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A volta de Cristina Kirchner ao poder na Argentina
 
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Ao final de 2019, as eleições presidenciais na Argentina levaram o então governante Maurício Macri a uma derrota em sua tentativa de reeleição, fazendo com que o candidato oposicionista Alberto Fernández subisse ao poder. Mais do que um novo governo, a eleição de Fernández trouxe de volta ao poder o Partido Justicialista e, além disso, colocou novamente na Casa Rosada, sede do governo argentino, a ex-presidente Cristina Kirchner, agora na posição de vice-presidente. Cristina, além de já ter governado o país, é viúva do ex-presidente Néstor Kirchner, que administrou o país entre 2003 e 2007 e que acabou, por seus posicionamentos, gerando uma divisão no interior do Partido Justicialista.


Alberto Fernández, presidente da Argentina eleito em 2019 e Cristina Fernández de Kirchner, vice presidente, durante o evento de tomada de posse. Foto: RALF HIRSCHBERGER / dpa-Zentralbild / dpa Picture-Alliance / AFP.


Este partido, criado em 1947 por Juan Domingo Perón, tem como grande característica ser um dos mais fiéis herdeiros do populismo que se desenvolveu na América Latina, a partir da década de 1930. Criado em um contexto latino-americano bastante específico, o populismo argentino foi batizado por seu criador enquanto Justicialismo, e tem tido grande influência naquele país ao longo das últimas sete décadas. O retorno de Cristina Kirchner ao poder na Argentina, em meio a uma grave crise que assola o país, demonstra o quanto os argentinos têm se identificado com esta prática política.


A ARGENTINA E SUA HISTÓRIA
O território que hoje constitui a Argentina tornou-se mais povoado a partir do momento em que os europeus começaram a chegar na região, no início do século XVI, no contexto das Grandes Navegações. Antes disso, havia a presença de grupos indígenas na região, mas esses estavam bastante dispersos em meio a tão vasto território.

Os europeus chegaram à atual Argentina pela primeira vez em 1502, na expedição comandada por Américo Vespúcio. Anos depois, alguns exploradores incursionaram pela região, chegando a fundar um primeiro povoado em 1536, quel foi abandonado depois de cinco anos. Na década de 1550, começaram a surgir núcleos de ocupação, que fizeram o governo espanhol, posteriormente, incluir essa área na subdivisão chamada de Vice-Reino do Peru uma divisão administrativa cuja sede se localizava em Lima, e que servia para organizar a exploração da região.

Durante o tempo que esteve submetido ao Vice-Reino do Peru, o território argentino serviu principalmente como base de produção de bens para alimentar as regiões de exploração de prata. Destacou-se nesse período a criação de gado, que deu origem às estâncias que caracterizariam a região, bem como a empreendimentos para o processamento dos produtos feitos a partir do gado. Também Buenos Aires serviu como grande entreposto pelo qual muitos produtos eram contrabandeados para o interior do continente, além da região comercializar muitos produtos oriundos das missões jesuíticas instaladas no seu interior.

No final do século XVIII, em virtude dos conflitos de limites com o Brasil, o governo da Espanha decidiu pela criação do Vice-Reino do Prata, cuja sede foi instalada em Buenos Aires. Este fato fez com que a cidade tivesse um crescimento vertiginoso, mesmo depois que as disputas fronteiriças estivessem encerradas. Não só sua população cresceu, mas também a cidade teve sua economia fortalecida e diversificada, ganhou maior estrutura urbanística e tornou-se importante centro político.

Neste ínterim, desenvolvia-se na Europa a Revolução Francesa, a partir de 1789, movendo os cidadãos daquele país uma intensa luta contra o absolutismo encarnado pelo rei Luís XVI e por sua esposa, a austríaca Maria Antonieta. Com a radicalização do movimento, o rei e a rainha foram presos, proclamou-se a República e tempos depois ambos foram guilhotinados, fazendo com que as intenções originais da Revolução se aprofundassem. Ao final de dez anos de conflitos, a França passava por uma intensa crise interna, o que levou o governo do Diretório, dominado pela ala girondina, a colocar Napoleão Bonaparte no poder, pelo Golpe do 18 Brumário.

A França napoleônica rapidamente passou a assumir uma postura expansionista, no contexto do que se conhece como Guerras Napoleônicas, e isso acabou por repercutir no próprio Vice-Reino do Prata. Em primeiro lugar, isso ocorreu já que a Espanha, logo no princípio, aliou-se à França no desenrolar das guerras, e o território argentino tornou-se alvo das ambições inglesas, que por duas vezes invadiram Buenos Aires, em 1806 e 1807. Em ambas as ocasiões as tropas invasoras foram expulsas, mas isto serviu como base para a organização de forças de defesa autônomas. Posteriormente, com a tomada de posição contrária à França por parte da Espanha, o rei Fernando VII foi retirado do poder, com a ascensão ao governo espanhol de José Bonaparte, irmão do imperador francês.

A tomada de poder por um francês na Espanha gerou uma intensa crise de legitimidade no governo, uma vez que os próprios espanhóis se recusavam a obedecer a um governante estrangeiro. Esta situação deu origem a uma série de combates organizados pela própria população, em seu movimento de resistência, originando o termo guerrilha. Ao mesmo tempo, a reação se fez sentir também na América, pois as áreas coloniais também não legitimaram tal governo. Isso se somou a uma situação de insatisfação interna, principalmente da elite econômica local (os criollos), desejosa de alcançar poder político, e também dos trabalhadores em geral, que visualizavam na independência a possibilidade de obter uma melhor condição de vida. Aliou-se também toda uma outra série de fatores, como a presença das ideias iluministas e o exemplo vindo dos Estados Unidos, onde colonos rebeldes haviam conseguido alcançar sua emancipação.

Essa soma de elementos fez com que os argentinos, em 25 de Maio de 1810, iniciassem um processo de lutas que apenas em 9 de Julho de 1816 levaria à declaração de independência. Após essa declaração, a guerra de libertação ainda perdurou até o ano e 1825, quando os argentinos, ainda com o nome de Províncias Unidas do Rio de Prata, adotado a partir de 1816, conseguem a sua liberdade, modificando a denominação da área para Argentina no ano seguinte, quando sua primeira Constituição foi colocada em funcionamento.

De 1826 a 1861, a Argentina passou por um processo de consolidação territorial, uma vez que suas diversas províncias contavam com governadores que, em maior ou menor medida, se submetiam ao controle de Buenos Aires. Este período, conhecido como a era do caudilhismo, marcou a ascensão ao poder de chefes locais, normalmente grandes proprietários rurais que haviam atuado como líderes militares no processo de independência. Essas lideranças, caracterizadas também por serem bastante carismáticas, exerciam o controle político e econômico sobre uma determinada região, o que levou alguns historiadores a estabelecer um paralelo entre este fenômeno e o coronelismo que se desenvolveria no Brasil posteriormente. Entre os caudilhos mais conhecidos da história da Argentina estiveram Juan Facundo Quiroga, da região de La Rioja, e Juan Manuel de Rosas, caudilho da província de Buenos Aires.

A partir de 1861, conflitos levaram ao final do governo de Justo José de Urquiza e tornaram Bartolomé Mitre o primeiro presidente da República Argentina tal como se conhece hoje. Seu governo marcou o início de um período de sete décadas de relativa estabilidade no governo argentino, que a partir da década de 1930 passou a conviver com golpes de Estado e instalação de ditaduras. A primeira destas ditaduras se iniciou com o golpe de Estado de 1930, levado adiante por José Felix Uriburu, que instalou uma ditadura com feições fascistas, em meio a uma crise econômica originada pelos efeitos da Grande Crise de 1929, iniciada nos Estados Unidos. Esta ditadura civil-militar, marcada pela corrupção sistemática, ficou conhecida como a Década Infame e prosseguiu até 1943, quando um golpe militar retirou o presidente Ramón Castillo do poder, iniciando um novo período ditatorial. A Revolução de 43, tal como o movimento ficou conhecido, fez com que três presidentes, todos militares, se sucedessem no poder, em meio aos problemas decorrentes da Segunda Guerra Mundial.

Mais notável deste período foi o surgimento da figura do coronel Juan Domingo Perón enquanto membro do governo, iniciando sua carreira política como Secretário de Trabalho e Segurança Social, posto que ocupou por pouco mais de um ano. Em sua atuação neste cargo, foi responsável pelo avanço de medidas que garantiam proteções e direitos aos trabalhadores, como o direito à aposentadoria, a criação de escolas técnicas, a construção de hospitais públicos, entre outros. Tornou-se vice-presidente no ano seguinte, mas essa atuação social, estabelecida junto a sua esposa Eva Duarte, fizeram com que uma grande oposição se erguesse contra ele no interior das Forças Armadas, levando à sua destituição e prisão no final de 1945. Com um grande movimento popular em torno da sua liberdade, liderado por Evita, em pouco mais de uma semana Perón foi libertado, e fez um grande discurso no qual prometia a realização de eleições. Efetivado este processo, Perón tornou-se presidente da Argentina, eleito pelo Partido Laborista, e iniciou naquele país um estilo de governo denominado enquanto populismo.


O QUE É O POPULISMO?
A historiadora Ângela de Castro Gomes, professora titular de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense, é uma das grandes estudiosas do trabalho e da legislação trabalhista no país, e em suas obras deixa claro que tratar do tema do populismo é uma tarefa árdua, pois para além da discussão histórica e/ou sociológica, este conceito deslizou para a cultura popular, sendo reproduzido de inúmeras formas no imaginário brasileiro.

Para além de outras experiências que poderiam ser consideradas, tais como a que se desenvolveu na Rússia ou aquela ocorrida os Estados Unidos, busca-se compreender como esse fenômeno se desenvolveu na América Latina no princípio do século XX. Chama-se de populismo uma determinada forma de se exercer o poder político, podendo assim ser mais caraterizado como um método de governo do que necessariamente como um conteúdo político. Ele se estruturou na América Latina a partir da década de 1930, quando a região passava por substanciais mudanças econômicas. Era o período da industrialização dos países latino-americanos, que fazia com que suas cidades recebessem um maior contingente populacional. Neste cenário de industrialização tardia, as formas tradicionais de se estabelecer os vínculos políticos, baseados em uma relação de clientelismo, não mais funcionavam, e os políticos daquele momento modificaram sua estratégia de atuação.

O populismo se marca, em primeiro lugar, pela presença de um líder carismático. O sociólogo alemão Max Weber definiu em sua palestra “A Política como Vocação”, proferida em 1919, que carisma é a devoção ou confiança que se deposita em um líder em virtude de suas características prodigiosas, excepcionais. Este líder busca se destacar como aquele que carrega determinados dons heroicos e qualidades singulares que o colocam a frente de seu povo. Na prática populista, o líder carismático, ao mesmo tempo que busca conquistar a simpatia dos liderados, estando junto a eles, também pretende se mostrar como o grande guia desta população. Isso se traduziu em atos ou falas dos líderes populistas, tal como Perón, ao sempre se referir aos argentinos como “meu povo”, ou mesmo Getúlio Vargas, que em sua carta-testamento diz que, quando o povo estivesse sendo humilhado, deveria sentir a seu lado a alma do presidente, sofrendo junto a este povo ao qual ele dedicara sua vida.

Outro elemento bastante marcante do populismo é a noção de trabalhismo, ou seja, todo um conjunto de ideias e medidas que buscam favorecer a condição dos trabalhadores, sem que haja, entretanto, uma ascensão dos mesmos ao poder político ou que haja a redistribuição de riquezas e propriedades entre eles, tal como pregava o socialismo. A doutrina trabalhista nasceu em meio ao próprio movimento operário, e foi apropriada por alguns grupos políticos, sejam de espectro político da direita ou da esquerda. Nos governos populistas, o trabalhismo se caracterizou pela adoção principalmente de legislações trabalhistas, agindo o governo como um mediador nas relações entre empregadores e empregados.

Em terceiro lugar, o populismo é sempre visto como uma política de massas, ou seja, voltada aos trabalhadores que, apesar de sua condição de proletários, não teriam desenvolvido uma consciência de classe, não compreendendo efetivamente o como se realiza a sua exploração. Desta maneira, estariam as massas sujeitas a manipulações feitas por líderes populistas que, ao garantirem determinados direitos, poderiam mostrar tais ganhos como concessões feitas pelo governante, e não como resultado de uma luta estabelecida por esses trabalhadores.

Também se pode afirmar que, em certa medida, os governos populistas são regimes nacionalistas. Esse viés seguiria particularmente no campo econômico, podendo também se materializar em manifestações culturais. No caso brasileiro, as medidas econômicas tomadas por Vargas durante o período do Estado Novo (1937-1945), ao criar empresas estatais para estimular a industrialização brasileira, configuram um sólido exemplo desta postura. Assim, na primeira metade do século XX, esse aspecto do populismo foi mais evidenciado, mas os regimes da década de 1990 não primaram necessariamente por essa postura, buscando adequar esse estilo de governo a práticas oriundas do neoliberalismo, na esteira do que havia sido acordado pelo Consenso de Washington. Essa reunião, acontecida em 1989 na capital dos Estados Unidos, se inseriu no panorama do final da Guerra Fria, e buscava apresentar à América Latina uma série de fórmulas sobre como organizar a economia a partir daquele momento, sendo amplamente aceita pelos líderes latino-americanos.

Para além dessas características, pode-se apontar uma certa tendência autoritária dentro dos governos populistas, que se intitulam enquanto porta-vozes do povo e tomam as críticas a suas medidas como um ataque não a seu partido, mas à massa trabalhadora como um todo. Desta forma, procurava se blindar da oposição, desqualificando seu discurso, em uma atitude pouco democrática. Porém, esse é um elemento mais marcante da experiência brasileira do que em outros países. Da mesma forma, a construção de um “Estado de Compromisso”, expressão utilizada por Boris Fausto e outros historiadores, também se insere na realidade brasileira. Entende-se por “Estado de Compromisso” a articulação política que Vargas estabeleceu ao privilegiar diversos grupos e segmentos sociais, não priorizando o atendimento de um interesse ou de uma classe especificamente. Desta maneira, Vargas trabalhou no sentido de esvaziar seu governo de apoios muito específicos, e concentrou a atenção e o apoio em torno da sua figura.

No caso argentino, a prática populista iniciada na década de 1940 por Juan Domingo Perón adquiriu características bastante peculiares, que acabaram por denominar este estilo de governo enquanto peronismo. Desde então, o partido por ele criado e as práticas herdadas tornaram-se muito presentes na política argentina.


O PERONISMO E SEUS AVANÇOS
Juan Domingo Perón subiu ao poder na Argentina enquanto presidente eleito no ano de 1946. Contando com amplo apoio popular, o presidente marcou seu mandato, desde o início, com uma forte política intervencionista, que buscava favorecer a expansão da indústria. O país passava por uma situação econômica favorável, pois o período de guerra havia feito com que as exportações crescessem, além de favorecer a cobrança de um preço mais alto por esses produtos. Essa industrialização tinha como alvo preferencialmente o mercado interno, como forma de romper a dependência que historicamente a Argentina possuía de importações. Neste sentido, o setor de bens de consumo duráveis foi o mais favorecido naquele momento.

No aspecto social, uma série de benefícios foi criada, como a instituição de um salário mínimo, construção de escolas públicas, expansão dos serviços públicos de saúde e estabelecimento de controles sobre preços e aluguéis, ou seja, um grande quantidade de investimentos sociais foram feitos como continuação da política iniciada enquanto ainda era Secretário de Trabalho. Também se ampliou a sindicalização dos trabalhadores, buscando o presidente colocar estas organizações de trabalhadores sob o controle do governo. Em um primeiro momento, tais medidas foram um sucesso, trazendo melhorias efetivas para a condição de vida do povo argentino, que vivenciou alguns anos de prosperidade.

Através destas medidas, o governo de Perón tentava colocar em prática os dois lemas que norteavam sua plataforma política: a independência econômica e a justiça social. Tamanha era a importância dada a esta noção de corrigir as desigualdades que afligiam os trabalhadores que, em Novembro de 1946, nasceu o Partido Justicialista, pelo qual Perón se tornou mais conhecido e que ao longo dos anos ocupou a presidência da Argentina em nove ocasiões.

Entretanto, ainda havia setores descontentes, mesmo entre os trabalhadores, o que fez com que desde muito cedo no governo de Perón as greves fossem comuns. A princípio, tais manifestações foram tratadas de maneira severa, inclusive com a repressão governamental. A situação se transformou quando, em 1947, Evita Perón tornou-se Secretária de Trabalho, e por meio de sua atuação os conflitos se acalmaram, havendo maior negociação entre os setores insatisfeitos e o governo. Porém, a partir de 1949, uma crise se instalou no governo, que havia gastado demais em sua política de desenvolvimento, gerando dificuldades para o avanço das políticas sociais e uma pequena retração no avanço das melhorias.

Ainda assim, Perón continuou em sua política estatizante e intervencionista, nacionalizando as estradas de ferro do país, que constituíam a maior malha ferroviária de toda a América Latina, e que chegou a possuir mais de 47 mil quilômetros de extensão. Outros setores também passaram por este processo, como telefônicas, companhias de gás, e mesmo o Banco Central argentino, o que deu ao governo maior controle sobre a circulação de dinheiro no país.

Contando com forte apoio popular, Perón se reelegeu em 1952, mesmo ano em que Evita Perón, sua segunda esposa, morreu aos 33 anos de idade, vitimada por um câncer. Idolatrada por grande parte da população argentina, Evita havia se notabilizado pelo seu trabalho social junto aos “descamisados” e sua morte causou enorme comoção nacional.

Em seu segundo governo, o presidente continuou a investir na industrialização do país, buscando reforçar o setor da indústria de base, para a partir disto conseguir ampliar a produção das demais indústrias. Além de mais avanços também no campo da saúde pública, o segundo mandato de Perón ficou marcado pela adoção de uma política chamada de Terceira Via, ao se colocar nem a favor dos Estados Unidos nem da União Soviética no contexto da Guerra Fria. Buscou também neste campo uma maior aproximação com os latino-americanos, tentando construir uma posição de maior autonomia dentro do continente. Entretanto, apesar de sua postura antiamericana muito propagada no princípio do seu primeiro governo, Perón mudou tal estratégia e conseguiu atrair investimentos daquela nação em seu segundo mandato, o que foi benéfico para a recuperação econômica do país após a crise de 1949.

Em 1954, problemas começaram a surgir e se tornar mais sérios, particularmente após a legalização do divórcio e da prostituição. A Igreja Católica, que até aquele momento havia apoiado o governante, passou a lhe opor severa oposição, assim como a imprensa que, mesmo fortemente controlada, passou a divulgar notícias sobre um suposto caso do presidente com uma menor de idade. Em meio a esta crise, em Junho de 1955, Perón convocou uma passeata em seu apoio, durante a qual aviões da Força Aérea Argentina bombardearam a Praça de Maio, matando 364 pessoas. Era a primeira tentativa de se depor o presidente, o que se tornou uma realidade quando em Setembro daquele ano a Revolução Libertadora conseguiu tirar Perón do poder, fazendo com que o ex-líder fosse se exilar no Paraguai e posteriormente na Espanha.

Durante os 18 anos que passou no exílio, Perón não perdeu sua influência política na Argentina, observando neste período uma sucessão de presidentes militares e líderes oriundos da União Cívica Radical (principal opositor do Partido Justicialista) passarem pelo poder. Em meados de 1973, Alejandro Lanusse, comandante das Forças Armadas da Argentina e presidente do país naquele momento, convocou eleições, colocando como condição para sua realização que Perón, que havia voltado do exílio, não participasse.

O presidente eleito foi Héctor Cámpora, que permaneceu apenas dois meses no poder, renunciando para que se abrisse caminho para o retorno de Juan Domingo Perón à presidência. A nova eleição ocorreu em setembro de 1973, com o retorno do líder populista pela terceira vez como presidente. Este seu mandato foi marcado pela Crise do Petróleo e pelos intensos conflitos que se originaram não só dentro do seu partido, mas também com as alas mais radicais tanto da direita quanto da esquerda. Entretanto, o presidente não viu o desenrolar de tais conflitos, pois faleceu, aos 78 anos, no dia 1° de julho de 1974, em decorrência de um ataque cardíaco. Sua terceira esposa, Isabelita Perón, assumiu o cargo, já que havia sido eleita como vice-presidente, mas em 1976 foi deposta por meio de um golpe militar.

Essa transição para um novo governo militar, que duraria pouco, não foi capaz de apagar o peronismo da política argentina. Mesmo com a morte de seu líder, as bandeiras do peronismo que focam na proteção do trabalhador e de seus direitos, bem como na construção de uma justiça social, permanecem vivas no imaginário argentino, pois muitos foram os avanços conseguidos por Perón para esta classe social durante seus três governos. Depois de sua morte, o estilo de governo criado por Perón, mesmo sendo capitaneado pelo Partido Justicialista, se fragmentou em diversas tendências, tendo chegado ao poder nas presidências de Carlos Menem, Adolfo Rodrigues Sáa e Eduardo Duhalde, antes que os Kirchner finalmente figurassem na política argentina.


OS GOVERNOS KIRCHNER E O KIRCHNERISMO
A família Kirchner tem sido uma importante presença na política argentina desde 1991, quando Néstor Kirchner se tornou governador da província de Santa Cruz. Este território foi por ele administrado até o ano de 2003, quando se tornou presidente do país, cargo que ocupou até o ano de 2007. Sua gestão foi marcada por um retorno a antigas práticas peronistas, tornando-se o Estado um grande investidor da economia. Também buscou afastar a influência estrangeira, criando um discurso nacionalista de proteção aos mais pobres, embora o sucesso do crescimento econômico desse período não tenha efetivamente diminuído a pobreza no país. Houve grandes investimentos em serviços públicos, com o oferecimento de subsídios para diversos setores, além da aproximação com países da América Latina, seguindo o receituário criado por Perón.

Entretanto, o estilo criado por Néstor Kirchner, que acabou sendo nomeado como kirchnerismo, marcou por um distanciamento do peronismo clássico ao buscar uma ampla aliança política, como forma de garantir a governabilidade, além de buscar reparações pelo abusos cometidos contra os direitos humanos durante o período da Guerra Suja, nome pelo qual se denominou a ditadura entre 1976 e 1983. Por se colocar como defensor dos direitos humanos e buscar a punição contra os praticantes de terrorismo de Estado, ao mesmo tempo que ignorou a atuação das guerrilhas contra o governo militar argentino, Néstor Kirchner criou uma relação tensa entre seu governo e as Forças Armadas.

Em meio a mudanças e crescimento econômico, o presidente encerrou seu mandato de forma tranquila, não buscando a reeleição e apoiando a candidatura da esposa, Cristina Kirchner, que se tornou governante do país entre 2007 e 2015. Ao tomar posse, Cristina continuou com as diretrizes básicas do antigo governo, priorizando a redistribuição de renda, a instalação de novas empresas, com a consequente criação de novos postos de trabalho, além de ampliar os investimentos do governo na área de educação e da previdência social. Mesmo com a crise econômica mundial de 2008/2009, a Argentina continuou a vivenciar um período de crescimento econômico e melhora social, embora ao final do seu governo a situação já não estivesse tão positiva quanto antes. A inflação voltou a crescer e os cofres públicos já não contassem mais com a mesma abundância de recursos.

Tal como no governo anterior, as pautas voltadas aos direitos humanos ganharam força durante a presidência de Cristina Kirchner, levando a julgamento antigos militares envolvidos na Guerra Suja. Também em seu governo se aprovou a lei que garante o casamento igualitário, além de se colocar abertamente a favor da descriminalização do aborto, ponto que lhe garantiu diversas críticas, embora tenha afirmado que descriminalizar o aborto não significa apoiá-lo.

Em meio a estes avanços e conquistas, Cristina Kirchner terminou seu mandato em 2015 com mais de 50% de aprovação popular, mas a demora em apoiar o candidato a sua sucessão, além das denúncias de corrupção que rondavam a presidente, fez com que o Partido Justicialista perdesse força naquele processo eleitoral e que o candidato oposicionista Mauricio Macri visse sua candidatura avançar, apoiado por uma coligação de partidos de direita.


O GOVERNO DE MAURÍCIO MACRI E O RETORNO DO PARTIDO JUSTICIALISTA
Mauricio Macri foi eleito ao final de 2015 após vencer em segundo turno o candidato Daniel Scioli, que era apoiado pela presidente Cristina Kirchner. Ao subir ao poder, Macri encerrou um ciclo de 12 anos de governos kirchneristas, ao mesmo tempo que encerrava uma linha de continuidade de 14 anos no poder do Partido Justicialista. Bastante vinculado a direita política, Macri iniciou seu governo prometendo reformas no Estado, através uma pauta marcada por princípios neoliberais, que se opunha a um viés mais a esquerda que marcou os governos kirchneristas.

Macri iniciou sua administração dizendo que colocaria as contas do governo em ordem, trabalharia para diminuir a inflação e reduzir os índices de pobreza. Além disso, prometeu recolocar a Argentina em um lugar de destaque no cenário internacional, acabando com as desconfianças que existiam, em nível externo, com o governo de Cristina Kirchner e também trazendo maiores investimentos.

Entretanto, com uma situação econômica internacional desfavorável, as medidas tomadas por Mauricio Macri não produziram os efeitos prometidos e esperados. Sua política de ajuste de contas do governo, que pretendia reduzir o déficit público, foi implementada por meios de um “gradualismo”, para que as populações mais pobres não sentissem de forma brusca os efeitos de uma austeridade fiscal. Maus resultados na produção agrícola fizeram com que a arrecadação de impostos diminuísse, o que prejudicou a tomada de medidas pelo governo.

Para também equilibrar as contas, Macri propôs uma revisão sobre o sistema de aposentadorias do país, diminuindo os reajustes pagos a esses benefícios. Também conseguiu renegociar dívidas antigas com os Estados Unidos, trabalhando para reorganizar as contas do país. Essas movimentações causaram, a princípio, uma boa impressão aos investidores, mas os resultados não vieram como o esperado. Em um contexto de grande protecionismo econômico internacional, “guerras comerciais” e baixo preço dos principais produtos de exportação argentinos, Macri buscou abrir a economia argentina como forma de recuperá-la e não obteve sucesso.

Como resultado, o desemprego no país aumentou, a inflação continuou alta, o PIB (Produto Interno Bruto) teve redução, greves assolaram a Argentina, a moeda nacional se desvalorizou, e todos esses revezes levaram o governante a ter de reconhecer o fracasso de suas políticas econômicas e solicitar ao Fundo Monetário Internacional um empréstimo no valor de 57 bilhões de dólares. Tudo isso colaborou para que a popularidade do presidente se tornasse cada vez mais baixa, mesmo com uma onda de governos de direita assumindo o poder na América Latina.

Esse cenário possibilitou que, em 2019, o Partido Justicialista vislumbrasse a possibilidade de voltar ao poder, lançando como chapa para a disputa presidencial a dupla Alberto Fernández/Cristina Kirchner. Em meio a uma grave crise econômica, e com uma positiva memória a respeito do último governo de Kirchner, a população argentina escolheu o retorno do justicialismo ao poder, trazendo de volta ao governo, agora na condição de vice-presidente, a última mulher que havia governado o país.

Inicialmente, houve uma má reação do mercado à vitória de Fernández e Kirchner, em virtude da plataforma intervencionista que seu partido sempre defendeu e praticou. Ao assumir, o presidente também colocou em funcionamento um plano de emergência econômica, com o objetivo de combater todos os problemas econômico-sociais que tem afligido os argentinos, como o alto desemprego e a inflação, situada na casa dos 55% anuais. Entre essas medidas, figuraram congelamento de preços de serviços públicos, interrupção temporária do reajuste de pensões, reescalonamento de dívidas de pequenas e médias empresas, além do aumento de impostos para a compra de moeda estrangeira.

Tais medidas não foram recebidas com boa vontade no país, em particular pela classe média, mas os investidores estrangeiros têm a confiança de que tal pacote pode ajudar a Argentina a sair da situação de crise em que se encontra. Se isto ocorrer, é de se esperar que mudanças ocorram não só dentro daquele país, mas na América Latina como um todo, já que o retorno de Kirchner ao governo de sua nação marca uma virada na “guinada à direita” que o continente experimentou na última década. O projeto intervencionista e estatizante, com foco nas questões sociais, está de volta à Argentina, e terá grandes desafios à sua frente.


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