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AIDS, a importância da prevenção
 
 
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 O VÍRUS DO SÉCULO XXI
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A transmissão do HIV entre homossexuais aumentou o preconceito, mas o vírus da AIDS não escolhe gênero ou orientação sexual

O vírus da imunodeficiência humana (HIV) assola o mundo desde 1981. Esse retrovírus é o responsável pela AIDS, doença de longa evolução e elevada mortalidade que afeta o sistema imunológico. Trata-se de uma epidemia estável, até mesmo por ser conhecida há mais de três décadas, e com formas de prevenção amplamente divulgadas.

Em 2011, quando a descoberta do HIV completou 30 anos, o número de infectados era estimado em 33,3 milhões de pessoas. Em 2017, o relatório da Unaids, programa das Nações Unidas responsável pelo incentivo a políticas de prevenção e combate à doença, informava que o número de infectados havia alcançado a cifra de 36,9 milhões de pessoas. Sendo que 54% delas vivem na África subsaariana. Pior do que isso, dos mais de 36 milhões com o vírus presente em seus organismos, 9 milhões não sabem ainda que estão infectados. Já entre os 27 milhões restantes, 90% recebem algum tipo de tratamento.

Apesar do grande número de pessoas infectadas, o relatório da Unaids com dados compilados até o final de 2017, indica uma queda global de 41% no número de infecções, desde o pico de 1996, sendo que desde 2010 houve uma queda de 35% de novas infecções em crianças e 16% em adultos. Outro dado alentador é o da redução no número de mortes em decorrência da doença: entre 2004 e 2017, ainda de acordo com o relatório da Unaids, esse número diminuiu 51%. Ainda segundo o relatório em 2017, 940.000 pessoas morreram por doenças relacionadas à AIDS em todo o mundo, em comparação com 1,9 milhão em 2004 e 1,4 milhão em 2010. Desde o início da epidemia, a AIDS já matou mais de 40 milhões de pessoas das 78 milhões infectadas pelo vírus da doença. Apesar disso, a Unaids trabalha com a hipótese de estancar a epidemia até 2030 caso uma série de medidas sejam tomadas, entre as quais, a redução em 90% de novas infecções e do número de mortes causadas por condições associadas à AIDS como tuberculose, além do fim da discriminação aos doentes ou grupos comumente associados à epidemia.

No Brasil, o relatório revela ainda que, desde 2005, o número de novos casos de HIV no país variou pouco, entre 46 e 48 mil. Para uma nação com 830 mil pessoas que já vivem com o vírus, a estabilidade não é algo bom. até junho de 2012 a contagem era de 656.701 casos, desde 1980, ano do primeiro caso no Brasil, na cidade de São Paulo (essa infecção só foi confirmada como sendo um caso de AIDS, porém, em 1982). O Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2018, divulgado pelo Ministério da Saúde no dia 27/11/2018, revelou uma queda de quase 16% no número de novos casos de HIV nos últimos cinco anos. Em 2012, foram registrados 21,7 casos por 100 mil habitantes, ante 4,8 em 2017. A mortalidade também caiu: em 2012, houve 5,7 mortes relacionadas à aids por 100 mil habitantes, enquanto em 2017 foram registradas 4,8 mortes por 100 mil habitantes. No mesmo ano, se comparado a uma década atrás, a taxa de incidência no Sudeste do Brasil caiu de 22,9 para 21,0 casos por 100 mil habitantes. No Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Norte houve, no entanto, crescimento no número de casos por 100 mil habitantes: respectivamente, 27,1 para 30,9; 14,3 para 17,5; 7,5 para 13,9 e 9,1 para 20,8. É inegável, portanto, que o problema ainda é extremamente grave, no Brasil e no restante do mundo.

Todas as infecções pelo HIV, tanto em mulheres como em homens, demandam igual atenção. Nas primeiras, pelo aumento dramático no percentual de mulheres adultas infectadas pelo HIV em todo o mundo, entre o fim do século passado e o início deste. Todas as semanas, cerca de 7.000 mulheres jovens entre 15 e 24 anos são infectadas pelo HIV Em 1997, 41% dos adultos infectados pelo HIV eram mulheres. Apenas quatro anos depois, essa taxa aumentou para 49,8% e, em 2003, alcançou a marca dos 50%. O padrão de crescimento das taxas de infecção é surpreendente entre mulheres jovens da região subsaariana, na África, onde atualmente, três a cada quatro novas infecções são entre meninas com idade entre 15 e 19 anos. Neste local, mulheres jovens entre 15 e 24 anos têm o dobro de probabilidade de estarem vivendo com HIV do que homens. De acordo com estatísticas da Unaids, as mulheres representam atualmente 45% da população global infectada.

OMS: 37 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo. Unaids/divulgação



O RISCO DE CONTAMINAÇÃO
A falta de recursos pode explicar o avanço da AIDS nos países mais pobres, mas o aumento do número de doentes nos países ricos está mais relacionado à falta de informação. Quando a população associa o HIV/AIDS a grupos tidos como excluídos, mantém a ilusão de que não está exposta ao risco de infectar-se. Em consequência disso, é possível que não abandone comportamentos de risco (como as relações sexuais sem segurança). Já em relatório de 2005 da Unaids ficava claro que investimentos ajudam a reduzir a epidemia.

No Brasil, a queda no número de novos casos e de mortalidade está relacionada ao aumento no número de pessoas testadas, à melhoria dos processos de diagnose e de descoberta do vírus, que por sua vez, permitem o início do tratamento dos portadores do HIV. Apesar disso ainda existe muito a se fazer ainda, tendo em vista uma “banalização” da doença que ocorreu nos últimos anos. Como o HIV hoje é tratável, muitas pessoas não se preocupam mais com a doença não levando mais tão a sério questões relacionadas ao sexo seguro.  Apesar dos números de infecções terem caído de 43 mil pessoas em 2013 para 37 mil novos casos em 2017, a prevalência do HIV na população geral do Brasil, de acordo com o ministério da saúde é de 0,4%. Entretanto, quando restringimos essa população para homens que tem relações sexuais constantes com outros homens esse número sobe para quase 18% da população. Nos homens, o número de casos cresceu entre jovens de até 29 anos, mas caiu na população de 30 a 59 anos. Nas mulheres, a Aids cresce entre aquelas que têm 15 e 19 anos de idade, mas apresenta queda entre 20 e 59 anos, para voltar a crescer entre as com mais de 60 anos.


A AIDS NA INFÂNCIA
Dos 36,9 milhões de doentes de AIDS no mundo, 1,8 milhões são menores de quinze anos. Segundo relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Unaids, após atingir o pico de 550 mil novas infeções, em 2001, o número de crianças infectadas com o vírus HIV tem, desde então, caído, chegando, em 2017, a 180.000 novos casos de AIDS em crianças no mundo todo.

No Brasil O número de casos de HIV aumentou ligeiramente entre crianças menores de 5 anos, após uma tendência de queda nos últimos dez anos. Em 2015, de cada 100 mil crianças, 2,3 nasciam com HIV. Em 2016, o número aumentou um pouco e passou para 2,4. Entre 2006 e 2016, entretanto, foi registrada queda de 34,5%.

A taxa geral de mortalidade apresentou uma ligeira queda esse ano: de 5,3% em 2015, para 5,2% em 2016.

Os primeiros casos de AIDS em crianças foram revelados em 1982, nos Estados Unidos. Até o começo do século 21, o número de menores infectados pelo HIV apresentava aumento constante. A forma mais habitual de contágio do vírus nas crianças é a chamada “transmissão vertical”, isto é, a transmissão de mãe para filho durante o período da gestação ou do parto.

A transmissão vertical pode produzir-se em três níveis. Na transmissão pré-natal, o HIV atravessa a placenta e infecta o feto. Na transmissão perinatal, o recém-nascido se infecta no final da gestação ou durante o parto. Embora não esteja totalmente demonstrado, o Ministério da Saúde recomenda o parto por meio de cesariana para reduzir o risco desse segundo tipo de contágio. Além disso, as autoridades brasileiras da saúde recomendam o uso de remédios antirretrovirais combinados na grávida e no recém-nascido e a não amamentação do bebê, que deve ser alimentado com a chamada fórmula infantil, ou seja, leite em pó. O último tipo de transmissão é a pós-natal, na qual a criança se infecta com o HIV por meio do leite materno. Nos países em desenvolvimento, a OMS aconselha que se mantenha a lactância materna, já que é maior o risco de morrer por falta de amamentação que o de adquirir a infecção.

No Brasil, a política de prevenção contra a transmissão vertical tem dado resultado. Sobre o HIV em gestantes, houve um aumento de 26,6% na taxa de detecção entre 2010 e 2015; já em relação à AIDS em menores de cinco anos, houve uma redução de 43,2% na taxa de detecção no período de 2005 a 2015, com as maiores proporções em Roraima, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte.


SILÊNCIO E DISCRIMINAÇÃO
Em 2003, a OMS e a Unaids assinalavam que a nova etapa da luta contra o HIV/AIDS insistiria em pôr fim à discriminação de pessoas infectadas. Não se tratava apenas de respeitar os acordos internacionais dos direitos humanos, mas de encará-la como uma ação concreta contra a doença. “O estigma e a discriminação solapam a prevenção ao fazer com que as pessoas tenham medo de descobrir se estão infectadas ou não, e lhes tiram o estímulo para adotar medidas de prevenção: por exemplo, insistir na utilização de um preservativo numa relação sexual, o que poderia interpretar-se como um reconhecimento de que estão infectadas”, dizia o relatório daquele ano.

Mas se o estigma social opera sobre a população em geral, é ainda maior entre as pessoas infectadas. “O medo da discriminação impede que as pessoas solicitem tratamento para a AIDS. É possível também que sejam dissuadidas de utilizar os serviços de assessoramento e exames voluntários, elemento essencial nos programas de prevenção, tratamento e cuidado. Assim, portanto, as pessoas que vivem com o HIV podem ficar isoladas, sem a atenção e o apoio que poderiam reduzir o impacto da epidemia”, diagnosticava a Unaids.

A discriminação contribui para uma maior marginalização das pessoas doentes, elevando assim o nível de vulnerabilidade. Isso leva a que, na maior parte da sociedade se culpem ou, até mesmo, se castiguem determinadas pessoas ou grupos (dependentes de drogas, profissionais do sexo, homossexuais, transexuais etc.), o que contribui, na verdade, apenas para encobrir o fato de que todo membro da sociedade está exposto ao perigo da infecção. Um outro problema é a ignorância. Um relatório de 2005 apresentava dados inquietantes nesse sentido. No Paquistão, por exemplo, 20% dos profissionais do sexo eram incapazes de reconhecer um preservativo e um terço deles jamais havia ouvido falar em AIDS.

O Brasil, no entanto, é vanguarda mundial no tratamento dos portadores de HIV e considerado o país com um dos melhores programas na redução de danos causados pela doença. Já em 1986, foi criado o Programa Nacional de DST e Aids por iniciativa do então ministro da Saúde, Roberto Santos. Dois anos após a criação do programa, o governo brasileiro iniciou a distribuição gratuita de medicamentos para o tratamento da doença, tornando-se referência internacional para o tratamento da epidemia.


O GRANDE ENCONTRO DE 2011
No ano de 2011, quando a existência da AIDS completou 30 anos, sob os auspícios da ONU, mais de 3 mil pessoas reuniram-se na sede da entidade, em Nova Iorque, para fazer um balanço dos progressos que a epidemia representava até então e propor ações de combate para o futuro da doença. Representantes da sociedade civil, de governos e cientistas debateram entre os dias 8 e 10 de junho medidas que pudessem reduzir os impactos causados pela doença e, ao final do encontro, os países-membros da ONU divulgaram um documento intitulado “Declaração Política a respeito da AIDS”, no qual forneciam um roteiro de metas a serem cumpridas nos próximos anos.

Algumas delas bastante ousadas. Os declarantes estabeleceram que até 2015 deveriam ser obtidos os seguintes resultados no combate à AIDS: fornecer tratamento retroviral a pelo menos 15 milhões de pessoas, eliminar novas infecções em crianças, reduzir a infecção entre adultos pela metade e a morte por tuberculose, uma das principais causas de morte entre doentes de AIDS, também pela metade.

No dia 30 de abril de 2012, pouco menos de um ano após a reunião em Nova Iorque, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, divulgou o primeiro relatório sobre o encontro de junho de 2011, em que exortava a comunidade internacional a assumir os compromissos que havia estabelecido, no ano anterior para erradicar a doença. “Peço que mudem a percepção de que a ajuda é uma caridade para um entendimento de que é nossa responsabilidade compartilhada e um investimento inteligente que colhe dividendos para todos. Juntos, devemos promover uma resposta mais sustentável para a epidemia do HIV em prol do nosso futuro comum”.


UMA LUTA MUNDIAL
No dia 1º de dezembro comemora-se o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS. O objetivo dessa data internacional é estabelecer o entrelaçamento de comunicação, promover troca de informações e experiências e criar um espírito de tolerância social. O Dia Mundial da Luta Contra a AIDS é, na verdade, uma ocasião para lembrar a opinião pública da importância dos cuidados e do combate à doença e também uma oportunidade para buscar melhorar as condições de vida, reforçar a solidariedade, a tolerância, a compaixão e a compreensão em relação às pessoas infectadas pelo HIV.

A data foi estabelecida em 1987, quando a Organização Mundial da Saúde, com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), decidiu transformar o dia 1º de dezembro em Dia Mundial da Luta Contra a AIDS. A escolha dessa data seguiu critérios próprios das Nações Unidas.


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