ENTENDER O MUNDO/ARTIGOS TEMÁTICOS
Black Lives Matter
 
Conheça
 
    ARTIGO      
  Imprimir Enviar Guardar
 
O movimento Black Lives Matter, ou BLM, ganhou repercussão nos últimos meses depois do assassinato do trabalhador negro George Floyd, nos Estados Unidos. Aos 46 anos, Floyd foi asfixiado por 8 minutos e 46 segundos pelo policial branco Derek Chauvin, no estado de Minessota, durante uma abordagem pela suspeita de uso de uma nota de US$ 20 falsa em um supermercado. A ação foi filmada e Floyd, que estava desarmado, repetiu até morrer a frase emblemática “não consigo respirar” enquanto o policial mantinha o joelho em seu pescoço.

As imagens se espalharam pelos Estados Unidos e pelo mundo. A resposta foi a organização de um movimento popular exigindo medidas efetivas para reduzir a violência contra a população negra. Ocorreram protestos em diversos países, como França, Inglaterra e Brasil. Nos Estados Unidos eles duraram dias e uma delegacia de polícia de Minneapolis chegou a ser queimada.


Movimento Black Lives Matter, ou Vidas Negras Importam, em português. Foto: Angela Weiss / AFP.


A população também exigiu posicionamento público de artistas, governantes e grandes marcas frente aos protestos. Diversas celebridades, negras e brancas, apoiaram os atos, indo às ruas e divulgando o movimento nas redes sociais. Grandes marcas colocaram em prática uma ação coletiva para chamar a atenção para a violência policial contra negros, promovendo um “apagão” em suas redes sociais em 2 de junho de 2020. Naquele dia, postaram apenas imagens pretas em suas redes sociais, com a hashtag #BlackoutTuesday, que em português significa “Terça-feira do apagão”.

O canal de televisão HBO chegou a retirar seu catálogo o clássico “...E o vento levou” por ser repleto de preconceitos raciais da época em que foi lançado, no início do século 20. Outros serviços de televisão criaram listas de filmes e séries em suas plataformas sob o nome Black Lives Matter, com o objetivo de exaltar produções e artistas negros.

No mesmo período, manifestantes retiraram estátuas de locais públicos em homenagem a escravocratas, tanto nos Estados Unidos como na Europa. A equipe responsável pela premiação do Oscar nos Estados Unidos renovou seus membros convocando artistas negros e latinos para fazerem parte de sua comissão.

Assim, o Black Lives Matter conseguiu pautar o debate sobre a violência contra negros em diversos países. Neles, há o reconhecimento que nem todos os policiais e brancos que cometem atos racistas, mas que não podem ser tolerados quando ocorrem. Da mesma forma, o movimento convida as pessoas brancas a se unirem à causa, que contribui para o pleno desenvolvimento da sociedade.


COMO TUDO COMEÇOU
O movimento que nasceu nos Estados Unidos, em 2013, em resposta ao assassinato do jovem negro Trayvon Martin, morto em 2012, aos 17 anos, pelo vigilante de bairro branco George Zimmerman, na Flórida.

Trayvon Martin estava indo para a casa do pai após sair de uma loja de conveniências quando Zimmerman, que fazia rondas pelo bairro, perseguiu o jovem. A namorada de Trayvon Martin estava com ele ao telefone e diz ter ouvido uma discussão. O jovem estava desarmado, mas mesmo assim Zimmerman disparou em seu peito, se apoiando na lei de Estado que dá o direito de atirar caso se sinta ameaçado.

Em 2013, Zimmerman foi julgado inocente. Em resposta à absolvição, a ativista negra e redatora editorial Alicia Garza, escreveu um texto em seu perfil no Facebook intitulado “Um bilhete de amor para os negros” em que frisava que a vida negra é importante. Em resposta ao texto a também ativista negra Patrisse Cullors, criou a hashtag “#BlackLivesMatter”, que em tradução livre significa “Vidas Negras Importam”, e a inseriu como um comentário no post. Outra ativista negra, Opal Tometi, que é filha de imigrantes nigerianos, se aproximou de Alicia e Patrisse e as três iniciaram uma campanha online tendo a hashtag como bandeira.

Logo o #BlackLivesMatter ganhou força e tornou-se um movimento organizado tendo Alicia, Patrisse e Opal como fundadoras. A mobilização também declarou apoio à causa queer, somando a comunidade GLBTQ+ nas reivindicações. Outro apoio declarado do BLM foi aos imigrantes de toda origem e às mulheres.

O site oficial do movimento explica, em tradução livre, que o Black Lives Matter “é uma intervenção ideológica e política em um mundo onde vidas negras são sistemática e intencionalmente marcadas para morrer. É uma afirmação para a humanidade, de pessoas negras, sobre suas contribuições para a sociedade e sua resiliência”.

O movimento declara ainda que sua missão é “construir um poder local para intervir na violência contra comunidades negras pelo Estado e seus vigilantes” e que o alcance deste objetivo deve ser “através do combate e da oposição aos atos de violência, criando espaço para negros e garantindo assim melhoras imediatas em nossas vidas.”


A POPULARIZAÇÃO DO BLACK LIVE MATTERS
Infelizmente, o movimento se tornou mais conhecido devido a outros eventos trágicos que ceifaram as vidas de pessoas negras nos Estados Unidos.

Um deles ocorreu em 2014, na cidade de Fergunson, estado do Missouri, quando filmagens de rua que mostraram o policial branco Darren Wilson matando o negro Michael Brown a tiros foram. As imagens foram parar na internet. Brown tinha 18 anos e estava desarmado. Um mês antes, em Nova York, o negro Eric Garner foi estrangulado por 20 segundos por um policial branco. Ele tinha 43 anos e estava desarmado.

Como resposta, o movimento articulou seu primeiro grande ato, de caráter pacífico, que ocorreu em Fergunson, mas que acabou tomando proporções nacionais. Cartazes com a hashtag #BlackLivesMatter foram vistos em diversas cidades dos Estados Unidos em rede nacional, fazendo com que mais pessoas conhecessem o movimento e aderissem a ele pela internet ou mesmo nas ruas.

Em Fergunson, os manifestantes foram alvejados pela polícia com bombas de gás lacrimogênio e com golpes de cassetete. Se a intenção era dispersar o movimento, a operação policial conseguiu exatamente o contrario: a repressão da polícia virou notícia no mundo e a partir de então o movimento ganhou apoiadores em diversos outros países.


POR QUE UM MOVIMENTO QUE DEFENDA A VIDA DOS NEGROS E NÃO A VIDA DE TODOS?
A resposta para essa pergunta, popular entre críticos do movimento, pode ser dada por meio de estatísticas que comprovam que a população negra está em desvantagem em diversos países, devido a questões históricas ainda não superadas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a probabilidade de um negro ser morto pela polícia é de 2,5 vezes maior do que um branco, segundo pesquisa publicada pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. Essa tendência se repete em outros países, como no Brasil. Ainda nos EUA, os negros representam 13,4% da população do país e, embora sejam minoria, são 24% dos mortos pela polícia.

Até meados do século 20, algumas cidades estadunidenses não permitiam a venda ou aluguel de imóveis para negros e seus descendentes em locais mais valorizados. Essa cláusula legal fez com que fossem criados bairros inteiramente brancos, que ainda existem, mesmo a lei não se aplicando mais. Em 2019, uma casa em um bairro negro custava U$ 48 mil a menos que em um bairro branco porque eles são considerados mais perigosos, aponta um levantamento da Brookings Institution (grupo de pesquisa americano fundado em 1916 em Think Tank Row, em Washington, DC).

Em 2018, a média salarial de um negro nos Estados Unidos era de $ 41 mil dólares anuais (cerca de três mil dólares por mês) enquanto os brancos ganhavam $ 70 mil dólares anuais (cerca de cinco mil e oitocentos dólares mensais), segundo o Censo do país. O índice de desemprego branco era de 3,1% enquanto entre os negros era de 6,5%. Já o índice de pobreza entre negros era de 20,8% e entre brancos, de 10,1%.

Essa desigualdade social se tornou ainda mais explícita em 2020, durante a pandemia do novo coronavírus, que vitimou mais negros que brancos nos EUA. Em Chicago, por exemplo, apesar de 30% da população ser negra, eles representaram metade dos contaminados pelo vírus na cidade e 70% dos mortos. A situação se repetiu ao menos em Louisiana e Michigan. Não há dados nacionais sobre o assunto nem explicações biológicas para o fato.


E NO BRASIL?
A concentração dos piores indicadores socioeconômicos entre a população negra também ocorre no Brasil, muitas vezes de forma ainda mais severa que nos EUA. Em nosso país 56% da população é negra, segundo o IBGE. Esta parcela significativa dos brasileiros tem 2,3% mais de chances de ser assassinada pela polícia que um branco. O Atlas da Violência de 2019 apurou que 75,5% das vítimas de homicídio ocorridos durante intervenção policial no Brasil em 2017 eram negras. Entre 2007 e 2017, o número de vítimas negras neste tipo de ocorrência amentou 33%.

Um exemplo é o caso do jovem negro Wemerson Felipe Santos, de 24 anos, que foi espancado até a morte por policiais enquanto trabalhava capinando um terreno em novembro de 2019. No mesmo ano, o também negro David do Nascimento Santos, de 23 anos, foi colocado dentro de um carro de polícia enquanto ia a um bar próximo a sua casa usar o wifi. Ele foi encontrado morto alguns dias depois.

Diante deste cenário, o movimento negro brasileiro aderiu à bandeira Black Lives Matter e organizou diversos protestos pelo país, com cartazes com os dizeres “Vidas Negras Importam”, em tradução ao mote do movimento estadunidense. A hashtag também foi adotada em protestos virtuais no Brasil, tanto por pessoas negras como brancas.

O movimento organizou protestos em Recife, após a morte do menino negro Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que em 2020 caiu do prédio onde sua mãe trabalhava como empregada doméstica, em Recife. Ela havia ido passear com a cachorra da patroa e deixou o filho aos cuidados dela. O garoto pediu pela mãe e a patroa o colocou sozinho no elevador para encontrá-la. Sem saber usar o elevador, ele acabou indo para o nono andar, onde não havia proteção, caiu e morreu. A tragédia levou uma multidão para a porta do prédio em forma de protesto. A patroa foi presa mas pagou fiança e foi solta.

No Rio de Janeiro, os protestos usando a bandeira do movimento ocorreram após o assassinato do adolescente João Pedro, de 14 anos, morto durante uma operação policial na favela do Salgueiro enquanto brincava no quintal de casa.

Esses eventos trágicos fizeram com que parte significativa da população brasileira cobrasse posicionamentos oficiais e públicos contra o racismo. O canal de televisão Globo News foi criticado por fazer uma discussão sobre racismo somente com jornalistas brancos. Para se retratar, a emissora organizou uma discussão televisiva onde os seis jornalistas negros, sendo cinco deles mulheres, discutiram sobre as dificuldades enfrentadas em suas trajetórias profissionais devido à cor da pele.

Outro ato de protesto foi a criação de uma conta na rede social Twitter para denunciar pessoas brancas que utilizaram a lei de cotas para negros para obterem facilidades para entrar em universidades públicas, o que levou instituições de ensino a instituírem novos métodos de avaliação dos declarantes negros.


UMA HISTÓRIA BASEADA NO RACISMO
A violência contra negros nos Estados Unidos não é recente e tem raízes em um racismo histórico.

O território que hoje corresponde ao país foi colonizado por ingleses fugidos das perseguições religiosas em sua terra natal. O território se organizou em Treze Colônias que correspondem ao território leste dos Estados Unidos.

Na porção norte das Treze Colônias se desenvolveu o trabalho livre e industrial enquanto a porção sul foi caracterizada por grandes latifúndios de cultivo de um produto único (denominados plantations) onde se utilizava mão de obra negra escravizada trazida a força do continente Africano. Durante este período os negros escravos não eram considerados pessoas e não possuíam qualquer direito civil.

Em 1777 as colônias se tornaram independentes da Inglaterra e diversos conflitos se iniciaram entre o Norte e o Sul. Eles se intensificaram tanto que, entre 1861 e 1865, ocorreu uma guerra civil, conhecida por Guerra da Secessão, na qual o Norte tinha a intenção de formar uma nação unida, com a abolição da mão de obra escrava negra. Isso não agradou os colonos do Sul, que tentaram se separar no Norte e formar uma nação escravocrata independente. O Norte saiu vitorioso e foi declarada a abolição da escravidão em todo território.

No entanto, logo após o conflito, governos do Sul criaram as primeiras políticas segregacionistas do país, que tinham o objetivo fazer com que brancos não dividissem direitos e espaços com negros. Nos anos finais da década de 1860 foram criadas as “Leis Jim Crow”, que promoviam segregação racial de forma legal. O estado do Tenesse foi o primeiro a adotar e pôr em prática as ações discriminatórias previstas na lei, como por exemplo proibir o casamento entre negros e brancos.

Com o passar dos anos, outros estados do Sul adotaram as Leis Jim Crow na vida pública: negros e brancos não podiam se sentar juntos em transportes públicos, parques ou praças. Havia até portas diferentes para brancos e negros. Bebedouros públicos e banheiros também eram separados e até nas escolas era proibida a convivência entre negros e brancos.

Um dos ex-combatentes dos Confederados (nome dado ao exército sulista durante a guerra), Nathan Bedford Forrest, formou uma seita racista que recebeu o nome de Ku Klux Klan (KKK). Ela ainda existe e comete atos de violência contra negros e imigrantes latinos, principalmente no sul dos Estados Unidos.


COMO RESPOSTA SURGE O MOVIMENTO NEGRO
A situação era tão extrema que a população negra começou um forte movimento por direitos civis no século 20, tendo como seu líder mais popular o pastor e ativista Martin Luther King Jr. O auge da luta contra a segregação racial foi entre 1950 e 1960.

Luther King adotou a filosofia do advogado e ativista anticolonial indiano Mahatma Gandhi, promovendo uma desobediência pacífica às medidas segregacionistas no estado do Alabama. Ele defendia a não violência, com passeatas e discursos para chamar a atenção do país para a questão negra. Uma das ações mais efetivas foi o boicote da população negra a segregação no transporte público, o que levou a Suprema Corte dos EUA a declarar a política de segregação racial em locais públicos inconstitucional em 1956.

Martin Luther King recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua luta em 1964. Quatro anos depois ele foi assassinado com um tiro no peito, o que gerou uma onda de protestos de apoio que se espalhou por ao menos 110 cidades. Em muitas delas houve forte repressão contra os manifestantes. Foram pelo menos 15 mil prisões, 2.500 feridos e 40 mortos. Neste mesmo ano, o então presidente Jyndon Johnson apressou a aprovação de um pacote de leis garantindo direitos civis no Congresso, que ainda hoje é considerado o maior da história.

Além de King, se destacou também o líder popular Malcom X, que teve papel importante na conquista de direitos, lutando sobretudo contra a opressão racial sofrida por negros muçulmanos.


RACISMO COMPARTILHADO
O Brasil possui um cenário mais grave que o dos Estados Unidos. Por aqui a escravidão durou mais tempo que em qualquer outro país, totalizando 300 anos de trabalho forçado da população negra, que não possuía qualquer direito. Ao menos 4,8 milhões de negros foram trazidos à força da África.

Depois de intensa luta e articulação do povo negro no Brasil, eles conquistaram, em 1889, a assinatura da Lei Áurea, que tornou o Brasil o último país do mundo a abolir a escravidão. O problema é que a liberdade não veio acompanhada de qualquer esforço do governo ou da elite agrária para integrar os negros na sociedade de forma cidadã. Sem renda, trabalho ou estudo, os negros passaram a habitar locais desocupados, como os morros do Rio de Janeiro, então capital nacional, formando assim as primeiras favelas do estado.

Em substituição à mão de obra escrava, o governo brasileiro incentivou a vinda de imigrantes europeus para trabalhar nas plantações, delineando uma política que visava o “branqueamento” da população brasileira. Este projeto estava previsto na Lei 7967 de 27 de agosto de 1945, já durante o Estado Novo da Era Vargas. Seu artigo segundo observa que “atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia, assim como a defesa do trabalhador nacional”. A lei só deixou de existir em 1980.

Em 1989 o movimento negro conquistou a aprovação da lei nº 7716 que tornou a intolerância racial um crime. A lei pune crimes de ódio e descriminação como negar emprego ou acesso à educação a alguém pela cor da pele. Apesar do avanço, não existe regulamentação nos espaços privados, assim os crimes de racismo só são julgados quando há testemunhas ou o ato foi praticado em público.


PARA SABER MAIS


HABILIDADES DA BNCC
EF07GE04; EF08GE06; EF09GE01; EF08HI14; EF09HI23; EF09HI36 e EM13CHS502.