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El Greco, o profeta místico da arte moderna
 
 
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 RENASCE UM MÍSTICO DA ARTE
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El Greco, auto-retrato do pintor realizado em 1604 (Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque).

O
decoro e a claridade narrativa eram aspectos essenciais no movimento artístico da Contrarreforma − com esse nome designou-se a reorganização e verdadeira reforma de que foi objeto a Igreja Católica em meados do século XVI para impedir os progressos do protestantismo. O valor da devoção e o estímulo à oração tornaram-se as causas e as justificações principais da imagem católica tanto nos escultores quanto nos pintores daquele tempo. A Contrarreforma, surgida no seio da própria Igreja Católica, foi realizada por quatro papas − Paulo III, Paulo IV, Pio V e Sisto V −, mas os principais empreendedores foram os monarcas espanhóis Carlos V e Felipe II. Sobre seus ombros, a Espanha do século XVI, profundamente católica, jogou a titânica empresa de impedir os avanços das doutrinas protestantes.

O Concílio de Trento, um dos acontecimentos mais importantes e mais longos da história do catolicismo (o concílio durou 18 anos: 1545−1563), se reuniu por insistência de Carlos V, e nele se destacaram principalmente os teólogos espanhóis. Naquele concílio estabeleceram-se o dogma e a disciplina eclesiástica, condenou-se o protestantismo, reformou-se a liturgia e promoveu-se a edição do primeiro catecismo católico.

A aparição de uma figura de sucesso popular como Domenikos Theotokopoulus, conhecido como El Greco, no centro da Contrarreforma na Espanha foi decerto surpreendente. Nascido na ilha de Creta em 1541 e morto em Toledo em 1614, soube pintar como ninguém o estado melancólico e ascético dos espíritos de sua época: um insuperável pintor de almas. Foi, sem dúvida, o artista de melhor qualidade entre os que trabalharam na península ibérica no século XVI, e sua obra se prolongou no século seguinte, já em plena reação naturalista. El Greco, porém, não foi um personagem muito conhecido na Espanha renascentista, que privilegiava o artista intelectual a par das correntes especificamente artísticas que apaixonavam os italianos. Sua passagem por Veneza, junto com a recusa à opção de desenho preconizada por Roma na figura de Michelangelo, fizeram dele um arrebatado partidário de uma pintura baseada na cor, assim como de alguns sistemas de composição e concepção da figura decididamente maneiristas.

Apesar do caráter intelectual de sua obra, no entanto, El Greco produziu obras de temática fundamentalmente religiosa e muito de acordo com o período da Contrarreforma, em que se desenvolveu sua produção. Cenas religiosas, séries de santos e apóstolos, temas patéticos: uma introdução ao mundo das emoções, de uma religiosidade intensa, muito em contato com a literatura espiritual do momento em que se propunham atitudes, formas e lugares de oração similares aos que aparecem em muitas de suas pinturas.

A primeira etapa de El Greco em sua ilha natal de Creta, na época possessão da República de Veneza, iniciou-se com a pintura de um ícone intitulado “A dormição da Virgem”. Procedente de uma família abastada, recebeu ampla formação humanística durante sua juventude. Formou-se artisticamente no ateliê do pintor de ícones Gripiotis, e com ele seguiu os dois caminhos estilísticos da pintura cretense da segunda metade do século XVI: a tradicional (à moda grega), segundo os modelos bizantinos, e a moderna (à moda latina), inspirada nos modelos próprios do Renascimento italiano.

Sua aventura em Veneza e Roma, que durou de 1567 a 1576, teve, no entanto, uma excepcional importância no desenvolvimento de sua arte. Naquela Itália dominada pelas polêmicas que suscitavam as obras de Michelangelo e Ticiano, o jovem Domenikos Theotokopoulus começou a transformar-se em artista do Renascimento. Ainda que primeiro se visse tocado pela magia do “Juízo final” de Michelangelo, não tardou a se deixar seduzir pelo uso da cor de Ticiano e Tintoretto, dois grandes mestres da escola veneziana. Em Roma, trabalhou no entorno familiar dos Farnesios, e para o bibliotecário da família, Fulvio Orsini, realizou obras tão peculiares como “O sopro”. Em 1577, Domenikos Theotokopoulus viajou à Espanha, atraído sobretudo tanto pelos possíveis encargos eclesiásticos da sede do primado quanto pelos de Felipe II, que andava envolvido com os projetos de decoração do Real Mosteiro do Escorial, com o qual o rei espanhol queria prestar homenagem e comemorar a vitória espanhola sobre o exército francês na batalha de San Quintín. Após breve estada em Madri, El Greco fixou residência em Toledo. Em julho de 1577, o cabido da catedral toledana encarregou-o da pintura de “O espólio”, destinado à sacristia. El Greco já havia estado antes na cidade para fazer as pinturas da igreja de Santo Domingo el Antiguo, sua primeira encomenda, que conseguiu graças à mediação de Luís de Castela.

Em 1580, Felipe II encomendou ao pintor cretense a decoração de um dos altares da basílica do Real Mosteiro do Escorial: uma obra conhecida como “O martírio de São Maurício” que nunca foi instalada no lugar previsto. Com “O sonho de Felipe II”, uma obra alegórica da Santa Liga vencedora da batalha de Lepanto, ocorreu algo parecido: o monarca não gostou dela, por considerá-la pouco exemplar. O ambiente espanhol de fins do século XVI não parecia ser o mais propício para um artista tão consciente de sua individualidade como El Greco. O meio em que lhe coube viver estava dominado pela ideia contrarreformista do decoro, assim como por uma funcionalidade devota estimuladora da piedade que se exigia à imagem religiosa.

Apesar das dificuldades iniciais, em Toledo, o artista pôde desenvolver uma produção majoritariamente religiosa e de retratos, amparado pelos círculos intelectuais em meio a um ambiente aparentemente difícil como o dos conventos, das igrejas e dos colecionadores toledanos. Ali montou seu ateliê, dedicado à elaboração de quadros, esculturas e desenhos de retábulos, onde trabalhavam, entre outros, seu filho Jorge Manuel e o pintor Luis Tristán. A conexão de El Greco com o ambiente religioso espanhol esteve na base da realização de sua obra mais famosa, “O enterro do conde de Orgaz”, pintada entre 1586 e 1588. Foi contemplada como uma exaltação contrarreformista das boas obras: uma galeria de retratos de personagens contemporâneos e uma imagem das relações entre nosso mundo e o além-túmulo.

A obra da maturidade de El Greco pareceu guiada por um afã de inovação que não o impediu de retomar elementos pós-bizantinos e quatrocentistas. Em alguns de seus quadros, chegou a mostrar um duplo plano terreno, naturalista e celestial, quase abstrato. Foi um pintor capaz de aprender outra linguagem e transformá-la. Depois de morto, pareceu que sua obra artística também ficaria sepultada para sempre. Foi preciso chegar o modernismo para que suas imagens voltassem a significar alguma coisa no mundo da arte. Voltou a ser descoberto no século XIX, e o século XX o consagrou. Neste início do século XXI, mantém-se a exaltação a sua obra. Para tentar apagar o longo período de esquecimento, os museus mais importantes do mundo estão sempre organizando exposições em homenagem a ele.

Em 1982, houve uma inovadora exposição sobre El Greco que pôde ser vista no Museu do Prado de Madri, no Museu de Arte de Toledo, na National Gallery de Washington e no Museu de Arte de Dallas. A mostra pictórica centrou-se na influência que tiveram sobre o pintor a mudança de país e a época em que viveu. Em 1996, o Museu Nacional de Arte da Catalunha (MNAC), em Barcelona, comemorou com uma exposição, intitulada El Greco e sua revalorização pelo modernismo catalão, o centenário da reivindicação da figura do pintor cretense-toledano por Santiago Rusiñol e outros artistas catalães. Pela primeira vez desde sua restauração, apresentou-se ao público “Homem com a mão no peito”, junto com outras 23 telas de El Greco. Também não faltaram quadros e desenhos de Rusiñol, Picasso, Miró, Ramón Pichot e Zuloaga.

Em fins do século XX, o Museu Thyssen-Bornemisza de Madri apresentou a mais importante exposição jamais realizada em torno da obra de El Greco. Uma mostra com o título “El Greco, identidade e transformação”, que de 4 de fevereiro a 16 de maio de 1999 tentou pôr em evidência a extraordinária amplitude e heterogeneidade dos componentes culturais que configuraram seu estilo. O conjunto reuniu um total de 78 obras, 70 delas do próprio autor. Incluíram-se 25 obras inéditas na Espanha, entre as quais se destacou “A dormição da Virgem”, a primeira obra assinada por Domenikos Theotokopoulus, que só ficou exposta durante dez dias. Essa pintura de El Greco, venerada na igreja de Ermoupolis na ilha grega de Syros, foi descoberta como tal em 1982, quando durante sua restauração se descobriu a assinatura do artista cretense.

El Greco exibiu-se para o século XXI com uma grande exposição no Metropolitan Museum de Nova York. A mostra, aberta ao público de 7 de abril de 2003 a 11 de janeiro de 2004, foi organizada pelo museu e pela National Gallery de Londres. Nela se oferecia um amplo passeio pela obra do autor, e os visitantes puderam desfrutar desde suas primeiras pinturas em Creta − inclusive “A dormição da Virgem” e “São Lucas pintando a Virgem” − até as figuras desproporcionais e fantasmagóricas de suas últimas obras, como “A adoração dos pastores”, pintado em 1614 para adornar sua tumba na igreja de Santo Domingo el Antíguo. Na introdução do catálogo da exposição de El Greco, o diretor do Metropolitan Museum, Philippe de Montebello, escreveu: “Como Vermeer, Piero della Francesca e Boticelli, [El Greco] foi resgatado da obscuridade por um grupo de ávidos colecionadores e críticos do século XIX para transformar-se num dos membros seletos do panteão dos grandes pintores”.

No Brasil, o acervo do Masp (Museu de Arte de São Paulo) possui a obra “A Anunciação”, do ano de 1600, feita por El Greco.


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