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Gentrificação
 
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Gentrificação (do inglês gentrification) é um processo de investimento de capital e migração residencial que afeta uma região ou bairro, alterando as dinâmicas da composição do local, seja por meio de novos pontos comerciais, seja pela construção de novos edifícios, valorizando a região e afetando a população de baixa renda local. Ao longo do texto, vamos discutir o que é este processo, quais as suas consequências, quais os agentes envolvidos, e como isso ocorre no Brasil.


Imagem de Free-Photos via Pixabay



HISTÓRIA DA GENTRIFICAÇÃO

Historicamente, os primeiros sinais de gentrificação podem ser observados, ainda que de forma altamente localizada, durante o final da década de 1950, em Londres, e depois na década de 1960 nas cidades mais antigas da América do Norte e da Europa ocidental. Durante esta fase inicial, a gentrificação foi pautada por zoneamentos governamentais e políticas tributárias criadas para neutralizar o declínio econômico urbano.

Os processos de gentrificação passam a ser mais difundidos, no mundo industrializado, a partir da recessão econômica dos anos de 1970. Neste período, os capitalistas buscavam novas oportunidades de investimentos rentáveis no setor imobiliário. Entre o final dos anos de 1970 e o início dos anos de 1990, começa uma segunda fase da gentrificação. Durante este período, o reinvestimento nos centros das cidades refletia a globalização dos sistemas de produção urbanos, o aumento do comando corporativo e dos sistemas de controle com relação à concentração urbana. Em Nova Iorque, podemos encontrar exemplos típicos deste processo nos bairros de SoHo, entre os anos de 1960 e 1970.

Os limites territoriais da gentrificação foram expandidos significativamente no início dos anos 1990. Com a recessão nos Estados Unidos, alguns estudiosos previam o "fim da gentrificação" à medida que o capital dos investidores evapora em tempos de crise. Ao invés disso, após a recessão, uma terceira onda de gentrificação começou a se cristalizar, já que bairros localizados cada vez mais longe do centro da cidade experimentaram novo desenvolvimento após um investimento financeiro. Williamsburg e Brooklyn são exemplos disso.

Nos anos 2000, a política urbana desembocou em uma série de iniciativas públicas e privadas que continuaram a promover a transformação dos bairros em grandes metrópoles e em pequenas cidades ao redor do mundo. Uma consequência importante é que cada vez mais as cidades assumem uma forma, normalmente, associada à Paris: um núcleo burguês cercado por uma cidade periférica e subúrbios de imigrantes estrangeiros e trabalhadores de baixa renda. Neste novo modelo, os ricos e a classe média dominam as zonas centrais da cidade, enquanto as classes populares estão cada vez mais relegadas às zonas periféricas e distantes.



MAS O QUE É GENTRIFICAÇÃO?

O termo “gentrificação” foi proposto, pela primeira vez, por Ruth Glass, em 1964. Segundo ela, as relações de classe estão no centro do processo, que geralmente envolve o deslocamento de residentes da classe trabalhadora e a chegada gradual de uma nova “nobreza” de classe média alta. Tendo como referência então as relações de classe, o processo de gentrificação das últimas décadas deve ser entendido à luz de dois grandes movimentos: o deslocamento da população (que saiu dos centros urbanos e foi para lugares mais afastados) e da desindustrialização. Isto se tornou bastante claro a partir do pós-guerra. Neste período, várias cidades dos Estados Unidos e Europa ocidental experimentaram um declínio constante na produção indústria, tendo como consequência, um grande êxodo de pessoas de classe média das cidades, bem como das indústrias, deixando parte das construções urbanas abandonadas. Nestas condições, muitas propriedades no centro das cidades perderam o seu valor e foram vistas, pelo capital imobiliário, como fontes de reinvestimento e especulação.

Podemos dizer que a constante mudança entre períodos de investimento e abandono permite que empreendedores imobiliários comprem estabelecimentos a custos baixos e explorarem o alto valor potencial de uma propriedade reformada. Assim, os investimentos especulativos nas regiões centrais das cidades feitas pelos capitalistas imobiliários parece ter um papel fundamental no processo de gentrificação.

Em muitas das principais cidades do mundo, esta lacuna foi ocupada por empresas multinacionais, tendo como consequência um domínio da economia local. Nesta nova configuração pós-industrial do desenvolvimento urbano, surgem novos profissionais que geram uma demanda por moradias de luxo que estejam nas proximidades do seu trabalho.

Como se pode imaginar, a gentrificação produz uma série de efeitos. Durante a gentrificação, alguns bairros sofrem transformações drásticas em seu ambiente construído. Novos edifícios são construídos; edifícios já existentes são atualizados; o espaço industrial é adaptado a um ambiente cheio de construções residenciais; e novos estabelecimentos comerciais são inaugurados (como restaurantes de luxo, cafés, boutiques, galerias de arte e lojas de roupas sofisticadas).

Nestes lugares, fábricas industriais são gradativamente substituídas por lofts de artistas, galerias, e novas atividades de varejo. Em meio a isso, os ambientes sociais baseados nas classes e etnias, há muito tempo estabelecidos, são desestabilizados ou mesmo dissolvidos a partir do momento em que novas elites econômicas e culturais (frequentemente compostas por homens brancos) se estabelecem na área.



OS DIFERENTES AGENTES DA GENTRIFICAÇÃO

Pesquisadores tem dado uma atenção mais detalhada, em um nível, digamos, microssociológico, aos agentes da gentrificação. Muitos estudos de caso demográficos e etnográficos se concentram em diferentes tipos de gentrificadores, como: artistas, comunidade LGBT, estudantes universitários, mulheres solteiras e jovens profissionais.

Além desses diferentes perfis, os agentes gentrificadores podem variar quanto à forma com a qual eles efetuam este processo. Alguns estudos traçam uma distinção entre gentrificadores “marginais” (que são aqueles recém-chegados que investem capital de suor em suas residências) e gentrificadores “yuppies” (que são aqueles com recursos financeiros para a compra definitiva da propriedade). A gentrificação acaba permitindo, então, que alguns membros marginalizados da sociedade garantam sua própria propriedade assim como outros recursos da comunidade.

Um exemplo disso é a comunidade LGBT. Este grupo costuma a ser peça-chave neste processo de gentrificação, na medida em que busca evitar áreas de discriminação explícita e procuram encontrar locais em que se sintam à vontade tanto em seu estabelecimento comercial, como em suas atividades do dia-a-dia. Do mesmo modo, artistas buscam grandes espaços para a construção de seus estúdios, espaços estes que frequentemente se encontram em antigas zonas industriais. Normalmente, eles acabam se envolvendo em extensas reformas. Eles convertem grandes armazéns em um espaço misto (mesclando moradia e trabalho), ajudando na transformação de áreas industriais em áreas residenciais.

Nos estágios iniciais da gentrificação, estes grupos sociais marginalizados podem ter um papel de liderança na organização do bairro. Ajudando a restaurar transformar edifícios, estes moradores aumentam os valores das propriedades. Governos municipais e locais geralmente incentivam esta transformação em pequena escala, que são vistas como uma forma de aumentar impostos sobre as propriedades e sobre os aluguéis. Tendo em vista estes novos padrões residenciais, os governos das cidades costumam a alterar o próprio zoneamento de áreas industriais permitindo assim o uso misto.

Em última análise, no entanto, os segmentos gentrificadores da classe média tendem a colonizar bairros da classe trabalhadora ou de minorias étnicas, criando pressões habitacionais a longo prazo. Além disso, muitos dos primeiros gentrificadores acabam se tornando vítimas de seus próprios esforços de renovação. Ao melhorar as propriedades locais e fazer lobby por mais serviços na região, os primeiros gentrificadores aumentam os valores das propriedades e os preços de aluguel, criando assim as condições para uma nova rodada de gentrificação posterior e, claro, um ambiente que obrigue o seu próprio deslocamento do local.



OUTROS CAMPOS DE CONHECIMENTO

Ainda que a abordagem teórica para sobre o tema da gentrificação tenha como foco principal as explicações polarizadas que enfatizam o lado produtivo ou interpretações relacionadas a hábitos de consumo, recentemente alguns estudiosos já começam a se debruçar sobre o impacto deste processo de gentrificação para outras áreas do conhecimento como, por exemplo, no âmbito estético.

Parece claro que a nova classe média passou a apreciar de maneira mais efusiva a estética da vida urbana em conjunto com os movimentos da contracultura dos anos de 1960 e 1970. Existem padrões distintos também de gentrificação relacionados a gênero, em parte devido às mudanças nas condições de vida das mulheres dentro da classe média.

Os historiadores da arte se interessaram muito por bairros gentrificados, seja por serem locais que propiciam novas formas de produção artística, seja por serem lugares que estimulam a criatividade, seja como fonte de conflito político dentro do próprio mundo da arte. Já os arquitetos, parecem entender a gentrificação menos como uma teoria social e mais como uma oportunidade de repensar alguns aspectos do planejamento urbano.



GENTRIFICAÇÃO NO BRASIL

Ainda que haja muitas diferenças entre a forma com que se deu a urbanização no Brasil e aquela que ocorreu nos países anglo-saxões, é possível encontrar traços de gentrificação aqui em nosso país. Sobretudo nas grandes cidades, temos casos de mudanças de perfil de renda, decorrentes de retirada e substituição de população local, ligadas a operações urbanas de "renovação", "requalificação", "revitalização", etc.

A esse respeito, um grande destaque está no bairro do Pelourinho, em Salvador. Aquilo que ficou chamado “operação Pelourinho” foi um projeto de recuperação de um dos mais expressivos conjuntos arquitetônicos do período colonial brasileiro, envolvendo um grandioso patrimônio histórico e cultural.

No ano de 1992, o centro histórico da cidade de Salvador sofreu uma grande reestruturação que foi executado em um prazo extremamente rápido. Tal reformulação foi alvo de inúmeras críticas, em especial, o fato de não ter levado em consideração as autoridades municipais e federais de preservação de patrimônio. Atualmente, o bairro é tido como o centro cultural da cidade, bem como, concentra a maior parte do turismo. Como frequentemente acontece em casos de gentrificação, boa parte da população que vivia na região se viu forçada a mudar para a periferia.

Podemos identificar um processo de gentrificação de maneira mais lenta e contínua, quando observamos certos bairros da região metropolitana do Rio de janeiro, em especial, nos bairros de Copacabana e Icaraí (Niterói). Lá, o que se vê é uma degradação constante do patrimônio histórico.



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