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Revolução Islâmica no Irã
 
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Na atualidade, o Irã é uma nação conhecida por ser governada por líderes religiosos muçulmanos, os aiatolás, cujo poder se sobrepõe inclusive ao do presidente. Essa situação leva o país a ser denominado por alguns analistas enquanto uma teocracia, demonstrando a profunda ligação existente entre a religião e a política. Uma mostra disso é o fato de que, embora o presidente seja eleito por meio do voto, todas as decisões do Estado devem ser, em última instância, aprovadas pelo Líder Supremo. Outro exemplo dessa ligação é o caso da Sharia, conjunto de princípios legais islâmicos, cuja interpretação embasa o sistema penal iraniano. Com base nestes princípios, os iranianos condenam diversos crimes com a pena de morte, tal como estupro, assassinato, adultério, tráfico de drogas ou mesmo a conduta homossexual, vista de maneira profundamente negativa entre os iranianos. Como consequência, o país é um dos que mais executa prisioneiros no mundo, chegando a mais de mil mortes por ano como desdobramento de condenações.

Entretanto, o Irã tornou-se um país menos tolerante, com uma cultura religiosa tão marcante e tão presente, nas últimas quatro décadas, após a ocorrência da Revolução Islâmica em 1979. Antes disso, o país do Oriente Médio era um dos mais ocidentalizados da região, com fortes ligações com os norte-americanos, de quem hoje são opositores ferrenhos. A morte do general Qassem Soleimani, em janeiro de 2020, em meio a um ataque realizado por um drone norte-americano, reacendeu esta tensão, mostrando o quanto o país se modificou após o movimento liderado pelo aiatolá Khomeini.

Khomeini
Aiatolá Khomeini. Foto: BockoPix on Visual Hunt / CC BY-NC-SA.


DA PÉRSIA AO IRÃ
A nação hoje chamada de Irã tem uma longa história. Ela é descendente direta de um dos grandes impérios da Antiguidade, o Império Persa, surgido em meados do século VI a.C. com a ação de Ciro, o Grande. Na região do chamado planalto iraniano, vários povos estavam instalados há muito tempo, e os medos (ancestrais dos atuais curdos) dominavam a região, até que Ciro incitou um movimento que levou os persas ao controle da área.

Sob seu comando, o Império Persa, também chamado de Império Aquemênida, começou um vigoroso processo de expansão, que os levou a dominar vários outros povos e locais, formando o maior império visto até aquele momento, com mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Dentro deste vasto território, incluía-se toda a Mesopotâmia, a região da Palestina, os territórios do Líbano e da Síria, chegando ao Egito, em sua fronteira ocidental, e à Índia, em sua parte oriental. O reinado de Ciro, o Grande foi sucedido pelo de seu filho Cambises II, que incorporou mais territórios, mas governou de maneira despótica, sendo lembrado por sua violência. Após Cambises II abandonar o trono, quem ascendeu ao poder foi Dario, muito lembrado por ter levado os limites do Império Persa até a Ásia Menor, onde subjugou cidades gregas, provocando as chamadas Guerras Médicas, no princípio do século V a.C.

As Guerras Médicas foram retratadas na mídia principalmente com os quadrinhos 300, de Frank Miller, nos quais aparece a lendária Batalha de Termópilas, com apenas 300 soldados espartanos lutando contra milhares de soldados persas. Esses quadrinhos deram origem a dois filmes, que retratam o conflito de maneira bastante fantasiosa. No conflito real, houve efetivamente uma superioridade numérica de persas contra gregos, mas a estratégia de luta naval empreendida por Atenas foi de fundamental importância para que a vantagem inicial dos persas fosse revertida e os gregos obtivessem a vitória.

A partir da derrota nas Guerras Médicas, começa um longo processo de decadência dos persas, que dura cerca de um século e meio, até que foram conquistados pelos macedônicos. Deste momento em diante, ocorreu uma série de trocas de comando e de formações de impérios, que mantiveram, com mais ou menos alterações, o território dos antigos persas.

Entre as invasões e domínios que se sucederam nesta região, destaca-se a dos árabes islâmicos, ocorrida no século VII, quando o seu califado se expandia, após a morte do profeta Maomé. O domínio muçulmano durou perto de 600 anos, e trouxe para os iranianos a substituição do zoroastrismo pelo islamismo, criando uma identidade religiosa que perdura até a atualidade. Posteriormente, turcos seljúcidas e mongóis dominaram a região, tendo os persas conseguido reviver seu império apenas no início do século XVI, com a ascensão da dinastia Safávida. Esta dinastia adotou uma linha religiosa xiita, predominante até hoje, e fez o império viver um período de florescimento cultural, particularmente no campo das artes. Derrotado em 1736 pelos afegãos, o governo persa viveu a rápida dinastia Zand, de origem curda, até que os Qadjar tomassem o poder, no final do século XVIII. Esta dinastia, de origem turca, foi responsável pela perda de diversos territórios durante sua administração, principalmente para otomanos, britânicos e russos, que estendiam seus domínios durante o século XIX.

O século XIX foi marcado por inúmeras disputas territoriais, que caracterizaram o crescimento econômico da Europa durante o imperialismo. Neste contexto, os iranianos não se tornaram colônia, mas tiveram seu território ambicionado por diversas potências, sendo que russos e ingleses travaram uma disputa pela ampliação de influência sobre esta área. Tamanha pressão externa foi responsável, entre outros elementos, pelo enfraquecimento do poder da dinastia Qadjar, que enfrentou uma revolução em 1905, exigindo a formulação de uma constituição. Esse movimento foi bem sucedido, levando à aprovação do texto constitucional, bem como à formação de um parlamento, chamado Majlis, instalado em 1906.

Apesar disso, a pressão estrangeira não se fez diminuir, com russos e britânicos assinando, em 1907, a Convenção Anglo-Russa, que dividia a Pérsia em duas zonas de influência: uma ao norte, sob controle dos russos, e outra ao sul sob a dominação inglesa. Desta maneira, mesmo não se tornando uma colônia tal como outros territórios, a Pérsia perdia muito da sua capacidade de comando e decisão, tornando-se seu governo uma marionete dos interesses ocidentais. Esta submissão ficou bastante nítida quando, no ano de 1908, foi fundada uma empresa, nomeada de Anglo-Persian Oil Company, para se explorar o petróleo no país, consolidando um projeto de busca por esta matéria-prima que havia se iniciado em 1901. Neste ano, o governo britânico havia estimulado um milionário chamado William Knox D’Arcy a estabelecer um plano de busca por petróleo no Irã, pois havia notícias sobre sua existência desde pelo menos 1892. Para consolidar seu projeto, D’Arcy pagou uma substancial quantia ao governante persa, além de lhe prometer 16% de todo o lucro que fosse obtido. Entretanto, a busca se revelou infrutífera ao longo dos anos seguintes, consumindo uma quantidade gigantesca de recursos até que os campos de exploração de óleo fossem efetivamente encontrados, no ano de 1908. A partir de então, o petróleo iraniano passou a sustentar o desenvolvimento da indústria e do padrão de vida dos britânicos, tornando-se cada vez mais essencial para este país. Isso levou o governo britânico, em 1913, a comprar de D’Arcy sua concessão para a exploração do petróleo, transformando-se desta maneira no principal acionista da empresa, ao deter 51% de seu capital.

Cada vez mais neste processo os ingleses dependiam do óleo proveniente do Irã, até que, em 1914, teve início a Primeira Guerra Mundial, que envolveu britânicos, franceses e russos em um bloco, contra alemães, austro-húngaros e italianos em outro. Esse conflito, entre outras razões, foi uma consequência direta das disputas imperialistas que se desenvolviam no século XIX, e que haviam deixado a Alemanha e seus aliados em uma posição de inferioridade. Os conflitos da Primeira Guerra se desenvolveram principalmente na Europa, mas outros locais também acabaram por se tornar cenários de batalha.

O caso do Irã, ocorreu a chamada Campanha Persa, que opôs as forças anglo-russas e otomanas, em uma disputa pelo controle do Oriente Médio em nível mais amplo. As batalhas neste cenário se desenvolveram entre o mês de Dezembro de 1914 e Outubro de 1918, quando o Armistício de Mudros encerrou as hostilidades naquela região. A partir deste cessar-fogo, os otomanos tiveram de fazer uma série de concessões, diminuído sua influência na região até que seu império fosse finalmente desfeito em 1920.

Para os iranianos, o final da guerra não trouxe nenhuma melhoria imediata. Pelo contrário, a situação tornou-se mais tensa com a presença de tropas inglesas ao norte do país, como forma de garantir que os turcos cumprissem os termos do acordo assinado em 1918. Esta situação, somada aos problemas de perda de território e do aumento da presença ocidental no país, fez com que a dinastia Qadjar perdesse respaldo junto à população, possibilitando que Reza Khan liderasse um golpe que retirou Ahmad Shah do poder, iniciando uma fase transitória que, em 1925, transformaria Khan no líder de uma nova família no poder.


A DINASTIA PAHLAVI
Reza Khan foi empossado como novo xá da Pérsia pelo Parlamento em 1925, embora houvesse uma série de pressões para que não houvesse uma nova família real no poder. Consolidando-se como governante, adotou o nome Pahlavi, o qual se referia ao idioma falado na região durante o Império Sassânida, que governou a Pérsia antes da invasão árabe no século VII. Sua administração foi marcada pelo primeiro grande impulso de modernização da região no século XX, buscando uma maior autonomia para o país ao tentar libertá-lo das influências estrangeiras.

Entre suas obras, destacaram-se a realização de obras públicas como escolas, hospitais e rodovias. Foi em seu governo que se construiu a ferrovia Trans-Iraniana, que ligava o norte do país, do Mar Cáspio, até sua capital Teerã, e dali até a região sul, no Golfo Pérsico. Além disso, seu governo também foi responsável pela implantação da Universidade de Teerã, a primeira a ser construída no país, e que ainda hoje é a maior do Irã, com cerca de 32 mil estudantes. Foi em sua administração que se transmutou o nome da Pérsia para Irã (“a terra dos arianos”), termo pelo qual os próprios iranianos se chamavam, embora fossem denominados de persas pelos estrangeiros. Também Reza Pahlavi conseguiu suplantar o poder das tribos do interior de sua nação, que durante longo tempo opuseram sua resistência ao governo central, além de avançar em medidas que impactavam a vida cotidiana das pessoas, como a proibição do uso do xador, o tradicional traje feminino que se associa ao islamismo, em favor do uso de vestes ocidentais.

Estas medidas, associadas a uma falta de democracia na escolha do Parlamento, fizeram com que a oposição interna a Reza Pahlavi começasse a crescer, ao mesmo tempo que sua política externa começou a atrair desconfianças dos antigos parceiros. Neste campo, Reza Pahlavi buscou renegociar os termos da exploração de petróleo por parte da Grã-Bretanha, tentou acirrar as rivalidades entre esse país e os soviéticos, ao mesmo tempo que se aproximou comercialmente dos alemães, cujo governo nazista já começava suas mobilizações e anexações que em 1939 fariam estourar a Segunda Guerra Mundial.

Neste contexto, as relações comerciais entre Irã e Alemanha já eram bastante grandes, embora o governo iraniano não apoiasse a política antissemita levada adiante por Hitler. Ao começar a guerra, o governo do xá declarou neutralidade, optando por não se posicionar em nenhum lado do conflito. Mesmo assim, o governo britânico, com medo de que seus investimentos no petróleo iraniano caíssem nas mãos dos alemães, passou a acusar o xá de colaborar com os nazistas e, em 1941, após a entrada da União Soviética na guerra, uma coalização anglo-soviética invadiu o Irã. Por não aceitar as exigências feitas pelas forças de invasão, Reza Pahlavi foi forçado a abdicar, passando o trono a seu filho, Mohammad Reza Pahlavi.

O novo xá do Irã iniciou seu governo com medidas que muito agradaram o povo, como a retirada da proibição do uso da vestimenta tradicional muçulmana pelas mulheres, bem como concedendo perdão a todos os presos políticos que haviam sido encarcerados por seu pai. Com tais decisões, e com o apoio de seu primeiro-ministro Mohammad Ali Foroughi, o novo governante iraniano conseguiu manter uma certa estabilidade no país até o final da Segunda Guerra, servindo inclusive de sede para a primeira das conferências que definiriam os rumos do mundo no pós-guerra, a Conferência de Teerã, em 1943.

Após o encerramento do conflito, as forças aliadas se retiraram do Irã, e então o xá pode lidar com um grave problema que o incomodava: o apoio soviético à independência do Azerbaijão iraniano. Com a saída das tropas de Stálin, mais preocupado em dar apoio aos comunistas chineses, Mohammad Reza pode enviar seus soldados e encerrar este desejo separatista. Resolvida a questão externa, o xá ainda precisaria lidar com outras sérias oposições internas. Uma delas era o Partido Tudeh, de orientação comunista, surgido ainda em 1941, fortemente contrário ao governo imperial. Uma das ações mais radicais atribuídas a esse partido foi a tentativa de assassinato de Mohammad Reza em 1949, quando um suposto membro deste partido disparou cinco tiros contra o xá, acertando apenas um de raspão. Imediatamente abatido após os disparos, o agressor teve sua vida investigada, o que demonstrou que o mesmo não era ligado ao Tudeh, mas participante de um grupo extremista religioso chamado Fada’iyan-e Islam. Este grupo, organizado em 1946, possuía uma perspectiva de purificar o islamismo no Irã, através da eliminação de figuras importantes do meio político e intelectual. Suas lideranças foram perseguidas e mortas em meados dos anos 1950, embora o grupo tenha conseguido sobreviver.

Em meio a essa tensão, o Irã vivenciou eleições em 1951, que levaram o oposicionista Mohammad Mossadegh ao cargo de primeiro-ministro. Conhecido por seu posicionamento nacionalista, e com forte apoio do Parlamento, Mossadegh imediatamente chamou a atenção dos britânicos, que temiam pelas medidas que o primeiro-ministro poderia tomar. Rapidamente, o medo se tornou realidade: com o apoio do Majlis, e se baseando na insatisfação dos iranianos com a Anglo-Iranian Oil Company (nome que a companhia adotou depois de 1935), vista como uma permanência da influência britânica, o primeiro-ministro colocou em funcionamento um decreto que nacionalizava toda a exploração do petróleo. Instalada a tensão, os britânicos impuseram um boicote ao petróleo iraniano, no que não foram seguidos pelos Estados Unidos, naquele momento sob a administração de Harry Truman.

No ano seguinte, recebendo apoio de diversos grupos, Mossadegh seguiu em sua trajetória de transformações, iniciando uma reforma agrária, cortando recursos da monarquia e mesmo impedindo o xá de negociar com estrangeiros. Neste contexto, ocorreram eleições presidenciais nos Estados Unidos, e a chegada de Eisenhower ao governo norte-americano iniciou uma virada neste processo. Temeroso de que, em plena Guerra Fria, a postura iraniana pudesse aproximá-los da União Soviética, o presidente dos Estados Unidos uniu forças aos britânicos e deram suporte à ordem do xá de demitir Mossadegh. Entretanto, o apoio ao primeiro-ministro era enorme, e essa decisão fez com que Mohammad Reza enfrentasse forte oposição popular, tendo que sair do país.

Alguns dias depois, agentes da CIA insuflaram o Exército do Irã a promover uma greve, o que forçou a renúncia de Mossadegh e o retorno de Mohammad Reza a seu país. Nesta situação, os poderes do xá tornaram-se muito mais amplos, encerrando um período de pouco mais de quatro décadas de democracia no país. Essa ditadura que se impunha contou com o suporte próximo dos norte-americanos, o que deu início a um sentimento contrário a esta nação que se perpetua até hoje. Além do apoio norte-americano, também foi de fundamental importância a atuação da princesa Asharf Pahlavi, irmã do xá e uma das mentoras do golpe de 1953.

A partir deste momento, a postura de Mohammad Reza Pahlavi tornou-se cada vez mais incisiva, iniciando um período ditatorial que possuía forte apoio dos norte-americanos. Partidos foram banidos, opositores foram perseguidos e presos, e uma forte censura vigorava sobre os meios de comunicação. Todo esse aparato repressivo fora possível com a atuação da Savak, a brutal polícia secreta do governo, cuja estrutura e funcionamento haviam sido elaborados por agentes da CIA e do Mossad, o serviço secreto de Israel. Tais medidas consolidaram o poder de Mohammad Reza, que na década de 1960 buscou um caminho de modernização por meio da Revolução Branca.


REVOLUÇÃO BRANCA
A chamada Revolução Branca, iniciada em 1963, recebeu esta denominação pois foi um conjunto de mudanças apresentadas pelo xá sem que houvesse um movimento violento para tanto. Ao pretender tais reformas, o xá buscava construir a imagem de um líder progressista e modernizador, que tiraria o Irã de sua situação de dependência externa, e traria uma considerável melhora nas condições de vida do povo. Para tanto, vários projetos foram levados ao Parlamento, discutindo sobre reforma agrária, privatizações, redistribuição de parte dos lucros de fábricas entre os trabalhadores, voto universal, direitos das mulheres, entre outros assuntos. Até mesmo uma seleção nacional de futebol foi organizada a partir de 1963, que participaria de uma Copa do Mundo pela primeira vez em 1978.

No entanto, por mais que o discurso de Mohammad Reza se voltasse ao povo, suas pretensões começaram a despertar a oposição principalmente dos clérigos, pois estes eram grandes proprietários de terras no país. Também desagradava a estes líderes religiosos a aproximação cada vez mais intensa com o Ocidente, que estaria corrompendo a identidade e os valores do povo iraniano. Para denominar esta insatisfação, tornou-se bastante popular o termo “gharbzadegi”, que em tradução livre pode ser entendido como “infestação do Ocidente”.

Neste cenário, ganhou destaque a figura de Ruhollah Khomeini, líder religioso da cidade de Qom que, após um discurso atacando duramente o xá, acabou por ser preso. Após alguns meses de prisão domiciliar, Khomeini foi libertado e voltou a criticar o governo, sendo novamente preso e então exilado. Tal medida apenas serviu para acirrar os ânimos dentro da nação iraniana, pois, embora os índices econômicos do país começassem a melhorar, as ideias modernizadoras de Mohammad Reza Pahlavi não encontravam a mesma ressonância entre o povo do que os inflamados discursos dos líderes religiosos, que cada vez mais se colocavam contra o governo e, por isso, eram reprimidos. A prisão e o exílio de Khomeini, que passou pela Turquia e Iraque até chegar na França, geraram inúmeros protestos, semeando uma insatisfação que só cresceria ao longo dos anos seguintes.


A REVOLUÇÃO ISLÂMICA DE 1979
A partir do momento em que apresentou suas reformas e mais intensamente perseguiu seus inimigos, o xá passou a deixar claro que seu governo seguiria os rumos que ele desejava, independentemente de oposição. Fica bastante evidente a megalomania que começou a se apoderar do governante do Irã quando se analisa alguns acontecimentos do período. Em 1967, já casado pela terceira vez, Mohammad Reza Pahlavi coroou a si próprio e à sua esposa, em uma cerimônia que rememorava o que Napoleão havia realizado em 1806, na França. Pouco tempo depois, em Persépolis, em uma grande cerimônia, comemorou os 2500 anos da monarquia persa, criando um culto em torno da figura de Ciro, o Grande. Em seu foro íntimo, o xá pretendia reconstruir em seu governo a mesma grandeza que a Pérsia teria vivenciado durante a Dinastia Aquemênida.

Também passou cada vez mais a ostentar a riqueza de sua corte, construindo junto à esposa Farah Diba uma enorme coleção de arte ocidental, com obras de Picasso, Rothko, Magritte, Renoir, Andy Warhol, entre outros, avaliada em mais de três bilhões de dólares. Essa aquisição de obras de arte foi financiada pela empresa estatal de petróleo do Irã, que era o segundo maior exportador do mundo à época e que havia renegociado os termos de sua produção após o golpe de 1953. A opulência do regime também era sustentada pelo crescimento da indústria e pelo surgimento de uma nova classe média, profundamente ocidentalizada, que junto ao enorme funcionalismo público, davam suporte ao xá.

Enquanto tais acontecimentos se desenvolviam, Khomeini, a partir de gravações feitas em fitas de rádio, conclamava seus seguidores a se opor e resistir ao governo do xá, caracterizado como decadente e perdulário. Suas críticas ganharam maior força quando, em 1975, um período de alta inflação se iniciou, e o líder do Irã culpou os líderes religiosos do país pela piora na situação. Em 1976, a substituição do calendário islâmico pelo calendário persa provocou uma série de protestos de trabalhadores e estudantes, insatisfeitos com a pobreza que ainda grassava pela nação, pela presença cada vez mais intensa da cultura ocidental, junto a uma incômoda atuação norte-americana por detrás do governo iraniano. Da mesma maneira que vinha agindo nas últimas duas décadas, o governo reprimiu severamente os protestos, aguçando ainda mais a tensão, realimentada pelos discursos do aiatolá Khomeini.

A proximidade entre Irã e Estados Unidos era tamanha que, na virada de 1977 para 1978, o presidente norte-americano Jimmy Carter, que havia tomado posse em Janeiro daquele ano, comemorou o réveillon em uma visita oficial ao Irã. Ficou célebre deste encontro também uma frase proferida por Carter, ao afirmar que o Irã era “uma ilha de estabilidade em uma das áreas mais conturbadas do planeta”, no discurso que pronunciou na ocasião. Também afirmou que isso ocorria pelo fato do xá ser um monarca bastante popular, o que deu força para que Pahlavi continuasse com o endurecimento de seu regime, perseguindo e prendendo opositores. Analistas discordam sobre o conteúdo deste discurso: para alguns, as falas de Carter teriam como objetivo demonstrar o apoio dos Estados Unidos ao regime do xá, tentando abafar as manifestações que já ocorriam; para outros, o discurso mostra a incapacidade dos norte-americanos de perceber o volume da tensão que se acumulava no país.

A estabilidade propalada por Carter estava perto do fim. Em sua oposição, liderada do exterior, Khomeini continuava a gerar instabilidade e incomodar o governo. Por isso, o ano de 1978 foi marcado por uma série de ofensas e ataques publicados na imprensa oficial contra a figura do líder religioso. Protestos se intensificaram em virtude desta postura do governo, que decretou lei marcial para tentar conter as manifestações, que não cessaram. No dia 8 de Setembro de 1978, milhares de manifestantes se reuniram na Praça Jaleh, em um ato pacífico de oposição ao governo e de apoio ao aiatolá Khomeini. Como as ordens para a multidão se dispersar não foram seguidas, os militares ali reunidos dispararam contra os manifestantes, matando diversas pessoas no episódio conhecido como “Sexta-Feira Negra”. O número de mortos varia muito de fonte a fonte, indo de 90 pessoas até 4 mil indivíduos assassinados pela ação do governo, sendo a quantia de uma centena de mortos o que existe de mais próximo de um consenso.

A partir de então, quase diariamente, protestos e greves ocorriam pelo país. Vários setores da economia iraniana começaram a ficar paralisados, até que no mês seguinte a produção de petróleo praticamente ficou imobilizada. O xá tentava por meio do uso das forças armadas retomar o controle da situação, mas também os militares aos poucos se recusavam a atirar nos manifestantes ou mesmo desertavam, deixando o governo em situação vulnerável. Em 2 de dezembro de 1978, um protesto de dimensões colossais, com mais de dois milhões de participantes, ocorreu em Teerã, sem que houvesse uma maneira de conter. Neste momento, Mohammad Reza Pahlavi tentou uma última estratégia, ao buscar reformar a constituição, mas já não possuía nenhum apoio restante. Mesmo os líderes da ala liberal do governo já haviam iniciado negociações com o aiatolá Khomeini para planejar um governo para depois da queda da monarquia. Percebendo seu isolamento, sem um apoio decisivo dos Estados Unidos para se manter em seu cargo, Mohammad Reza ainda resistiu mais um mês no poder, percebendo que apenas quando deixasse o cargo a situação se normalizaria. Foi o que fez em 16 de Janeiro de 1979, quando partiu para o exílio. O anúncio do fim da monarquia foi intensamente comemorado nas ruas, e cerca de duas semanas depois, no dia 1 de Fevereiro, o aiatolá Khomeini voltava da França para sua terra natal, onde, mesmo distante, havia conseguido liderar uma revolução e vencer.


O GOVERNO DE KHOMEINI
O aiatolá Khomeini tornou-se o Líder Supremo do Irã após um período transitório que seguiu à queda de Pahlavi. Seu governo, que durou até sua morte em 1989, traçou as linhas básicas que o Irã segue até a atualidade. A primeira grande mudança foi a transformação do Irã em uma República, que oficialmente segue a religião islâmica, por meio de um plebiscito que contou com 98% de aprovação popular. Com o amparo do povo para estabelecer tal regime, Khomeini conseguiu afastar setores mais moderados que, ao seu lado, haviam também se oposto ao antigo monarca.

Também se impôs uma nova constituição, que previa a existência de um Parlamento, cujas decisões deveriam ser ratificadas pelo Líder Supremo. Instaurou o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica, que se conhece enquanto Guarda Revolucionária, além de criar tribunais revolucionários para impor os princípios da Revolução Islâmica. Criou também um Conselho de Guardiães cuja função seria a de verificar se as novas leis, aprovadas pelo Parlamento, estariam de acordo com a Sharia (a lei islâmica), além de verificar e validar a lista de candidatos que poderiam concorrer nas eleições.

Para além do fechamento político, o governo de Khomeini buscou afastar as influências ocidentais, vistas como corruptas, e passou a determinar medidas mais coerentes com a leitura xiita do islamismo, o que afetou principalmente a situação das mulheres. Muito dos direitos e práticas que vinham sendo adotadas anteriormente caíram em desuso, havendo regulação sobre a exposição dos cabelos, sobre o uso de vestimentas, sobre as regras e locais onde homens e mulheres poderiam conviver, entre outras limitações. Também o ensino foi completamente islamizado, e a liberdade religiosa foi profundamente tolhida.

Estas posturas de afastamento do Ocidente incomodaram profundamente os norte-americanos, com os quais os iranianos passaram a ter uma relação de desconfiança e hostilidade, embora o rompimento definitivo das relações diplomáticas tenha ocorrido após a invasão da embaixada americana em Teerã. Neste episódio, estudantes e militares fiéis ao regime do aiatolá invadiram a representação diplomática dos Estados Unidos, fazendo 52 reféns, que foram mantidos em cativeiro durante 444 dias. Apenas em Janeiro de 1981 a situação foi resolvida, com a assinatura de um acordo. Segundo o que foi resolvido, os norte-americanos, em troca da libertação dos reféns, se comprometiam a, entre outras decisões, não mais interferir nos assuntos internos do Irã. Este foi o ponto culminante para o rompimento das relações, que até hoje não foram retomadas. Embora os Estados Unidos tenham, no conflito entre Irã e Iraque que se desenvolveu entre 1980 e 1988, apoiado Saddam Hussein na tentativa de derrubar o governo xiita, o aiatolá Khomeini seguiu firme em sua posição, só deixando o cargo quando de sua morte, mas perpetuando no país o regime que havia criado.


NA ATUALIDADE
Em 4 de janeiro de 2020, um ataque de um drone norte-americano matou Qassem Soleimani, um importante líder militar iraniano, que gozava de um status muito elevado entre a população do país, sendo figura importante no Irã desde a guerra contra o Iraque. Tal atitude acirrou os ânimos entre os dois países, e surgiram especulações, naquele momento, de que inclusive uma Terceira Guerra Mundial poderia se desenvolver. De maneira muito rápida, porém, as tensões se acalmaram e um novo conflito não se iniciou. Entretanto, o que de mais notável se percebeu foi que a hostilidade entre essas nações ainda permanece bastante ativa, não dando mostras de que irá se encerrar tão cedo.

Internamente, o Irã vive hoje uma situação bastante peculiar: se por um lado existe um radicalismo islâmico, defendido por parcelas do governo e da população, por outro lado existem grupos que veem a herança persa como mais significativa, e se opõem ao regime dos aiatolás. Exemplo destes choques sobre qual identidade o Irã deve assumir foram vistos no final de 2018, quando em meio a uma crise econômica, populares se sublevaram contra o governo e demonstraram sua insatisfação com a República islâmica.

Mais recentemente, entre novembro de 2019 e janeiro de 2020, outra onda de protestos tomou conta do país, quando o governo anunciou um aumento no preço dos combustíveis, o que levou milhares de pessoas às ruas e trouxe para as manifestações ainda outras bandeiras, como a insatisfação com a corrupção e com o radicalismo religioso. Ao mesmo tempo, a queda de um avião de uma companhia ucraniana fez com que os protestos se tornassem ainda mais intensos, pois durante três dias o governo de Teerã negou sua responsabilidade sobre o fato, até admitir que o havia abatido por engano, em meio à crise que se desenvolvia com os norte-americanos.

Apesar disso, os protestos foram reprimidos, em alguns momentos até de maneira violenta, com diversas pessoas mortas e mais de 8 mil presos. Os números de mortos ainda não foram apurados, mas o governo iraniano anunciou que estava trabalhando para fazer esta verificação e tomar as medidas que fossem necessárias. Enquanto isso, o regime dos aiatolás, hoje liderado por Ali Khamenei, prossegue no poder, embora criticado interna e externamente, mantendo as linhas básicas de atuação construídas na Revolução de 1979.


PARA SABER MAIS