes de se multiplicar quando estão fora de uma célula viva. Além disso, são imunes aos antibióticos que matam as bactérias.

Enquanto as bactérias podem ser observadas mediante um microscópio óptico muito potente, não foi possível visualizar os vírus – cuja medida é igual à milionésima parte de um milímetro – até a invenção do primeiro microscópio eletrônico, na década de 1930. Os vírus estão formados exclusivamente por uma cadeia de ácido ribonucleico (ARN) ou bem por ácido desoxirribonucleico (ADN) recoberto por uma estrutura proteica. Tal como os definiu o biólogo Peter Medawar, são “uma mostra de más notícias envolta em proteína”.

Um vírus é incapaz de levar a cabo processos vitais básicos. Assim, por exemplo, não pode se reproduzir por si mesmo. Tampouco necessita se nutrir nem muito menos se relacionar com o meio. Tudo aponta para o fato de que vírus não são seres vivos, mas agentes infecciosos muito poderosos.

Os vírus são os menores agentes infecciosos que existem. Apesar de não levarem a cabo nenhuma das funções próprias dos seres vivos, o vírus é capaz de penetrar em uma célula e obrigá-la a reproduzir milhares de cópias do vírus invasor, que abandonarão a célula original para invadir outras células sãs e repetir o mesmo processo. Quando o vírus coloniza uma célula, esta deixa de desempenhar a função que cumpria no organismo e se converte em uma espécie de zumbi que trabalha sob as ordens de um ente invasor e com uma única finalidade: confeccionar milhões de novos vírus.

Há muitas classes de vírus que afetam células distintas. Assim, por exemplo, os vírus que causam a raiva penetram nas células do sistema nervoso central até destroçá-las por completo. O vírus da imunodeficiência humana (HIV), causador da AIDS, destrói os glóbulos brancos encarregados de proteger o individuo. A gripe, provocada pelo vírus influenza, afeta o mecanismo respiratório.


INFLUENZA
A gripe é uma enfermidade respiratória contagiosa causada pelo vírus influenza. Padecimento muito comum, alguns anos chegou a contagiar mais do 20% da população mundial. A gripe se divide em três classes: A, B e C. O tipo A afeta majoritariamente os animais e é a causa da gripe mais comum entre os humanos. A gripe B afeta com menos virulência os homens e o faz também com uma frequência muito inferior. O tipo C apenas se diferencia de um catarro e não representa maior perigo. Os sintomas são: gripe seca, febre e dor de cabeça.

A gripe se contagia com enorme facilidade por meio das minúsculas gotas de saliva que expulsamos ao tossir ou, inclusive, ao falar. Também através dos dedos, já que é muito fácil que toquemos uma superfície que contenha gotas de saliva e posteriormente esfreguemos os dedos nos nossos olhos, nariz ou boca. Quando o vírus penetra no organismo de uma pessoa sã, produz uma infecção, cujos sintomas aparecem ao cabo de vários dias. Durante esse lapso de tempo, a pessoa infectada pode transmitir a enfermidade a outros indivíduos.

A gripe de tipo A é a que ocasiona maiores problemas e, portanto, que se estuda com mais atenção. Tem muitos subtipos e esses se diferenciam pela combinação de proteínas que os encapsulam. Dessa combinação sempre está formada por uma proteína hemaglutinina e uma proteína neuranimidasa.

Existem dezesseis formas diferentes de hemaglutinina e nove de neuranimidasa. Cada uma dessas variantes de proteína se identifica com um número, pelo que para identificar um dos vírus da influenza tipo A somente é necessário dizer de quais proteínas está composto. A hemaglutinina é simbolizado com a letra H, que vai seguida por um número entre 1 e 16. A neuranimidasa é simbolizada com a letra N seguida, por sua vez, de outro número entre 1 e 9. O vírus que captou a atenção dos cientistas é o H5N1, o que significa que se trata de um vírus de tipo A composto pela variante 5 da hemaglutinina e a variante 1 da neuranimidasa.

Cabe assinalar que o vírus que causou a conhecida pandemia de 1918 era também de origem aviária e se denominava H1N1. Por sua parte, os vírus da gripe humana comum são basicamente de três tipos: H1N1, H1N2 e H3N2.

A reconstrução a escala de H5N1 mostra uma imagem muito perturbadora do vírus, que se parece com uma esfera rodeada de espinhos ou agulhas.


UMA AMEAÇA PARA OS HUMANOS
Ao penetrar na célula, o vírus se solta de sua cápsula proteica e se dirige até o núcleo celular, de modo que sua informação genética se funde com o DNA original do corpo invadido. A partir desse momento, todos os órgãos da célula deixam de realizar a função que cumprem para se dedicar à formação de novos vírus e seguir as novas instruções que recebem do núcleo celular.

A cepa H5N1 afeta majoritariamente as aves. Detectada pela primeira vez em 1961, causa a morte do animal na maioria das ocasiões. O cientista Robert Webster afirmou sobre o H5N1: “Por sua patogenicidade, [é] o pior vírus que eu estudei na minha vida”. Seu perigo reside no fato de poder afetar mamíferos e inclusive causar a sua morte. Por esse motivo, e ante a possibilidade de que contagie também as pessoas, os cientistas seguem seus passos desde 1997.

Até então, os infectologistas estavam convencidos de que os vírus aviares não podiam contagiar diretamente aos humanos. Pensavam que, para que o contágio ocorresse, seria necessário primeiro que os porcos, que são animais receptivos tanto a vírus humanos como a vírus aviares, fossem contaminados, mesmo que não sofressem nenhumas das moléstias ou sintomas provocados tanto pelos primeiros quanto pelos segundos. Desse modo, se convertem em autênticos liquidificadores onde os vírus de procedências diversas podem se combinar de múltiplas maneiras. Por essa razão, os cientistas consideravam que os porcos eram como laboratórios químicos onde o acaso podia proporcionar a um vírus aviário como o H5N1 as mutações necessárias para criar uma variedade capaz de ser contagiosa entre os humanos.

Os genes da influenza se dividem em oito segmentos. Cada um desses pode dividir-se e combinar-se com outros segmentos do vírus com grande facilidade. Dessa forma, as variedades de um subtipo de influenza se multiplicam. Portanto, não caberia descartar a possibilidade de que a combinação de vírus humanos e aviares alojados em um porco produzissem um novo vírus com as piores características de cada um deles.

Em outubro de 2005, a prestigiada revista Nature publicou um artigo sobre a sequência do genoma do vírus da gripe de 1918. Uma das surpresas com a qual essa investigação se deparou foi o descobrimento de que o vírus que causou a pandemia não procedia de uma mescla entre vírus aviares e humanos. Era um vírus que saltou diretamente das aves aos homens e causou uma terrível mortalidade. A investigação que conduziu à sequência permitiu reconstruir o vírus e experimentá-lo em ratos. A resposta não se fez esperar: sua capacidade para se multiplicar nos pulmões foi mais vasta e contundente que a de qualquer outro vírus da gripe conhecido.

Em última instância, essa investigação permitiu averiguar que o ser humano pode ser infectado por um vírus proveniente diretamente das aves, sem passar antes por um “liquidificador” como o porco. Isso obrigou a considerar a existência de muitas formas diferentes de transmissão que podem significar um duro golpe para as populações humanas.


ANTIVIRAIS E PANDEMIAS
A melhor forma de prevenir a gripe é mediante o uso de vacinas, as quais são feitas a partir de vírus muito debilitados ou inativos, que permitem que o corpo desenvolva uma resposta imunológica adequada. Até o final de 2005, a gripe aviária não havia produzido nenhuma pandemia. Não existia, portanto, nenhum vírus; dessa forma, não era possível elaborar uma vacina para combatê-lo.

A outra forma de lutar contra os vírus são os antivirais. Nesse sentido, o princípio ativo oseltamivir (comercializado com o nome de Tamiflu pela empresa francesa Roche) funciona como um inibidor da neuranimidasa. Se uma pessoa se medica com Tamiflu, suas células recebem uma dose de oseltamivir. Quando o vírus da influenza penetra em uma célula que contenha esse inibidor, o vírus se multiplica em seu interior, mas posteriormente não pode sair porque o oseltamivir atua sobre a proteína que permite essa operação. Assim, evita-se o contágio.

Para que o Tamiflu seja realmente efetivo, o paciente deve tomá-lo durante as 48 horas imediatamente posteriores ao momento em que contraiu a enfermidade. Ao contrário, a infecção já se encontraria demasiadamente estendida e resultaria impossível pará-la. Uma das dúvidas existentes acerca do medicamento é se ele serviria para combater uma possível pandemia.


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