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Tratado de Vesalhes
 
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Foto: Pixabay

O Tratado de Versalhes foi um entre os diversos tratados que serviram para colocar fim à Primeira Guerra Mundial (1914-1918), sendo assinado em 28 de junho de 1919, e ratificado pela Liga das Nações em janeiro de 1920. Tornou-se o mais conhecido desses acordos e aquele que frequentemente é associado à ascensão do nazismo na Alemanha e à posterior eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Foi constantemente chamado de uma “paz punitiva” ou “paz imposta”, tendo sido denominado pelos alemães como diktat. Após o Tratado de Versalhes, também foram assinados os tratados de Saint-Germain-en-Laye (setembro de 1919), de Neuilly-sur-Seine (novembro de 1919), Trianon (abril de 1920) Sévres (agosto de 1920) e de Lausanne (julho de 1923), esse último em substituição aos termos do Tratado de Sèvres, os quais serviram para buscar mediar os conflitos e apaziguar as questões que levaram à Primeira Guerra Mundial.


CONTEXTO

O Tratado de Versalhes foi o primeiro dos tratados de paz a ser colocado em funcionamento após o final da Primeira Guerra Mundial. Esse conflito desenvolveu-se majoritariamente em solo europeu, embora tenha envolvido, de maneira direta ou indireta, todas as demais regiões do mundo, com o envio de tropas e suprimentos que alimentaram os combates. Foi iniciado após o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, em 28 de junho de 1914, enquanto realizava uma visita oficial à Sarajevo, capital da Bósnia. Este atentado foi executado a mando de uma organização terrorista sérvia, denominada Mão Negra, e acirrou a tensão entre esse país e os austro-húngaros. Entretanto, o fator primordial para que a guerra efetivamente se desenvolvesse foi a pressão exercida, tanto do lado sérvio quanto dos austro-húngaros, por outras nações cujos interesses estavam ligados à expansão imperialista que se desenvolveu no século XIX e a desentendimentos e disputas que disso decorreram. Essa explicação segue um viés teórico de cunho marxista, que buscava caracterizar a guerra como fruto das ambições burguesas para ampliar sua dominação econômica. Entre seus principais defensores, aparece a figura do historiador inglês Eric J. Hobsbawm (1917-2012), que tratou do processo de crescimento e estabelecimento da burguesia enquanto força política e econômica dominante nas obras A Era das Revoluções (1962), A Era do Capital (1975), a Era dos Impérios (1987) e A Era dos Extremos (1994).

Para além deste posicionamento teórico, outras interpretações também apareceram como forma de explicar as razões da Primeira Guerra Mundial. Entre elas, a do historiador americano Arno J. Mayer (1926) deve ser lembrada, tendo sido apresentada em sua obra A Força da Tradição – a persistência do Antigo Regime (1981). Neste trabalho, Mayer buscou demonstrar como o surgimento da burguesia não fez com que a aristocracia desaparecesse ou mesmo perdesse seu poder político, embora muito enfraquecido. Para o historiador, o conflito de 1914 a 1918 foi um movimento de resistência destas aristocracias europeias contra as forças transformadoras da história, e nem a derrota e esfacelamento de grandes impérios ao final do conflito foi capaz de apagar as ideologias reacionárias defendidas por esse grupo, tendo seus resquícios levado à ascensão do regime nazista na Alemanha e ao surgimento do segundo conflito mundial.

A guerra demonstrou, desde seu princípio, que não apenas a Alemanha, mas todas as nações inicialmente envolvidas possuíam interesses diversificados no conflito, particularmente no tocante à questão das terras, associada ao grande vigor do nacionalismo. Essas nações dividiram-se em dois blocos: a Tríplice Entente (França, Inglaterra e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália). Ao longo da guerra, outros países se associaram a um ou outro bloco, ocorrendo inclusive mudanças de lado, como a da Itália e do Japão, que passaram da Aliança para a Entente. O conflito se desenvolveu ao longo de quase cinco anos, passando por fases diferenciadas. Pode situar estas fases como sendo um primeiro momento, do final de 1914 a meados de 1915, quando as tropas alemãs fizeram grandes avanços dentro de uma “guerra de movimento”. A partir do encontro das tropas, seguiu-se a segunda e mais longa fase da guerra, entre a metade de 1915 e o final de 1917, quando as trincheiras fizeram parte do cenário da guerra e a tornaram estacionária. A situação se transforma em especial pela entrada em cena de novos aparatos tecnológicos, como os aviões e os tanques de guerra, assim como pela participação dos Estados Unidos no conflito. Adentrou-se assim no terceiro momento do conflito, do final de 1917 ao final de 1918, quando a guerra de movimento retornou, provocando o recuo das forças alemãs e a perda dos territórios que havia conquistado. Esta dinâmica levou à abdicação do kaiser alemão Guilherme II e à formação de um governo parlamentar, a República de Weimar, que, percebendo o enfraquecimento das posições alemães e de seus aliados, acabou por assinar o Armistício de Compiègne, em 11 de Novembro de 1918. Este armistício foi assinado na floresta de Compiègne, entre o Marechal Ferdinand Foch (1851 – 1929), representante das forças da Tríplice Entente, e Matthias Erzberbger (1875 – 1921), vice-chanceler alemão naquele momento. O acordo foi celebrado dentro do vagão-restaurante de um trem, em meio a um bosque, pois buscava-se privacidade e tranquilidade para que as discussões pudessem ser realizadas, deixando de lado a violência dos campos de batalha. Posteriormente, como ato de vingança em vista da humilhação que esta rendição causou aos alemães, Adolf Hitler (1889 – 1945), ao invadir e dominar a França em 1940, leva este mesmo vagão para que os representantes franceses assinassem sua capitulação.

Após o armistício, começaram as negociações para a assinatura dos Tratados de Paz, escolhendo-se a cidade de Versalhes para que estas discussões acontecessem.


O SURGIMENTO DO TRATADO

Em 8 de Janeiro de 1918, quando a Primeira Guerra já dava mostras de estar perto de seu encerramento, o presidente norte-americano Woodrow Wilson (1856 – 1924) fez um discurso ao Congresso, em que apresentou 14 propostas para a reconstrução da Europa após o final do conflito. São estas as propostas:
  • Fim de acordos secretos na diplomacia internacional, devendo todas as negociações serem de conhecimento público;
  • Livre navegação dos mares, em tempos de guerra ou paz;
  • Retirada de barreiras comerciais entre os países, de modo a promover um comércio em igualdade de condições a todos;
  • Redução das forças militares nacionais, de modo a garantir primordialmente a segurança nacional;
  • Redefinição da política colonialista, buscando garantir aos povos colonizados uma parcela decisória nos rumos tomados por suas nações;
  • Retirada de forças de ocupação da Rússia, as quais se estabeleceram após o Tratado de Brest-Litovsk;
  • Libertação e retomada da soberania do território belga;
  • Libertação dos territórios franceses, e reincorporação, pela França, do território da Alsácia-Lorena, que estava sob dominação alemã;
  • Reorganização das fronteiras italianas, respeitando a questão da nacionalidade;
  • Garantia de autonomia para os povos do Império Austro-Húngaro;
  • Independência da Romênia, Sérvia e Montenegro, além da garantia de uma saída para o mar para a Sérvia;
  • Independência da Turquia perante o Império Otomano, bem como a possibilidade de autodeterminação para os demais povos desse império, e a abertura do Estreito de Dardanelos para a navegação internacional;
  • Criação de um Estado Polonês independente, com uma saída para o mar;
  • Formação de uma associação de nações responsável por garantir a independência política e integridade territorial para todos os países (Sociedade das Nações).
Esta proposta de paz foi bem recebida por uma parcela dos envolvidos na guerra, tal como a Inglaterra, e serviu de base para as negociações que levaram à rendição da Alemanha em Novembro de 1918. Entretanto, com o final do conflito, a pressão francesa, exercida em particular por Georges Clemenceau (1841 – 1929), primeiro-ministro do país na época, acabou por fazer com que estas propostas não fossem levadas adiante. Clemenceau integrava a Assembleia Nacional francesa em 1871 e, tal como boa parte da população francesa, enxergou de maneira muito negativa os termos da rendição francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870 – 1871), que incluíam o pagamento de uma pesada indenização aos alemães, a perda do território da Alsácia-Lorena, entre outras punições. A derrota alemã na Primeira Guerra Mundial deu a possibilidade de o revanchismo francês ser colocado em funcionamento, levando-se em consideração que uma expressiva quantidade de combates havia se desenvolvido em terras francesas.


A ESCOLHA DO LUGAR

Versalhes é uma cidade localizada dez quilômetros a sudoeste de Paris, que hoje conta com aproximadamente 86 mil habitantes. Esta região passou a ser ocupada no princípio do século XVII, quando o rei francês Luís XIII (1601 – 1643) estabeleceu ali seu pavilhão de caça. A construção do Palácio de Versalhes foi iniciada ainda na década de 1630, mas apenas concluída em 1664, já no reinado do rei Luís XIV (1638 – 1715). Esse monarca foi responsável pela mudança da sede do governo para essa localidade em 1682, e o palácio continuou como sede do governo francês e capital do reino até 1789 quando eclodiu a Revolução Francesa.

O Palácio de Versalhes tornou-se conhecido por sua suntuosidade, ao ser construído de acordo com os princípios da arquitetura barroca francesa, contando com 700 quartos, 2153 janelas, 352 chaminés, 67 escadas e 700 hectares de parque. Transformou-se em símbolo da Monarquia Absolutista francesa e foi palco de importantes eventos históricos, tal como a assinatura do Tratado de Paris, que encerrou a Revolução Americana e garantiu a independência dos Estados Unidos em 1783. No ano de 1871, na Galeria de Espelhos do Palácio, foram esboçados os princípios que levaram à assinatura do Tratado de Frankfurt, o qual colocou fim à Guerra Franco-Prussiana e causou inúmeros prejuízos aos franceses, fazendo assim despertar seu sentimento revanchista.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, os franceses, a partir a iniciativa de Georges Clemenceau, escolheram este mesmo local como palco para a assinatura do Tratado de Versalhes, como forma de demonstrar sua insatisfação e sua revanche contra os alemães.


A CONFERÊNCIA DE PARIS

O Tratado de Versalhes, assim como outros colocados em funcionamento posteriormente, surgiu como resultado das negociações entabuladas pela Conferência de Paz de Paris. Esta foi realizada a partir de 18 de Janeiro de 1919, com a presença de 70 delegados das 27 nações vitoriosas da Primeira Guerra Mundial. Além da presença dos chefes de Estado vitoriosos, tais como David Lloyd George (Inglaterra), Georges Clemenceau (França) e Woodrow Wilson (Estados Unidos), a Conferência teve a participação da delegação brasileira, cuja chefia fora recusada por Rui Barbosa e coube ao senador Epitácio Pessoa. Além dele, também participaram João Pandiá Calógeras (deputado por Minas Gerais), Olinto Magalhães (embaixador brasileiro na França) e Raul Fernandes (deputado pelo Rio de Janeiro) enquanto delegados plenipotenciários, além de 19 outros representantes que atuaram como consultores. A delegação brasileira buscava tratar na Conferência de alguns temas específicos, entre eles, o pagamento de sacas de café que haviam sido apreendidas pela Alemanha logo no início da guerra, e a questão da propriedade de 46 navios alemães apreendidos nos portos brasileiros, que deveriam ser incorporados à Marinha brasileira, mediante o pagamento de uma indenização. Também buscavam os representantes uma possiblidade de participação do Brasil como membro temporário do Conselho da Sociedade das Nações.

Os países derrotados no conflito (Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia) não puderam enviar representantes para participar das discussões da Conferência, embora alguns negociadores destas nações estivessem presentes e fossem consultados posteriormente para acatar as decisões tomadas. No caso alemão, destacou-se a participação do sociólogo Max Weber, que serviu como conselheiro para o governo de seu país.

As discussões iniciaram-se no mês de Janeiro, sendo dominadas pelos interesses dos “Quatro Grandes” (França, Inglaterra, Estados Unidos e Itália) e prosseguiram até Maio, quando foram apresentadas as disposições preliminares do Tratado. Estas foram votadas e tornaram-se o Tratado de Versalhes tal como ficou conhecido. O Tratado foi ratificado pela Sociedade das Nações no dia 10 de Janeiro de 1920.


ESTRUTURA DO TRATADO

O texto do Tratado de Versalhes forma um documento que se estende por 240 páginas, que se dividem em 15 seções, que abarcam 440 artigos e anexos. Os termos deste acordo referem-se particularmente ao julgamento do papel da Alemanha na guerra, suas responsabilidades e as punições que deveriam ocorrer por isso.

Suas seções eram:
  • Seção 1 – o Pacto da Sociedade das Nações:esta parte do Tratado diz respeito à fundação de uma organização multinacional, cujas atribuições seriam, entre outras, de promover a cooperação internacional, no sentido de manter a paz e a segurança; de manter o respeito das leis internacionais pelas nações; e de garantir que acordos internacionais fossem cumpridos com o respeito de um povo a outro. Em resumo, a ideia da Sociedade das Nações era garantir a paz internacional através da negociação, evitando que outros conflitos armados ocorressem. A formação original da Sociedade foi composta por 32 nações signatárias, entre elas o Brasil. Outras 13 nações foram convidadas a tomar parte da Sociedade logo em seu princípio. Todos os derrotados no conflito não fizeram parte originariamente do corpo da Sociedade das Nações.
  • Seção 2 – Fronteiras da Alemanha: esta seção é composta por quatro artigos que visavam estabelecer os limites territoriais alemães após o conflito. Esse trecho do Tratado já impôs à Alemanha algumas retaliações e perda territoriais, em especial no que diz respeito à formação da Polônia e na formação do território conhecido como Prússia Oriental, que ficou separado da Alemanha pelo “corredor polonês”.
  • Seção 3 – Cláusulas Políticas para a Europa: tratou de mais concessões feitas pela Alemanha a outras nações europeias, tal como o reconhecimento da soberania belga em territórios requisitados pelos alemães, a questão da cidadania de alemães que passaram a viver fora do seu território em virtude do conflito, assim como a problemática da utilização de reservas minerais pelos franceses em antigos territórios pertencentes à Alemanha, principalmente na região da Alsácia-Lorena, que havia sido retomada pela França. Também nesta seção, surge a independência da Checoslováquia, tomando mais territórios dos alemães. Este fato foi um dos motivos que, em 1938, fez com que Hitler invadisse este país, alegando que esta terra pertencia à Alemanha em virtude de muitos de seus habitantes serem “alemães étnicos”, embora não mais possuíssem essa nacionalidade. Nesta mesma linha, os germânicos foram obrigados a reconhecer a independência da Polônia, que voltava a ser um país livre após mais de um século e meio de dominação estrangeira. Por fim, tratou-se também das ocupações alemães em território russo, cuja negociação havia sido feita no Tratado de Brest-Litovsk. O Tratado de Versalhes acabou por invalidar essa negociação anterior, devolvendo aos russos algumas porções de terra.
  • Seção 4 – Interesses alemães fora da Alemanha: nesta porção do Tratado, em primeiro lugar, foram retiradas dos alemães todas as colônias que esse país possuía ao redor do mundo. No entanto, nem todas as áreas que foram retiradas da Alemanha obtiveram sua independência, tal como o Marrocos, que passou ao domínio francês, ou o Egito, que passou ao domínio inglês.
  • Seção 5 – Cláusulas Militares, Navais e Aéreas: neste ponto, foram especificadas todas as limitações militares, aéreas e navais que se impunham à Alemanha, no sentido de desarmá-la e impedi-la de iniciar um novo conflito. O Exército foi reduzido a um efetivo de 100 mil homens, foi proibida a fabricação de armas e munições sem autorização da Sociedade das Nações, assim como sua importação foi estritamente proibida. Foram apreendidos e destruídos materiais bélicos alemães, foi abolido o serviço militar obrigatório, sua marinha de guerra foi quase toda extinta, bem como sua força aérea militar.
  • Seção 6 – Prisioneiros de guerra e cemitérios: trata sobre a repatriação dos prisioneiros de guerra feitos pelos alemães e por seus adversários. O elemento controverso deste tópico diz respeito ao custo desta repatriação, inteiramente a ser pago pelo governo alemão. Também versa sobre a construção de cemitérios e memoriais para os mortos em combate, independentemente de sua nacionalidade, zelando pelo respeito aos falecidos.
  • Seção 7 – Penalidades: este curto bloco de artigos busca estabelecer os tribunais de guerra para julgar os participantes do conflito atribuindo-lhes suas respectivas culpas e penalidades obrigando inclusive o governo alemão a entregar todo e qualquer documento necessário para se avaliar a participação de pessoas e instituições no esforço de guerra.
  • Seção 8 – Reparações: uma das seções mais duras do Tratado, já se inicia com a obrigação de a Alemanha e seus aliados aceitarem a responsabilidade por todo o dano causado pelo conflito (artigo 231). Em virtude desta determinação, impõe-se a aos alemães a reparação de todos esses prejuízos causados. Para tanto, estabelece logo de princípio que a Alemanha devia pagar uma quantia de 20 bilhões de marcos, com o objetivo de restabelecer a produção industrial e a vida econômica dos países adversários por ela prejudicados na guerra. Posteriormente, os demais artigos desta seção e seus anexos estabelecem quais outros danos deveriam ser reparados, impondo ao menos mais 100 bilhões de marcos enquanto valor devido às nações afetadas, além de outras indenizações, como fornecimento de animais para recompor a pecuária destes países ou mesmo enormes quantidades de carvão para as indústrias.
  • Seção 9 – Cláusulas financeiras: os artigos constantes desta seção tinham por objetivo transmitir à Alemanha custos diversos, tal como o de manutenção das tropas de ocupação em seu território, do tratamento dos feridos, das comunicações e correspondências, e de tudo aquilo que dissesse respeito ao interesse das forças aliadas. Também retira dos alemães qualquer direito de propriedade que estivesse em terras que foram cedidas a seus adversários, revendo inclusive cláusulas do Tratado de Frankfurt de 1871. Neste ponto, no artigo 263, a questão do pagamento das sacas de café que havia sido reivindicado pela delegação brasileira é especificada, obrigando-se o governo alemão a pagá-las ao Estado de São Paulo no valor estipulado naquela data, e não pelo preço acordado em 1914.
  • Seção 10 – Cláusulas econômicas: esta seção impõe condições ao funcionamento da economia alemã, como a extinção de proibições para importação de produtos das nações aliadas, assim como a eliminação de quaisquer taxas ou tributos sobre essas mercadorias. Impede também que a Alemanha estabeleça acordos preferenciais de comércio com qualquer nação, dando condições iguais para qualquer interessado em seus produtos ou bens. Também impõe quantidades mínimas e máximas de produtos a serem exportados ou importados pelos alemães, retirando de seu governo a autonomia desta tomada de decisão. Um ponto delicado, tratado no artigo 311, prevê que todas as pessoas que habitavam em territórios cedidos pelo governo alemão a outras nações têm o total de direito de manter suas propriedades dentro da Alemanha, o que acabou por enfraquecer ainda mais suas provisões financeiras.
  • Seção 11 – Navegação aérea: os artigos desta seção versam sobre a abertura do espaço aéreo alemão, terrestre ou marítimo, a qualquer aeronave das nações aliadas, devendo seus aeroportos autorizar pousos e decolagens destes mesmos aviões.
  • Seção 12 – Portos, vias marítimas e ferrovias: Da mesma forma que o trecho anterior, busca abrir a circulação de trens e navios no território alemão a quaisquer nações interessadas. As regras aplicadas para os portos marítimos deveriam também seguidas em cursos fluviais, não podendo ser aplicadas taxas ou tributos diferenciados sobre a navegação de embarcações provenientes de qualquer nação aliada. Existe neste trecho também a obrigação dos alemães em ceder embarcações aos franceses como parte das reparações de guerra, além de ceder a Checoslováquia o direito de uso de portos alemães ao norte do país.
  • Seção 13 – Organização Internacional do Trabalho: os artigos constantes desta seção criaram uma organização internacional para a busca de harmonização das relações trabalhistas. O surgimento deste órgão reflete todas lutas e mobilizações feitas pelos trabalhadores desde o século XIX, quando surgem as teorias socialistas em oposição às condições de trabalho impostas pela Revolução Industrial. A OIT existe até a atualidade, tendo passado por modificações e atualizações ao longo de todo o século XX.
  • Seção 14: os artigos aqui presentes previam quais seriam as condições impostas pelos países vencedores para que a Alemanha cumprisse as determinações do Tratado de Versalhes. Entre estas condições, figuram a ocupação do território a oeste do Reno por tropas aliadas por um período de 15 anos, prevendo uma desocupação progressiva caso os termos do acordo fossem estritamente cumpridos. A liberação do território poderia ser imediata caso a Alemanha antes desse prazo, cumprisse todas as imposições. Também especifica que todas as condições impostas pela Alemanha à Rússia, pelo Tratado de Brest-Litovsk, estavam a partir de então sem valor algum.
  • Seção 15 – Provisões gerais: trata de assuntos diversos que, em síntese, obrigam a Alemanha a concordar com os termos impostos pelo Tratado. Traz também as assinaturas dos delegados responsáveis pela elaboração e discussão do tratado, a concordância por parte do governo alemão e a ratificação pela Sociedade das Nações.


CONSEQUÊNCIAS

É consenso entre os historiadores que o Tratado de Versalhes, mais do que buscar o estabelecimento de uma relação de paz para com a Alemanha, serviu como um instrumento de vingança, por parte principalmente dos franceses, contra aquela nação. A obrigatoriedade de se reconhecer como a culpada pela guerra, as imensas reparações que foram determinadas, a ocupação por tropas estrangeiras, as perdas territoriais, tudo isso fez com a Alemanha fosse, para além de punida e enfraquecida, terrivelmente humilhada ao sair derrotada da Primeira Guerra Mundial. Joachim Fest, em sua biografia de Adolf Hitler, faz o seguinte juízo sobre este Tratado: “O Tratado de Versalhes praticamente não regulou um só dos problemas que foram o verdadeiro motivo do conflito desencadeado em 1914, e deixou de lado de modo bem evidente o fato de que o objetivo supremo de um tratado de paz é precisamente a paz (2010, p. 64).

Depreende-se do juízo do autor que o Tratado não cuidou de maneira adequada dos efetivos problemas que haviam levado a guerra, tal como a questão das colônias (que foram inteiramente retiradas da Alemanha) ou mesmo do nacionalismo, que foi agudizado após a entrada em vigor do acordo. Mais do que no princípio do conflito, o sentimento nacionalista que agora vigorava na Alemanha vinha acompanhado de um forte revanchismo.

Entretanto, deve-se perceber que esta escalada no sentimento revanchista alemão não foi linear. Da assinatura do Tratado até o ano de 1923, os alemães buscaram cumprir com as obrigações impostas pelo acordo, o que acabou por estrangular sua economia. Esta situação poderia ter sido contornada caso os ingleses tivessem feito valer sua vontade, ou seja, de dar maiores garantias e maior prazo para que os alemães cumprissem com suas obrigações. A postura francesa, porém, foi de inflexibilidade, o que tornou esse pagamento virtualmente impossível e fez com que o governo alemão o suspendesse. Com essa situação posta, o governo francês, em 11 de janeiro de 1923, iniciou uma invasão na região do Vale do Ruhr, onde se situam importantes fontes de aço e carvão na Alemanha, buscando, através do controle destas matérias-primas, garantir o pagamento da dívida. Em resposta a essa ocupação, muitos trabalhadores entraram em greve, recebendo o apoio do governo alemão, o que agravou o problema da hiperinflação que assolava o país desde 1921.

A presença francesa em seu território, junto à decadência econômica e ao sentimento de humilhação, fez com que, em 9 de Novembro de 1923, Adolf Hitler e outros membros do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista) tentassem um golpe de Estado em Munique, que acabou fracassando. Hitler terminou preso, e no tempo que permaneceu encarcerado, escreveu sua autobiografia chamada Mein Kampf (Minha Luta), que trazia os princípios elementares da doutrina nazista. Entretanto, após ser libertado, Hitler não obteve o apoio que esperava em virtude de sua ação e publicação, pois a situação de ocupação por parte dos franceses e o pagamento da dívida alemã começavam a ser rediscutidos por meio do Plano Dawes. Ao entrar em funcionamento, esse plano conseguiu uma estabilização da economia alemã, sendo renegociado em 1929, quando o Plano Young o substituiu. Este último ampliou ainda mais o prazo para o pagamento das dívidas, o que poderia ter aliviado a pressão sobre a economia alemã, não fosse o advento das consequências da Crise de 1929, nos Estados Unidos.

Com seu cenário econômico bastante fragilizado, a Alemanha viu sua situação novamente piorar de forma incisiva, fazendo com que as propostas e ideias apregoadas anteriormente por Adolf Hitler ganhassem força, e fazendo com que em 1932 os nazistas chegassem o poder e, em 1933, seu líder se tornasse chanceler da Alemanha. Ao assumir o poder, Hitler constantemente desrespeitou os termos do Tratado de Versalhes, reorganizando as forças armadas, reconstruindo a indústria bélica e deslocando tropas para áreas que o Tratado de Versalhes previa que deveriam estar desmilitarizadas. Só muito tardiamente Inglaterra e França buscaram parar o desrespeito de Hitler ao Tratado, por terem adotado uma postura relativamente pacifista após a Primeira Guerra Mundial e também por enxergarem na União Soviética um problema maior a ser combatido. Esse foi o cenário que finalmente, em 1939, levou à eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Quanto às reparações devidas pelo Tratado de Versalhes, essas foram retomadas após a derrota alemã na Segunda Guerra. Quitações parciais destes débitos ocorreram em 1980, por parte da Alemanha Ocidental; em 1995, após a reunificação do país, tendo por fim os juros finais sido quitados em 3 de Outubro de 2010. Desta forma, pode-se afirmar que a Primeira Guerra Mundial terminou em definitivo após quase 92 anos da rendição alemã na floresta de Compiègne.


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