ENTENDER O MUNDO/ARTIGOS TEMÁTICOS
Imunologia
 
Conheça
 
    ARTIGO      
  Imprimir Enviar Guardar
 
Imunologia S. f. Área das ciências biomédicas que estuda os mecanismos fisiológicos de resposta (ou de defesa) dos organismos que visam manter sua integridade face à presença de substâncias estranhas.


Foto: Bruno /Germany por Pixabay.

A ideia de imunologia surgiu no final do século XVIII, com os estudos do médico britânico Edward Jenner (1749-1823) sobre a vacina contra a varíola. Contudo, o termo só entrou em circulação no início do século XX, impulsionado pelos estudos do biólogo e anatomista russo Ilya Ilyich Mechnikov (1845-1916), que recebeu o prêmio Nobel de Medicina, em 1908. Foi o primeiro a observar o fenômeno da fagocitose enquanto mecanismo de defesa contra um corpo estranho: ao espetar o espinho de uma rosa em uma estrela do mar viu nascer, em sua ponta, um conjunto de células ao redor, demonstrando que o organismo tentava se manter imune, ou seja, íntegro.

Imunologia é, portanto, a ciência que estuda a imunidade. Do ponto de vista clínico, imunidade é a capacidade que tem o organismo de reagir contra toxinas produzidas por microrganismos invasores (vírus, bactérias, fungos, protozoários e vermes parasitas) ou contra substâncias nocivas que nele penetrem, criando resistência e protegendo-o contra infecções. Por isso, imunologia também é definida como a “ciência da discriminação eu/não-eu”, ou seja, preocupa-se com os mecanismos que definem a identidade (o que é próprio) de um organismo. Nas últimas décadas do século XX, com o desenvolvimento da bioquímica e da genética molecular, a imunologia passa a ter aplicações em diversos campos da ciência (especialmente Biologia, Medicina e Veterinária), seja na avaliação de desordens do organismo, tais como imunodeficiência, hipersensibilidade (pesquisas sobre alergias) e rejeição de transplantes e, sobretudo, na medicina diagnóstica e na terapêutica de patologias associadas ao câncer ou às doenças autoimunes como lúpus e AIDS.


CONCEITOS BÁSICOS

O próprio organismo desenvolve imunidade natural a certas infecções, a chamada imunidade inata (com a qual já nasce). A imunidade inata é a primeira defesa que o organismo possui aos estímulos estranhos a ele, representada por barreiras físicas (a pele, os fluídos corporais como a lágrima, por exemplo), quimiofisiológicas (pela elevação da temperatura corporal, rompendo moléculas de células patogênicas) e biológicas (células específicas – linfócitos– que impedem a entrada de partículas estranhas ou reagem às infecções por elas causadas, fagocitando-as). Manifesta-se como uma resposta rápida, não específica e limitada. Em função desses elementos, um organismo pode estar imune a algumas doenças infecciosas, mesmo sem ter tido contato anterior com o agente patogênico.

A imunidade adquirida ou adaptativa corresponde a um segundo tipo de defesa do organismo contra agentes infecciosos, os quais conseguiram ultrapassar as barreiras da imunidade inata. É chamada de adaptativa, pois sua reação à infecção é ampliada a cada nova exposição ao mesmo invasor. Expressa-se de duas formas: pela geração de anticorpos produzidos por moléculas presentes em células do sangue (imunidade humoral) ou pela destruição das células infectadas (imunidade celular).

A imunidade adquirida ainda pode ser classificada em imunidade ativa e imunidade passiva. Em ambos casos, pode ocorrer imunidade por processos naturais ou artificiais. Na imunidade ativa natural, existe a produção de uma substância específica (anticorpo) que combate o agente infeccioso quando se adquire uma doença, porém no caso de uma vacina, por exemplo, considera-se que houve estimulação ou indução intencional do organismo para produzir anticorpos com inoculação dos antígenos (substâncias estranhas) em baixas quantidades, caracterizando uma imunidade ativa artificial.

Por outro lado, diz-se que houve imunidade passiva, quando há transferência de anticorpos já fabricados por um indivíduo que já foi imunizado para outro, não imunizado. A imunidade passiva natural acontece quando há transferência de anticorpos maternais para feto e a imunidade passiva artificial ocorre quando há passagem de anticorpos prontos como na injeção de um soro antiofídico (contra veneno de serpentes), por exemplo.

A vacinação, portanto, um tipo de imunidade ativa artificial, é mais eficaz e duradoura que a imunidade passiva (inoculação de anticorpos prontos) e é muito utilizada na prevenção de epidemias. Em quadros clínicos como na difteria e na peste, combinam-se as imunizações passiva e ativa, ou seja, realiza-se a imunoterapia, administrando, a antitoxina e, ao mesmo tempo, a vacina ao paciente que corre risco de contrair a doença. Enquanto a primeira combate a doença naquele que já a contraiu, a segunda estimula o organismo a produzir suas próprias antitoxinas, realizando a prevenção.

Nos animais unicelulares e nos pluricelulares invertebrados, a defesa do organismo se fundamenta sobretudo na fagocitose (ingestão celular de corpos estranhos), capturando todo e qualquer tipo de substância. Os vertebrados, por sua vez, dispõem de um sistema imunológico, cuja principal característica é a especificidade: reconhecimento do corpo estranho e desenvolvimento de meios adequados para neutralizar sua ação.


SISTEMA IMUNOLÓGICO

Nos animais superiores, o conjunto de órgãos relacionados aos processos imunológicos e à diferenciação e maturação das células encarregadas da resposta imunitária denomina-se sistema imunológico. Nos seres humanos, ele se constitui de órgãos primários e secundários. Os órgãos primários correspondem à medula óssea e ao timo (glândula localizada acima do coração e atrás do esterno e que está totalmente desenvolvido nas crianças, transformando-se gradativamente em tecido adiposo, a partir da adolescência). A medula óssea é responsável pela produção de linfócitos do tipo T que se diferenciam no timo, sendo responsáveis pela coordenação do sistema imune inato e adquirido. Os órgãos secundários (como baço, linfonodos, tonsilas, e outros tecidos especializados nas membranas mucosas do intestino, por exemplo), são os locais nos quais as células de defesa desempenham seu verdadeiro trabalho. No baço (situado ao lado esquerdo do abdome), por exemplo, existem os macrófagos, células responsáveis por atacar diretamente substâncias estranhas, linfócitos T que migram pela corrente sanguínea e inspecionam a superfície das células, ajudando a controlar a defesa e os linfócitos B que produzem anticorpos.


ANTÍGENOS E ANTICORPOS

O funcionamento do sistema imunológico baseia-se nas relações entre antígeno e anticorpo. Por antígeno entende-se qualquer corpo estranho que penetre o organismo e desencadeie uma resposta imunológica específica que se manifesta com a produção de uma substância – anticorpo – cuja função é eliminar o invasor.

A reação entre o antígeno e o anticorpo é a de “encaixe”, ou seja, segue o modelo chave-fechadura, devido à sua especificidade. Por isso, cada anticorpo produzido é capaz de permanecer no organismo e reconhecer, ao longo da vida, especificamente o antígeno que estimulou a sua formação, todas as vezes que entrar em contato com ele novamente.

Entre os antígenos mais comuns estão as proteínas e os polissacarídeos, carboidratos complexos constituídos de cadeias de glicose e açúcares simples. As substâncias gordurosas não desencadeiam resposta imunológica.

Os anticorpos, por sua vez, são proteínas do grupo das globulinas, insolúveis em água, mas solúveis em sais, ácidos ou soluções básicas diluídas e coaguláveis pelo calor. São chamadas genericamente imunoglobulinas, entre as quais as mais comuns são imunoglobulinas G (designadas pela abreviatura IgG), M (IgM) e A (ou IgA), sendo as G as mais abundantes e conhecidas. As imoglobulinas são secretadas no plasma de inúmeros tecidos. A ação dos anticorpos sobre as substâncias estranhas ao organismo consiste, principalmente, em provocar a aglutinação dessas substâncias e ligando-as aos anticorpos, com a formação de um aglomerado de pequenas massas de células. Esse agregado relativamente grande estimula o mecanismo da fagocitose realizado pelos macrófagos. Outras vezes, as toxinas são neutralizadas quando um anticorpo se liga a elas, ou, como no caso das bactérias invasoras, a destroem e seu conteúdo celular se dispersa no meio exterior (fenômeno conhecido como lise).


AS DIFERENTES REAÇÕES IMUNOLÓGICAS

O sistema imunológico responde por vias distintas a diferentes antígenos, maximizando a eficiência dos mecanismos de defesa. Pode-se dizer que existem dois tipos básicos de imunidade: a imunidade celular e a humoral.

A imunidade celular é aquela mediada diretamente pelos linfócitos T matadores. Nesse tipo de resposta não há intervenção de anticorpos, mas sim a que se produz, em muitos casos, pelo contato entre células, como ocorre nos fenômenos de rejeição a transplantes.

Já a imunidade humoral é aquela em que participam anticorpos específicos, produzidos pelos linfócitos B maduros, e que se encontram presentes no plasma sanguíneo. Os anticorpos são os principais agentes da imunidade humoral, e eles são capazes de reconhecer e ligarem-se especificamente aos antígenos que estimularam a formação do anticorpo em uma reação altamente específica, como a de chave-fechadura. Dessa forma, cada tipo de anticorpo se liga exclusivamente a um único tipo de antígeno. Em geral, o processo de elaboração dos anticorpos se conclui dias depois que os antígenos penetraram no organismo. Passado esse período, começa a síntese das imunoglobulinas, que, depois de atingir o nível máximo, se reduz gradativamente até acabar. Se o mesmo antígeno é inoculado semanas depois, a resposta provocada, ou resposta secundária, é mais intensa e duradoura. Deduz-se, portanto, que o contato inicial com as substâncias antigênicas determina a transformação de algumas populações de linfócitos de vida longa, denominados por essa razão "células de memória". Tais células armazenam durante anos ou pelo resto da vida informações sobre agentes infecciosos que o organismo já entrou em contato.

A alergia constitui como um dos mais notáveis fenômenos imunológicos e se expressa como uma resposta exagerada do sistema imune a um determinado antígeno, nesse caso, denominado de alérgeno que pode ser substâncias encontradas no pólen das flores até materiais e fibras presentes na natureza ou ainda ácaros e outros microrganismos. Essa hipersensibilidade (resposta exagerada do organismo), pode ser mediada por anticorpos ou por células, ou seja, pode ser uma hiperimunidade humoral ou celular. As alergias mais frequentes são caracterizadas pelo aumento da síntese de imunoglobulina IgE (classe de anticorpo) pelos linfócitos B. Na primeira exposição, os anticorpos são produzidos e ligam-se aos receptores nos mastócitos (célula do sistema conjuntivo). Em uma próxima exposição, esses anticorpos ligam-se ao alérgeno rapidamente, desencadeando a liberação de histaminas e outras substâncias que promovem os sintomas clássicos de uma alergia: espirros, coriza, dificuldade respiratória e lacrimejamento dos olhos.


Foto: Joseph Mucira por Pixabay.


TOLERÂNCIA E DEFICIÊNCIA IMUNOLÓGICA

A tolerância imunológica consiste na ausência de resposta imunitária a determinados antígenos. Esse efeito pode ser conseguido por meio da inoculação de doses maciças do antígeno ou de quantidades mínimas, quase desprezíveis, do mesmo. A importância desse fenômeno está em sua aplicação no combate a problemas de rejeição a tecidos e órgãos transplantados.

De acordo com suas proporções, as deficiências imunológicas podem tornar os indivíduos vulneráveis a infecções, em maior ou menor grau. Atualmente, a mais séria dessas deficiências é a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Provocada pelo retrovírus HIV, que é transmitido pelos fluidos corporais, a AIDS deprime o sistema imunológico humano e abre caminho para infecções oportunistas, que acabam por provocar a morte do doente. O HIV danifica o sistema imunológico principalmente pela destruição de um tipo de linfócito (glóbulo branco), chamado célula T. Esse linfócito é fundamental no controle da atividade de vários outros tipos de linfócitos. Ao eliminar as células T, o HIV reduz drasticamente a capacidade de combater microrganismos que invadem a corrente sanguínea, deixando o organismo vulnerável a diversos tipos de doenças.


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA