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Vendas pela internet crescem no Brasil com o coronavírus
 
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A pandemia provocada pelo coronavírus afetou e vem afetando o modo de vida das pessoas ao redor do mundo. Cientistas, profissionais da saúde e alguns políticos se viram na difícil tarefa de orientar as pessoas para que tomassem uma série de atitudes de proteção, dentre elas o tão discutido isolamento social. Tendo como objetivo a diminuição da curva de casos da covid-19, a redução de óbitos gerados pela doença, bem como evitar um colapso do sistema de saúde, milhões de pessoas se viram forçadas a ficarem em casa e fecharem os seus estabelecimentos comerciais (pelo menos, momentaneamente). Para além da tristeza das perdas e do impacto negativo para a economia, a pandemia traz também consigo uma mudança no perfil de consumo da população. Esse último aspecto que será abordado neste texto. Em especial, o crescimento das vendas online após o início da pandemia.


VENDAS ONLINE E O CORONAVÍRUS
De acordo com a Abcomm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), em parceria com o movimento Compre&Confie, houve um aumento das vendas pela internet no Brasil com a expansão do coronavírus. A Abcomm é uma associação que mapeia o comércio de lojas virtuais e empresas nas áreas de tecnologia da informação, portais de notícias, serviços de marketing e organização de eventos. Seu objetivo principal é trazer as micro e pequenas empresas para as discussões acerca do mercado digital brasileiro. Agora, como foi feita a pesquisa de Abcomm? O procedimento básico da pesquisa foi comparar as vendas pela internet nos meses de fevereiro e março (primeira quinzena) de 2019 com as vendas feitas nos mesmos meses no ano de 2020. Vejamos com mais detalhes alguns aspectos do trabalho da Abcomm.

Primeiramente, observou-se que a variação de pedidos feitos pela internet entre 2020 e 2019, nos meses analisados, foi de 30,5%. Isto fica claro quando observamos o YoY dos meses de fevereiro e março. YoY, do inglês Year Over Year (que em português pode ser traduzido como “ano a ano”), é um termo usado em economia para se referir a um cálculo matemático feito para se comparar os resultados obtidos em um determinado período com o mesmo período de tempo do ano anterior. Os resultados deste cálculo são expressos em porcentagem. Se olharmos o YoY de fevereiro (2020-2019), temos um aumento no número de pedidos via internet de +26%. A primeira quinzena de março teve um aumento ainda mais significativo: +40%. Isso tem bastante relevância se compararmos também com a previsão de YoY esperada para o mês de março completo, antes da pandemia, que era de +32,3%. A pesquisa também destaca o crescimento de vendas pela internet na semana do consumidor (9 a 15 de março), que teve um aumento de 22%.

Do mesmo modo, podemos perceber um impacto no faturamento do comércio eletrônico. O faturamento é a soma de todas as vendas, seja de produtos ou de serviços, que uma empresa realiza em um determinado período. O YoY de fevereiro 2020-2019 (mês fechado) do faturamento das empresas virtuais foi de +20% e da primeira quinzena de março 2020-2019 foi de +37%, gerando uma variação de faturamento de 2019 para 2020 de +28%.

Até aqui, foram apresentados os dados de crescimento de pedidos e do faturamento ligados às vendas pela internet de maneira geral, mas a pesquisa também nos dá informação do desempenho nas vendas de alguns produtos em específico. O que eles constataram foi um crescimento na venda de bens de consumo (em alguns casos de mais de 100%) por meio do comércio online. Vejamos com mais detalhes como esta pesquisa foi feita.


O AUMENTO DA VENDA DE BENS DE CONSUMO VIA INTERNET

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Como a pesquisa fala sobre um aumento na venda de bens de consumo, é interessante ter em mente o que são esses tipos de bens. Costuma-se definir “bens de consumo” como aqueles bens que são utilizados na ponta da cadeia de consumo, ou seja, pelos indivíduos ou famílias. Por isso, eles são também chamados de “bens de consumo familiar”. São aqueles produtos que são consumidos imediatamente na satisfação de uma necessidade do consumidor, o que os coloca na classe dos bens diretos. Alguns exemplos de bens de consumo são: a água, o pão e o automóvel. Os bens de consumo diferem dos bens de produção, que são aqueles utilizados normalmente pelas indústrias, e que são tidos como indiretos, como, por exemplo: o trigo, o petróleo em rama, uma máquina agrícola etc.

Outro aspecto que deve ser levado em consideração na caracterização dos bens de consumo é que eles se distinguem quanto à durabilidade, eles podem ser divididos em: bens duráveis, bens semi-duráveis e não duráveis. Exemplos de bens duráveis são coisas como: um carro, uma geladeira, uma televisão etc. Ou seja, são produtos que duram por um grande período de tempo. Já os semi-duráveis desgastam mais rapidamente conforme o uso. São exemplos: roupas, calçados etc. Por fim, os bens não duráveis são aqueles de consumo imediato, como, por exemplo, um chocolate. Assim, é preciso frisar que são esses tipos de produtos, os bens de consumo, que tiveram um aumento vendas pela internet após o início da pandemia.

Retomando a pesquisa da Abcomm, quando olhamos para o aumento na venda de bens de consumo pela internet se destacam pedidos com saúde (com um aumento de 65% com relação ao mesmo período de 2019) e beleza e perfumaria (+57%). Isto, claro, se refletiu no faturamento das empresas. O faturamento das lojas virtuais relacionado a gastos com saúde, por exemplo, cresceram 111%, enquanto que compras ligadas à beleza e perfumaria e supermercados tiveram um aumento de 83% e 80%, respectivamente.

Curiosamente, alguns produtos que costumam ter boas vendas de maneira online tiveram queda no período analisado, que pode ser detectado pela redução de faturamento ligado a estes produtos. Por exemplo: câmeras, filmadoras e drones (com queda de 62%), livros, DVDs e Blu-Ray (-48%), eletrônicos (-29%) e automotivos (-20%).

Agora, qual seria o motivo para o aumento de vendas de certos produtos e a queda de outros? A explicação para isso parece estar relacionada com duas coisas: o perfil de consumo e o poder aquisitivo das pessoas em tempos de pandemia.


CONSUMO EM TEMPOS DE PANDEMIA
Como já foi destacado, a pandemia do coronavírus carrega consigo uma série de dúvidas e incertezas e vem modificando o perfil de consumo em todo o mundo. Como forma de prevenção, muitas pessoas estão evitando (ou mesmo estão impedidas) de frequentarem as lojas físicas, recorrendo então, cada vez mais, a lojas virtuais. Junto a isso, as preocupações inerentes à pandemia, acabam alterando as prioridades da população.

De acordo com a pesquisa elaborada pela Nielsen, identificou-se seis etapas de preocupações com o surto de covid-19: 1) compras proativas para a saúde, 2) gestão de saúde reativa, 3) preparação da despensa, 4) preparação a vida em distanciamento social, 5) vida restrita, e 6) vivendo uma nova normalidade.

Tendo em vista essas preocupações, o consumidor passa a priorizar essencialmente gastos com saúde e alimentação, o que tem consequências diretas para os hábitos de consumo. Observou-se um aumento de interesse por produtos para a manutenção da saúde e bem-estar, a priorização de produtos fundamentais para o combate ao coronavírus, o armazenamento de alimentos e produtos de saúde, o aumento de compras online, viagens de compras restritas e preocupações com o aumento do preço, e o retorno às rotinas diárias, mas com cautela.

Como aponta a pesquisa elaborada pela Abcomm, alguns produtos ligados ao combate do vírus tiveram um crescimento impressionante. Gel antisséptico, por exemplo, teve um aumento no mês de março de 2020 (quando comparado com o mesmo período de 2019) de 4974%. Ainda se destacam: nebulizador e termômetros inalador (+900%), soro fisiológico (+316%), luva cirúrgica (+119%), higiene íntima (+98%), e sabonetes (+58%), comparando sempre o mês de março dos anos 2019 e 2020.

Outro ponto que pode interferir no perfil de consumo da população é a diminuição do poder aquisitivo durante a pandemia, que vai se agravando à medida em que o problema perdura. Normalmente, o desenvolvimento econômico de uma sociedade leva o consumidor a diversificar e sofisticar os seus gastos. Ou seja, as pessoas passam a comprar bens de consumo que antes não compravam e estão dispostas a pagar mais caro por produtos de melhor qualidade. Em tempos de crise, obviamente, a dinâmica é oposta. Os indivíduos tendem a consumir apenas aquilo que eles consideram essenciais. Isso foi refletido na pesquisa da Abcomm. Aumentou-se o gasto com saúde e alimentação (supermercados), enquanto houve uma queda nas compras de artigos não essenciais como: produtos eletrônicos, livros, veículos etc.


DESAFIOS DO COMÉRCIO VIRTUAL
Como foi dito até agora, ficou claro que houve um aumento considerável tanto no número de pedidos feitos de maneira online quanto de faturamento de lojas virtuais. No entanto, essa atividade ainda enfrenta algumas dificuldades para que possa efetivar todo o seu potencial.

O primeiro deles diz respeito ao tipo de empresas que atuam no mercado eletrônico. Até então, esse tipo de comércio ficou restrito às grandes empresas. Essa realidade começou a mudar apenas após a expansão do coronavírus. De acordo com outro estudo feito pela Abcomm, entre 23 de março e 31 de maio de 2019, o Brasil abriu mais de uma loja virtual por minuto totalizando 107 mil novos estabelecimentos. Esses dados tornam-se bastante reveladores quando comparados com a média de abertura de lojas na internet antes do período de isolamento social, que era de 10 mil estabelecimentos por mês.

Essa maior procura por comercialização digital também foi apontada SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o que levou a instituição a desenvolver um curso, chamado Acelera Digital, que consiste em uma série de encontros virtuais com a presença de especialistas para compartilhar práticas do mundo digital, que incluem mentorias sobre tipos de tecnologias e técnicas de marketing digital. Até o final de maio, 1.200 empresas já haviam se inscritos no curso, que tem o objetivo de atender pelo menos 20 mil empresas com o programa.

Assim como havia uma lacuna de empresas no mercado digital, também há ainda a falta de hábito da população brasileira em efetuar compras por meio do comércio eletrônico. Segundo a pesquisa da Abcomm, só durante a quarentena, foram 2 milhões de novos consumidores que até então nunca tinham feito qualquer transação pela internet. Ou seja, para alavancarmos o comércio eletrônico no Brasil é ainda necessária uma estruturação das lojas digitais, bem como uma adaptação do consumidor a este tipo de serviço.

Outro desafio diz respeito à distribuição de produtos vendidos pela internet. Um dos problemas que pode interferir na efetividade das vendas virtuais diz respeito ao transporte de mercadorias. Por exemplo, não se sabe ainda quanto a pandemia poderá restringir a circulação de caminhoneiros. Especialmente no início da pandemia, muitos estados brasileiros tomaram medidas de isolamento que incluíam fechamento de divisas, bloqueios em estradas e rios, e suspensão do transporte de passageiros. Algumas cidades instalaram barreiras físicas ou sanitárias em seus acessos, e algumas ilhas ficaram fechadas para não moradores. Até o momento, o transporte de mercadorias foi garantido, mas isso pode acabar sendo revisto conforme a pandemia se estenda, ou ainda, se houver uma segunda onda do vírus. Tais problemas poderiam, por exemplo, ter como consequência a restrição de circulação de cargas não essenciais. Junta-se a isso, a grande dependência brasileira do transporte rodoviário. No brasil, mais de 70% do transporte de mercadorias é feito via transporte rodoviário.

Outra dúvida é se este aumento do consumo via internet se manterá caso a pandemia se estenda por muito tempo. Boa parte do aumento nas vendas via internet foi impulsionado por gastos do governo com saúde e também pelo auxílio emergencial. O auxílio emergencial é um benefício financeiro concedido pelo Governo Federal destinado aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados, e tem por objetivo fornecer uma proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do coronavírus. É de se esperar que com o prolongamento da pandemia, haja uma redução de gastos e subsídios do estado, afetando o consumo.

Por fim, não se sabe se este comportamento de consumo digital permanecerá após a pandemia. Uma pesquisa mais recente elaborada pela Abcomm em parceria com a Konduto pode nos dar algumas pistas: constatou-se uma queda das vendas online com a reabertura parcial do comércio.

Foram analisados mais de 45 milhões de pedidos feitos em 4 mil lojas virtuais entre 1° de março e 6 de junho de 2020. Além disso, é preciso ressaltar que só foram consideradas as vendas de produtos físicos, excluindo-se, portanto, dados de serviços como viagens e turismo ou aplicativos de entrega. A lista de produtos avaliados são: artigos esportivos, autopeças, bazar/importados, bebidas, bijuterias e acessórios, brinquedos e jogos, calçados, cosméticos, eletrodomésticos, eletrônicos, farmácia, livraria, moda, móveis e decoração, ótica e supermercados.

Tendo em vista os produtos analisados, e se considerarmos a variação ocorrida entre as semanas que compreendem os dias 10 a 23 de março e 24 de março a 06 de junho, apenas autopeças (+5,23), bebidas (+18,44%), cosméticos (+15,75%), livraria (+5,20%) e óticas (+9,98%) tiveram um crescimento nas vendas pela internet. Já alguns produtos como, artigos esportivos (-0,10%), bazar (-5,53%), bijuterias (-9,24%), brinquedos (-27,19%), calçados (-18,21%), eletrodomésticos (-12,43%), eletrônicos (-7,12%), farmácia (-3,09%), moda (-0,60%), móveis (-3,46%), supermercados (-4,18%), tiveram uma queda. Um destaque importante desses números são as quedas relacionadas a farmácia e supermercados, que são setores que tiveram um grande crescimento no início da pandemia. Segundo os estudiosos, se essa queda permanecer nas próximas semanas, pode indicar que haverá um retorno às formas tradicionais de compra após a pandemia.

Tendo em vista todos os dados apresentados aqui, é possível perceber que permanece uma incógnita: quais serão os caminhos do comércio eletrônico no Brasil. Como era de se esperar, com o início da pandemia e o isolamento social, as vendas e o faturamento cresceram, em especial, as vendas de bens de consumo essenciais (como produtos ligados à saúde e supermercados). Com a modesta liberação de certos setores do comércio, essa tendência de aumento teve um recuo. De qualquer forma, é um fato que as empresas passaram a se estruturar para venderem seus produtos na internet e que é crescente o interesse dos micro e pequenos empresários por era modalidade de comércio.


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