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O ciclo da borracha e o crescimento da região amazônica no século XX
 
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 O QUE É O LÁTEX? Imprimir Enviar Guardar
 

Extração de seiva da seringueira
Extração de seiva da seringueira. Foto: CNA Brasil/Visual hunt/CC BY-NC-AS.

O látex é uma espécie de seiva branca encontrada em algumas plantas como a papoula, a seringueira, o mamoeiro e o caucho (castilloa) e tem a sua importância, principalmente, vinculada à confecção da borracha natural. No Brasil, sua produção esteve sempre fortemente ligada às seringueiras da região amazônica e seguia os seguintes passos: primeiramente, temos a sangria, que são incisões na casca da seringueira. A partir dessas incisões, se remove uma parte da casca da árvore, o que faz com que a seiva se escoe (e por isso o nome “sangria”). Quando exposto ao ar por um período de 12 a 24 horas, o pH do látex cai para 5,0 e sofre uma coagulação espontânea, formando o polímero que é a borracha. Depois de coagulado, o látex é ainda moído em máquinas específicas que misturam e empastam o material e, consequentemente, o separam das impurezas.

Sabe-se que algumas tribos indígenas da região amazônica, em especial os índios colombianos, tinham conhecimento do uso do látex para a confecção da borracha. Eles o utilizavam para fazer panelas, mantas e o saco encauchado (que é um saco emborrachado utilizado para levar roupas em viagens de barco). Com exceção do saco encauchado (que permaneceu sendo feito), esta técnica ficou adormecida por quase um século, e só recentemente está sendo reincorporada à cultura dos índios e seringueiros. O artesanato à base do látex pode ser encontrado em diversas feiras nos estados do Acre, Amazonas e Pará.

Atualmente, a borracha utilizada nas indústrias é fabricada massivamente a partir do petróleo (é a chamada borracha sintética), tendo como intuito, evitar a exploração de árvores. Algumas pesquisas mais recentes apontam, no entanto, para a possibilidade da borracha natural ter menos impacto ao meio ambiente. Segundo dados de 2012 do ministério da agricultura, são precisos entre 108 e 175 GJ de energia para a produção de uma tonelada de borracha sintética, enquanto que são necessárias apenas 13 GJ para a produção da mesma quantidade de borracha natural. Além disso, a geração de CO2 para a produção da borracha sintética é extremamente alta.


SEGUNDA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E O CICLO DA BORRACHA

Logo após a proclamação da república, período esse que ficou conhecido como “República Velha”, e que compreende os anos de 1889 e 1930, a sociedade brasileira passou por uma série de mudanças: demográficas, na estrutura das cidades, nos conflitos sociais, na cultural e na economia. Na verdade, o mundo inteiro passava por uma grande mudança: a segunda revolução industrial.

Esse período, que se inicia entre os anos de 1850 e 1870 e que tem seu término após a segunda guerra mundial, foi marcado pelo aprimoramento de técnicas, pelo surgimento de máquinas e a introdução de novos meios de produção, que proporcionaram um aumento da produtividade das indústrias nunca antes visto. A industrialização, que antes estava restrita à Inglaterra, atingiu novos territórios, como Estados Unidos, França, Rússia, Japão e Alemanha. Junto com essa expansão, apareceram novas demandas, como, por exemplo: o aço, a eletricidade e o petróleo. É neste contexto que o látex brasileiro ganha relevância.

No Brasil, o café ainda era o principal produto de exportação brasileiro, sendo a base econômica da República Velha. No entanto, com o desenvolvimento do capitalismo, surgiram novas demandas. Se inicia, então, o “ciclo da borracha”. A criação de algumas mercadorias (como, por exemplo, o automóvel) geraram a necessidade de um novo produto: a borracha. A exploração do látex na região amazônica fez com que ela se desenvolvesse de maneira extremamente rápida. Em alguns momentos, a exploração do látex chegou a rivalizar com a comercialização do café. Aliás, naquele período, a Amazônia era o lugar que mais produzia o látex e era onde o produto tinha melhor qualidade.

Embora o ciclo da borracha tenha proporcionado um crescimento repentino da região amazônica, ainda no início do século XX, a produção de látex na região amazônica entre em queda, tendo como um dos principais motivos Henry Wickham (1846-1926), um botânico inglês que ficou conhecido por ter contrabandeado 70 mil sementes de seringueira. Wickham aprendeu com os índios onde encontrar as sementes, qual o melhor período e, ainda, como evitar o seu bolor e sua germinação. O golpe teria seguido os seguintes passos: primeiramente, ele armazenou os grãos em 50 cestos indígenas e os forrou com folhas de bananeira, o que evita a formação de uma camada de cianeto. Na alfandega, ele argumentou que estava levando “espécies botânicas extremamente delicadas”. Podemos dizer que foi devido a esse roubo que as colônias inglesas na Ásia se tornaram, ao final do século XX, as principais produtoras de látex do mundo, desbancando a produção brasileira.

Wickham não foi, imediatamente, recompensando como desejava pela rainha inglesa. Ele tinha intenções de se tornar o coordenador das plantações nas colônias, mas teve seu pedido barrado pelo diretor do Jardim Botânico londrino. De qualquer forma, a partir do momento em que as árvores, cujas sementes foram originadas do seu furto, passaram a produzir o látex, ele recebeu o título de cavaleiro da rainha, sir Wickham.


CONSEQUÊNCIAS PARA A REGIÃO AMAZÔNICA

Uma das consequências do ciclo da borracha foi o crescimento das capitais da região amazônica. Inicialmente, tivemos o desenvolvimento da cidade de Belém, influenciada pela estética urbana europeia e, posteriormente, tivemos mudanças na cidade de Manaus, período este que ficou conhecido como “Belle Époque Amazônica”. Belém e Manaus eram consideradas as cidades brasileiras mais avançadas do Brasil, naquele período. Ambas as cidades possuíam luz elétrica, água encanada e sistema de esgotos. Possuíam também bondes elétricos, avenidas sobre pântanos aterrados e grandes e luxuosos edifícios. São exemplos disso: o Palácio do Governo, o Mercado Municipal, o prédio da Alfândega e o Teatro Amazonas (em Manaus), e o Mercado de São Brás, Mercado Francisco Bolonha, Teatro da Paz, Palácio Antônio Lemos, o Grande Hotel, e o Cinema Olympia (em Belém).

Talvez o maior exemplo desse desenvolvimento urbano seja a construção do Teatro Amazonas, em Manaus. O Teatro Amazonas é um dos mais importantes teatros do Brasil e o principal cartão-postal da cidade de Manaus. De estilo renascentista, suas características arquitetônicas deram a fama à cidade de “Paris dos Trópicos”. O teatro representa o apogeu de Manaus durante o ciclo da borracha e foi tombado como Patrimônio Histórico Nacional pelo IPHAN em 1966.

Outro aspecto que pode ser observado como uma consequência do ciclo da borracha foi o aumento do fluxo de transportes pelos rios, em especial, no rio Amazonas. A Amazônia fornecia o látex em abundância, mas sua extração no interior da selva necessitava de alguma infraestrutura. O difícil acesso, combinado com um terreno inóspito, elevavam o preço do produto. Por isso, o governo brasileiro estabeleceu parcerias, por meio de concessões de longo prazo, com empresas estrangeiras para que ampliassem as instalações portuárias: British Manaus Harbour Limited, em Manaus e a US Port of Pará, em Belém. No entanto, os investimentos em instalações de transbordo e extração se mostraram altamente específicos para extração de borracha e, assim, inadequadas para qualquer outro uso, não podendo ser aproveitada para outras formas de indústrias.

Houve também um grande processo migratório para a região, em especial, da população nordestina. Estima-se que cerca de 250 mil nordestinos migraram para a Amazônia para trabalhar nos seringais, sendo a maior parte deles, provenientes do Ceará, pois o estado sofria as consequências das grandes secas do final do século XIX. Esse grande fluxo de trabalhadores foi custeado com dinheiro de indústrias dos Estados Unidos, por meio do órgão internacional Rubber Development Corporation (RDC). Eles pagavam ao governo do Brasil cerca de cem dólares para cada trabalhador que chegasse à Amazônia. A exploração dos trabalhadores indígenas, caboclos e nordestinos foi o grande ponto negativo deste período. Por exemplo, os seringalistas compravam os mantimentos para os seringais e pagavam a essas casas com a produção de borracha feita pelos seringueiros. Os seringueiros precisavam trabalhar de maneira exaustiva para pagar as dívidas contraídas e dificilmente obtinham lucros.

A aquisição do Acre também está relacionada com o comércio do Látex. Com a grande migração de nordestinos para a região amazônica, muitos acabaram se estabelecendo na Bacia do rio Acre. Essas pessoas acabavam ocupando as terras, cuja maior parte pertencia à Bolívia (Na prática, as fronteiras entre Brasil e a Bolívia não eram bem definidas, apesar das inúmeras tentativas de estabelecer tratados). Aliás, os bolivianos não demonstravam muito interesse por aquela região isolada, isso antes, claro, do látex se revelar uma matéria-prima tão lucrativa. Com o crescimento da procura pelo látex, as autoridades bolivianas deixam de lado a indiferença em relação à ocupação brasileira da fronteira e, em 1898, estabeleceu-se um conflito internacional. Em 1899 os bolivianos fundam Puerto Alonso (até aquele momento, estava em vigência o Tratado de Ayacucho, de 1867, em que o Acre era tido como território boliviano). Em 1° de maio de 1899, alegando pouca ação por parte do governo brasileiro, cerca de 15 mil moradores da região, a mando do advogado José Carvalho, se rebelaram contra os bolivianos. Em 14 de julho do mesmo ano, acontece uma nova insurreição. Desta vez, comandada pelo jornalista espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias. Em decorrência desse conflito, é proclamada a criação do Estado Independente do Acre. Buscando preservar o tratado de Ayacucho, o governo brasileiro envia o exército para a região e, em 15 de março de 1900, repassa o controle à Bolívia. Em 1901, surge um novo problema. A Bolívia e os Estados Unidos estavam estabelecendo um acordo que envolvia o arrendamento de parte do território do Acre para um sindicato de capitalistas, especialmente composto por estadunidenses e ingleses. Era o chamado: Bolivian Syndicate. O governo brasileiro acreditava que este acordo poderia comprometer a soberania tanto do Brasil como da Bolívia. A tensão entre o governo brasileiro e as autoridades de Washington e Londres aumenta até que então surge a figura do Barão do Rio Branco. O Barão de Rio Branco havia sido nomeado ministro das Relações Exteriores e seu principal objetivo era acabar com este conflito. Rio Branco tomou o tratado de Ayacucho à risca e declarou o Acre como território litigioso (ou seja, que deveria ser resolvido via justiça). Na sequência, o Barão apresentou uma proposta de permuta de territórios ou de compra do Acre pelo Brasil. Propostas que foram rechaçados pelos bolivianos. Paralelamente a isso, o gaúcho Plácido de Castro inicia um movimento armado contra a Bolívia. Suas tropas derrotam às bolivianas e é declarado, mais uma vez, o Estado Independente do Acre. O General Pando, presidente da Bolívia, percebendo que não teria como resistir militarmente a este conflito, decide procurar o Brasil e resolver o impasse de maneira diplomática. Surge, então, o Tratado de Petrópolis. Com o tratado, definiu-se que em troca do Acre, a Bolívia receberia algumas terras em vários pontos da fronteira com o Brasil, bem como se comprometeria a construir a Estrada de ferro Madeira-Mamoré. Além disso, deveria manter o trânsito livre pelas ferrovias e rios, e, ainda, pagar uma quantia de dois milhões de libras esterlinas.

Como foi dito, com o compromisso do Tratado de Petrópolis, ficou firmada a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. A ideia desse projeto já havia surgido no ano de 1861 devido à necessidade de aumentar produção da colheita do látex. Em 1877, irmãos estadunidenses Philips e Thomas Collins assinam um contrato para a execução da ferrovia. No entanto, em 1879, as empresas Collins entram em falência. Coube ao empresário estadunidense, Percival Farquhar (1864-1953), continuar o empreendimento, durante os anos de 1907 e 1912, mas mantendo o nome dado pelos irmãos Collins. Estrada de Ferro Madeira Mamoré foi inaugurada em 1912, mas só foi lucrativa nos dois primeiros anos de atividade, devido à crise do látex pelas razões já apontadas. Atualmente a ferrovia está abandonada e cercada por mato. A ferrovia Madeira-Mamoré ficou conhecida como Ferrovia do Diabo devido às péssimas condições trabalho (seis mil trabalhadores teriam morrido na construção da ferrovia) e pelo surto de malária.


O SEGUNDO CICLO DA BORRACHA

Houve ainda um segundo ciclo da borracha na Amazônia, mas que durou por um pequeno período de tempo. Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses dominaram parte do Pacífico Sul, incluindo a Malásia, que havia se tornado a principal produtora de Látex. Com a queda de 97% da produção de borracha asiática, o mundo ocidental precisou retomar a produção do látex brasileiro. A infraestrutura ficou a cargo dos Estados Unidos. A força de trabalho, mais uma vez, veio do nordeste. Com o recrutamento de trabalhadores nordestinos, Getúlio Vargas buscava resolver o problema da seca do Nordeste e, ao mesmo tempo, povoar a região amazônica.

O governo brasileiro fez um acordo com o governo dos Estados Unidos para a extração de látex em larga escala, o que ficou conhecido como a Batalha da Borracha. Era preciso aumentar a produção anual de 18 mil para 45 mil toneladas e para isso, seriam necessários 100 mil trabalhadores. O alistamento compulsório em 1943 era feito pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA).

Manaus e Belém voltarem, ainda que brevemente, a experimentar a riqueza. Manaus, que em 1849 possui apenas 5 mil habitantes, cresceu para 70 mil habitantes. No entanto, como consequência desse processo migratório, vários trabalhadores de diversas regiões do Brasil foram compulsoriamente levados à escravidão por dívida e à morte por doenças para as quais não possuíam imunidade.


CHICO MENDES E MOVIMENTO SINDICAL

Após o golpe-militar de 1964, o governo brasileiro passou a incentivar a ocupação do território amazônico (a despeito dos povos indígenas e dos seringueiros que viviam por lá). Começam então os conflitos. Alguns líderes sindicais como, João Claudino, Chico Ginú e o próprio Chico Mendes realizavam “empates” (que eram paralizações), com o intuito de impedir a derrubada de árvores por parte de empresários e fazendeiros. Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado em sua casa por Darly Alves da Silva, filho do grileiro Darcy Pereira.

A morte de Chico Mendes ganhou repercussão internacional. Depois disso, os seringueiros da região conseguiram a liberação do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) para a criação da cooperativa e a luta ambiental pela preservação da floresta foi fortalecida. Contudo, até hoje, comunidades indígenas e ambientalistas são vítimas da violência promovida por latifundiários na região amazônica.

Palavras-chave: látex, borracha, Povos indígenas, Floresta Amazônica, industrialização, migração, Revolução Industrial, república brasileira, Belém, Manaus, Acre, Tratado de Petrópolis, Segunda Guerra Mundial, Chico Mendes.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES BNCC

EF07HI12, EF07HI13, EF08HI14, EF09HI01, EF09HI02, EM13CHS204, EM13CHS205, EF06GE11, EF07GE02, EF07GE06, EF07GE08, EF08GE04, EF09GE11.