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Bullying na escola por Içami Tiba
 
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  O QUE É BULLYING? Imprimir  Enviar  Guardar
 
  Bullying, termo de origem inglesa, descreve atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos. Foto: AFP Photo

Bullying, termo de origem inglesa, descreve atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um bully (“intimidador”, “ameaçador”) ou grupo de indivíduos (bullies) com o objetivo de intimidar ou agredir um ou vários indivíduos incapazes de se defender (vítima).

O bullying acontece em praticamente toda a sociedade. Na família pode haver bullying entre irmãos, geralmente do mais velho para o mais novo. A violência piora se a vítima ameaçar contar aos pais. No mundo corporativo, o assédio moral e sexual; entre os pais, a alienação parental para atingir o ausente; entre os militares, contra os seus pares ou hierarquicamente inferiores; entre povos, o preconceito racial; entre homens e mulheres, o machismo/feminismo etc.


QUEM É O BULLY?
O bully geralmente é uma pessoa fisicamente maior, mais forte e/ou mais ágil que a vítima e apresenta as seguintes possíveis características: 1. covarde (não abusa de pessoas que reagem ou sejam mais fortes); 2. dissimulado (perante outras pessoas nada manifesta, finge que nada faz e nada sabe); 3. mentiroso (quando inquirida nega o que faz); 4. sádico (sente prazer com sofrimento que provoca na sua vítima); 5. cruel e sem ética (frieza psicopática que não se coloca no lugar de sua vítima); 6. egoísta e narcisista (sente-se cada vez mais forte e irresistível); 7. delinquente (transgride regras sociais e escolares); 8. preconceituoso (vê e trata sua vítima como inferior); 9. abusa do escárnio e da ridicularização para se fortalecer; 10. masculino em maior quantidade; 11. quando feminino, pode ser tão ou mais feroz que o masculino; 12. príncipe (princesa) tirano em casa; 13. agressivo na escola, dando socos, pontapés e mordidas em seus coleguinhas da escola, parquinho, priminhos etc.; 14. foi ou é vítima de outro bully dentro ou fora de casa; 15. com tendência a piorar à medida que tem mais poderes em mãos; 16. atingirá os próprios pais direta ou indiretamente; 17. a quem a impunidade e benevolência (ou pena) alheias só o fortalecem.

QUEM É A VÍTIMA?
São pessoas que não conseguem se defender e apresentam as seguintes possíveis características psicológicas: 1. indefesa, tímida e insegura (“tontinha”); 2. baixa autoestima com forte visão negativa de si mesma; 3. sensível, magoável e melindrável (“florzinha”); 4. imatura, medrosa e chorosa (“chorona”); 5. solitária fora de casa; 7. abusada de alguma maneira dentro de casa; acrescidas ou não de características físicas como: 8. corpo delicado e frágil (“frangote”); 9. usa óculos (“ceguinho”); 10. obesa (“baleia”, “balofo”); 11. magra (“caveira”); 12. cor da pele (“tição”, “branquelo”); 13. dificuldades psicomotoras (“trapalhão”); 14. problemas de fala (“gaguinho”) e/ou timbre da voz (“taquara rachada”) com sotaque regional (“caipira”); 15. de audição (“surdinho”); 16. estatura baixa (“tampinha”) e alta (“poste”); 17. peso (“baleia”); 18. de pescoço comprido (“girafa”) e curto (“sem pescoço”); 19. orelha aberta (“dumbo”); de nariz grande (“narigudo”).

Também há características sociais como: 20. isolamento, poucos colegas na classe e na escola, poucos amigos fora da escola; 21. tímida mesmo nos relacionamentos mais íntimos, o que piora com desconhecidos e/ou autoridades; 22. mais caseira que participante em atividades da escola (“bicho do mato”); 23. superproteção familiar (“queridinho da mamãe”).

Essas listas são infindáveis, pois qualquer pessoa sempre tem algo em si que não a deixa satisfeita. Geralmente o bully começa a agredir por uma dessas características. Essas diferenças sempre fizeram parte da diversão dos outros. Quando junta um sádico com uma sofredora que não reage surge o bullying.


QUAIS OS TIPOS DE BULLYING?
bullying pode ser verbal, físico (corporal), psicológico, social, sexual etc. A ação do bullying mais frequente é a verbal, por não deixar rastros nem pistas para se identificar o bully, como: ofensas, insultos, ameaças, chantagens, botar apelidos, fazer insinuações abusivas (sexuais, lascivas, pornográficas) comentários indecentes e humilhantes diretos à vítima sem ninguém por perto para testemunhar e até espalhar boatos e fofocas.

A ousadia do bully cresce e pode agredir a vítima na frente de alguns colegas mais íntimos que o reforçam ativamente ou passivamente ao não reagirem perante tais abusos. Quando nada lhe acontece, o bully sente-se autorizado às violências corporais como empurrões, tapinhas, tapas, socos, puxões de cabelo, passar o pé para ela cair, obrigar a vítima a fazer algo que a constranja e humilhe.

O bullying pode rapidamente chegar a transgressões e contravenções sociais com a presença das ridicularizações, desmoralizações e humilhações, os roubos, o estragar/sumir/esconder pertences e material escolar da vítima, sob a conivência de outros colegas. A internet, com todos os seus recursos, é bastante usada com torpedos, MSN, sites de relacionamento como Orkut, Facebook, blogs, fotologs, Twitter, Youtube etc. para veicular todos os tipos de bullying aceitos pelas telinhas: fofocas, notícias falsas, comentários sarcásticos, fotomontagens e invenções que expõem a vítima a pessoas que ela sequer desconfia quem sejam. A crueldade do cyberbullying é violenta, irresponsável, egoísta, anônima, sem ética e impune.


A VÍTIMA ATRAI O BULLY? COMO REAGIR?
Ser invisível para escapar do bullying é o maior sonho de todas as vítimas. A vítima fica tão traumatizada que carrega a imagem do seu bully dentro de si e tanto teme encontrá-lo, ou a um tipo parecido, que ela constantemente patrulha com o seu olhar assustado qualquer lugar que ela frequente. É o olhar temeroso e a imediata fuga esbaforida da vítima que chama a atenção do bully.

Para não atrair o bully é importante que a vítima esteja sempre acompanhada de alguém. No início, o bully quer evitar um escândalo. O estar sozinha, o silêncio, a não reação e a fuga dão forças ao bully. Quando a vítima reage, grita, faz escândalos, sai correndo aos gritos, ou alguém a sua volta faz esta barulheira toda, o bully se afasta rapidinho.


CONDUTAS QUE OS PAIS DA VÍTIMA DEVEM TOMAR
Alterações comportamentais como tristeza, desânimo, medos, agressividade, instabilidade de humor, destemperos e explosões emocionais, choros desmotivados, recusa em ir para a escola, isolamentos, não atender telefonemas, alterações de sono e sintomas físicos como dor de cabeça, dor de barriga, náuseas, vômitos, diarreias etc. obrigam os pais a ouvirem do filho (a) sobre o que esteja acontecendo na escola, ou em qualquer outro lugar. Se houver bullying é necessária uma ajuda de fora, de profissionais especializados (psicólogos, psiquiatras, sociólogos) e deve-se explicar à direção da escola o que está ocorrendo. Importante é que os pais não exijam uma medida imediata contra o bully, pois este é um trabalho que demanda conhecimento, cuidado e tempo.

É compreensível que a vítima simplesmente queira fugir da escola, ser invisível, não chamar a atenção de ninguém, muito menos provocar a ira do bully. Ela não quer que os pais tomem iniciativas que possam piorar a situação. Entretanto é necessário que haja logo de início uma proteção física, de não deixá-la sozinha na escola. Pedir à escola uma ajuda não ostensiva à vítima, principalmente não deixá-la sozinha na classe, no banheiro, no pátio, na biblioteca etc. O ideal é o bully ser surpreendido por algum funcionário da escola ou por uma reação inesperada da vítima como gritos, escândalos etc.

Se nada disso funcionar, o pai ou parente da vítima e até mesmo qualquer outro adulto deve procurar diretamente o bully, com testemunhas, para que este não distorça a conversa, e dizer firme e claro para que se afaste da vítima. Se isso acontecer outra vez, a polícia será acionada e todos irão para a delegacia, incluindo os pais do agressor.


CONDUTAS CONTRA O BULLYING QUE A ESCOLA DEVERIA TOMAR
Designar uma pessoa da escola mais habilitada a lidar com relacionamentos humanos para que todos os envolvidos no bullying tenham alguém de confiança a quem possam fácil e rapidamente se reportar.

Não contra-atacar diretamente o bully, mas combater imediatamente o bullying. Orientar todos os funcionários esclarecendo o que é, como prevenir e como interferir. Os mais eficientes são os bedéis e outros funcionários, além dos professores, pois são eles que circulam por todas as áreas frequentadas pelos alunos. Conhecendo-se o bullying torna-se mais fácil combatê-lo.

Todos os funcionários, desde o diretor até o faxineiro, devem saber da necessidade de combater o bullying, ficando atentos ao comportamento dos alunos, para proteger a vítima à distância, isto é, não perdê-la de vista para interferir no momento em que houver a agressão e levar ambos, agressor e agredido, à pessoa responsável. A escola deve zelar pela segurança de todos os seus alunos.

É importante que a escola feche ou vigie áreas, portas e corredores de pouco uso, mal iluminadas ou mal conservadas, onde geralmente ocorre o bullying.

A classe dos alunos envolvidos merece um trabalho especial de conhecimento do bullying, suas causas e consequências, e que a responsabilidade de combatê-lo é de todas as pessoas, sejam elas quem forem. Destacando que os silenciosos e os que nada fazem são coniventes com o crime.


MEDIDAS A SEREM TOMADAS COM O BULLY
Os pais têm que ser chamados a conversar com a pessoa responsável, pois a prática tem demonstrado que o bully não melhora se: 1. for abordado sozinho; 2. for tolerado e perdoado; 3. receber somente advertência, mesmo com ameaças de suspensão das aulas ou expulsão da escola; 4. suas promessas de melhora forem aceitas; 5. suas justificativas forem aceitas (nada justifica o bullying).

Os pais têm que ser chamados porque é frequente que eles, nada sabendo do que o filho faz, acreditem que ele não minta e voltem-se contra a escola, o que reforça o bullying. A responsabilidade pela educação de civilidade do aluno é dos pais. A escola deve ter testemunhas contra o bully, e não agir baseada somente em informações obtidas. O mesmo filho pode praticar o bullying dentro da própria casa, primeiro com os menores ou mais fracos, depois contra os próprios pais. Mais que broncas e castigos, o bully precisa de tratamento psicológico.


MEDIDAS A SEREM TOMADAS COM A VÍTIMA
A vítima deve ser ouvida e protegida contra o bullying e represálias do bully, até conseguir defender-se sozinha. Ela tem que saber que o maior poder de reação está com ela. Grite, ofenda, esperneie, não se apague nem silencie, faça verdadeiro escândalo como um alarme de bombeiro disparado. O que espanta o bully é o inesperado, o barulho e a visibilidade.

Quem agride esquece que agrediu, mas quem apanha nunca esquece. É comum a agredida querer se vingar e acabar se transformando em agressora. Casos extremos há em vários países, como rapazes que voltaram à escola armados até os dentes e assassinaram vários colegas e professores a tiros para depois se suicidarem.

Os estragos provocados na vítima necessitam de cuidados psicoterápicos que removam os ferimentos sem deixar duradouras cicatrizes de sentimentos de culpa, de impotência, de perseguição, de merecer sofrer o bullying.


NA ESCOLA: A REUNIÃO DOS PAIS DO BULLY E DA VÍTIMA
Essa reunião é uma excelente medida educativa para todos os que estão envolvidos no bullying. Não é bom prognóstico quando esta reunião se torna impossível pela recusa de um dos envolvidos, pois significa que a situação não lhe está totalmente resolvida. Sobraram mágoas, ressentimentos, vergonha que poderão se multiplicar e complicar outra vez a vida própria e as dos que o cercam.

A maior parte dos que recusam é justamente a que mais precisa, que são o bully e os seus pais. Bullies não tratados evoluem para maltratar (chegando até a assassinar) namoradas, noivas, cônjuges, ex-cônjuges etc. Portanto, o bully tem que ser tratado por especialistas.


BIBLIOGRAFIA
Beane, Allan L. Proteja Seu filho do Bullying. Trad.: Débora Guimarães Isidoro. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010. Serrate, Rosa. Lidar com o Bullying na Escola. Coleção EducAcção. Sintra, Portugal : K. Editora Ltda., 2009.

Silva, Ana Beatriz Barbosa. Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas: Como Identificar e Combater o Preconceito, a Violência e a Covardia entre Alunos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. Tiba, Içami. Adolescentes: Quem Ama, Educa! São Paulo: Integrare Editora, 2010.


QUEM É IÇAMI TIBA?
Içami Tiba é médico e psiquiatra. Autor do best-seller Quem Ama, Educa! Formando Cidadãos Éticos, entre diversas obras sobre educação que venderam mais de 2 milhões exemplares, realizou mais de 80 mil atendimentos psicoterápicos a adolescentes e suas famílias e ministrou milhares de conferências no Brasil e no exterior. Seu site é www.tiba.com.br.