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Darcy Ribeiro e Paulo Freire, por Helena Bomeny
 
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  Darcy Ribeiro em sua casa em 18 de fevereiro de 1997. Foto: Luciana Whitaker/Folha Imagem

A socióloga Helena Bomeny escreveu o artigo “Dez anos sem Darcy Ribeiro e Paulo Freire” originalmente para o Livro do Ano 2008, da Enciclopédia Barsa, em homenagem aos 10 anos da morte dos dois importantes pensadores brasileiros. O artigo, reproduzido a seguir na íntegra, já na nova ortografia, saiu nas páginas 210 a 213 da obra.

A republicação, no site
Barsa Saber, desse artigo, de valor enciclopédico atemporal, reforça a missão da Barsa como marca do conhecimento, ao conciliar as novas tecnologias com o rigor e a confiabilidade de sempre.


DEZ ANOS SEM DARCY RIBEIRO E PAULO FREIRE
O já distante ano de 1997 fica marcado na história da educação brasileira pela morte de dois intelectuais públicos, conhecidos no Brasil e no exterior: Darcy Ribeiro e Paulo Freire. São ambos dotados de traços muito próprios, traços que se tocam para logo se afastarem. Darcy Ribeiro, mineiro, natural de Montes Claros, nasceu em 26 de outubro de 1922, ano da Semana de Arte Moderna e da criação do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Órfão de pai aos três anos, foi criado pela mãe, professora e alfabetizadora. Paulo Freire, pernambucano, nasceu em Recife em 19 de setembro de 1921, de pais de classe média. Conhecendo a pobreza e a fome durante a depressão de 1929, Paulo Freire não mais se distanciaria da pobreza elegendo-a como tema e preocupação de vida inteira.

O trajeto intelectual de Darcy Ribeiro começou com uma primeira entrada na Faculdade de Medicina, Belo Horizonte, em 1943. Atendeu ao desejo de sua mãe, confessaria depois. Mas logo abandonou o curso em favor da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, para onde se dirigiu em 1944, atraído por uma bolsa de estudos e pelo convite de Donald Pierson (1900-1995). As ciências sociais o capturaram de vez. Paulo Freire inicia sua vida acadêmica na Faculdade de Direito, em Recife, em 1943, mas não chegou a exercer a profissão. Preferiu trabalhar como professor em uma escola de segundo grau ensinando língua portuguesa. Um primeiro ponto de contato: ambos abandonam a formação universitária dos cursos profissionais (Medicina, Engenharia e Direito) — velha tradição brasileira — em favor das ciências humanas. Mas já uma distinção se impõe. Paulo Freire abraça a profissão de magistério e o que a ela se liga, ou seja, temas e questões da Educação; Darcy Ribeiro faz percurso distinto pelas Ciências Sociais, voltando-se para a Educação nos idos de 1950.

O segundo ponto de contato talvez seja mais substantivo. Tanto Paulo Freire quanto Darcy Ribeiro se mobilizaram pela inquietação com relação à pobreza no Brasil. Dessa eleição não se distanciaram mais em um percurso de vida razoavelmente comum no tempo. Mas também aqui podemos sugerir distinções. Paulo Freire se notabilizou, no Brasil e no exterior, por uma sensibilidade transmutada em método. Mobilizado pela transformação das condições de vida da população, Freire via na conscientização dos indivíduos a condição primeira de possibilidade de intervenção. A transformação histórica dependeria da capacidade de ação dos indivíduos, e tal capacidade seria o desdobramento dos processos de conhecimento, reconhecimento e tomada de posição com relação ao entorno. Não foi por acaso que sua primeira experiência educativa veio carregada de simbologia: em 1962, ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em apenas 45 dias. Educação de adultos foi sua primeira opção, e dela não se afastou como projeto, defesa de ideal e convicção política. O sucesso do experimento teve grande repercussão, e o governo brasileiro aprovou a criação de centenas de círculos de cultura ao redor do país. Em 1960, as taxas de analfabetismo eram altíssimas: 46,7% da população de cinco anos ou mais analfabetos. O sucesso do experimento deveu-se à originalidade do método de ensino, como ele próprio definiu em muitos escritos: “estabelecer uma ‘intimidade’ entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos”. O país vivia um momento de efervescência política e grande mobilização popular. Data de 1967 a publicação de seu livro, Educação como Prática da Liberdade. O livro foi recebido como um marco no estabelecimento de um ideal de educação engajada, educação como projeto político de autonomia dos sujeitos e de participação ativa na definição dos rumos da sociedade que os envolveria. Tudo conspirava a favor da receptividade de um método revolucionário por considerar a experiência dos sujeitos parte constitutiva dos conteúdos a trabalhar no processo de ensino. A conjuntura nacional fermentava o ideário de educação conscientizadora como parte do projeto político em curso de promover o popular à alçada da agenda política do país. O golpe de 1964 interrompeu tal movimento e levou para o exílio o protagonista da pedagogia da libertação.

Nosso outro personagem percorreu um caminho relativamente distinto, mas, de novo, com muitos pontos de contato. Impregnado dos ensinamentos da Escola Livre de Sociologia e Política, Darcy Ribeiro viu-se capturado para a “tarefa de estudar o destino humano”. Por uma casualidade chega à Antropologia quando abraça os estudos indígenas, por indicação de Herbert Baldus (1899-1970) a Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) para seu ingresso no Conselho de Proteção aos Índios e Serviço de Proteção aos Índios que funcionavam juntos. Os Kadiwéu e Kaapor foram as duas tribos que estudou através de longas expedições pelo Mato Grosso e pelo Norte do Brasil. A mudança de rumo com relação à causa indígena também recebeu de Darcy Ribeiro uma justificativa política. Deixa os estudos acadêmicos, mais do interesse dos antropólogos do que seus objetos de estudo, e passa a ser um “combatente da causa indígena”. Sai da postura do etnólogo, que busca o índio como quem vai ao primitivo, e presentifica sua ação, politizando-a como questão nacional. Dessa politização resultou sua participação ativa na montagem do Museu do Índio, que nasce de uma seção de estudos do Serviço de Proteção aos Índios e do Conselho dos Índios. Um museu educativo onde os visitantes passavam a ver fotos e imagens da vida cotidiana dos indígenas, sem os preconceitos tão vulgarizados de selvageria, sem a atmosfera canibal e feroz com a qual a literatura e a disseminação dos preconceitos faziam vigorar socialmente. Ali cria o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia.

A associação definitiva de Darcy Ribeiro com a Educação vem do encontro com Anísio Teixeira (1900-1970), educador conhecido pela liderança no Movimento de Escola Nova, com quem sela a parceria mais permanente de sua vida. Aqui se define a distinção maior, a meu juízo, com relação ao empenho de Paulo Freire. Embora engajado e movido pela paixão política de mudar o mundo, Darcy Ribeiro abraçou do ideal da Escola Nova a determinação de universalizar o acesso à educação para as camadas populares. As crianças seriam prioridades máximas do projeto. Crítico da alfabetização de adultos, Darcy Ribeiro pode ser incluído entre aqueles que pensam a escola pública como espaço de socialização básico para a formação da cidadania.

O vínculo político não foi arrefecido em nenhum dos dois personagens da educação nacional. Tanto um como outro participaram da política assumindo cargos diretamente ligados à montagem e ao acompanhamento da política educacional. Paulo Freire no governo Luiza Erundina em São Paulo (1989-1992) e Darcy Ribeiro na implantação do Programa Especial de Educação dos dois governos Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1986; 1991-1994) com a construção de 500 Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). Nas respectivas funções, um se dedicou às questões que envolvem a pedagogia: era o educador Paulo Freire à frente da Secretaria. Outro, mais sociólogo, atropelou em velocidade as dificuldades da democratização dos direitos à educação no estado do Rio de Janeiro.

Não é difícil imaginar por que os educadores receberam melhor Paulo Freire do que Darcy Ribeiro em suas aventuras de liderança política. Mas ambos se moveram pela paixão pública de defesa da Educação como bem de civilização, como direito universal e salvação da sociedade como empreendimento coletivo e da vida dos indivíduos. Aos dois o Brasil deve a defesa intransigente de um método que leve em conta o contexto e as referências dos alunos e a obsessão pela implantação de uma escola pública em tempo integral como recurso insubstituível de estender aos deserdados sociais os benefícios da civilização. Nos dez anos passados da morte de ambos, é possível qualificar a dimensão da ausência. Vivemos hoje no Brasil um tempo crítico em que não saem da pauta as consequências perversas da não inclusão dos desfavorecidos no universo escolar e da baixa qualidade da educação oferecida. Nesta conjuntura, a defesa intransigente da escola em tempo integral e de um método especial de educação que considere prioritariamente os alunos fazem de seus protagonistas, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, referências de intelectuais públicos que a memória e a história devem tratar de preservar.


QUEM É HELENA BOMENY?
Helena Bomeny é socióloga, coordenadora da Escola de Ciências Sociais do CPDOC/Fundação Getulio Vargas e professora titular de Sociologia da UERJ. É autora de Darcy Ribeiro: Sociologia de um Indisciplinado (2001) e Intelectuais da Educação (2001), entre outros trabalhos.

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