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Globalização e saúde
 
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Nos primeiros meses de 2020, o intenso fluxo de pessoas, mercadorias e serviços pelo mundo, que marca o avançado processo de globalização do século 21, foi interrompido em poucas semanas devido a pandemia do novo coronavírus. A doença se espalhou rapidamente por pelo menos 200 países e territórios, deixando milhões de infectados e milhares de mortos.

Visando conter a disseminação do vírus, governos limitaram a circulação de pessoas e serviços e fecharam fronteiras. Um terço da população mundial entrou em quarentena. A produção e o comércio foram completamente interrompidos em diversos setores e as principais bolsas de valores do mundo despencaram, causando aquele que pode ser o maior choque econômico do século.

A crise sanitária, econômica e política causada pelo novo coronavírus lançou luz a um debate importante na Geografia: a relação intrínseca entre o processo de globalização e a saúde humana. Ficou claro que, com aumento da circulação de pessoas e de mercadorias, os agentes causadores de doenças, sobretudo vírus e bactérias, também circulam mais rápido entre países, trocando de continente da noite para o dia e potencializando contágios.


A globalização e suas consequências impactaram a saúde global como nunca se viu antes.
Imagem: Gerd Altmann/Pixabay.


A GLOBALIZAÇÃO DO SÉCULO 21

O termo “globalização” não é novo. Ele foi cunhado na década de 1980 para descrever o processo de intercâmbio e de integração econômica, social e política que crescia entre as diversas nações do globo, a partir do avanço da rede de transportes e comunicação. Apesar disso, o processo de globalização remonta ao início do século XVI, quando europeus iniciaram as grandes navegações, entendidas como um processo de expansão colonial marítima que interligou lugares, povos e aqueceu o incipiente sistema de comércio internacional da época.

Com o passar dos séculos e com o desenvolvimento das tecnologias de informação e transportes, a globalização foi potencializada e fortalecida. Hoje, as finanças, as trocas de informações, as migrações entre os povos, as pesquisas científicas, o trabalho e as tecnologias se globalizaram. Todo esse processo não se limitou aos setores políticos e econômicos, mas também ganhou espaço no âmbito cultural, possibilitando grande troca e apropriação de costumes, hábitos e mercadorias culturais ao redor do globo.

Nesta dinâmica, a globalização agravou a desigualdade social, uma vez que a renda se concentrou nas mãos de uma minoria. Além disso, criou uma rede de comunicação desigual entre os territórios, de forma que culturas, valores morais e hábitos de regiões centrais do processo de globalização foram reproduzidos e incentivados em diversos lugares do mundo, sufocando tradições e culturas locais de uma dada região.

A globalização trouxe oportunidades e crescimento econômico e cultural, sobretudo para os países ricos e para as parcelas da população com mais poder aquisitivo, já que possibilitou maior acumulação de capital. Além disso, possibilitou avanços no setor de tecnologia e difusão de informação e conhecimento, de forma que descobertas científicas podem circular rapidamente pelo globo.

Desta forma, se o tratamento para uma doença grave é descoberto no Japão, por exemplo, ele pode ser rapidamente difundido para diversas partes do planeta, estendendo a possibilidade de cura para outros países. O acesso a tal tratamento dependerá, no entanto, do contexto social e econômico de cada nação, de forma que é mais fácil que países centrais no capitalismo façam uso das descobertas científicas em prol da saúde do que os países mais pobres e com estruturas mais precárias para o desenvolvimento da ciência.


GLOBALIZAÇÃO DE DOENÇAS

É fato que a economia globalizada encurtou distâncias entre países, tornando as fronteiras mais fluídas. Da mesma forma que pessoas e mercadorias podem se deslocar com facilidade entre países por terra, água ou ar, os vírus e bactérias causadores de doença também. Nesse cenário, uma epidemia localizada pode se tornar, em poucas semanas, uma pandemia, como ocorreu com o novo coronavírus. O termo pandemia se refere a uma doença altamente contagiosa que se espalha rapidamente por grandes regiões deixando um número elevado de mortos.

O processo de internacionalização e globalização de doenças, ou seja, a circulação pelo mundo de enfermidades antes restritas a determinados locais, começou a ser registrada no século 14, uma grave epidemia de peste bubônica, chamada na época de peste negra, que dizimou milhões de pessoas em cidades da Europa e da Ásia. Esta foi uma das primeiras grandes pandemias registradas no mundo, que causou diversas crises religiosas, sociais e econômicas nas regiões atingidas.

No ano de 1492, com a oficialização do descobrimento da América e início do processo de colonização deste território, diversas doenças relativamente comuns na Europa se espalharam pelo Novo Mundo. Como os povos nativos desconheciam as enfermidades e não possuíam anticorpos para ela, o contagio foi rápido e desastroso: milhões de pessoas morreram de doenças como gripe, o sarampo e a varíola, que chegaram a dizimar sociedades inteiras.

A sífilis é outro exemplo de moléstia que desconheceu fronteiras e se espalhou rapidamente por diversos países, sendo registrada de forma epidêmica pela primeira vez em 1495, após a conquista de Nápoles por tropas francesas. Na mesma lista de doenças que se tornaram epidêmicas pelo mundo é possível citar a cólera e a gripe espanhola no começo do século 20, que mataram mais que a Primeira Guerra Mundial, além dos surtos de febre aftosa, síndrome respiratória aguda (Sars), gripe aviária, ebola e HIV.

É possível dizer que, então, a partir do período designado como Idade Média, realizou-se uma unificação de vírus e bactérias no mundo. Ainda assim, passaram-se séculos até que a humanidade tomasse conhecimento dos riscos sociais da falta de controle de doenças e passasse a se empenhar em conter a disseminação delas pelo território. Atualmente, ficou claro que quanto mais a globalização avança, mais a saúde de cada ser humana importa para o bem-estar de todos e para a manutenção da lógica econômica, política e social vigente.


O COMBATE GLOBAL ÀS DOENÇAS

Foi apenas no século XIX que governos, cientistas e demais lideranças aceitaram a ideia de que, embora as trocas comerciais e culturais entre países fossem fundamentais para o desenvolvimento, era necessário investir em políticas sanitárias para garantir segurança, dignidade e trabalho. Foi nessa época que cientistas começaram a descobrir agentes causadores de doenças, possíveis tratamentos e políticas de prevenção no plano internacional. Esses fatores culminaram no aumento longevidade da população e em mais qualidade de vida, sobretudo para a parcela da sociedade com maior poder aquisitivo e com acesso aos serviços de saúde.

A partir daí e durante todo o século XX, foi registrado um grande progresso na luta contra doenças epidêmicas, com amplas descobertas sobre agentes causadores de infecções até então mortais, como a tuberculose e a cólera, além da disseminação de vacinas, remédios, políticas de saneamento básicos e campanhas de incentivo a higiene pessoal.

É interessante atentar que muitas dessas descobertas foram feitas por médicos ou cientistas que trabalham em exércitos coloniais durante períodos de conflitos por expansão territorial, como o imperialismo na África. Foi em missões como essa que foi descoberto, por exemplo, o plasmódio da malária, na região norte do continente africano, assim como a transmissão de peste bubônica pelas pulgas de ratos na Índia, ou ainda o mosquito Aedes aegypti como transmissor na febre amarela, durante a abertura do canal do Panamá.


GLOBALIZAÇÃO E NOVAS DOENÇAS

É comum que vírus e bactérias passem por mutações naturais para se adaptarem e sobreviverem em um determinado meio. Por isso, de tempos em tempos podem surgir micróbios com características novas e mais resistentes aos medicamentos já conhecidos. Cientistas estimam que ao menos 30 novas doenças foram descobertas nos últimos 20 anos em diferentes partes do mundo.

Algumas delas foram agravadas por problemas sociais típicos do processo de globalização e de concentração de capitais, como pobreza urbana, baixas taxas de saneamento básico em países pobres, distribuição desigual de vacinas e insumos médicos e falta de acesso de grande parte da população mundial aos sistemas de saúde.

Hábitos da sociedade humana moderna têm grande influência sobre o aparecimento de novas doenças e sua disseminação, como desgastes no meio ambiente, surgimento desordenado de favelas e aglomerações urbanas, criação de animais sem rígidos cuidados sanitários, internacionalização de insumos industriais, uso de agrotóxico e contaminação da água. Por isso, cientistas preveem que novas epidemias mundiais deverão ocorrer ao longo dos anos, com uma circulação cada vez rápida devido à globalização e ao adensamento populacional em grandes cidades.

Porém, ao mesmo tempo que a globalização torna mais fácil a disseminação de doenças, ela também torna quase instantânea a circulação de informações que ajudem prevenir e tratar de doenças, devido justamente ao avanço das tecnologias de informação e da ciência.


XENOFOBIA E RACISMO

Se a globalização nos colocam diariamente frente a culturas muito diversas da nossa, ampliando nossos horizontes e nossa integração social, problemas como racismo e xenofobia não param de ocorrer e, em situações de pandemia, podem se alastrar ainda mais rápido que vírus e bactérias.

Isso porque, com o avanço da rede de comunicação, informações de má qualidade também passaram a ser amplamente difundidas, fazendo com que alguns grupos associem o problema sanitário a um determinado povo ou etnia, colocando erroneamente estes indivíduos ou seus hábitos como os responsáveis pelo surgimento ou pela proliferação de novas doenças.

Foi o que ocorreu com o novo coronavírus. Ainda não se sabe ao certo o que causou o aparecimento deste vírus, mas algumas teorias apontam que que ele pode ter infectado os primeiros seres humanos a partir do contato com animais exóticos em um mercado na cidade chinesa de Wuhan, na província de Hubei. A simples suspeita foi suficiente para que inúmeros boatos circulassem pelas redes sociais sugerindo que hábitos chineses seriam responsáveis pela pandemia.

A disseminação da doença por diferentes países e territórios acirrou os ânimos e aumentou a desinformação. Foram registrados ataques xenofóbicos contra chineses e seus descendentes em diversas partes do mundo. Membros de comunidades asiáticas se tornaram alvo de agressões físicas e verbais e de uma série de comentários ofensivos pela internet, além de casos de bullying em escolas. Pessoas que sequer haviam viajado para a China sofreram agressões apenas por apresentarem características bióticas do país.

Os discursos preconceituosos chegaram a ser reforçados por chefes de Estado, intensificado o mal-estar entre a população. O Brasil não ficou de fora: chineses que vivem no país sofreram agressões em redes sociais e nas ruas, ao precisarem se deslocar durante a pandemia.

Este cenário não é uma particularidade do novo coronavírus e já foi registrado em outros momentos de disseminação de doenças pelo mundo. Judeus foram acusados de levar a peste negra para a Europa, franceses de espalhar a sífilis pelo mundo, irlandeses por introduzir a cólera em Nova York, os italianos por espalharem a poliomielite pelo mundo, além de pessoas de diversas nacionalidades da África serem responsabilizadas pelos contágios por HIV.

Comportamentos como estes apenas agravam conflitos, dificultam o combate à doença e desviando as críticas dos reais problemas sociais que aumentam a circulação de doenças pelo mundo.


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