ENTENDER O MUNDO/ARTIGOS TEMÁTICOS
O crescimento do home office e seus impactos
 
Conheça
 
    ARTIGO      
  Imprimir Enviar Guardar
 
O ano de 2020 iniciou-se de uma maneira bastante intensa, com um cenário internacional extremamente movimentado. Logo em Janeiro, um ataque norte-americano no Iraque matou um importante general iraniano, o que levantou a possibilidade que um terceiro conflito mundial pudesse se desenvolver. Ao mesmo tempo, Estados Unidos e China travavam uma guerra comercial, que se arrastava desde o ano de 2019 e cujos impactos já se faziam sentir ao redor do mundo. Neste mesmo contexto, uma disputa entre Rússia e Arábia Saudita na produção de petróleo jogou os preços dessa comodity para patamares que não eram vistos há muitos anos, o que afeta de diversas maneiras o mercado internacional, já abalado com uma desaceleração de crescimento.

Em meio a todos esses elementos, a China começou, ainda no final de 2019, a vivenciar uma epidemia de uma nova variedade de coronavírus, que foi batizada de Sars-cov-2, responsável por causar uma grave inflamação dos pulmões, capaz de levar à morte. Em virtude das intensas relações de comércio da China com outras regiões do mundo, rapidamente a doença começou a se espalhar e se tornou uma pandemia, disseminando-se pela Ásia, pela Europa e pela América com grande velocidade. Atualmente, os casos já ultrapassam os 3 milhões, com mais de 200 mil mortes confirmadas. Muito se comenta na comunidade científica que estes números podem estar abaixo da realidade, uma vez que principalmente em regiões mais pobres, não existe uma quantidade de testes adequada para toda a população. Também surgiu uma grande preocupação com o fato de que, por não haver vacina ou medicamentos específicos contra essa doença, sua disseminação é bastante acelerada, o que poderia sobrecarregar os sistemas de saúde ao redor do mundo.

Como forma de se evitar esse quadro trágico, diversas nações ao redor do mundo, seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde, decretaram quarentena, como uma estratégia para se garantir o distanciamento social e evitar que houvesse uma acumulação de casos, sem possibilidade de tratamento para todos. Neste contexto, de fechamento de empresas não essenciais, muitos trabalhadores que possuíam a oportunidade foram convocados para realizar o home office, ou seja, o trabalho a partir de suas próprias residências, para que atividades consideradas como não essenciais também não parassem e houvesse um completo colapso das economias.


Home office, uma das medidas para conter o avanço da pandemia. Foto: thedarknut/Pixabay.


A PANDEMIA E OS IMPACTOS ECONÔMICOS
A eclosão da pandemia, no final do ano de 2019, foi percebida pelo médico Li Wenliang, que se deparou, na cidade de Wuhan, com a disseminação de casos de uma síndrome respiratória aguda grave, causada por uma nova variedade de coronavírus. Preocupado com a possibilidade de a doença rapidamente se espalhar, o médico enviou mensagens a seus colegas, que publicaram o conteúdo na internet. Em poucos dias, Li Wenliang foi procurado pela polícia chinesa e levado para a delegacia, onde assinou um documento no qual assumia a responsabilidade por estar divulgando notícias falsas e causando pânico na população. Entretanto, como os casos passaram a aumentar de maneira significativa, o médico acabou sendo inocentado da acusação, e os oficiais responsáveis pela abordagem foram punidos. O próprio médico acabou falecendo em consequência da doença, em 6 de fevereiro de 2020.

Subitamente, os casos começaram a se espalhar, e as autoridades da cidade de Wuhan, bem como da província de Hubei, decidiram-se pelo fechamento de lojas e empresas, decretando uma quarentena como forma de garantir o distanciamento da população e evitar a disseminação da síndrome, medida que posteriormente se espalhou por todo o território chinês. Fábricas pararam suas produções, lojas interromperam suas atividades, e todos os setores econômicos foram, em maior ou menor medida, atingidos pela expressiva diminuição do fluxo de pessoas nas ruas. Particularmente alguns serviços, como restaurantes, cinemas, casas de shows e agências de viagem, entre outros, foram impactados de uma maneira bastante profunda, uma vez que necessariamente dependem da circulação dos indivíduos para que seus negócios possam se desenvolver.

Inicialmente, o fechamento das empresas na China abalou as demais indústrias e empresas ao redor do mundo pelo fato de que os insumos, peças e produtos que utilizavam ou comercializavam tiveram seu fluxo reduzido. Havia uma preocupação de que, caso o problema não fosse contido na China, suas indústrias não poderiam retomar as atividades e isso comprometeria o funcionamento de demais empresas ao redor do mundo. A situação, porém, começou a se tornar mais problemática quando, no final de janeiro de 2020, os primeiros casos começaram a surgir fora do território chinês, particularmente no Irã e depois na Itália, que no princípio de Fevereiro começou a se tornar o novo epicentro de disseminação da Covid-19, nome oficial dado à doença. Com a incontrolável difusão de casos, aumentando de maneira drástica a cada dia, durante todo o mês, no início de março de 2020 a Organização Mundial de Saúde declarou que o planeta vivia uma pandemia. A declaração não incluía diretrizes específicas sobre o que cada nação deveria fazer, mas dava um sinal de alerta para que medidas fossem tomadas para não haver uma explosão de casos e uma sobrecarga dos sistemas de saúde. Algumas regiões da Itália, que viram com pouca preocupação a chegada das notícias dos primeiros casos, vivenciaram exatamente essa situação, chegando ao ponto de ter de manter pacientes internados dentro de ambulâncias até que houvesse leitos disponíveis nos hospitais. No período mais crítico, houve mais de 900 mortes por dia em virtude de casos da Covid-19.

Mas não apenas na Itália houve situações de negacionismo perante a gravidade da situação. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro, em várias ocasiões, posicionou-se publicamente de maneira a minimizar os efeitos da pandemia, demonstrando maior preocupação com as consequências econômicas que a quarentena poderia causar. Em um sentido diferente, prefeitos e governadores passaram, por suas próprias iniciativas, a decretar restrições e fechamento de empresas, o que levou a um duro embate com o chefe do Executivo, que permanece insistindo na pouca gravidade da nova síndrome respiratória. Seguindo a mesma linha de Bolsonaro, o presidente norte-americano Donald Trump e o líder mexicano Andrés Manuel López Obrador tiveram pouca preocupação com o espalhamento da doença, até o momento em que o número de casos em seus países começou a aumentar de forma sensível, levando a uma mudança de discurso. Em Belarus, o cenário é ainda mais grave, uma vez que seu presidente Aleksandr Lukashenko, além de minimizar os efeitos da doença (que de acordo com suas declarações poderia ser combatida com doses de vodca e uso de sauna), não estabeleceu nenhuma medida restritiva no país, com todas as atividades funcionando de maneira absolutamente normal. No caso da Hungria, apesar de seu governo reconhecer a gravidade da situação e declarar o país em estado de quarentena, o primeiro-ministro Viktor Orbán aproveitou-se da ocasião para fazer aprovar no Congresso uma lei que ampliava seus poderes, sob a alegação da necessidade de menos empecilhos para o combate à doença.

Entre idas e vindas, negações e preocupações, a quarentena acabou sendo adotada como medida de prevenção na maior parte dos 185 países afetados pela pandemia. Com isso, quase um terço da população mundial se viu com restrições de circulação, não podendo livremente exercer suas atividades, sejam estas laborais ou de qualquer outra natureza. O impacto econômico dessa redução de atividades ainda é incerto, podendo levar o Brasil a uma queda de mais de 5% de seu PIB no ano de 2020. Para a América Latina como um todo, a estimativa é que a diminuição seja em torno de 4,6%, enquanto no planeta a previsão mais atual apontada pelos analistas é que a retração chegue a 3,3%. Este cenário só não se tornou ainda pior porque muitos profissionais, em virtude da natureza de suas ocupações, continuaram a realizar as suas atividades de maneira remota, no sistema conhecido como home office.


O HOME OFFICE NO BRASIL E NO MUNDO
A pandemia do novo coronavírus trouxe significativas mudanças no que diz respeito à execução do trabalho por parte de muitos profissionais. A expressão home office ganhou muito espaço nas mídias nesse contexto, já que muitos trabalhadores passaram a realizar suas atividades profissionais a partir de suas próprias casas, e não mais reunidos no ambiente de trabalho das empresas. De acordo com um estudo produzido pela Fundação Getúlio Vargas, estima-se que, após o final da pandemia, o home office deve passar por uma expansão de até 30%, uma vez que o mercado de trabalho deve a partir de então conhecer melhor esta modalidade e seus benefícios.

Entretanto, muitos elementos do home office ainda precisam ser melhor explicitados e compreendidos. Em primeiro lugar, a definição desta categoria de trabalho já comporta muitas possibilidades: na atualidade, o que mais se desenvolveu é o que se pode denominar enquanto teletrabalho ou trabalho à distância, no qual o profissional, por não estar em seu ambiente tradicional de trabalho, realiza as atividades em sua própria residência. Também se entende por home office os trabalhos freelancers, no qual não existe um vínculo empregatício permanente entre trabalhador e empresa, e o trabalho é produzido sob demanda. Ainda assim se qualificam os profissionais que criam e operam as empresas home based, ou seja, aquelas que estão localizadas em suas próprias residências, que é a situação de muito empreendedores que buscam uma nova opção em suas carreiras profissionais.

Além disso, o home office precisa ser compreendido quanto à sua localização. Embora possa se traduzir o nome da modalidade enquanto “escritório em casa”, o mesmo pode ser executado em diversos ambientes, tal como os espaços de coworking que ganharam muita visibilidade nos últimos anos. Em termos percentuais, o número de pessoas que tem trabalhado de maneira remota a partir de suas casas atingiu mais de 5% do total de trabalhadores empregados no país, de acordo com levantamento divulgado pelo IBGE no final de 2019. A análise do instituto aponta que este percentual vem crescendo, em especial como resposta à crise econômica instalada a partir de 2014. Porém, muitas empresas ainda passam por um processo de adaptação desse processo, buscando entender os mecanismos de seu funcionamento para que sua viabilidade e máxima eficiência sejam aproveitadas.

Mesmo no campo legal, são muito recentes as regulamentações a respeito desta categoria de trabalho. Em 2011, a lei 12.551 transformou a redação do artigo número 6 da Consolidação das Leis do Trabalho, ao dizer que não se distingue a atividade realizada pelo empregado no ambiente da empresa daquela realizada pelo mesmo em qualquer outro local, desde que se trate de uma pessoa física, que realiza trabalhos não-eventuais, sob a dependência de seu empregador e mediante pagamento. Tal proposta de alteração surgiu de um projeto apresentado na Câmara dos Deputados em 2004, com a alegação de que, em um mundo no qual as redes de comunicação se expandiam de maneira cada vez mais pujante e afetavam as relações de trabalho, era necessário que fossem feitas mudanças também na lei, de forma a estender as garantias trabalhistas a esta categoria de empregados.

Em meio à reforma trabalhista colocada em funcionamento durante o governo do presidente Michel Temer, aprovou-se a lei 13.467, em julho de 2017, que trouxe a primeira grande regulamentação no que diz respeito ao teletrabalho, tal como definido pelo texto legal. Entre as disposições, foi trazida para a lei a ideia do teletrabalho enquanto aquele que é realizado com a utilização das tecnologias de informação e comunicação, a partir de qualquer ambiente que não seja o da empresa, e que também não possa ser caracterizado como trabalho externo. A lei também fala sobre a possibilidade de não mais se efetuar o controle de uma jornada de trabalho, mas a partir da cobrança por meio da realização de tarefas, o que dificultaria a possibilidade de cobranças de horas extras. Outro ponto abrangido pela lei, mas cuja redação deu margem a uma série de interpretações, é o ponto que diz respeito aos materiais necessários para a realização do teletrabalho, já que se coloca que os custos para a aquisição destes bens devem constar em contrato, mas não se especifica quem deve arcar com tal gasto. Além de outras disposições, também a lei aponta que os empregadores devem fazer todas as recomendações a seus trabalhadores no que diz respeito às condições de saúde e ergonomia, tendo os funcionários que assinar um termo de ciência, comprometendo-se a cumprir tais requisições.

Embora a ideia de se trabalhar a partir de casa tenha crescido e se tornado até mesmo um imperativo a partir da pandemia, esta realidade não é nova. De fato, durante longo tempo, as sociedades vivenciaram a experiência do trabalho a partir da própria residência, como o que se observa ao longo do tempo com os artesãos e pequenos produtores de manufaturas. O trabalho feito distante de casa era prioritariamente o realizado na agricultura, até que em finais do século XVIII e ao longo dos séculos XIX e XX, a industrialização tenha cada vez mais aglomerado os trabalhadores em um mesmo ambiente, afastando-os de suas casas. No início do século XXI, com a maciça expansão das tecnologias de comunicação e informação, o cenário do home office voltou a figurar com maior força, ao redor do mundo todo. Várias empresas têm adotado, em situações cujo trabalho do funcionário permite que ele fique em casa, essa flexibilização, que tem ido ao encontro do desejo de muitos trabalhadores. Em uma pesquisa realizada com 18 mil pessoas em 96 países, pelo International Workplace Group, 44% dos entrevistados afirmaram que gostariam de trabalhar a partir de suas casas, embora não lhes fosse possível. No Brasil, esse desejo foi manifestado por 45% dos entrevistados, demostrando que o país está em sintonia com as mudanças que vem marcando o mundo do trabalho. Tal como dito, antes do início da pandemia, estima-se que 5% do total de empregados no Brasil já trabalhassem nesse sistema. Além do Brasil, vários outros países já vivenciavam também o crescimento desta modalidade de trabalho, como China, Cingapura, Austrália, Bélgica, entre outros.

O que a pandemia trouxe, porém, foi uma expansão abrupta deste sistema, como forma de se garantir diversas atividades em funcionamento, em meio à necessidade da manutenção do isolamento social. Estima-se que, no auge do surto em território chinês, mais de 800 milhões de trabalhadores em todo o mundo estivessem realizando tarefas nesse sistema, embora seja difícil estabelecer um número preciso. O que se sabe, com certeza, é que a brusca interrupção da circulação das pessoas, seja na China, na Itália, nos Estados Unidos ou no Brasil, trouxe e ainda trará uma série de consequências, tanto negativas quanto positivas.


OS IMPACTOS DO HOME OFFICE DURANTE A PANDEMIA

Home office2
Foto: Freepik.

Um dos elementos que mais tem levado profissionais a optar pelo home office é o tempo gasto no trânsito, em virtude dos deslocamentos entre a residência e o trabalho. Uma pesquisa demonstrou que, em média, os brasileiros gastam duas horas e sete minutos por dia para cumprirem tal deslocamento, o que completa um total de 32 dias ao final de um ano. Calculando-se o total de horas gastas no trânsito, principalmente em virtude do congestionamentos, e utilizando como base uma média de salário por hora trabalhada no Brasil, um economista apontou que o prejuízo para o país é da casa de mais de 260 bilhões de reais, considerando que este tempo de deslocamento poderia ser transformado em atividades produtivas, de descanso, de lazer ou de estudo. Em um país com uma frota de mais de 65 milhões de veículos, com uma preferência cultural pelo transporte individual, a situação somente tende a se agravar, especialmente pela existência de uma má correlação entre locais de moradia e de trabalho. Junto aos custos materiais que se verificam nesta situação, há também os custos do impacto psicológico, causado pelas constantes situações estressantes que o trânsito causa.

Ainda se pode acrescentar a esse custo o impacto ambiental que tal situação acarreta, ao serem despejadas inúmeras toneladas de gás carbônico na atmosfera, decorrentes da queima de combustíveis fósseis, amplamente utilizados para mover tais veículos. Se estes números já são grandiosos quando pensados apenas na realidade brasileira, e tomando-se somente o trânsito enquanto exemplo, ao se estender tal realidade para o planeta como um todo, e se incluir também resíduos produzidos por atividades produtivas, a quantidade de gases causadores de efeito estufa jogados na atmosfera anualmente tem superado os 37 bilhões de toneladas.

Essa situação de normalidade do funcionamento da economia, ao redor do mundo, já vinha cobrando seu preço e mostrando que o futuro não tão distante pode ter de encarar o colapso do planeta. O maior exemplo da sobrecarga que o atual cenário de produção apresenta é o Overshoot Day, data criada pelo economista Andrew Simms para estabelecer o momento quando, a cada ano, consomem-se mais recursos do que o planeta é capaz de produzir naquele intervalo de tempo. A cada ano, o Overshoot Day tem acontecido mais cedo, sendo que no ano de 2019, a data foi dia 29 de julho, ou seja, até aquele dia a população já havia consumido todos os recursos que o planeta poderia repor ao longo de todo o ano de 2019. Desta forma, a situação que se mostra é a de uma exploração cada vez mais próxima do irreversível, dado o estilo de vida que se passou a adotar, baseado no consumo enquanto meta.

Porém, com a disseminação do novo coronavírus, não apenas uma nova forma de pneumonia se instalou, mas também outros sintomas que deixaram a comunidade médica em estado de alerta, apelando para que as medidas de isolamento fossem endurecidas e que cada vez menos pessoas circulassem, para se poder conter a doença ou ao menos achatar a curva de contaminações, permitindo que os sistemas de saúde tivessem condição para atender a todos os infectados. Desta maneira, a atividade industrial não essencial e a circulação de carros, ônibus, metrôs, trens e aviões caíram de maneira drástica. Também o turismo diminuiu de maneira muito intensa, e para além dos negativos impactos na economia como muito já se analisou, efeitos positivos começaram também a surgir, em especial no tocante à natureza.

Uma das imagens que rapidamente circulou todo o planeta, pelo impacto que causou, foi a dos canais de Veneza, localidade na qual o turismo é intenso, principalmente pelos passeios de gôndola através da cidade. Com a suspensão dessa atividade, os lamacentos canais não eram mais agitados pelo tráfego dos veículos, e dessa maneira os peixes que se reproduzem por ali passaram a ser vistos, além da evidente diminuição da poluição, que melhorou a qualidade da água na região. Em outros locais da própria Itália ou da China, para se tomar dois exemplos significativos de restrição de circulação, a qualidade do ar melhorou de maneira notável. Em Pequim, foi aferida uma melhoria de mais de 20% na qualidade do ar, em virtude da brusca diminuição da emissão de poluentes, o que, de acordo com uma pesquisa conduzida em na Universidade Stanford, salvou mais de 50 mil pessoas do risco de morte prematura em virtude da poluição. Isso se deve, o caso chinês, à diminuição de quase 36% na queima de carvão mineral, combustível utilizado em diversas indústrias e que lançam inúmeras micropartículas poluentes no ar.

Junto a isso, a diminuição no trânsito, para além da queda na queima de derivados de petróleo, trouxe também outro dado positivo: o número de acidentes nas estradas diminuiu cerca de 46% em virtude das restrições de mobilidade, além de, no caso da cidade de São Paulo, o número de alertas de congestionamento ter diminuído 98% ao longo do mês de Março de 2020, quando as medidas de isolamento passaram a ser adotadas. Embora o número se refira a uma realidade específica, estudos de diversas fontes mostram que a situação se repete ao redor de todo o mundo com uma queda acentuada de níveis de poluição e acidentes de trânsito em todas as principais cidades do planeta.

Em cidades do Quênia ou da Índia, montanhas que circundam determinadas regiões passaram a ser vistas novamente, o que havia se tornado impossível em virtude da intensa presença de poluição no ar. Na Tailândia, no Japão e também na Itália, vários foram os avistamentos de animais silvestres em ambientes urbanos, dada a diminuição das pessoas nas ruas.

Outro importante impacto da maior permanência das pessoas em suas casas, com a realização de home office, foi a mudança de alguns comportamentos. Entre estes, dois merecem destaque: o primeiro diz respeito ao fato de que o consumo de informações aumentou muito, uma vez que a população está constantemente em busca de notícias sobre a pandemia, mas também demonstra que um maior tempo livre, longe da rotina de trânsito, levou as pessoas a um hábito mais saudável. Ao mesmo tempo, o perfil de consumo de produtos se transformou, com um foco maior em itens de higiene e limpeza, bem como de maior utilização de vegetais frescos, já que as pessoas têm uma maior flexibilidade para trabalhar e, portanto, para poder preparar as próprias refeições. Deste ponto em particular, percebe-se uma consequência bastante positiva para as questões de saúde, com um menor consumo de alimentos processados. Isto não significa que as pandemias sejam boas ou necessárias para a humanidade, mas serviu como momento de reflexão sobre hábitos que se desenvolveram e que tomaram espaço cada vez maior nas vidas individuais sem que se percebesse os seus impactos ou suas consequências.


O HOME OFFICE APÓS A PANDEMIA
A maneira como a humanidade se comportará após o fim da pandemia é absolutamente incerta, e muitas são as previsões e especulações sobre o que será o “novo normal”. A prolongada quarentena em que ainda se vive, não obstante a possibilidade de seu relaxamento nas próximas semanas, trouxe alterações que não serão desfeitas por completo. Um exemplo bastante relevante é o que concerne ao próprio papel do Estado nas sociedades. Desde a década de 1990, quando se encerrou a Guerra Fria e todo o planeta passou a se adequar ao modelo capitalista, a discussão sobre a diminuição da participação do Estado na economia e na vida social vem se tornando mais presente. As premissas neoliberais, após o chamado Consenso de Washington, tornaram-se quase um dever de casa para os países que desejassem ser competitivos no cenário internacional, o que levou ao sucateamento de serviços públicos e a uma ofensiva cada vez mais severa para a flexibilização dos direitos trabalhistas. Esta perspectiva, entretanto, poderá ser revista, pois no momento em que a crise do novo coronavírus se agravou, foram os Estados que tiveram de se mobilizar para que a sociedade como um todo pudesse ter garantias de sobrevivência nos campos da saúde e da economia.

Também a educação deverá sentir mudanças em seu desenvolvimento. É notável que nos últimos anos o país vivenciou um grande crescimento de cursos ministrados na modalidade EAD (educação à distância), no especial no que se refere ao cenário universitário. Para a educação básica, também foram aprovadas propostas que possibilitam que parte do conteúdo do currículo básico seja oferecido neste formato, o que se coadunava com as exigências de alguns pais para a possibilidade de oferta do homeschooling. Entretanto, conforme mostram diversas pesquisas, a maioria dos pais percebeu que a presença da criança na escola, em seu convívio social, além do fato de estar amparada por profissionais qualificados para o exercício da função, é fundamental para o desenvolvimento das aprendizagens. A experiência do ensino remoto emergencial atentou os pais para as dificuldades que poderão advir da experiência da educação domiciliar.

Já o caso do home office parece que seguirá por um caminho diferente, tendendo a se ampliar cada vez mais. Inúmeras foram as vantagens apontadas por estudos que entrevistaram profissionais que já vinham praticando esta forma de trabalho. Redução do estresse, maior convivência com a família, diminuição de gastos com transporte e alimentação fora de casa, maior flexibilidade para o cumprimento de tarefas, foram alguns dos pontos levantados como vantajosos na execução do trabalho a partir o domicílio. Também para os governos haveria vantagens, tais como as apontadas na diminuição da poluição, dos acidentes e das consequentes hospitalizações por esse motivo. Não se pode pensar que o home office se tornará o único caminho possível para os profissionais que podem realizá-lo, nem mesmo que esta modalidade de trabalho será capaz de diminuir de maneira intensa todas as questões ambientais que se colocam como urgentes no planeta. Mas deve-se ter em mente que, em um cenário de contingenciamento de gastos, muitas empresas deverão aderir a esse sistema, bem como muitos profissionais também deverão desejar mudar suas rotinas de trabalho a partir de tal experiência. Possivelmente haverá incentivos por parte dos governos para que esta forma de trabalho seja aplicada, uma vez que a regulamentação legal já está pronta, embora ainda precise de melhorias. Nesta nova realidade que está sendo criada pela pandemia, muitas mudanças serão estabelecidas, para uma sociedade que desejará e terá que se transformar.


Foto: imperioame/Pixabay.


PARA SABER MAIS