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Imigração, economia e intolerância
 
 
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Os fluxos migratórios, quase sempre ilegais, são um fenômeno cada vez mais difundido: se dão, em geral, dos países pobres ou em situação de conflito – quer interno, quer externo – para os países ricos e estáveis. Ocorre, ainda, o fenômeno da ida de pessoas de países muito pobres para países menos pobres, aonde poderão ter uma vida um pouco melhor. É uma história que pode ser contada de diversas maneiras, mas que tem quase sempre o mesmo desfecho: inúmeras tragédias e o aumento da xenofobia.

Casos exemplares de atritos provocados pela imigração ilegal são os que ocorrem na fronteira entre México e Estados Unidos. Em um desses casos, dois brasileiros foram encontrados entre os mortos de uma chacina em Tamaulipas, região do México, em agosto de 2010. Um grupo constituído por 72 pessoas que tentava atravessar a fronteira com os Estados Unidos foi capturado por uma milícia de traficantes e, por recusarem-se a trabalhar para o grupo como assassinos de aluguel, foram mortos.

Em março de 2019, um grupo de 30 brasileiros – adultos, jovens e crianças – foi detido ao tentar cruzar ilegalmente a fronteira entre México e Estados Unidos. Quem impediu que eles entrassem no país foi um fazendeiro, Jeff Allen, dono de uma propriedade na fronteira dos EUA, justamente por onde o grupo tentou realizar a travessia. Allen é membro do grupo The United Constitutional Patriots New - Mexico Border Ops Team (Os Patriotas Constitucionais unidos – Operações de Fronteiras no Novo México), uma milícia armada que promete patrulhar a fronteira até que o muro prometido pelo presidente Donald Trump seja construído. O grupo acabou entregue pela milícia aos agentes da Border Patrol (Patrulha de Fronteira dos EUA), e, depois, à US Immigration and Customs Enforcement (ICE, sigla em inglês para Agência de Alfândega e Imigração), que dá seguimento ao processo de deportação.

No continente europeu o peso maior é o da xenofobia. Na França, em 2006, o governo decidiu oferecer 2 mil euros para cada imigrante ilegal adulto que concordasse em retornar a seu país de origem e 500 euros para cada criança que também o fizesse. No ano anterior, nos subúrbios de Paris, protestos violentos resultaram na queima de 6 mil veículos. Uma pessoa morreu e 2 mil foram presas. A grande maioria dos envolvidos nos protestos era jovem de ascendência africana ou árabe, vítimas de uma segregação muito mais ampla do que aquela que ocorre entre o centro e a periferia das grandes cidades.

O número de imigrantes ilegais que entraram na União Europeia (UE) diminuiu acentuadamente pelo terceiro ano consecutivo em 2018. De 204.750 chegadas em 2017, o número caiu para 150.114 no ano seguinte, mostrou levantamento da Agência Europeia de Guarda de Fronteiras e Costeira (Frontex). O número continua alto, portanto, controles de fronteira são necessários e a segurança nos aeroportos precisa de atenção tanto quanto as fronteiras externas.

A chegada de grandes quantidades de postulantes a asilo à Europa nos últimos anos criou uma crise humanitária. Milhares morrem todos os anos no mar se arriscando na travessia em barcos superlotados. Além disso, partidos nacionalistas anti-imigração se fortaleceram no continente. O número de imigrantes ilegais repatriados da UE pela Frontex se aproximou de 13.700 em 2018 – em 2017 foram 14.200. No meio da crise imigratória de 2015, a agência só devolveu cerca de 3.600 imigrantes para seus países de origem. As repatriações facilitadas por nações da UE também aumentaram em 5%. Neste texto, vamos discutir como esses processos migratórios modificam as relações sociais nas diferentes regiões do planeta, bem como verificar quais são as consequências no âmbito da economia e da intolerância.



A imigração no continente europeu


A chegada constante e em massa de imigrantes à Europa há vários anos tornou-se o principal tema de debate em vários países do continente, uma discussão na qual o presidente Donald Trump se intromete e faz os governos endurecerem a retórica. Atualmente, o número de imigrantes que chegam pelo mar Mediterrâneo tende a baixar. Depois de alcançar um pico de mais de 1 milhão em 2015, o número caiu para cerca de 362 mil em 2016, 172 mil em 2017 e 37 mil desde o início de 2018. O número de mortes, no entanto, aumento. No mediterrâneo central, uma em cada 18 pessoas que tentaram entrar na Europa morreu ou desapareceu. No mesmo período, em 2017, a taxa era de uma a cada 42 pessoas. Além do problema das novas chegadas, simbolizado pelo caso do navio humanitário Aquarius, um dos principais pontos de atrito tem a ver com a distribuição dos imigrantes depois que estão na Europa. Boa parte da opinião pública é reticente quanto a recebê-los.

Alemanha
A Alemanha ocupa um lugar de liderança na UE, e pelo seu poder econômico, era de se esperar que houvesse um grande fluxo de imigrantes. Em 2015, a chanceler Angela Merkel abriu suas fronteiras em 2015 para receber mais de 1 milhão de migrantes, o que fez ressurgir uma extrema direita, hostil a esse tipo de imigração, e que teve impacto na dinâmica eleitoral. Mesmo tendo sido reeleita em 2018, ela está, então, a mercê de um governo de coalização, tendo como um dos aliados o CSU (que é um partido político alemão conservador de orientação democrata cristã). Uma pesquisa publicada em 2018 mostra que quase 90% dos alemães querem um endurecimento da política migratória Devido ao seu posicionamento com relação à imigração, Merkel também entrou em alguns embates com Donald Trump, que afirma haver um aumento da criminalidade com a imigração (quando os dados na Alemanha apontam na direção oposta). França

Outro país atraente para a imigração é a França. Normalmente, os imigrantes chegam pela fronteira italiana, e depois então atingem o solo francês. Lá, como na maior parte da Europa, a opinião pública se posiciona majoritariamente contra a imigração ilegal. Por exemplo, 56% dos franceses consideram que não se deveria permitir a entrada do navio Aquarius em portos do país. O navio Aquarius, que é operado pelas instituições de caridade SOS Mediterrâneo e Médicos Sem Fronteiras (MSF), já efetuou, pelo menos duas vezes, o resgate de imigrantes em alto mar. Em 2018, ele ficou famoso quando o governo italiano impediu a sua entrada. Naquela ocasião, cerca de metade de seus passageiros queria pedir asilo na França. As autoridades francesas registraram mais de 100 mil pedidos de asilo em 2017, o que significou um aumento de 17,5% em relação a 2016.


Itália
A Itália acaba sendo a principal forma de entrada na Europa. O país é signatário do acordo de Dublin, que é uma lei da UE para agilizar o processo de candidatura para os refugiados que procuram asilo político. Dentre outras coisas, essa lei prevê que o país europeu, onde o imigrante se registra pela primeira vez, deve processar seu caso de pedido de residência até o final.

Em 2018, os italianos optaram nas urnas por uma coalizão de extrema direita e antissistema. Matteo Salvini, ex-vice-primeiro-ministro e líder da Liga (extrema-direita), garantiu que iria acabar com o fluxo de chegadas e expulsar centenas de milhares de imigrantes ilegais. Como já foi dito anteriormente, uma de suas primeiras decisões foi rejeitar a chegada a seus portos do navio Aquarius, com mulheres grávidas, idosos e crianças viajando sozinhas. Os dados do o início de 2019 até junho do mesmo ano indicavam que 13.808 pessoas migraram às costas italianas (uma redução de mais de 84% em um ano). A partir de setembro de 2019, o país passou a ser governado por uma coalizão de esquerda, o que indica que as políticas de imigração serão modificadas.


Áustria
A Áustria também chama à atenção pela presença de um chanceler conservador: Sebastian Kurz (1986). Kurz se considera um dos principais artífices do fechamento da Rota dos Bálcãs no início de 2016, e também se posicionou de maneira contrária às ideias Merkel. Podemos dizer que é mais um país que endurece a política contra os imigrantes, o que pode ser observado, se olharmos a queda do número de pedidos de asilo. Entre 2013 e 2017, a Áustria contou com um total de 200.665 pedidos de asilo, o que representa 2,3% de sua população (aproximadamente 9 milhões de habitantes). Em 2015, por exemplo, o número de pedidos chegou a 88.160. Já em 2017, os pedidos caíram para 24.715 e a tendência, enquanto o país estiver governado por um partido conservador, é que esse número continue caindo.

Bélgica
O país concedeu status de refugiados (ou condições similares) a cerca de 40 mil pessoas entre 2015 e 2017. O governo endureceu sua política, defendendo que se deve receber apenas os refugiados enviados de acampamentos da ONU em zonas de guerra.

Espanha
Pedro Sánchez torna-se chefe do governo da Espanha em 2018. Diferentemente dos políticos conservadores citados até aqui, ele se propôs a receber o Aquarius e a processar seus pedidos de asilo. O gesto, tinha o objetivo de mobilizar outros países europeus, a fazerem o mesmo. De início, a chegada de imigrantes irregulares à Espanha triplicou em 2018. A justificativa oferecida pela Secretaria de Estado para a Segurança da Espanha seria uma mudança nos fluxos migratórios, uma vez que a pressão mudou desde o mediterrâneo mais oriental para a área ocidental.

No entanto, já em 2019, a chegada de imigrantes ilegais à costa espanhola diminuiu. De acordo com o ministro espanhol do Interior, Fernando Grande-Marlaska, em fevereiro de 2019, 936 imigrantes entraram no país, em comparação com os 4.104 do mês de janeiro, uma redução de 77%, de acordo com os números oficiais. O declínio também pode ser observado se analisarmos a diferença entre os anos de 2018 e 2019. Em fevereiro de 2018, o número de entradas havia sido 1.106.


Suécia
No final de 2015, a Suécia endureceu sua política de asilo, até então uma das mais generosas. Entre 2015 e 2017, esse país de menos de 10 milhões de habitantes, deu asilo a mais de 144.000 pessoas, principalmente da Síria.

Lá a imigração também é um dos temas centrais da campanha pelas legislativas de 9 de setembro. A extrema direita anti-imigração conta com 18% a 20% das intenções de voto.


Inglaterra
A Inglaterra também apertou o cerco contra os imigrantes. Um caso famoso, para os brasileiros foi a morte de Jean Charles de Menezes (1978-2005). O mineiro de 27 anos, que vivia ilegalmente em Londres, morreu em 22 de julho de 2005, com sete tiros na cabeça. Ele é o maior exemplo de que os imigrantes ilegais são, muitas vezes, vítimas de terríveis violências, principalmente depois dos atentados terroristas ocorridos em Londres e nos EUA, nos anos 2000.

Jean Charles foi vítima da política de “atirar para matar”, adotada pela Scotland Yard (que é o termo popularmente utilizado para designar a Polícia Metropolitana ou a polícia judiciária de Londres) após os atentados em Londres ocorridos em 7 de julho de 2005. O brasileiro foi confundido com um terrorista, perseguido no trajeto diário que realizava para ir trabalhar e friamente executado pela polícia britânica. Ele recebeu os disparos após ter sido dominado em um trem do metrô, na estação de Stockwell. Jean Charles estava deitado de bruços, no chão, quando foi assassinado.

A morte do brasileiro é resultado de políticas racistas e intolerantes que se intensificaram após os quatro atentados simultâneos no sistema de transporte público da capital britânica que mataram 52 pessoas. Em uma atitude irresponsável, o alarmado governo britânico passou da prisão sem causa e da deportação de estrangeiros indesejáveis (o que já era algo extremamente reprovável) para o assassinato puro e simples. Em 2009, a história acabou virando um longa-metragem, intitulado Jean Charles. O filme foi dirigido por Henrique Goldman e estrelado por Selton Mello no papel de Jean Charles.

A situação de brasileiros condenados pela fabricação de documentos falsos na Inglaterra é muito séria, mas o cerco está se apertando sobre todos os imigrantes ilegais nesse país. Segundo dados, deve chegar a 90% o volume de ilegais entre os brasileiros que trabalham na Inglaterra, especialmente no interior. A indicação é que esses imigrantes ilegais devem deixar de lado o mito de que é fácil ganhar dinheiro e viver na Inglaterra, e que quem estiver disposto deve fazê-lo legalmente. Com o Brexit (a saída da Inglaterra na UE), a tendência é que as políticas anti-imigração aumentem.


Imigração nos EUA
Os Estados Unidos são o país que mais recebe imigrantes pobres no mundo. O número de trabalhadores ilegais chega a quase 12 milhões de pessoas, o que representa cerca de 7% da força de trabalho no país. Para se ter uma ideia, segundo o chefe de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, sigla em inglês), Mark Morgan, cerca de 150 mil pessoas conseguiram atravessar a fronteira até outubro de 2019. No entanto, o número de imigrantes ilegais detidos na fronteira entre os EUA e o México aumentou 88% no ano fiscal de 2019 (de outubro de 2018 a setembro de 2019), se compararmos com o ano fiscal de 2018 (de outubro de 2017 a setembro de 2018). Apenas em setembro de 2019, foram 52 mil pessoas detidas, o que é reflexo, claro, da política de imigração da gestão Trump. Mas antes de discutirmos isso, façamos um breve histórico do tema nos EUA.

As leis anti-imigração dos EUA endureceram drasticamente depois do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 às torres gêmeas do World Trade Center. A lei promulgada logo após os atentados proibiu a entrada nos Estados Unidos de qualquer cidadão de países como Coreia do Norte, Cuba, Irã, Iraque, Líbia, Síria e Sudão, acusados pelos estadunidenses de apoiar o terrorismo. Em casos especiais, os interessados desses países em mudarem-se para os EUA podem ser considerados imigrantes legais desde que provem não fazer parte de organizações terroristas.

Agora, o repúdio aos imigrantes nos EUA possui outra causa, a saber: o preconceito oriundo das mudanças provocadas pela presença da força de trabalho estrangeira no país. Os cidadãos estadunidenses acusam os imigrantes ilegais de tirarem seus empregos, de serem responsáveis pela redução da média salarial local, pelo aumento do crime e da violência e, ainda, por se beneficiarem dos programas sociais oferecidos pelo EUA. Essa visão preconceituosa culminou na criação de uma lei, em 2006, também preconceituosa contra os imigrantes e causou inúmeras manifestações por parte dos latino-americanos que vivem no país e da própria sociedade civil estadunidense contrária à lei.

Desde que a lei foi aprovada pela Câmara, ocorreram várias manifestações – o maior protesto aconteceu em 25 de março, em Los Angeles, e reuniu quase 1 milhão de pessoas. Nesse meio tempo, o Senado dos EUA passou a debater uma nova lei para os ilegais. Dentre os projetos apresentados está um que também reforça a vigilância nas fronteiras e facilita a deportação de ilegais, mas evita os exageros existentes no antigo texto.

Com a vitória de Trump nas eleições de 2016, a rejeição aos imigrantes se intensificou. O governo Trump tentou repetidamente mudar as leis de imigração e os procedimentos para desacelerar a entrada de famílias, incluindo uma política que levou à separação de famílias. Um juiz federal em San Diego ordenou que a administração reunisse mais de 250 crianças separadas de seus tutores legais em 2018, processo que continua em andamento. O presidente Trump citou o aumento de entradas como evidência de uma emergência nacional na fronteira. Ele já afirmou repetidamente que leis de imigração atuais e o que ele descreve como decisões judiciais fraudulentas estimulam a imigração ilegal.

No entanto, o mundo todo virou o ano de 2018 com grande incerteza sobre o futuro dos imigrantes indocumentados nos Estados Unidos, o que acontecerá com a juventude de Daca, TPS, as milhares de pessoas da caravana da América Central que procuram asilo e o futuro de pedidos de alguns parentes ante as promessas de alguns legisladores para reduzir o ingresso de membros da família de cidadãos e residentes permanentes dos Estados Unidos (a chamada imigração em cadeia).


O muro de Trump
O muro fronteiriço Estados Unidos-México é uma série de muros e cercas ao longo da fronteira entre os dois países, com o objetivo de impedir cruzamentos ilegais entre os dois. A barreira não é uma estrutura contígua, mas um agrupamento de paredes físicas relativamente curtas, presas entre uma cerca virtual que inclui um sistema de sensores e câmeras monitoradas pela Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos. Em janeiro de 2009, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos relatou que tinha mais de 580 milhas (930 km) de barreiras no local. O comprimento total da fronteira continental é de 1.999 milhas (3.201 km).

Embora Donald Trump se prepare para outra batalha no Congresso pelo muro na fronteira, exigindo uma verba de US$ 8,6 bilhões no orçamento de 2020, o Senado dos Estados Unidos derrubou em março de 2019 o pedido de emergência do presidente para a liberação de verbas para construir o muro. A decisão da casa foi um duro golpe para Trump, já que membros do seu próprio partido, o Republicano, foram contra sua proposta. Após saber da derrota, o dirigente prometeu que irá impor seu poder de veto contra o resultado.


Casos históricos


Élian González
Élian González era apenas uma criança de cinco anos de idade quando sobreviveu a um naufrágio, em 22 de novembro de 1999, no Estreito da Flórida – uma pequena faixa de mar que separa a Flórida, nos EUA, de Cuba. O menino navegava da ilha para o continente norte-americano, com sua mãe e padrasto, em uma embarcação com outras 11 pessoas. O precário transporte naufragou próximo à costa estadunidense. Os únicos sobreviventes da tragédia foram Elián e um casal cubano. Resgatado e colocado sob a custódia de seus parentes em Miami (EUA), o garoto tornou-se o centro da discórdia entre o conservador anticastrista de Miami e o governo do cubano Fidel Castro, que apoiou o pedido do pai de Elián, Juan Miguel González, para que o garoto voltasse a viver em Cuba.

A definição do destino do menino envolveu a opinião pública e os tribunais dos EUA. Durante sete meses, o mundo acompanhou a disputa entre cubanos e estadunidenses para definir o destino do menino, que acabou regressando para seu país de origem. Cerca de 1.000 pessoas receberam Elián no aeroporto de Havana quando o menino voltou ao país de origem, em junho de 2000. Atualmente, Elián vive com o pai, a madrasta e um irmão em Cárdenas, Cuba. Em 2008, tornou-se membro remunerado do Partido Comunista e pretende seguir carreira no exército.


Caravana América Central
No final de 2018, imigrantes de países centro-americanos, retidos na fronteira que separa o México dos Estados Unidos, romperam a cerca de fronteira, esperando que a entrada ilegal resultasse em um pedido de refúgio. Em território americano, vários imigrantes correram para tentar escapar da captura, mas a maioria caminhou lentamente até os agentes da Patrulha de Fronteira e se entregou.

Desde meados de outubro de 2018, milhares de pessoas de países da América Central, a maioria de Honduras, atravessaram o México em uma caravana rumo ao norte mirando os Estados Unidos, alguns realizando a maior parte da longa jornada a pé. Frustrados e exaustos depois de semanas de incertezas, muitos dos imigrantes entraram em desespero ao se verem retidos em campos miseráveis na cidade mexicana fronteiriça de Tijuana. Alguns deles preferiram driblar os procedimentos legais e tentar uma entrada ilegal por Tijuana ao anoitecer e em outro local situado a cerca de 450 metros do Oceano Pacífico.


Imigração no brasil
O fenômeno da imigração também ocorre no Brasil. O número dos imigrantes em nosso país atingiu mais de 700 mil registros entre 2010 e 2018. Se considerados apenas fluxos recentes, a partir de 2010, os haitianos (101,9 mil) aparecem como primeira nacionalidade em termos de regularização no período. Os venezuelanos, a partir de 2017, ganharam destaque nos registros de movimentação no mercado de trabalho formal, tornando-se no primeiro semestre de 2018 a segunda nacionalidade com maior movimentação.

No mercado de trabalho formal brasileiro, o comportamento dos imigrantes sinalizava para uma recuperação econômica. O ano de 2017 registrou aumento da força de trabalho imigrante de 8,33%, totalizando 122.069 imigrantes empregados no mercado de trabalho formal. São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados com maior presença dessa mão de obra. As principais atividades econômicas de inserção dos migrantes foram no setor de produção de bens e serviços industriais (33%), no setor de serviços, vendedores do comércio em lojas e mercados (21%) e no setor das ciências e das artes (16%). Esses números tendem a mudar, obviamente, com a crise econômica gerada pela pandemia e ainda são incertas quais serão as consequências para o processo de imigração.

De qualquer forma, podemos destacar alguns pontos. Ao que parece o processo de imigração que ocorre no Brasil é extremamente exploratório. Tomemos, por exemplo, São Paulo. Lá, milhares de imigrantes ilegais da Bolívia e de outros países vizinhos vivem e trabalham em confecções de pequena escala. As condições em que essas pessoas vivem são muitas vezes análogas à escravidão. Os imigrantes bolivianos que vivem ilegalmente em São Paulo são, segundo a promotora federal que investiga as práticas de trabalho nas confecções da cidade, Vera Lúcia Carlos, vítimas também de outros imigrantes: os coreanos. Segundo ela, “os bolivianos estão na linha de frente, fazendo todo o trabalho sujo. Mas são os coreanos que comandam toda a operação”.

Um caso emblemático aconteceu em 2004, quando o Ministério Público do Trabalho prendeu em flagrante um casal de coreanos donos de uma confecção que empregava ilegalmente 11 estrangeiros bolivianos, paraguaios e peruanos, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Os funcionários, segundo o Ministério Público, eram submetidos a condições degradantes e a uma jornada exaustiva (das 7h às 21h30min).

O Brasil fez, em 2005, um acordo com a Bolívia para que os bolivianos que vivem em São Paulo pudessem legalizar sua situação no país, ou seja, obter o visto de permanência. Por outro lado, também em 2005, o Brasil enfrentou um impasse com o vizinho Paraguai, que anunciou que milhares de brasileiros sem documentos seriam expulsos do país em represália às restrições impostas pelo governo brasileiro à passagem de mercadorias compradas por seus cidadãos nas cidades da fronteira paraguaia. O Paraguai chegou a expulsar cerca de 100 brasileiros, em 2005, porém, em 2006, os dois países se comprometeram a manter aberta a Ponte da Amizade, que liga as cidades de Foz de Iguaçu e Ciudad del Este.


Decasséguis
Os brasileiros também migram de maneira bastante frequente. Um dos fluxos migratórios mais intensos no Brasil é o de brasileiros de origem japonesa que vão trabalhar no Japão: os chamados decasséguis. O deslocamento de brasileiros para o Japão começa a se intensificar nos anos 1990, com a modificação da lei japonesa de imigração, que concedeu o status de “residentes por longo período” para os nikkeis (descendentes de japoneses). A cifra foi crescendo até atingir o pico em 2007, quando chegamos a 313 mil. Com a crise mundial de 2008, aumentou o desemprego e com isso, o número de brasileiros foi caindo. Em 2015, por exemplo, o número de brasileiros morando no Japão era de 173 mil.

Originalmente, decasségui era um termo utilizado para rotular moradores das partes mais frias do Japão que buscavam temperaturas mais amenas e condições de vida mais agradáveis. Para tal, eles se mudavam, então, para Tóquio e depois voltavam às suas terras origens. A tradução livre da palavra japonesa pode ser algo como “sair para faturar”. Hoje ela é usada para rotular os brasileiros descendentes de japoneses que saíram do Brasil e se mudaram para o Japão em busca de melhores perspectivas de vida.

Segundo a escritora nipo-americana Karen Tei Yamashita, autora de Brazil-Maru, que em 1997 passou seis meses no Japão entrevistando decasséguis, “o governo e a sociedade do Japão achavam que seria melhor trazer pessoas que pareciam ou fossem japoneses para trabalhar como mão de obra. Achavam que ia dar certo ter descendente de japonês trabalhando. É uma coisa racista, simplesmente. O Japão quer conservar a homogeneidade que tem, ele quer continuar a ser japonês. Aí você traz um povo que culturalmente fala português e mal fala japonês, que parece japonês, mas não é japonês. Um povo criado como japonês, mas na maneira imigrante, não com valores do Japão atual”.


Imigração no Japão
De acordo com dados de 2018, os brasileiros são a quarta nacionalidade de imigrantes mais presentes no Japão. Naquele ano, houve um crescimento de 8,6%, (cerca de 130 mil), segundo dados divulgados pelo Ministério do Trabalho em março, com base nos registros de outubro de 2018. Aliás, o Japão, como 3ª economia do mundo, acaba atraindo muitos imigrantes que buscam melhores oportunidades.

De uma forma geral, em 2018, o número de trabalhadores estrangeiros atingiu um novo recorde de 1.460.463, aumento de 14,2%, tendo como principal motivo o envelhecimento da população japonesa e o consequente incentivo dado ao emprego de estagiários e estudantes de outros países para compensar a falta de mão de obra. Os residentes permanentes e os descendentes de japoneses aumentaram 8% de 2017 para 2018, somando então 495.668, enquanto os estudantes com licença de trabalho de meio período cresceram 15%, para 298.461, e os estagiários tiveram aumento de 19,7%, para 308.489.

Se analisarmos por nacionalidade, os trabalhadores chineses constituem o maior grupo, com 389.117 pessoas, um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior, seguido por vietnamitas, cujo número subiu 31.9%, para 316.840. Os filipinos aparecem em terceiro lugar, com 164.006 trabalhadores e aumento 11,7%, seguidos, como já foi dito, pelos brasileiros em quarto.

Tomando agora as regiões, as províncias com maior número de trabalhadores estrangeiros são Tóquio (438.775), Aichi (151.669) e Osaka (90.072). Os dados do governo consideram apenas estrangeiros em emprego legalizado. Autônomos, comerciantes, estudantes, donas de casa e desempregados não fazem parte dos números. Atrás de um mercado de trabalho crescente em meio à recuperação econômica do Japão, muitos estagiários e estudantes estrangeiros estão envolvidos em mão de obra não qualificada com baixos salários para preencher a falta de trabalhadores.


O papel das máfias
O incremento da imigração, em boa parte dos países, deu lugar à proliferação das máfias que se dedicam ao tráfico de pessoas e que operam nos países de origem e no território para o qual os ilegais pretendem dirigir-se. As redes de tráfico de pessoas, que invariavelmente têm ligações com o tráfico de drogas e com a prostituição, operam clandestinamente através das fronteiras, prometendo aos refugiados documentação e trabalho. O tráfico de seres humanos provoca tragédias como os das pequenas embarcações que partem, por exemplo, do norte do Marrocos rumo à costa espanhola (Andaluzia ou Ilhas Canárias). A viagem nessas precárias embarcações culmina, muitas vezes, em naufrágios ou, na melhor das hipóteses, na captura dos imigrantes ilegais por parte da Guarda Civil dos países de destino.

A rota de imigração ilegal de africanos para a Europa que tem como destino as Ilhas Canárias já foi utilizada, somente em 2006, por mais de 4 mil africanos. Muitos deles morreram em naufrágios. No México, os coiotes – guias para os clandestinos que entram nos EUA pela fronteira mexicana – cometem várias contravenções ou crimes, entre os quais abandonar seus “clientes” à própria sorte no meio do deserto.

Na China, os “cabeças de cobra”, envolvidos no tráfico humano, cometem terríveis maus-tratos contra os imigrantes ilegais que partem da China para os Estados Unidos. É comum que os ilegais sejam espancados e deixados sem comida ou água em porões de navios que atravessam o Pacífico. Em janeiro de 2000, corpos de 22 chineses foram encontrados algemados no porão de um navio no porto de São Francisco, na Califórnia. Eles haviam sido espancados e deixados ali para morrer.

Na Itália, garotas do Leste Europeu são levadas ao país com promessas de emprego, mas acabam em redes de prostituição ligadas à máfia albanesa. Milhares de mulheres de países como Bulgária, Albânia, Romênia e República Tcheca são obrigadas a vender o próprio corpo para organizações criminosas com agentes em lugares que vão da Moldávia a Montenegro, da Hungria a Praga e Berlim.

Os criminosos europeus iludem mulheres se aproveitando do desejo que muitos cidadãos do Leste Europeu têm de fugir das precárias condições dos países da região em direção à Europa Ocidental. É um mercado que envolve, anualmente, cerca de 80 mil pessoas e leva às mãos da máfia albanesa 50 milhões de dólares por ano, utilizados para a compra de armas, drogas e novas meninas.


Imigração e economia
Políticos conservadores tentam relacionar a imigração ao aumento do desemprego e crises econômicas. No entanto, no que diz respeito à economia, as pesquisas não corroboram tais teses. Um estudo desenvolvido pela Escola de Economia de Paris analisou dados de fluxos migratórios na Europa em um período de 30 anos. O que eles constataram foi que há um grande crescimento da economia com a chegada de migrantes e refugiados, no entanto, tais benefícios demandam tempo para serem observados.

Para isso, foram analisados os seguintes indicativos: mudanças no Produto Interno Bruto (PIB) per capita, na taxa de desemprego, nos gastos públicos e nos impostos arrecadados. O que a pesquisa mostrou foi que o PIB e a própria sustentabilidade da economia melhoram, quando há um pico de migração. Curiosamente, há também uma diminuição na taxa de desemprego.

A explicação para isso está relacionada ao aquecimento do mercado fruto da prestação de serviços, da ocupação de vagas de empregos e o pagamento de impostos por parte dos imigrantes. Ainda segundo a pesquisa, os benefícios econômicos superam quaisquer custos operacionais do governo ligados ao processo de imigração. A razão disso é a de que, normalmente, os imigrantes são jovens e adultos, e necessitam menos de benefícios estatais.

A pesquisa desenvolvida pela consultoria McKinsey vai na mesma direção. Segundo a consultoria, mundialmente, os imigrantes correspondem a 3,4% da população, mas contribuem desproporcionalmente mais à economia, produzindo quase 10% de toda a riqueza mundial (PIB) (dados de 2015). Imigrantes contribuem com US$ 6,7 trilhões à economia global, cerca de US$ 3 trilhões a mais do que teriam gerado se tivessem permanecido em seus países de origem. Em países como a Suíça, onde há políticas de integração, os imigrantes pagam mais impostos do que recebem de benefícios. Nesse caso o aumento líquido da arrecadação chega a até 2% do PIB, apontam dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).


Intolerância
A grande quantidade de imigrantes no mundo atual e sua cada vez maior participação nas sociedades dos países desenvolvidos teve como resposta a xenofobia por parte de muitos políticos conservadores europeus e estadunidenses. As leis de imigração mais duras caminham, muitas vezes, lado a lado com partidos de extrema-direita, os quais, por sua vez, têm conseguido votações expressivas em muitos países europeus. O nacionalismo utilizado pelos intolerantes é uma espécie de pensamento bipolar, recheado de clichês ufanistas e estereótipos baseados em ideias paranoicas de “nós e eles”, esquecendo-se de que os países são compostos por indivíduos das mais diferentes origens e que esses se dividem em classes sociais, não em categorias étnicas ou de cor.

As sociedades dos dias de hoje são palcos onde convivem diversas culturas. Pensar o mundo atual é pensar a convivência entre a diversidade multicultural, é saber aceitar e compreender as diferenças de cor, gênero, orientação sexual, condição social, entre outras. A história nos lembra de que a intolerância racial foi responsável pelas maiores catástrofes do século XX – uma das expressões mais detestáveis da intolerância causada pelos nacionalismos paranoicos foi o extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Jean-Paul Sartre escreveu em seu livro A questão judaica que o pensamento “antissemita constrói o judeu, dotando um homem sem nenhum atributo especial com inúmeras especificidades negativas, que vão desde a forma do nariz até a paixão imoderada pelo entesouramento. Do mesmo modo o racista de Alabama constrói o negro, atribuindo-lhe características diferenciadoras mais ou menos imaginárias”.

Segundo o ensaísta Sérgio Paulo Rouanet, “muito sumariamente, a intolerância pode ser definida como uma atitude de ódio sistemático e de agressividade irracional com relação a indivíduos e grupos específicos, à sua maneira de ser, ao seu estilo de vida e às suas crenças e convicções”.

Os nacionalismos não veem os imigrantes pobres como vítimas, mas como vilões. Isso nega o fato óbvio de que o mundo de hoje é divido injustamente entre países pobres e países ricos, e que buscar uma vida melhor em um lugar que ofereça melhores condições de vida não é um crime, mas um direito. O Estado democrático, portanto, deve ter como uma de suas principais funções políticas de proteção e de estímulo à tolerância das diferenças entre os diversos grupos sociais.


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