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Determinismo
 
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O determinismo é uma posição filosófica que alega que eventos passados e as leis da natureza fixam ou definem os eventos futuros. Seria o determinismo uma descrição precisa de como os eventos do mundo ocorrem? E neste contexto, haveria livre-arbítrio (ou seja, nós teríamos escolhas)? Estas são algumas preocupações filosóficas que envolvem o conceito de determinismo.

Normalmente, os filósofos apresentam definições variadas e imprecisas para o termo “determinismo”. Começamos, então, com uma ideia geral: O mundo é governado pelo determinismo se e somente se: dada a forma como as coisas são, a maneira a qual as coisas serão é fixada pelas leis da natureza.


Segundo o Determinismo, somos "marionetes" dos eventos passados e das leis da natureza. Foto: PixaBay

Ainda que esta definição seja um pouco complicada, suas raízes estão em uma ideia filosófica bastante simples, a saber: a ideia de que, em princípio, tudo pode ser explicado. É o que o filósofo alemão Leibniz (1646-1716) chamou de “princípio da razão suficiente”: tudo o que é tem uma razão suficiente para ser como é.

Podemos dizer que desde as primeiras articulações claras do conceito, tem havido uma tendência, entre os filósofos, de defender algum tipo de doutrina determinista. No entanto, também há uma tendência muito grande em confundir determinismo com outras noções relacionadas, como, por exemplo, o destino. Assim, antes de apresentarmos com mais detalhes o determinismo, vale a pena distingui-lo deste conceito.

O destino está ligado a outra tese filosófica: o fatalismo. O fatalismo é a tese de que todos os eventos (ou pelo menos alguns eventos) estão destinados a ocorrer, não importa o que façamos. Ou seja, o futuro está destinado a ser do jeito que ele será. Agora, a fonte que garante que esses eventos acontecerão pode estar localizada, por exemplo, na vontade dos deuses, em sua presciência divina, em algum aspecto teleológico intrínseco do universo e, portanto, não precisa estar necessariamente ligada a algum desdobramento de eventos sob o domínio de leis naturais ou relações de causa-efeito. Neste sentido, o fatalismo é, claramente, separável do determinismo (é sempre possível separar forças místicas, vontades e pré-conhecimento dos deuses, da noção de lei natural/causal).

Na prática, Isto significa que, de maneira geral, certas coisas podem estar destinadas a acontecer, sem que isso seja o resultado apenas de leis naturais determinísticas; e, por outro lado, o mundo pode ser governado por leis determinísticas, sem que nada esteja fadado a ocorrer (talvez porque não haja deuses, nem forças místicas/teleológicas que nos levariam a um fatalismo, e, em particular, nenhuma determinação intencional das “condições iniciais” do mundo).

Mas claro, em um sentido fraco do termo “determinismo”, é verdadeiro dizer que ao assumirmos o determinismo, dada a forma com que as coisas foram no passado, todos os eventos futuros que irão acontecer já estão destinados a acontecer.

Agora que está mais claro o que os filósofos entendem por determinismo, vamos discutir dois tipos em que ele aparece, a saber: determinismo causal e determinismo relativo. O primeiro deles afirma que os eventos passados e as leis da natureza causam exclusivamente eventos futuros. Ou seja, parece haver uma relação de causa e efeito entre eventos do passado e do futuro. De acordo com a segunda noção de determinismo, os eventos passados e as leis da natureza fixam, mas não causam, os eventos futuros. Há uma relação de correlação determinística entre passado e futuro.



DETERMINISMO CAUSAL

Vamos começar com o determinismo causal. Um exemplo clássico é a física de Newton. De acordo com a física newtoniana, todos os eventos são causados de forma determinística por eventos passados e por leis da natureza que envolvem força e movimento. Por exemplo, se as massas de um planeta e seus satélites (digamos, terra e lua) são conhecidas e juntamente a isso nós sabemos a velocidade inicial do satélite tangente à sua órbita, é possível prever a trajetória do satélite em torno de sua órbita em um tempo futuro qualquer. De fato, uma das maiores realizações da física newtoniana foi poder explicar a periodicidade do cometa Halley.

Como o determinismo causal afirma que o passado causa o futuro, ele pressupõe sempre a existência de uma causa. Por exemplo, uma bola de futebol pode ser a causa de uma janela quebrada. Embora a tese do determinismo causal entre os eventos seja bastante direta, existe um problema conceitual. Se todos os eventos são determinados causalmente por eventos passados, o que determinou o primeiro evento?

Esta questão foi discutida já no tempo de Aristóteles (384-322 a.C.). Sua proposta era postular a existência de algo que ele chamou de “motor imóvel” (por exemplo, Deus). Para ele, no início da cadeia de eventos da história do universo, deve ter havido um agente que causou o início desta cadeia, um motor imóvel. Nas palavras de Aristóteles: "Um cajado move uma pedra e é movido por uma mão, que é movida por um homem".

O debate acerca do que seria esta primeira causa é muito discutido ao longo da história da filosofia. Agora, antes de mais nada, é preciso saber se o determinismo deve ser visto, de fato, como causal.



DETERMINISMO RELATIVO

Alguns filósofos afirmam que o determinismo pode ser defendido sem assumir uma relação causal entre eventos passados e futuros. Peter van Inwagen (1942) é um desses filósofos. Para ele, o determinismo pode ser visto como uma tese sobre proposições (que é um termo usado em lógica para descrever o conteúdo de nossas asserções) que expressam informações sobre estados passados e futuros do mundo.

Neste contexto, o determinismo funcionaria seguindo as seguintes condições:

1. Para todos os tempos, há um uma proposição que expressa o estado do mundo naquele tempo.

2. Há um conjunto L de leis da natureza que se aplicam a todos os estados do mundo.

3. Se uma proposição P expressa o estado do mundo em um certo tempo, enquanto outra proposição Q expressa o estado do mundo em um tempo posterior, então P e L implicam Q.

(As letras maiúsculas aqui funcionam como as variáveis da matemática. L significa uma lei da natureza qualquer, P e Q simbolizam proposições distintas).

A vantagem, do ponto de vista filosófico, é fornecer uma noção de determinismo deixa de fora o termo obscuro "causa" e usa uma noção de singularidade do futuro para o passado. No entanto, o que o determinismo relativo deixa inexplicável é como os eventos passados passam a determinar exclusivamente eventos futuros. Ou seja, como essas correlações determinísticas ocorrem em primeiro lugar?

Na história da filosofia, podemos encontrar pelo menos duas respostas para esta pergunta: o ocasionalismo e a tese da harmonia pré-estabelecida. O ocasionalismo foi defendido por Nicholas Malebranche (1638-1715). De acordo com esta tese, Deus é a causa de todos os eventos e, assim, intervém para fazer com que qualquer evento passado dê origem a qualquer evento futuro. Eventos passados e futuros são correlacionados porque Deus faz com que pareça assim. O grande problema desta proposta é sua incompatibilidade com a noção de Deus padrão. O ocasionalismo parece defender uma representação menos ideal de Deus e de suas habilidades.

Outra forma de tentar responder à pergunta de como as correlações ocorrem é a tese da harmonia pré-estabelecida. Elaborado por Gottfried Leibniz, a conclusão, mais uma vez, é a de que Deus é a única causa de todos os eventos, mas, nesta teoria alternativa, há apenas uma intervenção de Deus que determina o curso de todos os eventos futuros. Imagine alguém que organiza milhares de dominós de uma maneira que, se um determinado dominó for atingido, o restante deles cairá na sequência.



CRÍTICAS AO DETERMINISMO

O que vimos até aqui é que há uma dúvida entre os filósofos sobre se o determinismo é causal ou relativo. Mas seria o determinismo verdadeiro? Em oposição ao determinismo, alguns filósofos defendem o indeterminismo, que é a tese de que nem todos os eventos futuros são fixados por eventos passados.

De acordo com o indeterminismo causal, os eventos passados ainda causam eventos futuros, mas não de maneira determinística. Uma maneira de fazer isto é por meio de uma causalidade probabilística. Uma motivação para alguém defender o indeterminismo causal está ligada ao sucesso da física quântica ou, mais precisamente, ao sucesso da interpretação de Copenhague da física quântica. De acordo com a interpretação de Copenhague da física quântica, é impossível prever com exatidão todos os estados futuros de um sistema físico. Tomemos um exemplo. De acordo com as relações de Heisenberg, é impossível prever com certeza o giro de um elétron em um tempo particular. A conclusão é a de que os estados de rotação de um elétron surgem indeterminadamente de seus estados de rotação anteriores. O problema é construir uma teoria não problemática da causa indeterminista.

Além disso, ainda que a intepretação de Copenhague da física quântica tenha sido extremamente bem sucedida, existem tentativas de dar uma Interpretação determinista para a mecânica quântica. Elas são conhecidas como teorias das variáveis ocultas, sendo a mais promissora a mecânica de Bohm. Tais teorias, postulam certas variáveis não observáveis experimentalmente, mas que descrevem de maneira determinística um estado físico.

Assim, alguém poderia alegar que basear um argumento a favor do indeterminismo causal na mecânica quântica é problemático, pois haveria uma explicação determinista da mecânica quântica. Ou seja, a mecânica quântica não opera necessariamente de maneira não determinística.



DETERMINISMO E LIVRE-ARBÍTRIO

A discussão sobre determinismo tem também consequências para o problema do livre-arbítrio, ou seja, sobre a nossa capacidade de fazer escolhas. O fato de o mundo ser determinado ou não parece ter consequências para a própria possibilidade de fazermos escolhas. A esse respeito temos três grandes posições filosóficas sobre este assunto. Segundo o determinismo duro (hard determinismo), o determinismo é verdadeiro e impede o livre-arbítrio. De acordo com o determinismo suave (soft determinismo), o determinismo é verdadeiro e compatível com o livre-arbítrio. Por fim, libertários defendem que há livre-arbítrio justamente pelo fato de o determinismo ser falso.



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