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Educação a distância
 
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Imagem: macrovector_official/Freepick.

Trata-se de uma forma de ensino e aprendizagem com mediação de recursos em diferentes plataformas de informação. Esses recursos podem ser utilizados de forma isolada ou combinados, fazendo uso de diferentes meios de comunicação, desde correio aos mais modernos aplicativos online. Nesta modalidade, professores e alunos não estão presentes fisicamente no mesmo espaço ou sequer ao mesmo tempo. Assim, não há ensino presencial.

Um dos grandes pesquisadores do tema é o educador sueco Börje Holmberg, ao qual é atribuída a nomeação dessa modalidade como Educação a Distância. O educador teria ouvido a expressão na Universidade Alemã de Tübingen na primeira metade do século XX. Na época ela se referia a cursos por correspondência, através do envio de material didático pelos Correios.

Embora a nomenclatura tenha causado debates, o Conselho Internacional de Educação por Correspondência adotou o termo em 1982, mudando de nome para Conselho Internacional de Educação a Distância, o que validou esse modelo como uma forma eficiente de ensinar e aprender.

Na educação a distância toda a estrutura dos cursos, desde sua proposta pedagógica até à avaliação, é pensada e formulada tendo em vista que a transmissão dos conteúdos não se dará de forma presencial. Há recursos específicos para entrar em contato com o professor e com os colegas, para esclarecer dúvidas e debater sobre o conteúdo trabalhado. Assim, não se trata de uma mera adaptação do conteúdo convencional para EaD, mas de uma nova proposta, completamente pensada para ser ensina a distância.


HISTÓRICO MUNDIAL
A história da educação a distância, no entanto, começa antes de Börje Holmberg. O primeiro relato desta modalidade de ensino foi em um anúncio no jornal Gazeta de Boston, nos Estados Unidos, em 20 de março de 1728. No anúncio, o professor Caleb Philips oferecia tutoria e material didático por correspondência para o ensino de taquigrafia (um método abreviado ou simbólico de escrita, com o objetivo de melhorar a velocidade do registro).

Após diversas iniciativas particulares de oferta de educação à distância para cursos livres, essa modalidade passou a começou a ganhar popularidade. No entanto, somente 100 anos depois do primeiro anúncio, a EaD foi institucionalizada como um método formal de educação pela primeira vez. Isso ocorreu na Suécia, em 1829. Neste ano foi inaugurado o Instituto Líber Hermondes, onde foi criado o primeiro curso a distância.

A Inglaterra seguiu o exemplo e, em 1840, fundou a primeira escola por correspondência da Europa, na faculdade Sir Isaac Pitman. Em 1856 esta modalidade de ensino foi institucionalizada em Berlim, na Alemanha, pela Sociedade de Línguas Modernas, que ensinava francês por correspondência. O modelo foi seguido pela Universidade de Chicago, em 1892, e pela União Soviética, em 1922.

A modalidade de ensino a distância passou a ser realizada por rádio no Japão, em 1935, como um complemento para as matérias escolares. Em 1947 a França seguiu o modelo, pela Rádio Sorbonne, ligada a Faculdade de Letras Humanas da universidade, uma das mais renomadas do mundo.

No entanto, a primeira legislação regulando a educação só foi aprovada em 1948, na Noruega. A partir daí a metodologia se desenvolveu rápido, tanto que em 1951 foi fundada a primeira faculdade totalmente a distância do mundo, a Universidade Sudáfrica, sediada na África do Sul.

A televisão passou a ser usada como suporte para a educação a distância em 1956, nos Estados Unidos, onde programas educativos começaram a ser televisionados diariamente. O recurso foi imitado na América do Sul, sobretudo pela Argentina, em 1960.

Na segunda metade do século XX, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, diversas faculdades e fundações abriram cursos a distância em diversos países, como Reino Unido, Espanha, Venezuela, Costa Rica, Holanda, Índia e Portugal.

Em 1990, foi criada e implantada a rede Europeia de Educação a Distância, que oferecia cursos nesta modalidade para todo o continente europeu. Um fato curioso é que o ex-presidente da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela, que liderou uma luta histórica contra o Apartheid, estudou direito a distância pela Universidade de Londres quando era um preso político. Apesar de ter sido o aluno mais famoso nessa modalidade de ensino, Mandela não conseguiu se formar, justamente por não ter recebido permissão da Justiça para realizar o exame final do curso, que deveria ser presencial.

Apesar de bastante focados em cursos profissionalizantes e no ensino superior, algumas instituições internacionais também oferecem educação à distância para crianças, em formação na educação básica. Esse modelo é muito adotado por famílias que comumente estão em viagens, como diplomatas ou velejadores, e que por isso não conseguem manter a rotina escolar dos filhos.


HISTÓRICO BRASILEIRO
No Brasil a educação a distância deu os primeiros passos em 1904, por meio de escolas internacionais privadas que ofereciam cursos pagos por correspondência. Naquele ano, foi registrado o primeiro anúncio de um curso a distância do país: datilógrafo por correspondência, anunciado pelo Jornal do Brasil.

Em 1934, o governo do Rio de Janeiro passou a utilizar o rádio para promover educação a distância, inaugurando a Rádio Escola Municipal do Rio de Janeiro, instalada pelo médico e intelectual Edgard Roquette Pinto para a Secretaria Municipal de Educação. A proposta era integrar rádio e cinema educativo, além do fornecimento de material didático por correspondência.

Cinco anos depois é a criado em São Paulo o Instituto Rádio Técnico Monitor e, em 1941, é a Rádio Universidade no Ar, que durou até 1944 quando mudou de nome para Nova Universidade no Ar, patrocinada por emissoras de rádio e pelo Sistema S, sobretudo o SENAC e o SESC.

O próximo marco da educação à distância no Brasil foi em 1961, quando entidades ligadas à igreja católica criam o Movimento de Educação de Base (MEB), enviando ao governo um projeto de criação de escolas radiofônicas. Elas foram reconhecidas em 1963 e passaram a contar com repasse de recursos da União para manutenção e difusão dessas rádios educativas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

As escolas radiofônicas ligadas ao MEB eram voltadas para alfabetização de trabalhadores rurais, mas também para campanhas de conscientização política e social, que debatiam assuntos como sindicalismo e cooperativismo, além de promover encontros, estágios e treinamentos dos trabalhadores. Devido ao golpe militar de 1964, o MEB perdeu força e só foi retomado na década de 1970.

Outras iniciativas de relativo sucesso foram criadas, mas somente nas décadas de 1970 e 1980 elas se tornaram mais populares, fazendo uso da TV como uma plataforma de educação a distância para diversas modalidades de ensino. Em geral as aulas eram transmitidas via satélite e o material didático impresso era enviado pelos Correios.

A experiência de maior sucesso foi a do Telecurso, veiculadas na televisão pela Fundação Roberto Marinho e pela Fundação Padre Anchieta. Trata-se de um programa de educação para ensino fundamental e médio, transmitido para todo o Brasil. O programa foi um método bastante popular de educação no país, sobretudo até a década de 1990.

A partir daí, instituições de ensino superior se mobilizaram para oferecer cursos pelo método EaD. Em 1992 foi criada a primeira universidade voltada para este tipo de ensino, a Universidade Aberta de Brasília, que além de oferecer graduação e pós-graduação, oferecia também educação continuada e reciclagem profissional à distância. O modelo ganhou ainda mais força nas décadas de 2000 e 2010, com a democratização do acesso à internet.


LEGISLAÇÃO NACIONAL
No Brasil, as primeiras leis regulando a oferta de educação a distância começam a ser aprovadas somente no século XXI. O conceito deste tipo de ensino foi descrito no Decreto 5.622 de 2005, que em seu primeiro artigo determina: “caracteriza-se a Educação a Distância como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos (...)”.

O decreto obriga os cursos à distância a promoverem alguns encontros presenciais, sobretudo nos momentos de avaliação de estudantes. Além disso, os alunos devem cumprir estágios obrigatórios, defender trabalhos e realizar atividades de laboratório quando necessárias, seguindo a legislação vigente para cursos presenciais.

Em 2006, o Ministério da Educação (MEC) editou o decreto 5.773, que dispõe sobre diretrizes e órgãos responsáveis pela regulação, supervisão e avaliação das instituições de ensino superior, incluindo a educação a distância.

Pouco mais de um ano depois, é editado o decreto de número 6.303, que em seu texto normaliza como devem ser organizados os polos presenciais de educação à distância, determinando, por exemplo, quantos devem ser e como as instituições devem solicitar o credenciamento desses polos ao MEC, mesmo que estejam localizados fora do país. A portaria número 10 de 2009 complementou o decreto, discorrendo sobre avaliação destes polos.

Em 2017 foi aprovada a portaria número 11, que normatizou o credenciamento de instituições e a oferta de cursos superiores a distância. Esta portaria abordou, pela primeira vez, as normas para oferta de cursos de pós-graduação nesta modalidade de ensino e determinou a qual seria a estrutura necessária aos polos de atividades presenciais, liberando para alguns cursos a necessidade alguns encontros presenciais.


ADESÃO DOS ESTUDANTES
A adesão de estudantes brasileiros ao EaD tem crescido ano após ano. Em 2004, 60 mil pessoas estudavam em cursos desta modalidade no país, segundo dados do Ministério da Educação. Em 2018, esse total chegou a 9.374.647, um aumento de 17% em relação a 2017, quando o país computava 7.773.828 alunos matriculados em cursos a distância, segundo a Associação Brasileira de Educação a Distância. Os totais englobam cursos totalmente a distância, semipresenciais, cursos livres não corporativos e cursos livres corporativos. As duas últimas áreas concentraram a maioria das matrículas em 2018.

No ensino superior, o maior índice de matrículas na educação a distância se concentra em cursos de licenciatura. Em 2018 eram 324.302 alunos nessa modalidade, somados a outros 306.961 em cursos superiores que unem licenciatura e bacharelado. A adesão é menor nos cursos de doutorado e no ensino médio.

A região do país que mais aderiu a EaD foi a Sudeste, com 43% das matrículas na modalidade em 2018, segundo a Associação Brasileira de Educação a Distância. O menor índice de matrículas foi registrado na região Norte, com apenas 5% do total.

Devido à tradição de educação presencial, a maioria das instituições desta modalidade oferece maior quantidade de cursos presenciais do que na modalidade EaD. Por isso, o número de matrículas em cursos presenciais supera as matrículas em EaD.

Algo que dificultou o crescimento da EaD no Brasil foi a decisão, em 2019, de alguns conselhos de profissionais de saúde de não aceitar inscrição de profissionais formados por educação a distância, o que os impediria de exercer a profissão. Entre os conselhos que tomaram a decisão estão o de Medicina, o de Farmácia, o de Veterinária e o de Odontologia. O Ministério Público Federal apoiou estas decisões, recomendando ao Ministério da Educação que não sejam autorizados cursos EaD na área de saúde.


VANTAGENS E DESVANTAGENS
Os motivos para a adesão a EaD ter aumentado ao longo dos anos são muitos. Uma das principais vantagens da educação a distância é a possibilidade de não precisar se deslocar até a instituição de ensino para ter aulas.

Isso democratizou o acesso ao ensino superior para pessoas vivem em regiões isoladas, onde os deslocamentos são difíceis. Diversos professores que lecionam em assentamentos rurais ou comunidades tradicionais, como aldeias indígenas ou grupos quilombolas, foram formados à distância, garantindo maior qualidade na educação desses grupos.

Em geral, as aulas são gravadas e ficam disponíveis para que o aluno assista no horário e no local que lhe convém, permitindo que ele não precise modificar sua rotina para ter acesso ao estudo, o que auxilia sobretudo aqueles que trabalham em horários diferenciados. Essa modalidade também pode ser mais conveniente para pessoas com algum tipo de deficiência, mobilidade reduzida, condição de saúde restritiva ou mesmo uma rotina complicada com filhos pequenos ou outras demandas.

A EaD, portanto, assegura que o aluno não tenha sua formação intelectual ou profissional prejudicadas, mesmo que more em regiões de difícil acesso ou que esteja no trabalho em horários não convencionais.

Como as aulas são gravadas, os alunos podem assisti-las repetidas vezes, para esclarecer dúvidas ou fixar o conteúdo. Com isso o aluno aprende em seu ritmo próprio, quando puder e no local que desejar.

Outra vantagem é o fato que a maioria das faculdades oferece mensalidades menores para os cursos EaD, já que essa modalidade não exige grande infraestrutura física, como nos cursos presenciais. A instituição economiza em instalações e em contas de consumo. Além disso, sem a necessidade de uma sala de aula – especialmente em cursos totalmente à distância – a quantidade de alunos matriculados aumenta, gerando maior lucro para as instituições de ensino. Mesmo as empresas que oferecem cursos a distância não gastam com o deslocamento de pessoal, o que demandaria pagamento de combustível, táxi e até passagens aéreas e estadias em hotel.

Segundo a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), em 2018 a maioria dos cursos totalmente a distância tinham mensalidades na faixa de R$ 251 a R$ 500, enquanto cursos presenciais custavam entre R$ 500 e R$ 1.000 por mês.

Outros fatores que motivam a adesão a essa modalidade são o reconhecimento pelo MEC, como nos cursos presenciais, e a possibilidade adotada por algumas faculdades de diminuir a duração do curso em modalidades online, compilando disciplinas.

No entanto, a educação a distância também possui uma série de desvantagens. Uma delas é a necessidade de o aluno gerir seu tempo sozinho para assistir todas as aulas e fazer todas as atividades do curso, algo que pode ser mais difícil para pessoas com problemas de organização e disciplina. A distração também pode comprometer os estudos, sobretudo se o local em que é realizado não seja adequado.

Configura também como desvantagem o pouco contato com colegas e professores. A falta de interação pode ser prejudicial para alguns alunos, mesmo com ferramentas de interação, como o AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), onde existem fóruns de discussão para aproximar colegas e seus professores. Ainda assim, o ambiente virtual não substitui o contato frente a frente. Estar no ambiente universitário, se engajar em atividades extraclasses e fazer amigos são fatores que auxiliam na formação acadêmica integral.


Educação a distância: uma opção a ser considerada. Foto: Tumisu/Pixabay.


ENSINO REMOTO EM TEMPOS DE COVID-19
Em 2020, devido a pandemia do novo coronavírus (COVID-19), foi determinado que escolas de diversos países do mundo suspendessem as atividades presenciais, a fim de garantir o isolamento social e evitar a propagação da doença.

Segundo a Unesco, até 25 de março de 2020, 165 países optaram por fechar suas escolas, o que afetou 1,5 bilhões de estudantes e 63 milhões de professores do ensino fundamental e médio.

No Brasil, o Ministério da Educação autorizou o método de aulas online para educação básica, superior e profissionalizante desde março, depois de ter recomendado o adiantamento das tradicionais férias de julho. Com o aumento exponencial de casos no Brasil nos meses seguintes, o MEC autorizou que essas aulas contassem como carga horária oficial no calendário escolar.

Vale ressaltar que a situação foi uma medida emergencial em prol da saúde pública e que as aulas online não se enquadram como método EaD, pois não tinham sido pensadas e estruturadas para ocorrer neste modelo. Além disso, a educação básica não é oferecida à distância no Brasil, sendo que o MEC autoriza seu uso apenas como uma complementação a aulas presenciais, sem contar como aula dada no calendário escolar.

Embora necessária, a medida gerou polêmica, sobretudo pelo acesso ainda restrito à internet no Brasil. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação mostrou que, em 2018, uma em cada quatro pessoas no Brasil não tinham acesso à internet, um total de 46 milhões de brasileiros. Em áreas rurais, esse índice chegou a 53,5% da população sem acesso à rede. Nas áreas urbanas ele ficou em 20,6%.

Este quadro despertou a preocupação que os alunos mais pobres e de regiões mais afastadas dos centros urbanos acabassem ficando atrasados no ensino e até mesmo desistissem de estudar. Diversas redes de ensino optaram por também entregar materiais impressos aos pais, para garantir que as lições sejam feitas em casa, porém sem a explicação do professor.

Muitos pais reclamaram de dificuldades do método emergencial, já que precisaram conciliar horários de trabalho (também em casa) com auxílio dos filhos nos estudos. Pais relataram à imprensa dificuldades para prender a atenção dos filhos nas aulas a distância, especialmente crianças em idade pré-escolar que se sentem mais motivadas a participar de atividades quando estão na presença de colegas.

Os relatos de problemas também abarcam a dificuldade dos pais com as tecnologias e plataformas de estudo, assim como dificuldade de crianças para acessar essas plataformas por falta de experiência.

Quanto às escolas e aos professores, os problemas apresentados foram a falta de experiência nessa modalidade de aula e despreparo. Muitas plataformas de estudo apresentaram problemas no começo de sua utilização, ficando longos períodos fora do ar.


PARA SABER MAIS