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Gauguin, o bom selvagem do impressionismo
 
 
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Autorretrato. Em 1883, Gauguin abandonou sua família para viver em uma comunidade artística

Seria Gauguin um selvagem que odiava a civilização soluçante em que vivia? Uma espécie de titã que faz de suas horas de ócio sua pequena criação? Ou alguém que prefere ver o céu vermelho ao invés de vê-lo azul como a multidão?” Assim o dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) definia o pintor francês. Gauguin pintava, bebia, viajava e escrevia e tudo era feito com paixão, por isso ele recebeu tais palavras de homem das letras como Strindberg.

Gauguin nasceu em Paris. Em 7 de junho de 1848, Aline Chazal (1825-1867), esposa do jornalista Clovis Gauguin (1814-1849), do diário National, dava a luz àquele que seria um dos pintores mais aclamados da França.

Gauguin nasceu no ano em que as barricadas tomavam conta de Paris. Era a “primavera dos povos”, uma revolta urbana que se encerrou quando Charles-Louis Bonaparte foi feito imperador Napoleão III (1808-1873), em 1852. Sob o novo império, e com a assinatura do barão Haussmann (1809-1891), prefeito da capital entre 1853 e 1870, nasceria a Paris moderna, cortada por avenidas largas, grandes bulevares e pela divisão social dos bairros das classes ricas e dos banlieues, os subúrbios populares. Gauguin fugiria dessa nova Paris, construída por Haussmann principalmente para impossibilitar o surgimento de novas barricadas.

Paul Gauguin não conheceu sua avó materna, Flora Tristán (1803-1844), que havia morrido quatro anos antes do nascimento do futuro pintor. Porém, a lenda de Flora, uma ativista política que defendeu os direitos das mulheres e se antecipou ao marxismo, acompanhou o neto em sua primeira viagem, a travessia do Atlântico, na qual o pequeno Gauguin perdeu seu pai a caminho do Peru. O menino Gauguin teve na América do Sul o primeiro contato com o exótico, com essa realidade distinta da Europa, e descobriu seu passado mítico, o qual o aparentava a um vice-rei peruano de origem aragonesa, segundo Gauguin afirmava em suas memórias, “descendente dos Borgia”. Quatro anos depois, Gauguin e sua mãe voltaram para a Europa e passaram a viver em Orleans com uma irmã de Clovis. Em seguida, mudaram-se para Paris, onde o rico banqueiro de origem espanhola Gustave Arosa, padrinho do pintor, foi responsável pela educação do jovem Gauguin.

Com apenas dezessete anos, em 1865, Paul entrou na marinha mercante e, novamente, viajou. Dessa vez, Gauguin visitou as praias do Rio de Janeiro e “amou a luz da Baía de Guanabara”, conforme escreveu Caetano Veloso na letra “O Estrangeiro”.

A aventura brasileira não se prolongou muito. Em 7 de junho de 1867 morria a mãe do pintor e ele então retornou à França, onde seu padrinho Arosa, graças às suas influências, conseguiu que Gauguin passasse a trabalhar como corretor da Bolsa de Valores.


ANOS DE CALMARIA

Dessa maneira, o jovem inquieto se tornou um broker profissional, ganhou dinheiro e se estabilizou. Em 22 de novembro de 1873 se casou com a professora de origem dinamarquesa Mette-Sophie Gad, com quem teve cinco filhos: Emil, Aline, Clovis, Jean-René e Paul-Rollon. Tinha então uma rotina tranquila, na qual, aos poucos, a arte foi ganhando cada vez mais espaço. Seu padrinho colecionava quadros de jovens artistas e conhecia personagens que frequentavam a boemia de Montmartre. Gauguin passou a frequentar exposições e viu nascer o movimento impressionista. Converteu-se então em um pintor de finais de semana. Em 1876, fez sua primeira exposição junto aos impressionistas, ao exibir uma tela junto às obras de outros pintores franceses. Com esse grupo ele participou de mostras em 1879, 1880, 1881 e 1882.

O ano de 1883 marcou o final da rotina pacata que Gauguin vivia com a família. A crise econômica se acentuou e ele foi demitido. Decidiu então se dedicar por completo à pintura. Seu padrinho o ajudou novamente subvencionando sua nova empreitada e proporcionando os contatos necessários.

Nessa época, sem qualquer explicação, Gauguin decidiu abandonar sua mulher e seus cinco filhos e foi para Ruan fazer parte de uma comunidade artística que Camille Pissarro (1830-1903) havia criado. Enquanto sua família mudava-se para Copenhague, Gauguin se transformava em um pós-impressionista.


DOIS ASSENTOS

Gauguin não tardou a voltar às viagens marítimas. Em 1887, foi até a Martinica, ilha situada no Caribe, nas Antilhas Francesas. Dali foi até o Panamá, onde trabalhou na construção do Canal do Panamá para conseguir dinheiro para voltar para a França.

Em seu retorno a Paris, alguns marchands gostaram das cerâmicas feitas por Gauguin. Nessa época, ele conheceu Theo Van Gogh (1957-1891), que desde então se converteu em seu marchand. Através de Theo, Vincent Van Gogh (1853-1890), o “louco de cabelos vermelhos”, entrou na vida de Paul Gauguin. Desde seu primeiro encontro com o pintor holandês, a impressão que Gauguin teve foi enorme e logo ele passou a trocar cartas com Van Gogh.

A correspondência entre Gauguin e os irmãos Van Gogh levou-o a tomar uma decisão que seria crucial em sua vida: aceitou a proposta de Theo e foi viver em Arles com Vincent.

O pintor holandês pretendia criar na Casa Amarela daquele povoado francês uma comunidade de artistas e a chegada de Gauguin o emocionou tanto que ele decorou as paredes do quarto de seu hóspede com várias telas em que havia desenhado girassóis. O fogo amarelo das flores pintadas por Van Gogh iluminava o austero cômodo, no qual havia apenas uma cama pequena e uma cadeira.

Vincent Van Gogh e Paul Gauguin viveram dois meses na mesma casa. Em 23 de dezembro de 1888, Paul deixou Arles sem sequer se despedir de Van Gogh. Nesse breve período, os dois artistas aprenderam a amar e odiar um ao outro. Suas brigas eram constantes, posto que entendiam a pintura de modos diametralmente opostos: para Van Gogh a pintura era uma espécie de religião, segundo a qual as pinceladas deveriam ser breves, pessoais e espontâneas; para Gauguin, a pintura era também subjetiva, mas simbólica e feita com cores planas e lisas. Apesar das brigas, tanto Van Gogh como Gauguin situavam o valor da obra de arte não na tradução fiel da realidade, mas na combinação subjetiva de sentimentos, pensamentos, figuras e formas regidas por leis próprias e cheias de vitalidade.

A fase de Arles deu aos dois artistas uma nova maneira de pintar: Paul conservou o amarelo dos girassóis de Van Gogh pelo resto de sua vida, reinterpretando-o nas terras exóticas da Polinésia; Vincent passou a usar verdes que jamais usara e também a fazer uso do cloisoné, uma técnica que lembra o efeito dos vitrais, na qual uma grossa linha negra desenha as silhuetas.

Gauguin realizou o melhor retrato do holandês: Vincent Van Gogh Pintando Girassóis. Também produziu as excelentes obras: Cristo Amarelo, O Sermão Depois da Missa e A Bela Ângela, o qual foi comprado por Edgar Degas (1834-1917). Juntos, os dois artistas de Arles se apaixonaram pela arte japonesa, mas, sobretudo, eles discutiram. A situação chegou ao limite quando, um dia antes do Natal, Vincent ameaçou Paul com uma faca. Gauguin então partiu sem dizer adeus. Contrariado com a saída de Gauguin, Van Gogh cortou a orelha e a enviou para o hotel onde o francês estava hospedado. Nunca mais os dois voltaram a se falar. Porém sempre recordavam sua mútua ausência: um pintou a cadeira do outro e esses quadros converteram-se no símbolo da amizade de dois artistas de personalidade envolvente.


A CASA DO PRAZER

De volta a Paris, Gauguin decidiu escapar novamente, mas agora seu objetivo eram os mares do sul. O suicídio de Van Gogh, em 27 de julho de 1890, e a morte de Theo seis meses depois deixaram Paul sem amigo e sem marchand.

Ele organizou então aquela que seria sua última exposição. Com o dinheiro conquistado, empreendeu, em 1891, uma viagem para a Polinésia francesa e se instalou em Papeete, a capital do Taiti, para “estar em paz e esquecer a civilização”. Dessa maneira buscava fugir da Europa, um mundo, em suas palavras, “governado pelo ouro”. Porém, Gauguin não conseguiu o que queria. O Taiti o decepcionou profundamente porque a ilha era demasiadamente europeizada. Suas proezas sexuais e seu alcoolismo acabaram gerando problemas com as autoridades locais e principalmente com as missões religiosas, as quais não paravam de criticá-lo. Os indígenas, entretanto, apreciavam esse branco que parecia um mahu (homem-mulher, uma figura próxima à do travesti, a qual era respeitada pelos maoris, mas que foi duramente perseguida pelos líderes colonizadores). As freiras asseguravam que Gauguin pervertia as jovens alunas. Ele reencarnava o mito do “bom selvagem” do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), porém não era bem visto pelos colonizadores puritanos.

Decepcionado, Gauguin voltou para a França em 1893, onde tentou convencer artistas parisienses a fundar uma comunidade artística nas ilhas tropicais. Não encontrando quem quisesse segui-lo na empreitada, voltou sozinho para a Polinésia. O Taiti era um lugar demasiado caro para ele, assim Gauguin se dirigiu ao arquipélago das Marquesas, as ilhas mais afastadas de um continente de todas as que existem no planeta. Instalou-se em Hiva Oa, em uma casa que chamou de La Maison de Jouir (a casa do prazer), onde sempre havia absinto e um tonel cheio de rum na entrada para que os nativos, que viviam sob a proibição de tomar bebidas alcoólicas, bebessem o quanto quisessem.

Todos na ilha chamavam Gauguin de Koke e apreciavam o convívio com aquele francês quase cego por razão da sífilis, que se banhava pelado nos rios e que tinha em sua casa 45 postais pornográficos.

Nas ilhas, a arte de Gauguin se fez esquemática e isso o levou a antecipar de certa forma o cubismo de Pablo Picasso (1881-1973). Suas cores ficaram cada vez mais lisas e sua perspectiva, extremamente subjetiva. O artista selvagem apadrinhou, sem saber, movimentos como o fauvismo e o expressionismo. Suas pinturas tornaram-se cada vez mais arredondadas e seu traço mais e mais sinuoso.

Acabou morto pela sífilis – que o vinha destruindo aos poucos – e por um processo judicial empreendido pela Igreja e a polícia para fechar a Maison de Jouir. Seguramente teria sido preso não tivesse a doença o levado primeiro, em 8 de maio de 1903.


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