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Fundação Oswaldo Cruz
 
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 O QUE É A FIOCRUZ Imprimir Enviar Guardar
 
No ano de 2020 uma das maiores instituições de pesquisa completou 120 anos. A Instituição foi criada pelo médico, sanitarista e cientista Oswaldo Cruz em 1900 e é um dos grandes institutos de pesquisa na área da saúde do mundo, ficou conhecida inicialmente devido a suas estratégias de combate à doenças infecciosas, como a varíola e a peste bubônica. Atualmente a Fundação é uma das principais entidades no combate a Covid-19 no Brasil e no mundo, desenvolvendo diversas pesquisas sobre o novo corona vírus, inclusive no desenvolvimento de uma vacina originalmente brasileira para a pandemia. Na época de sua criação o Brasil era um país mal visto aos olhos dos estrangeiros, e realmente era um lugar insalubre, muitas doenças assolavam o território nacional e muitos navios, mesmo que atracassem no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, não deixavam seus passageiros descerem para aproveitar as oportunidades oferecidas pela cidade maravilhosa. Nesta época a cidade era tomada pela peste bubônica, que matou cerca e 1300 pessoas no final do século XIX e início do século XX. Vale lembrar que este local insalubre era a capital do Brasil na época e já concentrava grande parte do turismo nacional. Além do turismo o porto do Rio de Janeiro, juntamente com o porto de Santos, era responsável pelo escoamento do café brasileiro e de outros produtos de origem nacional muito apreciados nos países europeus.


Fundação Oswaldo Cruz /Ag.Brasil.

A ideia de Oswaldo Cruz era criar um mecanismo de combate a essas “pragas”, e isso só seria possível se fosse criado um instituto de pesquisa para elaboração de remédios, soros e vacinas contra as diversas doenças infecciosas que atingiam a população brasileira. A solução para o laboratório, imaginado por Oswaldo Cruz, surgiu em uma fazenda distante do centro da cidade, mais especificamente na região Manguinhos, localizada ao norte da Cidade do Rio de Janeiro. Logo após sua implantação, no ano de 1902, a Fundação já produzia um soro contra a peste bubônica e já realizava pesquisas de causa, efeitos e combate à febre amarela e à varíola. A ideia primordial da Fundação Oswaldo Cruz era ser capaz de substituir os medicamentos importados para o combate das doenças infecciosas, diminuindo o custo, além de aprimorar a produção de soros e vacinas em território nacional. Na mesma época, as ideias de Pasteur sobre sanitarismo e higiene, como principais medidas de combate à microorganismos, haviam tomado conta do novo desenvolvimento científico na área da saúde e foi no Instituto Pasteur que Oswaldo Cruz foi buscar sua inspiração para o desenvolvimento do novo laboratório brasileiro de sanitarismo. Diferente de outras fundações de pesquisa que se desenvolveram no país, a Fundação Oswaldo Cruz (na época chamada de Instituto Soroterápico Federal) teve início sem vínculos diretos com as universidades existentes na época, Apesar disso, Oswaldo Cruz sempre deixou claro que tinha o intuito de fornecer, além da prestação de serviços de saúde, atividades de pesquisa e ensino para os brasileiros. O Instituto foi montado em parceria com órgãos federais de saúde da época e assim pode atuar de forma direta e importante no desenvolvimento de estratégias de saúde pública para a população. O desenvolvimento de novos produtos eficazes, mais baratos e com grande aceitação pela população foi fundamental para o fortalecimento do Instituto e para o financiamento de novas pesquisas em território brasileiro. Após o sucesso inicial dos produtos e pesquisas elaborados pelo Instituto foi dado início a construção do icônico prédio da fundação, que foi finalizado no ano de 1918. Atualmente o “castelo” construído é um dos grandes símbolos da paisagem carioca.

A Fundação Oswaldo Cruz nasceu, como dito anteriormente, como Instituto Soroterápico Federal, e foi autorizado oficialmente pelo barão de Pedro Affonso, que viabilizou os materiais e os ofícios legais para as primeiras instalações do Instituto. No final de 1907 o então Instituto Soroterápico, devido principalmente a ampliação de suas atividades, tornou-se o Instituto de Patologia Experimental e, somente em 1909, em reconhecimento ao esforço de seu principal pesquisador, se tornou o Instituto Oswaldo Cruz. A alcunha de Fundação surgiu somente em 1970, com a entrada de outros parceiros científicos, quando finalmente a antiga Instituição foi nomeada como Fundação Oswaldo Cruz, hoje chamada popularmente e carinhosamente de Fiocruz. Em 1903, quando o barão de Pedro Affonso se aposentou, Oswaldo Cruz assumiu a diretoria do Instituto, além da direção do órgão federal de saúde, posição equivalente ao que seria o Ministro da Saúde atualmente. Na época o Brasil tinha três prioridades de combate a doenças infecciosas que se alastravam de maneira incontrolada, a febre amarela, a varíola e a peste bubônica. A posição política exercida pelo principal pesquisador do Instituto facilitou a busca de financiamentos e as atividades de pesquisa tiveram um grande salto em um período muito pequeno, obtendo na época um reconhecimento internacional nunca obtido por pesquisadores brasileiros.

Desde a inauguração do Instituto Soroterápico Federal, Oswaldo Cruz alimentava um sonho. Ele sabia que um Instituto com essa finalidade, naquela época, deveria chamar a atenção da população e de investidores, a ciência deveria ser vista como uma nova aristocracia. Pensando nisso, ele teve a ideia de construir um prédio monumental, que representasse toda a importância do trabalho que era exercido lá dentro. Amante de uma boa arquitetura, Oswaldo Cruz teve a ideia de chamar o engenheiro Luiz Moraes Junior, um dos responsáveis pela construção da igreja da Penha, para construir o prédio que é símbolo do instituto até hoje. A vontade de Oswaldo Cruz era que as novas instalações laboratoriais estivessem entre as mais modernas do mundo e, além do prédio principal, foram planejadas estrebarias, diversos biotérios para diversos tipos de cobaias, pavilhões para estudos de desenvolvimento das doenças, para estudos de novos medicamentos e para desinfecção de seus trabalhadores. A história de construção do prédio principal é controversa, porém o resultado final foi uma construção com base na arquitetura árabe. Historiadores justificam a escolha como uma reação ao classicismo existente nos países europeus na época.


HISTÓRICO CIENTÍFICO DA FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ
Desde sua criação a Fundação Oswaldo Cruz se destaca pela excelência de desenvolvimento de suas pesquisas e de seus produtos médicos. A Fundação sempre teve como objetivo primordial o combate a doenças infecciosas e desenvolvimento de soluções para os problemas de saúde pública do Brasil e de países menos favorecidos. Apenas quatro anos depois de sua fundação, o Instituto já havia formulado um plano sanitário para o território brasileiro, o qual incluía a vacinação obrigatória da população contra a varíola. Na época houve uma grande mobilização popular contra as medidas propostas pelo cientista, o que culminou na chamada revolta da vacina, devido aos protestos os planos de imunização da população tiveram que ser cancelados e revistos. Um ano depois Oswaldo Cruz, acompanhado de outros pesquisadores, fez um levantamento inédito no Brasil, os pesquisadores do Instituto Sorológico planejaram e executaram diversas expedições, principalmente pelos portos fluviais e marítimos do país. O intuito era mapear as condições de saúde das diversas regiões do Brasil e, a partir disso, criar um plano de saneamento e vacinação nacional. Em 1907 ocorreu a primeira grande conquista do Instituto, através de estudos sobre a forma de transmissão e de combate aos mosquitos transmissores da febre amarela, foi criado um plano estratégico, que conseguiu erradicar a doença do Rio de Janeiro no período de apenas um ano. Este sucesso levou os cientistas a receberem a medalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim. A partir daí o Instituto pensado por Oswaldo Cruz começou a ser reconhecido internacionalmente e obteve apoio para dar saltos ainda maiores.

Em 1909 uma nova grande conquista para o Instituto brasileiro, o pesquisador Carlos Chagas conseguiu descrever o ciclo completo da Tripanossomíase, doença importante que atingia milhares de brasileiros, posteriormente a enfermidade foi batizada como “Doença de Chagas” em homenagem seu descobridor. Foi o primeiro caso no mundo em que um mesmo pesquisador havia conseguido tal feito, fechar o ciclo da doença, identificando o causador, o vetor e as formas de transmissão. O nome dado ao protozoário, por sua vez, foi uma homenagem do Carlos Chagas ao seu grande amigo e influenciador Oswaldo Cruz, sendo batizado de Tripanossoma cruzi. Em 1917, após a morte de Oswaldo Cruz, o prédio principal fica pronto e uma nova era se inicia na Fundação. Carlos Chagas substitui seu amigo e parceiro de pesquisas, é nomeado como o novo diretor do órgão federal e prioriza os processos de sanitização do Brasil. Nos anos seguintes diversos trabalhos de pesquisa, vacinas, soros e métodos de combate a doenças infecciosas foram publicados e implantados pelos pesquisadores da Fundação. A instituição tinha tamanha importância que no ano de 1925 foi visitada pelo físico Albert Einstein que reconhecia a importância dos estudos desenvolvidos no Rio de Janeiro, logo depois o descobridor da penicilina, Iam Fleming também visitaria a Fundação. Nesta mesma época a Fundação criou um hospital e incorporou outras instituições de saúde pública permitindo um aumento ainda maior de sua importância e capacidade de pesquisa. Também nesta época foi criada a primeira campanha nacional de vacinação, contra a febre amarela. Até hoje a Fundação se destaca como a principal produtora de vacinas contra essa doença no mundo, 80% de toda vacina mundial contra a febre amarela é produzida pela Fiocruz.

A partir da década de 50, o que se viu foi uma expansão da atuação da Fiocruz, com abertura de institutos de pesquisa, de ensino e de produção de medicamentos em vários estados do país, como Minas Gerais, Bahia e São Paulo. Em 1976, a Fiocruz criou o laboratório de tecnologia em quimioterápicos e se tornou o maior laboratório da América Latina para produção de vacinas, soros e mecanismos laboratoriais para detecção de doenças infecciosas. Na década de 80 a Fiocruz se tornou uma potência mundial de pesquisa na área de saúde e começou a atuar de forma mais presente na regulação, em conjunto com outras entidades, de praticamente todas estratégias relacionadas a saúde pública no Brasil. Se não fosse o bastante, a Fiocruz foi responsável pela criação de escolas e cursos para formar profissionais de saúde, pela criação de bancos de leite, pelo incentivo a mecanismos de divulgação científica, além de diversas publicações científicas que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento da saúde humana. Exemplos desse pioneirismo não faltam, a Fiocruz foi precursora dos estudos sobre o HIV no país, sendo a responsável pelo isolamento do vírus no Brasil, desenvolveu medicamentos contra a malária que eram mais eficazes e com menos efeitos colaterais do que a cloroquina utilizada comumente para o tratamento de doentes, criou métodos para identificação de pacientes com tuberculose que possuíam riscos de desenvolver hepatite medicamentosa devido ao tratamento com isoniazida, identificou a relação da microcefalia com o vírus da Zika, além de diversos outros estudos importantes que mantém a Fundação como um dos órgãos mais importantes de saúde do mundo, sem dúvida a Fiocruz é, atualmente, reconhecida como uma Fundação de excelência pela comunidade científica nacional e internacional.


A FIOCRUZ HOJE
Apesar dos estudos em diversas áreas de saúde pública a Fundação Oswaldo Cruz vem se destacando novamente na mídia devido ao seu intenso trabalho contra o novo corona vírus, independente de rusgas políticas, que foram comuns nos últimos tempos, a Fiocruz continuou trabalhando e foi uma das primeiras instituições nacionais a trabalhar contra o avanço da doença e a buscar soluções para o avanço da pandemia. En março de 2020 a Fundação iniciou um plano de ação para compreender melhor as formas de transmissão do vírus e tentar criar estratégias para barrar o avanço da doença no país. Um grande estudo clínico em parceria com a organização Mundial da Saúde (OMS) foi estabelecido e um centro hospitalar foi construído para tratar os primeiros doentes do país. Os estudos desenvolvidos no local tinham com o objetivo principal verificar possíveis tratamentos para os doentes de Covid-19, a maior parte das pesquisas feitas com cloroquina, hidroxicloroquina, interferon e outros medicamentos foi realizado pela Fundação, além é claro do desenvolvimento de processos de diagnose da doença.

Mais recentemente, especificamente no mês de agosto, foi estabelecida uma parceria entre a Fiocruz e o Ministério da Saúde, o objetivo é que se estabeleça um cronograma de aceleração do processo de produção de uma vacina, além da criação de um plano de vacinação contra a doença no Brasil. Além disso a Fundação tem investido muito na capacidade de processamento dos testes do tipo PCR, integrada com os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENS), o diagnóstico rápido da doença permite o estabelecimento de novas políticas públicas que sejam mais eficientes no combate a proliferação. A Fundação também é uma das parceiras da biofarmacêutica AstraZeneca que produz, em conjunto com Universidade de Oxford, uma das vacinas em fases de testes mais avançada do mundo. Segundo Nísia Trindade Lima, atual presidente da Fiocruz, é bem provável um acordo que permita a produção da vacina aqui no Brasil, além disso, a parceria poderia estabelecer outras perspectivas para o desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos. Nísia acredita ainda que as primeiras doses da vacina podem estar disponíveis para a população no início de 2021 através do Programa Nacional de Imunização (PNI), que atende o Sistema Único de Saúde (SUS).

A Fundação acredita que, se tudo correr como o esperado, será possível produzir a vacina de forma integral em solo brasileiro a partir de abril do ano de 2021. Independente dos resultados obtidos e da produção ou não da vacina, o que realmente é importante, é a valorização de um verdadeiro patrimônio nacional voltado ao desenvolvimento de pesquisas, ensino e soluções possíveis para a saúde pública brasileira e mundial. A única palavra que pode definir uma instituição centenária, que trabalha em prol do desenvolvimento, não só científico, mas de formação de pessoas capacitadas, de produção nacional de tecnologias e inovações e, do bem estar comum à todos, com um grau de excelência que impressiona os melhores institutos do mundo, só pode ser orgulho. Que venham os próximos 120 anos.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC ABORDADAS:
EM13LP05, EM13CNT207, EM13CHS402