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Fibrose Cística Causas, Sintomas e Prevenção
 
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 O QUE É A FIBROSE CÍSTICA Imprimir Enviar Guardar
 
A fibrose cística, também conhecida como mucoviscosidade, é uma doença hereditária causada por genes autossômicos recessivos que afeta principalmente os pulmões e o pâncreas. É uma doença grave que causa um aumento da viscosidade do muco pulmonar e pancreático e, embora seja raro, em alguns casos a doença também pode afetar o fígado. As pessoas com a doença chegam a produzir até 60 vezes mais muco do que uma pessoa normal e com uma consistência muito mais viscosa.


Ilustração pulmões humano.
Crédito: brgfx via Freepik.

Nos pulmões, este muco pode causar obstruções sobre os importantes processos de trocas gasosas. Além disso, o bloqueio das vias aéreas acarreta a proliferação de bactérias, principalmente estafilococos e pseudômonas, que podem causar infecções crônicas, além de inchaço e inflamações que se agravam ao longo do tempo, levando grande parte das pessoas acometidas pela doença à morte precoce.

No pâncreas, o muco espesso pode entupir o canal colédoco, por onde saem as enzimas digestivas produzidas no órgão, dificultando a digestão de diversas macromoléculas. As pessoas com a mutação passam a ter sérios problemas de nutrição, resultando em baixo peso e problemas de desenvolvimento físico.

Não é incomum pessoas com fibrose cística terem que tomar enzimas digestivas para auxiliar no processamento de nutrientes.


Ilustração do pâncreas humano.
Crédito: brgfx via Freepik.

O índice de mortalidade da doença é bastante grande, e pode levar as pessoas doentes ao óbito ainda nas fases iniciais de vida. Nos últimos anos, com o desenvolvimento de novos tratamentos, o prognóstico de sobrevida aumentou muito e mais de 75% dos pacientes sobrevive até pelo menos a adolescência. Cerca de 50% das pessoas com a doença chegam até idades superiores a 30 anos. A expectativa de vida média de uma pessoa com fibrose cística é de 44 anos. A doença atinge cerca de 70 mil pessoas e todo o mundo, sendo a doença genética grave mais comum detectada na infância. A doença ocorre devido a mutações no gene conhecido como CFTR, que produz uma proteína de mesmo nome. Existem diversas mutações diferentes que afetam a tradução dessa proteína na célula e que podem causar fibrose cística nas pessoas que possuem a anomalia. Esta proteína atua diretamente na liberação de água pelas células para a produção de muco, com a alteração, além de ser produzido em excesso, a secreção fica muito mais espessa, causando diversos tipos de transtornos. 80% das pessoas morrem de complicações pulmonares, devido a infecções acometidas pelo problema. Não existem diferenças no número de casos entre homens e mulheres e, no Brasil, a doença afeta 1 em cada 10.000 recém-nascidos.

Os primeiros sintomas podem aparecer já nas primeiras fases de vida, tendo em vista que as crianças não conseguem digerir o alimento, o que por sua vez, é evidenciado por casos claros de desnutrição e de subdesenvolvimento. Alguns casos mais leves da doença podem ser detectados apenas na idade na adolescência ou na idade adulta. Como é uma doença de caráter hereditário não existe prevenção e nem cura para a mesma, a única perspectiva de quem adquire o gene mutante dos pais é o tratamento posterior para tentar evitar que os sintomas apareçam, ou ainda, para diminuir a gravidade dos mesmos. Todos os esforços são concentrados em aumentar a expectativa e qualidade de vida das pessoas que portam a doença, recentemente novos medicamentos tem aparecido e prometem melhorar significativamente a vida dos portadores da doença.



QUAIS SÃO OS SINTOMAS E COMO DIAGNOSTICAR A FIBROSE CÍSTICA

A manifestação da doença, bem como a gravidade com que ela atua varia muito de pessoa para pessoa, existem mais de mil tipos de mutações já detectadas para o gene da CFTR, o tipo de mutação é o que determina os sintomas e o início do desenvolvimento da doença. Alguns dos sintomas mais comuns a partir do início do desenvolvimento da fibrose cística é uma tosse persistente acompanhada de secreção de suor mais salgado do que o normal. Processos infecciosos recorrentes como pneumonia, ou inflamatórios como bronquite também são bastante comuns. Icterícia, pancreatites e cirroses biliares podem ser outros sintomas associados à doença. Com o desenvolvimento dos primeiros sintomas, fica evidente também deficiências nutricionais, que resultam em baixo peso e alterações nos processos de crescimento. Fezes volumosas e ricas em gordura também são resultados dos processos de má digestão dos alimentos causado pelo muco que se acumula no pâncreas.

Muitos indivíduos com o gene mutante para fibrose cística podem levar anos para apresentar sintomas da doença, somente 5% das pessoas com a doença apresentam sintomas desde a fase do nascimento, o que normalmente é evidenciado pela obstrução intestinal de mecônio, que pode ser visualizada em processos de ultrassonografia ainda durante a gravidez. É comum que os sintomas passem por períodos de alta intensidade, seguidos de processos assintomáticos, normalmente o período entre estas duas vai diminuindo com o tempo e os sintomas aparecem de forma cada vez mais graves.

Diante da gravidade da doença o diagnóstico precoce é fundamental para que a pessoa com a mutação aumente sua qualidade de vida e inicie o tratamento para prolongar os efeitos adversos da doença. Normalmente o processo de diagnose iniciam-se nos processos de triagem neonatal, conhecido como teste do pezinho, e baseia-se na quantificação da enzima pancreática tripsina imunorreativa (IRT). O processo de detecção da enzima deve ser realizado em duas etapas e no máximo até 30 dias após o nascimento da criança. Após este procedimento, que é apenas indicativo da presença da doença, são realizados testes de confirmação a partir da quantidade de cloretos no suor da criança. A partir dos níveis de alteração desses sais no suor do recém-nascido, que deve ser maior que 60 mmol/l nas duas amostragens, é feito a confirmação da fibrose cística.

É bom lembrar que o teste neonatal, apesar de eficiente, identifica apenas alguns recém-nascidos com riscos de desenvolver a doença, assim a triagem negativa não exclui completamente o risco da doença se manifestar posteriormente. O teste pode ser realizado também por análises de DNA, porém este tipo de diagnose ainda tem custo elevado no Brasil. Especialistas ressaltam que a diagnose do DNA mutante é importante para permitir o planejamento das famílias no tratamento da pessoa com a doença. Imediatamente após os diagnósticos é necessário que o tratamento seja estabelecido exigindo abordagens multidisciplinares que tenham como objetivo evitar os processos de desnutrição, e também de alterações nos processos respiratórios.

Os laboratórios credenciados para realizar a confirmação da doença devem possuir certificação adequada destinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), possuir equipamentos e pessoal especializado para extração e manipulação de amostras genéticas. Ser capaz de identificar mutações e sequenciamento completo do gene CFTR, além de ser capaz de relacionar seus resultados com diagnósticos seguros.



COMO É FEITO O TRATAMENTO DA FIBROSE CÍSTICA

Após o diagnóstico da doença, os pacientes requerem um tratamento constante e regular por uma equipe médica interdisciplinar. São utilizadas, desde os primeiros sintomas, enzimas pancreáticas para auxiliar na digestão dos nutrientes, suplementação de vitaminas, principalmente as lipossolúveis (A, D, E e K), suporte dietético e fisioterapia respiratória para evitar a obstrução dos alvéolos pulmonares. No caso de recém-nascidos diagnosticados de forma positiva, indica-se a imunização através de vacinas antipneumocócica e anti-hemófilos já nas fases iniciais de desenvolvimento. Em casos de infecções posteriores ao aparecimento da doença, causadas pela proliferação de bactérias no pulmão, são utilizados antibióticos de alta eficiência.

Recentemente a ANVISA aprovou a liberação no mercado nacional de dois medicamentos que tem apresentado resultados bastante surpreendentes na melhoria da qualidade de vida dos pacientes. O primeiro deles, chamado de Orkambi, é composto por dois princípios ativos, o lumacaftor e o ivacaftor, que têm mostrado ótimos resultados sobre inflamações de vias respiratórias de portadores da fibrose cística. Este medicamento funciona como modulador da CFTR, resgatando a função da proteína nas pessoas doentes. O segundo medicamento é o Kalydeco, composto apenas pelo ivacaftor. O modo de funcionamento é semelhante ao Orkambi, porém seus resultados têm sido menos efetivos. Nos Estados Unidos foi liberado, pela Food and Drug admisnistration (FDA) um terceiro medicamento, o Symdeco que combina as drogas tezacaftor e ivacaftor. Cada um destes medicamentos tem suas particularidades, apesar de todos atuarem como modeladores proteicos, a indicação de qual tipo de medicamento deve ser utilizado depende diretamente da detecção do tipo de mutação que aconteceu no DNA responsável pela produção da proteína CFTR.

Estudos ainda estão sendo realizados para verificar se existem interações medicamentosas entre estes remédios com outros medicamentos utilizados comumente por pessoas portadoras da fibrose cística, tendo em vista o alto número de inflamações e infecções a que estas pessoas estão submetidas. Testes feitos com a combinação dos medicamentos descritos acima também estão sendo realizados e acredita-se que novos moduladores da proteína CFTR podem surgir em breve aumentando a eficácia das terapias contra processos de inflamação pulmonar causados pela fibrose cística. Estes são os primeiros medicamentos a tratar sintomas relacionados a doença genética, antes de sua descoberta todos os tratamentos estavam relacionados apenas a controlar os efeitos da doença.

No Brasil o tratamento com estes novos medicamentos é indicado a partir dos 6 anos de idade. Nos Estados Unidos o tratamento é liberado com crianças a partir de dois anos de idade e, segundo especialistas, a tendência é que os tratamentos se iniciem logo após o diagnóstico em recém-nascidos. É unanime a opinião que quanto mais precoce é o início do tratamento, menores são as chances do desenvolvimento de danos crônicos e irreversíveis da fibrose cística. Ainda não se sabe se estes novos medicamentos ampliarão a expectativa de vida dos doentes, porém todos os estudos indicam que sim, além disso, a qualidade de vida das pessoas portadoras da fibrose cística tem uma melhora significativa de acordo com os resultados obtidos até o momento.

Um outro ponto importante é que apesar da liberação pela ANVISA, os medicamentos ainda não são distribuídos pelo SUS. O custo do tratamento ainda é bastante alto, o que pode inviabilizar o tratamento imediato de pessoas que sofrem desse mal. Nos Estados Unidos estima-se que o custo do tratamento gire em torno de 150 mil dólares por ano, além disso os medicamentos devem ser tomados pelo resto da vida. Entidades envolvidas com a divulgação da importância da doença têm trabalhado arduamente para tentar a liberação dos medicamentos de forma gratuita no Brasil. O principal grupo de apoio as pessoas com fibrose cística hoje no Brasil é o Instituto Brasileiro de Atenção à Fibrose Cística, que coordena grande parte dos projetos ligados à divulgação da doença, bem como do desenvolvimento de políticas públicas para as pessoas acometidas pela doença, suporte e pesquisa sobre o distúrbio. O Instituto é responsável pela criação da campanha Setembro Roxo – Mês Nacional de conscientização da fibrose cística. Em que diversas ações saõ realizadas, durante todo o mês, de forma presencial e virtual, em 2019 mais de 50 cidades já confirmaram eventos em prol das pessoas que sofrem com a fibrose cística.



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