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Teatro Amazonas
 
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asa de espetáculos localizada na cidade de Manaus, cuja construção data do final do século XIX, quando na região desenvolvia-se o chamado ciclo da borracha. Edificado em 1896, funcionou regularmente até 1924, quando foi fechado em virtude da crise econômica que se abatia sobre a região. Foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1966 e reaberto a espetáculos de forma contínua desde 1997. É considerado um dos mais belos teatros do mundo e é o principal cartão postal da capital do Amazonas.


Panorama do Teatro Amazonas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.


PALCO DE ESPETÁCULOS DIVERSOS

Quem hoje vai a um teatro, visita-o em virtude do desejo de assistir uma peça, uma apresentação de orquestra, o espetáculo de um grupo de dança ou outras atrações que encantem pela beleza de sua performance. Entretanto, durante muitos anos, os teatros também receberam diversos espetáculos, que se poderia qualificar como “bizarro”. Em 1936, na cidade de Manaus, o Teatro Amazonas recebeu as apresentações da Grande Companhia Teatral de Varieté, que além de orquestra e números de mágica, trazia também demonstrações de hipnose, mulheres sendo serradas ao meio (embora fantasioso, o truque prometia ser feito sem elementos que cobrissem as mulheres) além de um corpo cuja cabeça, separada por uma razoável distância, prometia adivinhar o nome de espectadores.

Além disso, porém, grandes nomes da arte e cultura nacionais e internacionais, como os tenores italianos Enrico Caruso e Luciano Pavarotti, a atriz Bibi Ferreira, o grupo pop Spice Girls, a banda de rock The White Stripes, a atriz francesa Sarah Bernhardt, também passaram pelo palco deste teatro que é, desde 1896 um grandioso local de interesse de Manaus. Também são notáveis as atuações neste teatro de artistas amazonenses de grande renome, como o pianista Arnaldo Rebello e o bailarino Marcelo Mourão.


O CICLO DA BORRACHA E A RIQUEZA AMAZONENSE

No final da década de 1870, o governo de Dom Pedro II começava a perder força, em virtude dos diversos conflitos que atravessavam sua administração. Em meio a esses embates, pode-se citar o surgimento do grupo republicano, os conflitos com a Igreja Católica, os atritos que, desde o final da Guerra do Paraguai, permeavam a relação entre o imperador e o Exército, além das questões relacionadas à extinção da escravidão no país. Porém, se por um lado, a política ia mal, por outro lado, a economia continuava a se desenvolver de forma expressiva. O café, que desde o princípio do século vinha crescendo em importância, atingia números expressivos na pauta de exportação brasileira e de fato sustentava a economia nacional. Ao lado desse produto, todavia, uma outra cultura começava a ganhar importância: a extração do látex na região amazônica.

Conhecido pelos indígenas há muito tempo, o látex começou a ganhar visibilidade a partir do século XVIII, quando foi descrito por um viajante francês que se impressionou com os objetos fabricados por alguns povos da região com aquele produto. Entretanto, foi no século XIX que sua extração começou a ganhar maior importância, uma vez que a Revolução Industrial avançava na Europa e nos Estados Unidos, e a borracha fabricada a partir do látex tornava-se um produto de peso comercial considerável. Embora em seu estado natural a borracha esteja sujeita a grandes transformações em virtude da temperatura, a adição de enxofre, por meio do processo de vulcanização, fez com que ela se tornasse mais resistente e menos sujeita a tais mudanças.

Tal aproveitamento nas indústrias fez com que a extração do látex na região amazônica despertasse o interesse de muitas pessoas, que migraram para a região em busca de trabalho e da construção de riqueza. Por conta de tal afluxo populacional, muitas cidades surgiram, e diversas áreas foram sendo ocupadas, levando os colonos a ultrapassar inclusive as fronteiras fixadas pelo Brasil. Conforme aumentava a demanda pelo produto, mais se avançava pela selva amazônica, e tal situação fez com que parte do território boliviano acabasse sendo ocupado pelos seringueiros. Nesse local, ocupado por cerca de 13 mil pessoas, houve, em 1899, a proclamação da República do Acre, em um processo comandado pelo espanhol Luís Gálvez, que intencionava transformar a região em uma nação independente, contando com o apoio do governo amazonense. Porém, o governo republicano brasileiro reconhecia a soberania da Bolívia sobre a região, e buscou reprimir o movimento. No ano seguinte, novamente houve a tentativa de se criar tal Estado autônomo, sendo as lideranças do movimento combatidas pelo exército boliviano, o que não acabou com o ímpeto dos seringueiros, que em 1902 deram início à Revolução Acriana. Os conflitos na região prosseguiram até 1903, quando a intervenção do governo brasileiro, por meio da diplomacia, garantiu a aquisição da região do Acre e sua incorporação ao território brasileiro, por meio da assinatura do Tratado de Petrópolis, levado adiante pelo Barão do Rio Branco. Para além disso, outras mudanças significativas também foram sentidas. Nas grandes cidades já existentes, como Belém e Manaus, muitas transformações ocorreram ocasionadas pela riqueza trazida pela borracha. Uma destas foi o crescimento demográfico, estimulado pela vinda tanto de estrangeiros, como japoneses, turcos e alemães, quanto principalmente de nordestinos, que fugiam das graves secas que assolavam a região. Particularmente, os anos de 1877 a 1879 foram decisivos para a saída de muitos migrantes daquela área em direção à Amazônia, pois três anos seguidos sem chuvas destruíram lavouras, rebanhos e desarticularam de maneira muito grave a economia nordestina. Estima-se que, apenas a capital do Ceará, que contava com 25 mil moradores na época, tenha recebido algo em torno de 110 mil migrantes vindos do interior. Outros 120 mil nordestinos dirigiram-se para a região amazônica, em busca de trabalho e de melhores condições de vida em uma área cuja importância econômica apenas crescia. Entre 1890 e 1910, viveu-se na região o auge da exportação da borracha, que chegou a representar cerca de 40% da pauta de exportações brasileiras. Também na capital amazonense, diversas mudanças começaram a tomar forma, tal como a construção do Reservatório do Mocó em 1899, destinado a fornecer água para uma cidade cuja população rapidamente se ampliava. O engenheiro Frank Hilst Hebblethwait, responsável por essa construção, já havia desenvolvido, anos antes, o projeto para a Ponte Benjamin Constant, inaugurada em 1895, e que por sua notável estrutura, ao longo dos seus 161 metros de extensão, destaca-se também como ícone da riqueza da era da borracha. Além desses, são marcos da época o Palácio Rio Negro, que foi sede do governo amazonense até 1995, assim como o Palácio da Justiça, inaugurado no 1900 para ser a sede do Poder Judiciário amazonense. Exatamente atrás desse prédio, localiza-se o Teatro Amazonas, grande símbolo da cultura e da riqueza de Manaus no início do século XX.


O TEATRO


Topo do Teatro é uma cúpula, formada com peças nas cores da bandeira brasileira. Foto: Rivail Júnior / Unsplash.

Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas teve seu projeto lançado em 1881, quando o ciclo da borracha começava a ganhar ímpeto. Suas obras se desenvolveram a partir de 1884, com a vinda de muitos materiais de sua construção diretamente da Europa, como mármores e lustres italianos, peças de ferro inglesas e mesmo telhas que vinham da França. Vagaroso em sua etapa inicial de execução, mas no governo de Eduardo Ribeiro que a obra do teatro deslanchou, até ser inaugurado em 1896. Nesse mesmo ano, a iluminação pública elétrica chegava em Manaus, tendo sido esta, a segunda cidade no Brasil a contar com esse sistema. A conjunção desses fatos, somados ainda aos demais projetos surgidos na época, demonstra que Manaus passava por um projeto de modificação urbanística profundo, que para atender aos interesses dos “barões da borracha”, pretendia transformar a cidade em uma Paris dos trópicos.

No que tange ao Teatro, o mesmo foi construído em linhas essencialmente renascentistas, mas com toques barrocos acrescentados ao edifício a ponto desta se tornar uma edificação eclética. Uma parte de sua estrutura que muito chama a atenção é a enorme cúpula, formada com peças nas cores da bandeira brasileira. A obra foi realizada não apenas com materiais, mas também com profissionais vindo do exterior, entre os quais se destaca Domenico de Angelis, pintor e decorador italiano, que ficou responsável pela decoração do Salão Nobre e do corredor do Teatro. Além dele, é notável a obra do artista nordestino, Crispim do Amaral, que pintou o teto da sala de espetáculos, bem como o pano de boca do palco, retratando cenas da riqueza natural local.

Com espaço para mais de 700 pessoas, ainda hoje o Teatro Amazonas impressiona pela pujança que ostenta: quase 200 lustres de cristal veneziano, um lustre principal de bronze inglês, além da cúpula com 36 mil peças de cerâmica esmaltada e vitrificada vindas da França. No palco deste, que é um dos mais belos teatros do mundo, comparado inclusive ao Teatro de Herodes Ático na Grécia ou ao Teatro alla Scala de Milão, na Itália, se apresentaram grandes nomes da arte mundial, que trouxeram entretenimento e riqueza cultural a uma elite que buscava construir renome na cidade que tentava se impor enquanto metrópole. O jornal The Guardian, em reportagem do ano de 2015, afirmou que poucas cidades no mundo tiveram em um teatro um ponto central de sua grandeza urbana, tal como foi o Teatro Amazonas para Manaus.


Vista do interior do Teatro Amazonas em Manaus. Foto: YASUYOSHI CHIBA / AFP.


DECADÊNCIA, PATRIMÔNIO HISTÓRICO E REABERTURA

As aspirações de grandeza e riqueza da região, entretanto, sofreram forte abalo quando, a partir da década de 1910, a produção de borracha entrou em decadência na Amazônia. Fruto de um ato de biopirataria, a plantação de seringueiras em colônias inglesas na Ásia despejou no mercado um produto de qualidade semelhante, mas por preço muito menor, o que levou à ruína vários dos barões da borracha. Em virtude desta queda no preço internacional do produto, a região começou a perder importância no cenário econômico nacional, fazendo com que muitas pessoas abandonassem a região, grandes casas fossem deixadas para trás e Manaus passasse por um período de decadência.

O Teatro também sofreu com tal situação: em 1924, a casa de espetáculos encerrou suas atividades, embora o governo tenha continuado a fazer a manutenção da construção, e alguns espetáculos esporadicamente tenham acontecido. Em 1966, durante o período militar, que voltou suas atenções para a região amazônica, o Teatro foi transformado em Patrimônio Histórico Nacional, embora fosse poucas vezes aberto para visitantes. Anos depois, em 1975, passou por um processo de restauração, e em 1982 passou novamente a chamar a atenção quando houve lá, a exibição de um filme de Werner Herzog. Porém, foi só em 1997 que suas atividades foram restabelecidas novamente, mas em um contexto já bastante diferente desde a sua inauguração. Se no princípio era um ponto de encontro da elite local, disposta a exibir sua riqueza, na atualidade, o Teatro Amazonas é um grande ponto turístico, que atrai visitantes não apenas do Brasil, mas também da Europa e dos Estados Unidos. Manaus já não é mais a cidade dependente da borracha, mas sim, um polo industrial com uma população superior a dois milhões de habitantes, com um crescimento econômico bastante positivo, e o Teatro, com seus mais de 120 anos de história, além de gerar recursos com o turismo, voltou à sua função primordial de disseminar e promover cultura.


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