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Revolução Americana
 
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evolução Americana é o nome pelo qual, especialmente dentro dos Estados Unidos, é conhecido seu processo de rompimento com os laços coloniais com a Inglaterra. A data consagrada para este evento é o 4 de julho, pois nesse dia, em 1776, foi assinada a Declaração de Independência. Esse documento é um marco fundamental da história política e filosófica do século XVIII, já que além de garantir o início do primeiro processo de quebra do Antigo Sistema Colonial, marcou também a difusão e adoção dos princípios iluministas para além das fronteiras europeias. Porém, a compreensão da Revolução Americana em sua integridade necessita do entendimento dos processos que se seguiram à assinatura da Declaração de Independência, bem como da compreensão dos fatores estruturais e conjunturais do período colonial que levaram ao desencadeamento do processo.


Declaração da Independência, por John Trumbull, 1817–1818. Foto: WikiImages via Pixabay.


A DESCOBERTA DA AMÉRICA E A FORMAÇÃO DAS COLÔNIAS

A colonização das áreas que compõe os Estados Unidos na atualidade se insere dentro de um processo mais amplo conhecido como Grandes Navegações ou mesmo Expansão Marítimo-Comercial. Esse conjunto de eventos desenvolveu-se a partir do século XV, quando Portugal, de forma pioneira, lançou ao mar navios para buscar uma rota alternativa de navegação e alcançar o território chamado de Índias. A motivação para tais navegações decorria do interesse em buscar, diretamente dos fornecedores asiáticos, produtos que rendiam lucros fabulosos no mercado europeu: as chamadas “especiarias”. Os portugueses já haviam observado que, desde a época das Cruzadas, a reabertura da navegação no Mar Mediterrâneo aos europeus havia propiciado às cidades italianas um ganho excepcional com o controle deste ramo de mercado. Este enriquecimento havia tornado a burguesia destas localidades rica a ponto de terem servido como suporte para o movimento renascentista.

Entretanto, com o Mar Mediterrâneo dominado pelos italianos, e com a inviabilidade de se fazer uma viagem por terra, encontrar uma nova rota marítima que os levasse ao Oriente e permitisse o comércio diretamente com os fornecedores de tais especiarias tornou-se o objetivo primordial dos portugueses. Junto a isso, havia o interesse do rei em ampliar seus domínios, uma vez que a situação política interna portuguesa já era relativamente estável após a Revolução de Avis (1383-1385). Existiam também condições geográficas favoráveis, como um litoral inteiro voltado para o Atlântico e os conhecimentos de navegação acumulados no contato com judeus e muçulmanos na Península Ibérica. Todos esses fatores somados conferiram a Portugal o pioneirismo na exploração do Oceano Atlântico e na busca por esse caminho alternativo para as chamadas Índias.

As navegações portuguesas podem ser dadas como inauguradas a partir de 1415, quando uma expedição, comandada por Dom João I tomou a cidade de Ceuta, no atual território do Marrocos, estabelecendo ali um posto avançado para a continuação da navegação ao redor da África. Tal esforço para se contornar o continente africano, atravessar o Cabo das Tormentas, chegar ao Oceano Índico e finalmente aportar nas Índias custou aos portugueses, além dos gastos humanos e materiais, quase um século de expedições. Somente em maio de 1498 Vasco da Gama completou tal trajeto, em uma viagem que durou aproximadamente 10 meses. Em seu retorno à Europa, os produtos que trouxe das Índias geraram um lucro de 60 vezes o valor investido na sua expedição, o que estimulou o rei dom Manuel I a buscar a ampliação de tal negócio. A próxima expedição que saiu de Portugal com destino às Índias foi justamente a que, em meio a seu trajeto, tomou as terras da América, que dariam origem ao Brasil, para Portugal.

Ao mesmo tempo em que Portugal avançava em seu périplo africano, os espanhóis passavam por seu processo de organização interna, iniciado com o casamento de Dom Fernando de Aragão e Dona Isabel de Castela em 1469, e que culminou com a tomada de Granada, em janeiro de 1492 e a consequente unificação do seu território, após expulsarem os muçulmanos de seu território, ao final de oito séculos de lutas na Guerra de Reconquista. A partir deste momento, também interessou aos monarcas espanhóis a busca por se chegar as Índias e fomentar o comércio das especiarias. Para tanto, não possuindo as mesmas pré-condições que os portugueses, os reis da Espanha decidiram financiar o projeto do navegador genovês Cristóvão Colombo, que há anos buscava apoio para comprovar a ideia de que era possível chegar ao Oriente navegando para oeste, uma vez que existiam indícios cabais da esfericidade do planeta, e seus cálculos mostravam que o diâmetro da esfera terrestre era inferior ao que comumente se alegava, possibilitando tal viagem sem escalas.

Colombo já havia anteriormente buscado apoio para a realização de seu projeto junto ao governo português, pensando que a capacidade técnica de navegação dos marinheiros deste país faria com que sua ideia fosse vista como possível. Porém, a coroa portuguesa não lhe deu o apoio que requeria e, posteriormente, Colombo buscou esse suporte junto aos reis da Espanha, que lhe concederam três naus para que empreendesse a viagem. Partindo do continente europeu em 3 de agosto de 1492, acabou por encontrar terra firma no dia 12 de outubro de 1492, aportando na região da América Central. Colombo, em seus diários, relatou com detalhes tudo o que viu e ouviu as novas terras, sempre convencido de que havia chegado ao Oriente. Além desta viagem, realizou mais três expedições à América, ainda buscando comprovar que havia chegado às Índias, tendo morrido em 1506, crente de que havia alcançado às Índias.

Neste ínterim, muito rapidamente, a notícia de que terras haviam sido encontradas pelos espanhóis chegou a Portugal, que encetou negociações com a Coroa espanhola no sentido de buscar compensações por todo o investimento que estava realizando desde o início do século XV. A resolução desta questão foi dada, após outras tentativas, pelo Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494 dividiu entre os reinos ibéricos as terras “descobertas ou por descobrir”, a partir da divisão instituída com o estabelecimento de uma linha divisória a 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. Pelos termos do Tratado, as terras situadas a leste da linha divisória poderiam ser exploradas pelos portugueses, enquanto os territórios a oeste estariam sob o domínio espanhol. Com este acordo, a maior parte das terras que compõe o território americano, identificado enquanto novo continente por Américo Vespúcio em sua publicação Mundus Novus, de 1503/1504, ficou sob o domínio espanhol, incluindo a área que hoje forma os Estados Unidos.

Muitas polêmicas foram geradas a partir da assinatura deste Tratado, tal como o desrespeito aos direitos dos povos que já habitavam tais localidades, bem como as reclamações provenientes de lideranças de outras nações. O rei francês Francisco I, teria afirmado, em relação ao Tratado, que "gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me afastou da partilha do mundo", demonstrando a não compreensão perante as ambições exclusivamente ibéricas sobre as terras descobertas. Também os ingleses, como os holandeses, questionaram tal partilha, embora passassem por situações internas particulares que impedissem o seu lançamento a um projeto de navegações.

No caso inglês, as dificuldades decorriam de seu processo de unificação nacional, iniciado ainda no século X mas não plenamente estabelecido; do seu envolvimento da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra a França, e no posterior desenvolvimento de uma intensa guerra civil, a Guerra das Rosas, que se prolongou de 1455 a 1485. Este último conflito somente foi solucionado com a tomada de poder por Henrique VII, que deu origem à dinastia Tudor, responsável na Inglaterra pelo lançamento dos ingleses às navegações, entre 1497 e 1498, pelo desenvolvimento de sua reforma protestante (a Reforma Anglicana de Henrique VIII, em 1534) e pela fundação das primeiras colônias que formariam os Estados Unidos, entre 1584 e 1587, já no reinado de Elizabeth I.

Elizabeth I, conhecida enquanto a “Rainha Virgem”, reinou de 1558 a 1603, estabelecendo seu governo como um período de estabilidade política, crescimento econômico e ascensão da Inglaterra a posto de potência global. A rainha, também lembrada como incentivadora da obra de William Shakespeare, foi responsável pelo lançamento da expedição comandada por Walter Raleigh, que em 1584 fundou, na ilha de Roanoke, no atual território da Carolina do Norte, o primeiro núcleo de colonização inglesa na América. Tal fato foi possível em virtude da negligência espanhola com este território, pois já estavam profundamente envolvidos na exploração de ouro no Reino Asteca (território mexicano) e na extração de prata no território inca (Peru, Chile, Argentina, Equador, Bolívia).

Este primeiro momento de colonização foi um projeto fracassado, em virtude de problemas específicos. O primeiro grupo de colonizadores, estabelecido em 1585, envolveu-se em conflitos com os povos nativos da região, tendo partido pouco mais de um ano após sua chegada. Em 1587, Raleigh levou um novo grupo de ocupantes para a região, deixando-os abandonados à própria sorte por cerca de três anos. Ao final desse período, com as dificuldades que se estabeleciam, John White, um dos colonizadores ali estabelecidos, empreendeu uma viagem à Inglaterra, com o objetivo de trazer suprimentos e apoio militar para a ocupação da região. Entretanto, em sua volta à América, não mais encontrou seus familiares e outros habitantes ingleses, tendo havido indícios de que os mesmos teriam sido atacados por povos da região. Desta forma, o primeiro projeto de colonização da América pelos ingleses redundou em fracasso, sendo que apenas em 1607, já no reinado de Jaime I, da dinastia Stuart, tais esforços foram retomados e concretizados.

O primeiro assentamento permanente dos ingleses na América que teve sucesso foi a cidade de Jamestown, fundada no território da Virgínia. Também em seu início Jamestown passou por dificuldades severas, uma vez que os colonizadores enviados carregavam consigo materiais para a busca de metais preciosos, tentando obter o mesmo sucesso que os espanhóis haviam adquirido em sua ocupação. Porém, estes metais não foram encontrados pelos ingleses, que também não haviam se preocupado em cultivar alimentos e enfrentaram um rigoroso inverno ao final de 1607. Foi a ação enérgica de John Smith, ao organizar o trabalho dos colonizadores para a produção de alimentos e ao estabelecer uma relação amigável com os indígenas Powhatans, que salvou os ingleses de mais um fracasso. Outro colonizador, John Rolfe, foi quem de fato tornou a colônia viável quando, a partir de 1612, iniciou o plantio de tabaco na região, uma vez que este produto tinha valores atrativos no mercado europeu, até então monopolizado pelos espanhóis. Fator também importante para que este sucesso se estabelecesse foi o casamento de Rolfe com a indígena Pocahontas, pacificando em definitivo as relações dos colonizadores com os nativos. Também nesse contexto começam a se desenvolver as características que marcariam a colonização da região sul dos Estados Unidos, como o estabelecimentos de grandes propriedades de terra, o cultivo de monoculturas e a utilização, nestas lavouras, de mão de obra escrava, iniciado a partir de 1619 e consolidado em 1676, após a Revolta de Bacon, quando pequenos produtores e trabalhadores pobres se revoltaram contra as suas más condições de vida. Tornou-se assim mais viável consolidar a utilização de uma forma de mão de obra que fosse mais facilmente manejável. Após o sucesso do estabelecimento da colônia da Virgínia, outros empreendimentos foram estabelecidos, formando as colônias de Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia. Todas estas foram estabelecidas por concessões régias, que as firmaram enquanto colônias de exploração no modelo do Antigo Sistema Colonial.

Enquanto isto, ao Norte da América, outro tipo de colônia também se desenvolvia, mas sem a intervenção direta do governo da Inglaterra. Partindo da fundação da colônia de Massachusetts, em 1630, a região ficou conhecida enquanto Nova Inglaterra, e passou a abrigar colonos que vinham do território inglês fugindo das perseguições religiosas impostas pelo governo. Os primeiros ocupantes europeus desta região chegaram a partir de 1620, no navio Mayflower, e passaram à história com a designação de Pais Peregrinos (Pilgrim Fathers). Estes colonizadores, não satisfeitos com os rumos da Igreja Anglicana, entraram em choque com o governo inglês, e inicialmente tencionaram buscar abrigo na Holanda, onde poderiam livremente exercer sua religião puritana. Após negociarem com uma companhia de comércio inglesa sua migração para a América, decidiram partir em busca de reconstruir suas vidas em um território novo. As áreas que ocuparam na região norte da América, a partir da fundação de Plymouth, foram denominadas de Nova Inglaterra, e se caracterizaram enquanto colônias de povoamento, com características bastante diversas daquelas colônias da região Sul. Por não haver um projeto sistemático de exploração desta área por parte da Coroa, surgiram pequenas propriedades, baseadas no trabalho livre, com uma produção bastante diversificada. Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, haveria nesta região a presença dos redemptioners, imigrantes que se colocavam em uma situação de servidão voluntária em troca do pagamento da passagem de migração da Europa para a América.

Desde o início, a região da Nova Inglaterra desenvolveu características bastante marcantes em sua formação. Um dos elementos notáveis deste processo é a instauração do Mayflower Compact, um conjunto de regras e normas que deveriam mediar a coexistência das pessoas naquela região. Embora ainda jurassem lealdade à Coroa britânica, esses colonos buscaram desde cedo estabelecer suas próprias regras de convivência, não seguindo as leis específicas da Inglaterra. Consolidou-se como parte da história dos Estados Unidos pensar o Mayflower Compact enquanto um dos elementos que marcaram, desde cedo, o estabelecimento da democracia entre os habitantes daquela região, embora muitos historiadores apontem para o fato de que a elaboração de tal documento não foi um processo inclusivo, tendo sido elaborado por William Bradford e assinado apenas por 41 homens presentes no navio onde foi escrito. Mesmo assim, ao redigirem leis próprias e buscarem por sua conta reconstruírem suas vidas em um novo território, pode-se afirmar que o modelo de administração que desenvolveram diferia em muito daquele estabelecido em outras áreas coloniais, como a região sul ou as colônias portuguesas e espanholas.

Nesse contexto, os habitantes da Nova Inglaterra também passaram a escolher seus líderes políticos, seus chefes de polícia, ou seja, organizar sua vida em comunidade de maneira autônoma, mesmo se considerando ainda enquanto súditos dos monarcas ingleses. Junto a isto, em virtude de seus conflitos internos, tais como a Revolução Puritana, o governo de Oliver Cromwell, Revolução Gloriosa e as mudanças que ocorriam na dinâmica entre campo e cidade, a Inglaterra buscou deixar de lado a imposição de regras coloniais mais duras, criando um quadro denominado por Edmund Burke, em 1775, enquanto “negligência salutar”. Disso se depreende a ideia de que o governo inglês foi negligente com suas colônias, deixando-as desenvolver de maneira autônoma, e que isso foi positivo para essas mesmas regiões, pois desenvolveu em seus habitantes um senso de responsabilidade e de autogoverno. Toda essa situação passaria a se transformar quando, em 1763, a Inglaterra encerrasse um conflito com a França denominado de Guerra dos Sete Anos.


A GUERRA DOS SETE ANOS

A Guerra dos Sete Anos foi um conflito de importância capital no século XVIII, pelo número de nações envolvidas, pela amplitude dos cenários de combate e pelas consequências que trouxe. A guerra envolveu França, Áustria, Saxônia, Império Russo, Império Sueco e Espanha, por um lado, que se colocaram contra Inglaterra, Portugal, Prússia e o Reino de Hanover, do outro lado. Estendeu-se do ano de 1756, quando os franceses tomaram a iniciativa e iniciaram o conflito ao invadir a ilha britânica de Minorca, no Mediterrâneo, até 1763, quando as principais potências beligerantes decidiram pela assinatura do Tratado de Paris e pelo encerramento das hostilidades. Antes deste, outros tratados, como o de São Petersburgo e o de Hubertusberg já haviam selado a paz entre outras partes do conflito. As motivações para a guerra situavam-se particularmente na disputa pelas terras coloniais, envolvendo também a disputa econômica entre Inglaterra e França, assim como a supremacia política no interior do Sacro Império Romano Germânico, opondo austríacos e prussianos.

Os combates iniciaram-se em território europeu, espalhando-se pela Ásia, pela África e pela América. No caso do território das Treze Colônias, desenvolveu-se um conflito associado à Guerra dos Sete Anos, denominado enquanto Guerra Franco-Indígena. Franceses e ingleses, com o apoio de indígenas para ambos os lados, lutaram pela posse do território do Canadá, com grande vantagem para os ingleses, já que as tropas francesas estavam isoladas na navegação do Atlântico pelas forças marítimas inglesas.

Ao final o conflito em 1763, com a assinatura dos tratados de paz, ingleses e prussianos sagraram-se como vitoriosos na guerra. No caso da Inglaterra, a vitória no conflito trouxe grandes ganhos territoriais, como a incorporação de quase a totalidade do Canadá, a conquista da Louisiana, da Flórida, de territórios no Caribe, além de estabelecerem uma primeira base de exploração no território indiano, cuja dominação seria ampliada no século XIX. No entanto, a extensa guerra trouxe vultosos custos para os cofres da Coroa inglesa, que precisava rapidamente encontrar uma solução para esta questão.


A QUESTÃO DOS IMPOSTOS

Ainda no século XVIII, em virtude de todos os eventos em que havia se envolvido, o governo inglês não havia estabelecido sobre suas colônias o tipo de controle predatório que marcava a situação de outros territórios dominados por europeus na América. O que marca a mudança dessa postura é a quase falência a que chega o governo inglês em virtude dos gastos oriundos da Guerra dos Sete Anos. Como na Inglaterra o rei George III considerava que a carga tributária estava alta o suficiente, decidiu-se que era o momento de expandir estas cobranças sobre os territórios coloniais.

O primeiro ímpeto neste sentido de ampliar a carga tributária e as restrições mercantilistas sobre o território das Treze Colônias se dá com a implantação da Lei do Açúcar, em 1764. Esta lei substituía uma lei de 1733, a Lei do Melaço, baixando os impostos sobre este produto, utilizado principalmente para a fabricação do rum, o qual era utilizado na África para ser trocado por escravos. Ao mesmo tempo que diminuía essa cobrança, aumentava as taxas sobre qualquer açúcar que não fosse adquirido junto aos produtores ingleses nas Antilhas. Foi alvo de protestos e reclamações por parte dos colonos até ser revogado em 1766, quando o Parlamento baixou os impostos sobre qualquer melaço ou açúcar importado pelos colonos.

Mais ultrajante aos olhos dos colonos, e citada na historiografia norte-americana como o ponto decisivo nas disputas entre as áreas coloniais e a Inglaterra, foi a aprovação da Lei do Selo de 1765. Essa obrigava qualquer publicação que circulasse na colônia, como jornais, revistas e documentos diversos, a levarem em si um selo, vendido pelo governo inglês, o que comprovava o seu pagamento. Essa nova cobrança, imposta pelo Parlamento britânico sem consultar os colonos, incomodou-os profundamente, levando a manifestações em Nova York. Percebendo tal insatisfação, e notando que os custos para a produção do selo não eram cobertos por sua venda, o governo revogou esta decisão em 1766.

No ano seguinte, em 1767, novas cobranças foram impostas, através de um conjunto de leis chamado de Atos Townshend, em referência a Charles Townshend, um dos responsáveis pelo controle dos fundos reais, que apresentou a proposta de tais cobranças, aprovadas pelo Parlamento. Os Atos Townshend buscavam regular diversos aspectos econômicos nas colônias, em especial criando impostos sobre produtos importados, como vidro, papel e chá. Mais uma vez, protestos tomaram conta das colônias, já que seus habitantes questionavam a ideia de o Parlamento impor tais cobranças sem haver uma consulta aos colonos. Começava a surgir um dos lemas de mobilização dos norte-americanos contra os ingleses, a ideia de “nenhuma taxação sem representação”, o que significava a exigência da participação de representantes norte-americanos no Parlamento inglês, o que foi simplesmente ignorado.

Em 1768, outro evento importante teve lugar, quando o comerciante John Hancock, junto a tripulação de um de seus navios, aprisionou um oficial inglês que buscava inspecionar a carga da embarcação, enquanto a mesma era descarregada sem o pagamento dos impostos referentes àquelas mercadorias. Como consequência por este ato de contrabando, Hancock teve seu navio confiscado, ampliando a insatisfação e os protestos na região de Boston. Em decorrência destas manifestações e para garantir o cumprimento das cobranças, houve um aumento da presença de soldados ingleses, e as tensões entre estes e os colonos levou a um primeiro conflito, que aguçou o sentimento anti-britânico nas colônias: o Massacre de Boston. Ocorrido em março de 1770, o Massacre aconteceu como uma reação das tropas inglesas presentes em Boston contra protestos de moradores da região, sendo que cinco destes manifestantes foram mortos a tiros, mesmo os soldados tendo a ordem de não atirar. A este evento seguiu-se um processo, no qual a maior parte dos militares acabou sendo inocentada. Tal decisão, somada às ilustrações que foram feitas e distribuídas por Paul Revere, fomentaram ainda mais a insatisfação dos colonos.


PRIMEIROS CONFLITOS

A tensão entre ingleses e colonos chegou a seu ápice em 1773, quando o Parlamento inglês aprovou uma nova determinação a ser executada nas colônias, a chamada Lei do Chá. Esta nova decisão teve impacto singular no processo de rompimento de relações entre colonos e ingleses pois, embora a lei chegasse a efetivamente baixar o preço do chá que era consumido nas colônias, obrigava os habitantes do futuro território norte-americano a compra-lo exclusivamente da Companhia das Índias Orientais, empresa de propriedade do governo inglês que passava por dificuldades financeiras à época. Diferentemente da Lei do Selo, tornava-se uma forma indireta de o governo inglês arrecadar fundos, as desagradou profundamente os colonos por se tornar uma nova imposição determinada sem nenhuma consulta.

Como reação a esta medida, em 16 de Dezembro de 1773, moradores da região de Boston disfarçaram-se de indígenas e, durante a noite, adentraram o porto e invadiram os navios da Companhia das Índias Orientais, arremessando ao mar toda a carga de chá ali presente. Esta manifestação foi liderada por uma organização secreta, denominada Filhos da Liberdade, que havia surgido em 1765 após a criação da Lei do Selo, sob a liderança de George Washington. Seu objetivo era salvaguardar os direitos dos colonos, e sua atuação foi secreta ao longo de oito anos, quando a Festa do Chá tornou-a conhecida do público.

A resposta do governo inglês à manifestação em Boston não tardou. No princípio de 1774, os ingleses aprovaram uma série de medidas, conhecidas como Leis Coercitivas ou Leis Intoleráveis. Entre as determinações dessas leis, figurava o fechamento do porto de Boston até que todos os prejuízos causados pelos colonos fossem ressarcidos. Também decidiu-se que os moradores de Massachusetts não teriam mais o direito de escolher seu governador, bem como se impôs a obrigatoriedade dos habitantes da colônia de abrigar e alimentar os soldados enviados pela Inglaterra.

Percebendo que tais atos violavam todos os direitos dos moradores não apenas de Massachusetts, mas das colônias como um todo, no mesmo ano de 1774 representantes das 13 regiões coloniais reuniram-se no Primeiro Congresso Intercontinental da Filadélfia, entre os meses de Setembro e Outubro. no qual decidiram impor um boicote ao comércio com sua metrópole. Não havia ainda entre esses congressistas um sentimento de independência plenamente estabelecido, mas se buscava um restabelecimento da normalização das relações entre as regiões, tal como ocorria antes de 1764. Buscando impor seu controle sobre suas áreas coloniais, o Parlamento inglês aprovou em 1775 novas leis restritivas, que tencionavam impedir os colonos de realizar comércio com qualquer outra nação.

Como o clima entre os “casacos vermelhos” (soldados ingleses) e os “patriotas” (colonos) tornava-se cada vez menos amistoso, tropas britânicas receberam ordens para buscar e confiscar material militar que estava sob posse dos habitantes de Concord, em Massachusetts. Tomando conhecimento da intenção dos ingleses, os moradores desta cidade, junto a outros de áreas vizinhas, formaram uma resistência armada, que abriu fogo sobre os “casacos vermelhos” quando estes chegaram para cumprir suas ordens. A chamada Batalha de Lexington e Concord foi o primeiro enfrentamento que levou ao processo de independência das Treze Colônias, em 19 de Abril de 1775.


A DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA

Com os combates acontecendo, na metade de 1775, representantes das 13 Colônias novamente se reuniram, no Segundo Congresso da Filadélfia. Naquele momento, a situação havia se alterado em relação ao Primeiro Congresso, pois as agressões militares inglesas estavam acontecendo de maneira mais consistente. Desta maneira, as decisões tomadas nesse segundo encontro foram de caráter diferente. Decidiu-se, em primeiro lugar, pela criação de um exército continental, que fosse capaz de fazer frente às forças inglesas. Entenderam os colonos que era necessário defender-se militarmente enquanto os ataques metropolitanos dificultassem a manutenção de seus direitos. Ao mesmo tempo, os representantes das regiões coloniais ainda tentavam resolver a questão ao demandar uma pacificicação, buscando a intercessão do rei George III através da Olive Branch Petition, a qual foi ignorada pelo monarca. Com o agravamento dos conflitos, em 2 de Julho de 1776, os congressistas votaram a Resolução Lee, apresentada por Richard Henry Lee, representante da Virgínia, através da qual concordavam que as Treze Colônias formavam, a partir daquele momento, Estados Independentes e livres do controle britânico.

Entretanto, o que formalizou o pedido de separação foi a assinatura, em 4 de Julho de 1776, da Declaração de Independência. Este documento foi elaborado por uma comissão de congressistas, mas Thomas Jefferson é usualmente lembrado como seu autor principal. Nesta declaração, constam princípios que, posteriormente, seriam aplicados em outros processos de luta por libertação colonial. Estas ideias são derivadas diretamente do Iluminismo, em particular da obra de John Locke, que enunciou a ideia de que os homens são portadores de direitos naturais, e que os governos são instituídos enquanto um mecanismo de preservação dos mesmos. Uma vez que os governos tornem-se tirânicos, ao não cumprirem esta sua premissa básica, era garantido aos cidadãos mobilizarem-se e trocarem este governos. Embasados por estas noções, os representantes das Treze Colônias elaboraram este documento, enviando-o ao rei para comunicar sua decisão. O monarca inglês, ao tomar conhecimento da decisão, declarou que as colônias estavam em estado de rebelião, e mobilizou mais forças militares para conter essa revolta, contratando inclusive mercenários alemães para esta empreitada.


A GUERRA PELA INDEPENDÊNCIA

Os combates entre norte-americanos e ingleses que marcaram a guerra de independência dos Estados Unidos, ocorreram entre 1775 e 1783. No princípio, os combates aconteceram principalmente na região de Massachusetts, onde, em virtude da importância econômica do porto de Boston, estava estacionada a maior parte das forças metropolitanas. Com a Declaração de Independência e a formação de governos revolucionários nas colônias, os combates se disseminaram por todo o território, contando com a chegada de mais militares ingleses e dos mercenários estrangeiros.

Neste momento, inimigos da Inglaterra na Europa, como a França e a Espanha, começaram a se envolver de forma discreta no conflito, enviando armas e munições ao rebeldes norte-americanos. Mesmo assim, os colonos, lutando sob a liderança de George Washington, ainda sofriam grandes derrotas nas campanhas que desenvolveram entre 1776 e 1777, tais como em Nova Jérsei e Nova York. Foi a partir da Batalha de Saratoga, no final de 1777, que os norte-americanos passaram a ter mais vitórias e virar o rumo da guerra. Essa conquista foi fundamental para que o governo de Luís XVI da França se envolvesse em definitivo no conflito no ano de 1778. No ano seguinte, foi a vez da Espanha também declarar seu apoio aos colonos e, em 1780, foram os holandeses que vieram somar forças com os norte-americanos. Agora, para além de uma descolonização, o que entrava em disputa eram as antigas rivalidades das potências europeias, com franceses, espanhóis e holandeses buscando, em meio ao conflito, também retomar terras que haviam perdido para os ingleses, além de poderem, por meio do apoio à independência de uma colônia britânica, enfraquecer seu principal adversário.

Esta intervenção estrangeira, com grande força a partir de 1780, foi fundamental para que os ingleses começassem a repensar seu posicionamento frente à atitude dos colonos. Com as seguidas derrotas e perdas de território na América, os parlamentares passaram a cada vez mais considerar as Treze Colônias enquanto nação independente, pois esta era a condição necessária para o encerramento da guerra, por parte dos norte-americanos. O elemento decisivo para que esta decisão fosse tomada foi a derrota inglesa na Batalha de Yorktown, no final de 1781, quando as tropas norte-americanas, com o apoio do general francês La Fayette e outros militares franceses, conseguiram a capitulação de mais de oito mil soldados britânicos. A partir daquele momento, ainda outras batalhas se seguiram, mas os ingleses já não tinham mais condições de reverter sua derrota.

O reconhecimento da independência das Treze Colônias, com o consequente estabelecimento da paz, foi firmado em 3 de setembro de 1783, quando, no Palácio de Versalhes, reuniram-se representantes dos colonos e da Inglaterra e foi assinado o Tratado de Paris. Esta assinatura pôs fim ao período colonial norte-americano e inaugurou sua história enquanto nação independente.


LIBERTAÇÃO E ORGANIZAÇÃO INTERNA

A organização interna da nova nação começou ainda quando os combates contra a Inglaterra estavam se desenvolvendo. Em 1777, o Congresso da Filadélfia, que funcionaria até 1781, aprovou um conjunto de normas e diretrizes chamado de Atos da Confederação. Entre as várias medidas de organização que este documento trouxe, um elemento de destaque é a utilização pela primeira do nome Estados Unidos da América para o conjunto das colônias que então buscavam sua libertação. Funcionou com seus elementos originais até a revisão de 1786, quando se decidiu que deveria vigorar até 1790. Antes disso, em 1788, foi ratificada a Constituição dos Estados Unidos da América, que passou a existir como o conjunto fundamental de leis e princípios da nova nação, concluindo seu processo de libertação perante o domínio inglês. Entre seus aspectos importantes, ressalta-se a criação de um governo republicano e presidencialista, cujo cargo máximo foi ocupado pela primeira vez por George Washington, o líder militar que levou os norte-americanos à sua vitória. Também se destaca a formação de um sistema federativo, garantindo liberdade na elaboração de leis para os vários estados que compunham a nação. Porém, dentro do texto constitucional, as garantias de liberdade não foram estabelecidas para todas as pessoas, visto que mulheres ainda não participavam do processo político, que os indígenas não foram contemplados com garantias e houve um silenciamento quanto à condição dos escravos. Essas questões ainda demandariam tempo e outras lutas para que fossem solucionadas.


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