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Importância do sono, por Sidarta Ribeiro
 
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  Os turnos reversos causam problemas sérios de adaptação do sono. Foto: Colin Anderson/AFP Photo

Diretor de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), o neurocientista Sidarta Ribeiro escreveu o texto “A Importância do Sono em um Mundo 24 Horas” originalmente para o Livro do Ano 2008, da Enciclopédia Barsa.

O artigo, reproduzido a seguir na íntegra, já na nova ortografia, saiu nas páginas 424 a 427 da obra.

A republicação, no site
Barsa Saber, desse artigo, de valor enciclopédico atemporal, reforça a missão da Barsa como marca do conhecimento, ao conciliar as novas tecnologias com o rigor e a confiabilidade de sempre.




A IMPORTÂNCIA DO SONO EM UM MUNDO 24 HORAS


Todas as noites, exceto quando em vigília forçada, nos entregamos ao descanso profundo do corpo e da mente, desconectados do mundo exterior. Passamos adormecidos boa parte da vida, imersos na escuridão do sono e na misteriosa riqueza de vivências interiores do sonho. Dormir é um dos comportamentos inatos mais essenciais ao bem-estar fisiológico, desempenhando papel tão relevante quanto a alimentação, a hidratação e a respiração. Bebês recém-nascidos dormem em média 16 horas por dia, seus pais, oito horas, os avós, apenas quatro a cada 24 horas que transcorrem. É impossível passar completamente sem sono, como se verifica na rara patologia hereditária em que o sono desaparece por completo, a “insônia familiar fatal”. Pessoas acometidas dessa doença não resistem por muito tempo à falta crônica de sono, depauperando-se paulatinamente até falecerem de cansaço. Isto ocorre a despeito da manutenção de um estado nutricional adequado, o que indica que o descanso durante a vigília não é suficiente para impedir a exaustão inexorável do organismo. Efeitos igualmente devastadores são observados em ratos de laboratório privados de sono por muitos dias seguidos. Por aumentar a conservação de energia e reduzir o metabolismo celular, o sono facilita a reposição de biomoléculas despendidas durante a vigília, como o glicogênio, reserva energética das células, ou a noradrenalina e a dopamina, neurotransmissores necessários ao comportamento atencional, busca de alvos ambientais e reação rápida a estímulos. O sono também está associado à função hepática e à digestão dos alimentos. Dormir equivale a recarregar as baterias bioquímicas do organismo, tanto nos músculos quanto no cérebro, tanto no fígado quanto no intestino. Além disso, o sono desempenha um papel crucial na regulação hormonal, controlando os níveis de cortisol e hormônio do crescimento. Estes hormônios, por sua vez, controlam processos fisiológicos tão diversos quanto a resposta imune, a reação ao estresse, a proliferação celular e o crescimento do corpo.

Além de suas funções reparadoras, o sono abriga mecanismos cognitivos de grande impacto no comportamento humano. Acumulam-se as evidências experimentais de que o sono atua de forma decisiva na aquisição e maturação das memórias. Pessoas privadas de sono apresentam grande deficiência no aprendizado de diversas tarefas, seja pelo prejuízo na aquisição de novas informações e hábitos, seja pela má qualidade da consolidação mnemônica após a aquisição. O sono também afeta a esfera mental através dos sonhos, que simbolizam as expectativas, ansiedades e temores do sonhador. Normalmente, os prosaicos dilemas do cotidiano aparecem mascarados nos sonhos, refletidos em associações idiossincráticas de difícil interpretação. A aparência misteriosa do fenômeno onírico se dissolve quando os eventos da vigília são de suma relevância para a sobrevivência do indivíduo, como se verifica por exemplo nos sonhos que sucedem traumas e acidentes graves. O conteúdo onírico, nesses casos, assume significado claro e evidente, isto é, os sonhos passam a ser fortemente determinados pela vigília.

Para entender a abrangência das funções vitais do sono, é preciso compreender sua evolução paulatina nos vertebrados, desde o descanso ocasional dos peixes até o profundo mergulho onírico dos seres humanos. O surgimento de um estado fisiológico de quiescência periódica, de longa duração e sincronizado ao ciclo dia-noite, está intimamente ligado à invasão do ambiente terrestre realizada pelos ancestrais dos répteis, aves e mamíferos, há 300 milhões de anos. Os pioneiros do sono emergiram de águas escuras e pantanosas para ocupar um Éden terrestre seguro e acolhedor, fervilhante de invertebrados e vegetais relativamente inofensivos. Para ocupar tão tentador ambiente, tiveram que se adaptar à secura e transparência do ar, desenvolvendo um tegumento impermeável e ampliando notavelmente os circuitos cerebrais envolvidos na percepção visual. Os primeiros tetrápodes terrestres, ancestrais das tartarugas atuais, eram animais que dependiam de boa acuidade visual para a navegação espacial, captura de insetos e identificação de plantas comestíveis. Mas logo surgiram os répteis predadores de répteis, antepassados dos imensos sáurios que dominaram a Terra por centenas de milhões de anos. Na escuridão periódica da noite foi preciso aprender a ocultar-se em quietude, para conservar energia e não expor-se aos predadores noturnos. O torpor que caracteriza o sono de ondas lentas, estado fisiológico atual que descende desse sono primordial, é acompanhado de queda da temperatura corporal e grande diminuição do gasto energético. Não obstante, o cérebro adormecido produz atividade elétrica espontânea, gerada por centros neurais profundos que pulsam periodicamente. Resultados experimentais das últimas duas décadas sugerem que essa atividade cerebral endógena é “coletada” pelos caminhos neurais mais usados, reforçando as memórias mais relevantes à medida que se repete o ciclo sono-vigília. Tal reverberação mnemônica parece ser, portanto, um epifenômeno do sono de ondas lentas, isto é, um efeito colateral benigno do torpor periódico que surgiu com os primeiros répteis.

A invenção evolutiva de uma fase de sono adicional parece ter ocorrido há cerca de 200 milhões de anos, com o aparecimento das linhagens de répteis que deram origem aos crocodilos, aves e mamíferos. Esse estranho sono de intensa atividade cerebral, concomitante em humanos com movimentos rápidos dos olhos (daí o nome rapid-eye-movement sleep, sono REM), ativa genes capazes de promover a estocagem persistente de memórias. A soma das propriedades moleculares e celulares do sono de ondas lentas e do sono REM resulta na migração de memórias com o tempo, compactando as lembranças antigas e abrindo permanentemente espaço para a entrada de novas informações. O sono REM parece também atuar na flexibilização de circuitos e reestruturação de memórias, facilitando a criação de novas ideias e a geração de insights. Além disso, é durante o sono REM que ocorrem os sonhos, cenário intenso de expressão do inconsciente. Acreditavam os antigos gregos e romanos que o sonho podia prever o futuro. Propõe a neurociência moderna que o sonho talvez funcione como um oráculo probabilístico, simulando futuros possíveis com base na experiência do passado. Tomadas em conjunto, as evidências científicas indicam que o sono tem impacto direto ou indireto em inúmeros aspectos da saúde do indivíduo, desde a metabolização de açúcares até o humor, a libido e o símbolo. Se dormir nos prepara para enfrentar os desafios do dia seguinte, a má qualidade do sono, especialmente na infância, pode acarretar graves prejuízos ao desenvolvimento cognitivo. Na roça, no sertão e na floresta, ainda dorme-se cedo e regularmente como há séculos faziam nossos ancestrais. Quando o sono vem em hora imprópria, um cafezinho espanta o cansaço. Se a insônia surge em plena madrugada, um chá de camomila, cidreira ou maracujá descansa o vivente no breu da noite. Mas nas grandes aglomerações urbanas com luz elétrica, rádio, televisão e internet, a vigília frenética confronta a espécie humana com uma situação inédita. Nas fábricas, terminais de ônibus, bares, restaurantes, danceterias, laboratórios de pesquisa e delegacias de polícia, a cidade não dorme.

Operários, guardas noturnos, condutores de trem, motoristas e trocadores de ônibus, caminhoneiros, profissionais do sexo, médicos, cientistas, garçons e insones de toda ordem enfrentam o sono com estimulantes químicos e eletrônicos. Os turnos reversos causam problemas sérios de adaptação, disseminando a utilização de remédios tanto para dormir quanto para acordar.

Se o sono corre risco de extinção, será preciso preservá-lo para as futuras gerações?


QUEM É SIDARTA RIBEIRO?


Sidarta Ribeiro é Ph.D. em neurobiologia pela Universidade Rockefeller e tem pós-doutorado pela Universidade Duke investigando as bases moleculares e celulares do sono e dos sonhos e o papel de ambos no aprendizado. Desde 2005 é diretor de pesquisa do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).