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Guerra do petróleo
 
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O primeiro trimestre de 2020 registrou uma guerra quanto à definição de preços no mercado internacional de petróleo, protagonizada por Rússia e Arábia Saudita, dois dos principais países produtores dessa commodity. Como consequência houve uma queda brusca do preço do petróleo, cuja causa relaciona-se tanto às tomadas de decisão dos países produtores levando em conta seu posicionamento estratégico quanto aos impactos causados pela pandemia provocada pelo coronavírus (Covid-19). O avanço da pandemia assolou todo o planeta, provocando impactos em todas as cadeias produtivas que regulam o comércio internacional. Com as diferentes medidas adotadas em todos os países quanto ao isolamento social e a consequente paralisação das atividades comerciais, houve uma menor demanda consumidora e, desse modo, o movimento de capitais entre países se viu afetado. A demanda por petróleo não foi diferente, o que contribuiu para intensificar as decisões sobre as quedas bruscas em seu preço.

A Arábia Saudita, maior produtor de petróleo membro da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) desejava reduzir a produção para manter os preços altos em face da queda da atividade econômica causada pela pandemia. Por sua vez, a Rússia, que não faz parte da Opep mas também está entre os principais produtores mundiais de petróleo, não concordou. A Rússia queria seguir produzindo, pois temia perder sua participação de mercado internacional na competição com o petróleo de xisto estadunidense. Manter a produção em alta e os preços baixos poderia prejudicar os Estados Unidos, já endividado pelo alto custo de produção deste tipo de petróleo, o qual requer maior investimento.

Refinaria de petróleo. Foto: GSJ/Pixabay.


OPEP (ORGANIZAÇÃO DOS PAÍSES EXPORTADORES DE PETRÓLEO)

Sabemos da importância do petróleo como importante recurso estratégico para a economia global. Sendo uma commodity (matéria-prima), seu preço, em dólar, definido no mercado internacional, depende principalmente dos acordos feitos em relação à sua produção, bem como de seu consumo no mundo. Lembrando que os derivados de petróleo como a gasolina e o diesel, utilizados principalmente como combustíveis em meios de transporte, além dos solventes, lubrificantes industriais e plástico são indispensáveis para movimentar a economia de todos os países: dos mais ao menos industrializados.

O petróleo é a fonte energética mais utilizada no mundo, correspondendo a 43% do total de fontes, ainda quando se saiba, desde a década de 1970, que é esgotável e não renovável, o que faz com seu preço se eleve. Diferente de outras matérias primas, a exemplo dos produtos agrícolas, a extração deste mineral bem como sua produção não depende de clima ou safra, uma vez que os territórios que possuem as reservas são seus donos e podem decidir quando querem explorá-las e a que preço.

Por isso, os países produtores de petróleo do mundo decidiram, já desde a década de 1960, unificar o preço do produto, promovendo um cartel internacional que controla a sua oferta no mercado. Este cartel conhecido como Opep corresponde a um grupo constituído pelas principais nações exportadoras de petróleo do mundo que administram seu suprimento em todo o mercado internacional. Atualmente, cerca de 75% das reservas de petróleo de todo o mundo pertencem aos países membros da Opep. Isso torna a organização responsável por quase metade das exportações mundiais desse mineral.

Inicialmente, a organização era composta por cinco países, mas hoje são doze os que fazem parte do bloco: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, que estiveram desde o princípio, somados a Angola, Argélia, Líbia, Nigéria, Equador, Emirados Árabes Unidos e Catar.

A organização desenvolve estratégias que se refletem na produção de petróleo por cotas e, desse modo, consegue diminuir a oferta de petróleo e fazer com que o preço do produto atinja valores elevados, o que leva a uma maior lucratividade para os países membros. Desse modo, podemos dizer que o petróleo serve como instrumento político para exercer pressão sobre as grandes potências mundiais, a exemplo dos Estados Unidos que não faz parte da Opep e não só é um grande produtor de petróleo e, portanto, um competidor, mas também um dos principais consumidores. Por tudo isso, podemos dizer que as estratégias da Opep em relação às suas políticas de produção e estabelecimento de preços do petróleo afetam diretamente a economia dos países importadores dessa commodity.


PREÇO DO PETRÓLEO

A produção de petróleo é medida em barris por dia (BPD), ou seja, número de barris que um país extrai diariamente. Em 2020, os 10 maiores países produtores de petróleo são: Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Canadá, China, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Brasil e Irã. A partir desse ranking não se pode deduzir que as reservas de petróleo estejam em igual correspondência com a posição ocupada e que a posição seja indicativo de riqueza imediata. A Venezuela, por exemplo, é o país com mais reservas no mundo (300,90 bi), no entanto não figura entre os maiores produtores e vive períodos de grande instabilidade econômica, ao passo que os Estados Unidos (36,70 bi) que encabeçam o ranking de produtores e é, por sua vez, uma das economias mais ricas, não figuram entre aqueles que possuem maiores reservas. Algo similar ocorre também com o Brasil: atualmente, apesar de estar no ranking de maiores produtores, quando observamos suas reservas (12,70 bi), vemos que está bem abaixo, pois sabemos que estas, em sua maior parte, localizam-se no fundo dos oceanos e são de difícil extração – o que requer muito investimento; tais reservas correspondem ao famoso pré-sal (reservas petrolíferas abaixo de uma profunda camada de sal, no subsolo marinho). Por tudo isso, possuir uma grande reserva não se traduz em ocupar os postos mais altos no ranking das exportações e, consequentemente, em riqueza. O sucesso com a exportação dessa commodity depende de muitos fatores: desde os investimentos para se extrair o petróleo, custos com impostos e sanções dadas pelas pressões políticas de uns países contra outros, fazendo com que mesmo aqueles com grandes reservas de petróleo não consigam prosperar com este setor tanto quanto outros.

A cotação do petróleo é o preço (em dólares por barril) negociado em um determinado momento no mercado internacional da bolsa de valores, resultado da oferta e demanda pelo produto. O preço, portanto, resulta do equilíbrio que satisfaz demandantes e ofertantes. As duas cotações que mais acompanham investidores no mercado financeiro são o West Texas Intermediate (WTI) relativa ao petróleo estadunidense negociado na bolsa de Nova York e o Brent Crude Oil, de origem europeia que é negociado na bolsa de Londres.

Os países que não produzem petróleo e precisam importá-lo estão sujeitos aos preços da bolsa de valores. Se, por outro lado, possui reserva própria, deverá contar com aquele que lhe pagar mais. Finalmente, se o país tem grandes reservas, internamente até poderá ter os preços de combustível a preços baixos, no entanto, todos os demais produtos que exporta dependerão das variações das cotações internacionais sobre os preços de petróleo. Assim sendo, podemos perceber que os fatores que influenciam a cotação do petróleo são de ordem econômica, política, social e ambiental, tais como: as crises e recessões econômicas que afetam o consumo – como agora com a pandemia de coronavírus –, escândalos envolvendo empresas produtoras que perdem credibilidade no mercado, grandes estoques em países consumidores, aumento ou diminuição de reservas em países produtores, a exemplo de descobertas de novas áreas para explorar ou finalização e paralisação de extração, tensões geopolíticas, tomadas de decisão da Opep – conforme mencionado – e, fatores ambientais: desde os naturais, como por exemplo furacões que afetem a rotina das plataformas de exploração às mudanças climáticas que possam fazer com que aumente o consumo dos combustíveis aos fatores ambientais provocados pela ação humana, como acidentes e vazamentos nas plataformas.


HISTÓRIA DA CRISE DO PETRÓLEO

Conforme vimos, a variação do preço do barril de petróleo no mercado internacional é capaz de afetar o desenvolvimento econômico das nações. O que acontece hoje já foi visto em vários momentos da história no passado. O que é importante ter claro é que o interesse por esse bem e as disputas pelo acesso a ele, bem como a certeza de que um dia ele irá acabar possuem sua historicidade e são elementos relevantes para compreender a economia mundial.

A popularização dos automóveis, na primeira metade do século XX, e com ela a necessidade de abastecer os motores combustíveis, motivou o interesse de grandes indústrias petroleiras em capitanear a exploração de petróleo, principalmente no Oriente Médio. Muitos desses países com grandes reservas dessa commodity foram sistematicamente explorados, situação que só mudou com o fim da Primeira Guerra Mundial. As grandes nações capitalistas – arrasadas – perceberam que já não podiam seguir explorando indiscriminadamente o petróleo, dado o controle de sua exploração ser promovido pela nova política das nações do Oriente Médio. Assim, tornou-se mais conveniente reduzir os lucros com a exploração a fim de manter o acesso ao recurso. Outro fator que influenciou essa decisão foi a consciência de que o petróleo era um recurso não renovável. Em 1973, houve uma das maiores crises, dado o valor do barril ter triplicado em um período de três meses. Como consequência, o aumento do valor deste produto primário em países subdesenvolvidos superava os produtos industrializados oriundos de países desenvolvidos.

Nesse mesmo período, guerras religiosas no Oriente Médio, entre judeus e árabes, em torno do território da Palestina, também fizeram com que algumas decisões fossem tomadas. As nações árabes produtoras de petróleo realizaram um boicote contra todos aqueles que apoiassem a causa dos israelenses. Com a elevação do preço do barril, muitos países tiveram de abandonar a guerra.

Anos depois, em 1979, foi a vez do Irã. Nos anos de 1960, a economia iraniana cresceu consideravelmente graças aos aumentos do preço do petróleo e exportação de aço. Devemos nos lembrar que nesse mesmo momento surgia a Opep. Mas embora a economia crescesse, o padrão de vida dos pobres e das classes médias urbanas não melhorava. O poder estava nas mãos do xá Reza Pahlevi, cujo regime era conhecido por sua corrupção política e práticas brutais. Além disso, o xá provocava revoltas na sociedade pelos esforços empreendidos em diminuir o papel do islamismo que resultava em uma visão negativa, dado que à medida em que a classe média urbana se educava, mais se expunha sua adesão aos valores ocidentais. À medida que a desigualdade crescia, os protestos por mudanças aumentavam até culminar com o fim da ditadura de Reza Pahlevi, e a tomada do país pelos xiitas que apoiavam o aiatolá Khomeini. Nesse cenário, houve paralisação da produção iraniana de petróleo, consequência da revolução Islâmica liderada por Khomeini. Além disso, a guerra entre Irã e Iraque, os maiores produtores de petróleo nesse momento, afetou drasticamente a produção de petróleo, diminuindo a oferta do combustível no mundo e aumentando, então, o preço do barril. Este foi o segundo grande choque do petróleo, elevando o preço médio do barril ao equivalente a 80 dólares atuais. Os preços permaneceram altos até 1986, quando o barril do petróleo voltou a cair, só subindo novamente durante a invasão iraquiana no Kuwait, quando o barril chegou novamente ao patamar dos US$40 nos anos 1990. Apesar de essa recessão ter durando bem menos que as anteriores também causou uma crise econômica mundial. A entrada dos EUA na briga, apoiando o Kuwait e se opondo ao Iraque (a conhecida Guerra do Golfo) culminou com a retirada do exército iraquiano, mas levou a muitos incêndios nos poços de petróleo do Kuwait que contribuiu para a lenta normalização dos preços do produto.

Conforme se sabe, há estimativas de que esse recurso se findará nos próximos 70 anos, fazendo com que as economias de todo o mundo estejam preocupadas em buscar explorar outras fontes de energia que possam substituir o petróleo. Ser produtor de fontes alternativas de energia passa a ser uma estratégia política.


CONSEQUÊNCIAS PARA ECONOMIA MUNDIAL

Conforme dito, entre os principais produtores de petróleo temos os Estados Unidos, com uma participação de 15% da produção mundial, Arábia Saudita, com 13% e Rússia, com 12%. Por outro lado, entre os maiores consumidores estão os mesmos Estados Unidos e a China, 13%. Qualquer mudança que afete esses países, seja na produção ou no consumo acaba influenciando no preço do mercado internacional.

A produção mundial de petróleo tem aumentado bastante nos últimos anos, seja por novos investimentos na extração ou novos tipos de petróleo que surgem, o que fez com que por um período de tempo os preços desse produto pudessem ter se mantido em patamares baixos, deixando a Opep em uma situação delicada. Ao decidir manter elevados os níveis de produção dessa matéria-prima, com excesso de oferta e baixos preços, retira-se do mercado os produtores que possuem custos elevados.

A queda dos preços do petróleo, juntamente ao pânico causado pelo avanço do coronavírus, impactou o mercado de forma acentuada, sobretudo as empresas que dependem do petróleo em suas operações.

Com o fechamento das fronteiras da China – inicialmente o epicentro da pandemia e um dos principais importadores de petróleo do planeta – consequentemente houve diminuição de sua atividade econômica, intensificando a queda dos preços dessa commodity.

A recessão econômica, com encolhimento global de 0,9 % em 2020, mostra que os países que dependem particularmente das exportações de commodities, incluindo entre elas o petróleo, enfrentam riscos elevados, cujos impactos no desenvolvimento serão perversos. Isso faz com que muitos governos precisem reduzir drasticamente os gastos públicos em investimentos contra a pobreza, incluindo também as ondas de desemprego. As crescentes restrições de viagens e, portanto, do setor de turismo, se viu afetada drasticamente pelo coronavírus – que é apenas um acelerador da crise econômica mundial –; mesmo com a queda dos preços do petróleo, não há estímulo para viagens.

Outra consequência observável é o impacto que a queda de preços do petróleo terá sobre a demanda por biocombustíveis, que são uma importante fonte de demanda nos mercados de açúcar e óleos vegetais. Com os preços baixos, reprimem-se as políticas de combates às mudanças climáticas, já que o petróleo fica mais competitivo frente às energias renováveis.


PERSPECTIVAS PARA O BRASIL

O Brasil é um grande produtor de petróleo mas, ao contrário dos EUA, seu petróleo não é refinado internamente no país, por isso, para que seja consumido é necessário comprar a preço de mercado. Isso significa que não há produção brasileira de petróleo para consumo interno, deixando o país vulnerável durante as crises. Apesar de possuirmos a commodity, somos afetados do mesmo modo que aqueles que não a têm.

Nas crises do petróleo dos anos 1970, o Brasil não sofreu tanto impacto porque a Petrobras detinha o monopólio de importação e optava por uma política de ter vários fornecedores, mas podemos dizer a grande crise de 1973 acabou tendo influência no fim do milagre econômico da Ditadura Militar. No cenário atual, o Brasil sofre as pressões da Opep para cortar sua produção nacional da commodity. A importância do Brasil na geopolítica do petróleo deve-se a que é hoje um dos dez maiores exportadores da commodity no mundo. No entanto, com a redução na produção, os efeitos nas contas de estados e municípios e do próprio governo são drásticos, dada a menor arrecadação com royalties. Além disso, o ICMS cobrado sobre os combustíveis é uma das principais fontes de arrecadação de impostos para vários estados. Com a gasolina mais barata, essa arrecadação despenca.

As ações da Petrobras (PETR3; PETR4), mostram que apenas no mês março de 2020 já houve uma desvalorização de mais de 54%, o que significa que a rentabilidade da Petrobras e de outras empresas do setor vai cair. No curto prazo, o que mais preocupa a empresa é a paralisação no desenvolvimento de novos projetos na exploração do imenso volume de petróleo das camadas de pré-sal.


PARA SABER MAIS