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Bioeconomia na Amazônia
 
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Bioeconomia
Economia e desenvolvimento sustentável: aliados necessários. Foto: jcomp/Freepik.

A bioeconomia é um modelo econômico que prima pelo desenvolvimento sustentável, por meio da utilização de recursos de base biológica, recicláveis e renováveis, para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços mais sustentáveis.

No mundo atual, onde vivemos em meio a um cenário de crescimento vertiginoso da população (até 2030, espera-se um crescimento de 16% da população global), aumento do número de idosos e o crescimento do consumo, urge-se cada vez mais pela oferta de alimentos, água potável e energia. Esse cenário traz enormes desafios, mas é, antes de tudo, uma grande oportunidade para o crescimento da bioeconomia.

Devido aos anos de exploração de recursos naturais em prol do lucro nos últimos séculos, o planeta passa continuamente por inúmeras crises que impactam na qualidade de vida da população. A busca por uma economia sustentável que contribua para o aprimoramento técnico dos negócios, aliado à responsabilidade socioambiental, é uma realidade cada vez mais presente no mundo dos negócios. No entanto, esse modelo só será possível a partir do incentivo da prática, do fortalecimento de políticas públicas e da parceria junto a universidade, por meio das pesquisas científicas em biociências e dos usos de novas tecnologias, desde melhorias de maquinários, por meio da robótica, ao uso da inteligência artificial e do machine learning.

Segundo estudos realizados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2009), até o ano de 2030 as biotecnologias serão responsáveis por uma contribuição global de $ 1 trilhão/ano. As biotecnologias também serão responsáveis por fatias consideráveis na produção de fármacos (80%), produtos químicos (35%) e na produção agrícola (50%).

O Brasil é um país com imenso potencial para o uso da bioeconomia. Por ser um dos países com a maior biodiversidade do planeta, e um dos maiores produtores agrícolas do mundo, não faltam insumos e recursos como matéria-prima para a bioindústria e similares. A possibilidade de criação de novos processos e produtos nos segmentos de desenvolvimento de novos materiais com base na inovação, cosméticos, energia renovável, agricultura e medicamentos colocam o país de forma muito bem posicionada nas oportunidades prevista no modelo. O Brasil, segundo estudo da OCDE, ocupa hoje 12º lugar no ranking de número de empresas de biotech no mundo.

Em 2015, o país teve um avanço significativo para o desenvolvimento do processo de inserção da bioeconomia na estratégia nacional. No dia 20 de maio de 2015, foi aprovada a Lei n. 13.123, de Patrimônio Genético e Conhecimentos Tradicionais Associados. A lei permite a simplificação e regulação do acesso ao patrimônio genético do país e ao conhecimento tradicional associado, para fins de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, e a repartição de benefícios do uso de recursos genéticos.


BIOECONOMIA NA AMAZÔNIA

A Amazônia é composta por um conjunto de ecossistemas que corresponde à Floresta Amazônica, considerada a maior floresta tropical do mundo, e à Bacia Amazônica, maior bacia hidrográfica. A região conta com aproximadamente 2.500 espécies de árvores e 30 mil espécies de plantas, além de cerca de 30 milhões de espécies de animais. O papel da região no planeta, especialmente na América do Sul, é de suma importância: na biodiversidade presente, onde concentra 20% da fauna do planeta e mais de 1/3 das espécies da flora da América do Sul; no regime da água, pois concentra 20% da água doce do planeta; e na estabilização do clima global.

Apesar de toda sua riqueza, a Amazônia sofre com agressões contínuas há muitas décadas. A partir dos anos 1970 até 1990, 7,4% da floresta foram desmatados. Nos anos 2000, o desmatamento avançou, tendo seu ápice no ano de 2004, quando foi devastada uma área de cerca de 27.772 km2.

Desde o desflorestamento recorde em 2004, uma série de medidas foi tomada para mitigar o desmatamento, como investimento em fiscalização, monitoramento e combate à invasão ilegal de terra. De 2004 a 2012, o desmatamento diminuiu 80% e o Brasil tornou-se exemplo de preservação do meio ambiente. No entanto, desde 2013 os números voltaram a crescer, atingindo o ápice no ano de 2019, aproximadamente 10 mil km².

A Amazônia recebeu ao longo do tempo diversas atividades econômicas, que variaram de baixo à alto impacto no meio ambiente: a extração da borracha, chamada de “ouro negro”, no início do século XX; nas décadas de 1960 e 1970, com a criação da Transamazônica na época da Ditadura Militar e o discurso de “integrar para não entregar”, quando o governo ofereceu uma porção de incentivos aos empresários dispostos a produzirem na região; nos anos 1990, com a chegada da soja na região; e por fim, nos anos 2000, a pecuária e os grandes pastos passaram a ser os maiores responsáveis pelo desmatamento na região. Além das atividades citadas, outros empreendimentos também se inserem na região como a mineração, produção de açaí, castanha, entre outros.

É nesse cenário conflituoso entre geração de negócios, empregos e preservação do meio ambiente que pesquisadores se dedicam a estudar um novo modelo de desenvolvimento que prima pela sustentabilidade: a bioeconomia. Segundo o climatologista, Carlos Nobre, defensor do modelo, “A região Amazônica oferece a possibilidade de implantar um modelo que nenhum país do mundo ainda implantou: uma revolução industrial baseada no aproveitamento da biodiversidade”.

As vantagens de se investir nesse modelo é a possibilidade de agregação de valor nos produtos e serviços com o uso das tecnologias. Esse modelo de uso e preservação da biodiversidade é superior ao modelo de substituição da floresta, oriundo da produção agrícola em massa e da pecuária. Nele, todos ganham, já que os produtores agregam valor aos produtos, o que naturalmente ajuda no aumento da renda, que fica presente na região e transforma a realidade local.

Nesse formato, seria possível transformar o cenário local inserindo as comunidades das florestas, pequenas cidades e outras regiões de modo que a bioeconomia fosse o motor produtivo local. Esse arranjo permitiria a diminuição da desigualdade social e econômica e promoveria o desenvolvimento local sem agredir a biodiversidade.

Hoje, um dos principais cases da bioeconomia é o açaí. É um fruto nativo, rentável, que gera renda para famílias que o produzem e que tem uma média de agregação de valor, por hectare, entre cinco a dez vezes maior do que a pecuária e a soja. Apesar de ser um produto com maior taxa de consumo na Amazônia, hoje o açaí faz parte de uma cadeia global de milhares de dólares. Sua fruta e caroço são utilizados por diferentes segmentos na indústria, como artesanato, energia, cosmético e corantes.

Outro case de sucesso, que surge a partir da cooperação entre população local, indígenas e ribeirinhos, ONG Instituto Socioambiental e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), é a Rede de Sementes do Xingu. De desenvolvimento comunitário, ela visa disponibilizar sementes da flora regional em quantidade e com a qualidade que o mercado demanda.


O FUTURO DA BIOECONOMIA

Segundo estimativas do pesquisador Paulo Barreto, associado ao Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a economia da Amazônia precisaria produzir em torno de R$ 700 milhões, com negócios sustentáveis, nos próximos dez anos para zerar o desmatamento sem perdas socioeconômicas na região.

Nos Estados Unidos, a bieconomia corresponde a 5% do PIB americano, segundo relatório da Academia de Ciências, de Engenharia e de Medicina dos Estados Unidos. Essa realidade, no entanto, é distante do Brasil atualmente, que enfrenta pressão internacional para adotar políticas mais eficientes e ter atuação mais enérgica para combater o desmatamento.

Países como Estados Unidos e Alemanha, referências em bioeconomia, são detentores de um ecossistema científico e tecnológico composto por robustos centros de pesquisa, movimentos sociais, empresas e outros atores que de forma cooperada buscam soluções para um desenvolvimento sustentável. A Alemanha conta com o Conselho de Bioeconomia da Alemanha, órgão responsável por assessorar o Governo Federal alemão sobre o caminho para uma economia baseada em produtos orgânicos, responsável por realizar o evento Global Bioeconomy Summit e também pela publicação de relatórios referenciais.

Para o Brasil dar um salto e ser reconhecido como um protagonista na bioeconomia seria preciso criar um ecossistema de inovação favorável para promover a inserção de empreendedores no segmento e democratizar o debate. Para Carlos Nobre, a industrialização é indispensável, pois o Brasil ainda é dependente da exportação de produtos manufaturados, sem valor agregado e alta tecnologia. Apesar das dificuldades, o Brasil possui órgãos de pesquisa como a Embrapa e doutores especialistas em Amazônia, que podem ser a ponte entre o conhecimento científico e sabedoria popular dos povos tradicionais.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC
EF03GE01, EF03GE02, EF03GE03, EF03GE05, EF03GE11, EF04GE08.