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Infectologia
 
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Ramo da medicina que estuda ou trata das doenças infecciosas ou parasitárias que podem ser causadas por diferentes agentes patógenos, como vírus, bactérias, protozoários, fungos e até mesmo por animais – domésticos ou silvestres -, a exemplo dos insetos, cães, gatos, ratos, aves, porcos, morcegos ou macacos que, por sua vez, também tenham sido infectados por esses microorganismos. O contato entre animais infectados e seres humanos, por meio de suas fezes, pelos ou até mesmo pela ingestão de sua carne, também são foco da infectologia.

Algumas das principais doenças de que se ocupa a área da infectologia são as parasitoses, como a esquistossomose, as hepatites virais, o sarampo, a dengue, a AIDS, a varíola, a tuberculose, a hanseníase, a raiva, a peste, a cólera, as gripes (espanhola, aviária, influenza etc.) e a mais recente Covid-19, entre outras.

O médico infectologista é, portanto, responsável por prevenir a infecção, identificar e pesquisar sua causa e por analisar o quadro clínico (manifestações da doença), propondo a terapia adequada. Por isso, ele se apoia em subáreas que segmentam a infectologia, tais como: a de imunizações, a de infecções sexualmente transmissíveis e das hepatites virais, a de resistência antimicrobiana e de infecção hospitalar, a de zoonoses, a de medicina tropical e do viajante, para citar algumas.


HISTÓRIA E TRAJETÓRIA

Segundo diferentes relatos e estudos arqueológicos, os primeiros registros de infecções em seres humanos, começam a aparecer, com o Mal de Pott, uma doença que compromete a coluna vertebral, no extinto homem de Heideberg, cerca de 7.000 a.C.

A hanseníase – também conhecida popularmente e estigmatizada como lepra (a qual causa lesões na pele), no Egito antigo, cerca de 2.000 anos a.C. e, na Babilônia, na época de Hamurabi (1.800 a.C.).

Há ainda relatos sobre a peste que também surgiu na Babilônia (cerca de 1.000 anos a. C), e também em múmias egípcias, onde foram encontrados ovos de Schistosoma, cerca de 2.000 anos a.C., ou seja, evidências de que, há tempos, já se sofria de barriga d´água.

Contudo, foi somente na Idade Média que se começou a suspeitar de que “algo sólido” invadia o corpo humano e causava uma doença. Contagione (1546), obra do médico italiano Francastorius (1478-1553), apresenta as primeiras ideias sobre contágio ao descrever determinadas epidemias, sendo a principal delas a de que “sementes da moléstia”, ou seja, corpúsculos causadores das doenças – os “esporos” -, transitavam de um corpo a outro pelo contato direto, como na hanseníase ao tocar a pele do infectado ou indireto, quando os esporos se alojavam nos chamados “fômites” (do latim fomes, que significa material usado para iniciar o fogo), isto é, por partículas que transferem as doenças, como fios de roupas, lençóis ou objetos, assim como ocorre com a hepatite. Mas a transmissão das doenças infecciosas ainda podia ocorrer sem contato direto e sem fômites, mas pela transmissão dos esporos à distância (propagados pelo ar ou pela água), como é o caso da peste e da varíola.

A partir do Renascimento (1300-1650), com os avanços científicos, iniciou-se um período em que muitas doenças infecciosas passam a ser estudadas por meio de instrumentais e procedimentos criados para o avanço da medicina e das questões de higiene e, com a invenção da imprensa, foram criadas as primeiras revistas científicas que divulgavam os novos conhecimentos e impulsionaram essas descobertas. A ideia de prevenção de doenças infecciosas, surge no século XVIII, com Edward Jenner (1749-1823) que desenvolve uma vacina contra a varíola.

Somente no século XIX, em 1863, o holandês Anton Van Leeuwenhock descobre o microscópio que passa então a identificar nos restos de comida encontrados em seus dentes os chamados "espíritos do demônio", assim lançando as bases da bacteriologia e derrubando a “teoria dos germes” que perdurou durante muito tempo. Mesmo sem a descoberta das bactérias, as primeiras práticas envolvendo o controle de doenças já ocorrem no XVIII, com o confinamento de doentes em hospitais e sanatórios com febre tifoide, varíola, tuberculose e as "casas de peste". No entanto, medidas para o controle de infecção hospitalar só surgiram mais tarde, no século XIX, com o desenvolvimento da microbiologia.

Foto: VisualHunt.


Foi ainda no século XIX que Max Joseph von Pettenkofer (1818-1901), médico e sanitarista alemão, apontou a existência da suscetibilidade individual e a influência do ambiente para o desenvolvimento das doenças. Dizia que, além da Teoria Microbiana, havia outros fatores para a instalação de um processo infeccioso, ressaltando a interação de três fatores: o agente, o hospedeiro e o meio ambiente.

A partir desse itinerário histórico é possível identificar a evolução dos mecanismos de conhecimento e controle das doenças infecciosas. Com o desenvolvimento científico e tecnológico, antimicrobianos foram sendo aperfeiçoados, técnicas modernas de assistência foram sendo desenvolvidas e o tratamento das doenças assumiu alta complexidade. A luta contra a invasão de bactérias multirresistentes levou a descoberta da penicilina e ao desenvolvimento dos antibióticos, mas ainda assim a mutação e o surgimento de novos vírus seguem sendo um problema para a prevenção e o controle de novas doenças infecciosas que surgem, como é o caso da recente COVID-19.


DOENÇAS INFECCIOSAS (TRANSMISSÍVEIS) E DOENÇAS CONTAGIOSAS

Por infecção compreende-se a penetração, multiplicação e/ou desenvolvimento de um agente infeccioso em determinado hospedeiro que pode ser um animal, um inseto ou diretamente o ser humano.

A infectologia relaciona-se, portanto, com as doenças infecciosas que têm como origem o contato de um ser vivo com uma ou mais variedades de agentes patogênicos que, ao penetrar o corpo do hospedeiro (infectar, contaminar), ali sobrevivem ou se desenvolvem, desequilibrando seu estado de saúde (causando lesões, alterações fisiológicas, bioquímicas, etc) ou até mesmo levando à morte. Toda doença infecciosa é também chamada transmissível pelo fato de que o agente patogênico é transmitido ao hospedeiro suscetível, mas além disso, também pode ser uma doença contagiosa, isto é, o agente infeccioso pode ser transmitido diretamente, de uma pessoa para outra ou por meio de animais infectados.

Nas doenças infecciosas não contagiosas, a transmissão se dá por via indireta, através de vetores, partículas aéreas ou outros veículos (objetos contaminados). Nas doenças infecciosas contagiosas a transmissão se dá por via direta, como por exemplo, pelo contato com a pele do contaminado, através das trocas salivares como no beijo e nas relações sexuais. Assim, podemos dizer que toda doença contagiosa é infecciosa, mas que nem toda doença infecciosa (ou transmissível) é contagiosa. Observe os quadros abaixo:


QUADRO 1



QUADRO 2



DOENÇAS INFECCIOSAS AGUDAS E CRÔNICAS

A etiologia (causa) das doenças infecciosas são variadas e dependem tanto dos microorganismos transmissores (as bactérias, vírus, protozoários, etc), quanto de questões relacionadas ao hospedeiro (seu estado de saúde ou suscetibilidade) e ao ambiente (como clima, questões de higiene, etc). Suas consequências, no entanto, podem ser observadas e medidas de acordo aos danos causados, o que leva em conta o curso do seu desenvolvimento, podendo dividir-se em agudas, cujo curso é acelerado ou crônicas, cujo desenvolvimento pode durar meses ou anos; este é um caso muito comum observado em pacientes com a Doença de Chagas, cuja pessoa que, alguma vez, foi picada pelo inseto vetor (barbeiro) que hospeda o protozoário Trypanosoma cruzi, pode conviver anos com a doença sem se dar conta quando finalmente os sintomas cardíacos, digestivos ou cardiodigestivos poderão denunciar a infecção. Tanto as infecções agudas quanto as crônicas podem levar o indivíduo à morte.

A maioria das infecções por vírus e bactérias geram doenças agudas. O início dos sintomas pode ser abrupto ou insidioso, seguindo-se uma fase de deterioração até um máximo de sintomas e danos, fase de plateau (estabilidade), com manutenção dos sintomas e possivelmente novos picos, uma longa recuperação com desaparecimento gradual dos sintomas, e a convalescência, em que já não há sintomas específicos da doença, mas o indivíduo ainda não recuperou totalmente as suas forças. Na fase de convalescência há recaídas, devido à presença continuada do fator desencadeante e do estado debilitado do indivíduo, além de (novas) infecções.


A INTERPRETAÇÃO DE SINTOMAS DE DOENÇAS INFECCIOSAS E O PAPEL DO INFECTOLOGISTA

As infecções podem acometer especificamente um indivíduo que, exposto ao agente patógeno, pode ou não adoecer imediatamente, podendo vir a ser transmissor de doenças, para o caso das contagiosas. No caso de a doença se manifestar, ele buscará um médico e iniciará um tratamento. Entretanto, nem sempre esse indivíduo com sintomas de infecção busca por um infectologista. Como as infecções quase sempre acometem preferencialmente um determinado órgão, o paciente intuitivamente procura o especialista responsável pelo tratamento de doenças daquele órgão. Assim, não são raros os casos que chegam ao infectologista encaminhados por outros médicos, com atraso diagnóstico ou somente quando já aparecem complicações no tratamento ou pela falta deste.

O acompanhamento de pacientes infectados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) é de responsabilidade do médico infectologista. Apesar de atualmente já ser uma doença crônica, embora contagiosa, o infectologista é o profissional que pode realizar a orientação adequada sobre prevenção, diagnóstico, tratamento e prognóstico da infecção pelo vírus da AIDS. O mesmo ocorre no âmbito das hepatites virais, sendo inclusive uma doença cujo tratamento é foco central na formação e treinamento dos infectologistas. Apesar da alta prevalência da doença na população brasileira, boa parte dos portadores da doença é assintomática, muitos sem fator de risco identificável, mas que se não diagnosticados e tratados, vários podem evoluir para cirrose e câncer hepático. A importância de exames sorológicos é fundamental para detectar precocemente a doença e realizar o tratamento adequado. Finalmente, as febres em geral são sintomas de infecções e cabe ao infectologista distingui-las para descarte ou confirmação de uma doença infecciosa. Em alguns casos, o quadro febril pode necessitar de administração imediata de antibióticos como no tratamento de infecções no sistema central como no caso das meningites e de infecções no coração.


RELAÇÕES ENTRE INFECTOLOGIA, EPIDEMIAS E PANDEMIAS

Contudo, as doenças infecciosas do tipo contagiosas podem levar a situações epidêmicas e pandêmicas, como é o caso da peste, da gripe espanhola e atualmente da covid-19.

Nesses casos, a ação do infectologista ou da área de infectologia envolve uma responsabilidade ainda maior no combate das infecções, pois elas geram não apenas um problema clínico individual, mas social que envolve, em primeiro lugar, a experiência dos profissionais e pesquisadores da área para pautar estratégias de ações preventivas e de manejo da doença, por meio da experiência clínica no cuidado do paciente e da revisão de literatura científica, específica e atual sobre o tema. Além disso, a área fornece subsídios para indicar a previsão de locais para tratamento e isolamento de pacientes, contaminação hospitalar em larga escala, além é claro de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para o tratamento e prevenção das doenças infecciosas, evitando sua disseminação e controle. Isso quer dizer que vários fatores devem ser considerados, em conjunto, no desenvolvimento da infectologia enquanto área de conhecimento científico.


Foto: Mohamed Hassan por Pixabay.

Atualmente, devido à pandemia, resultante da cobertura planetária da epidemia da doença Covid-19, provocada pelo coronavírus (SARS-CoV-2), a área de infectologia, bem como os infectologistas, têm sido alvo das principais manchetes de notícias, no país e em todo o mundo. Por um lado, as informações que se disseminam sobre infectologia ajudam a esclarecer aspectos relativos à prevenção, tratamento e formas de se evitar a contaminação e inibir a transmissão da doença, o que colabora para ampliar o repertório da população sobre questões de saúde pública, mas também sobre temas científicos, os quais poucas vezes foram palco de tantos programas televisivos de massa. Por outro lado, devido aos efeitos violentos e letais que são da natureza da própria doença – ainda sem cura e sem uma vacina que possa auxiliar na prevenção da contaminação –, os médicos infectologistas e agentes sanitários da “linha de frente” ao combate da doença despertam curiosidade, sentimentos de admiração e respeito, afinal para cuidar e salvar vidas, estão colocando em risco a sua.


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